terça-feira, 16 de janeiro de 2007

Machado de Assis dos folhetins ao Orkut


Marcelo Spalding

Acertem os ponteiros do relógio, mudem as folhinhas do calendário, prestem atenção na configuração do computador: estamos em 2007. E, para aqueles que por um motivo ou outro adoram Machado de Assis (sim, leitores desavisados, existem pessoas que adoram Machado de Assis, e a prova é que uma das comunidades dele no Orkut tem mais de 60 mil membros!), estamos às vésperas do centenário de morte deste gênio.

E um centenário de nascimento ou morte não é pouca coisa. Até 1939, por exemplo, quando Machado completaria cem anos de nascimento, sua obra não tinha nem metade da importância que tem hoje para as letras brasileiras, tanto que escritores como Mário de Andrade e Monteiro Lobato desdenhavam sua produção, um chamando-o de “colonizado”, o outro de “alguém com as costas voltadas para o Brasil”. Afora esta importância atingida com o passar dos anos, já faz quase setenta anos deste primeiro centenário, o que indica que em 2008, ou até lá, teremos uma profusão de congressos, reportagens e livros sobre Machado de Assis.

Um gênio brasileiro (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2006, 416 págs.), do jornalista Daniel Piza, parece ser um dos primeiros a atentar para a próxima onda do centenário. A biografia foi notícia nos melhores suplementos culturais da mídia, figurou em algumas vitrines de boas livrarias e ficou entre as três melhores biografias do ano no Prêmio Jabuti. Mais do que isso, já em junho de 2006 ganharia uma segunda edição belíssima, ilustrada, colorida e, acima de tudo, corrigida – é que a obra foi duramente criticada por gente como Luís Augusto Fischer, no Zero Hora, e Wilson Martins, primeiro no Jornal do Brasil depois na Veja, ambos apontando alguns erros de informação como a troca do nome de José Dias (o agregado de Capitu) por João Dias (erro, ou engano, já corrigido nesta segunda edição). Críticas que geraram alguma polêmica com as respostas de Piza, que no Jornal do Brasil chama Wilson Martins de “cansado” e no jornal Rascunho vê “pedantismo” nas críticas de Fischer e Martins.

Mas passemos ao largo destas briguinhas de jornal – próprias, aliás, dos tempos folhetinescos do Segundo Reinado – e vamos nos deter na obra que Piza entrega a uma geração de novos leitores de Machado, esses sessenta e tantos mil do Orkut, um público de estudantes de letras e literatura ou de jovens leitores que chegaram a Machado por causa do vestibular. Uma geração já muito distante das primeiras críticas de José Veríssimo ou Sílvio Romero, das interpretações de Helen Caldwell ou John Gledson e da última biografia até então lançada sobre o autor, de Raimundo Magalhães Júnior, cuja última versão é de 1981.

Sim, embora os críticos não pareçam ter levado em conta, parece claro que a obra de Piza não se dedica aos doutos em Machado, àqueles que como Fischer ou Martins leram todos os seus romances e conhecem profundamente tanto a biografia de Magalhães como as abordagens críticas do século XX; a obra se dedica a nós, os iniciantes, tanto que em dado momento o livro acha necessário explicar o que é a Guerra do Paraguai.

Já na apresentação o autor faz uma bela visada geral sobre a importância de Machado, toca nos chavões do estudo machadiano – como a cor mulata, a divisão da obra em fases e a pouca compreensão dos seus contemporâneos, apesar da grande fama e estima – e preocupa-se em pintar o contexto social de então com referências aos jornais que vêm e vão, quedas de gabinetes, revoltas regionais e um desfile delicioso mas quase confuso de nomes de personalidades brasileiras, de José do Patrocínio a Conde d’Eu.

Os capítulos a seguir são cronologicamente divididos e em cada um o panorama nacional é retomado, com dados históricos e reprodução de crônicas da época – muitas do próprio Machado –, assim como todos os seus livros comentados. Biograficamente descobre-se, por exemplo, que Machado não era apenas “mulato”, mas neto de escravo, ainda que escravo forro, e filho de um casal que vivia de agregado numa grande propriedade. E que é a partir da morte da mãe que o adolescente Machado, sem se entender com o pai e a madrasta, vai tentar a sorte no centro da cidade e cai no meio do furacão que era a formação da imprensa carioca. Detalhes que de certo estão em biografias anteriores, e talvez em alguns livros didáticos, mas que na linguagem clara e contemporânea de Piza e postas dentro do contexto criado por Piza ajudam a pensar na formação de um escritor que adiante deixará todas as ilusões e ingenuidades românticas de lado para representar a ambigüidade da vida e a desilusão com os homens. Uma virada que marca não só sua literatura, mas também a história da literatura brasileira.

Sobre isso, escreve Piza: “essa variedade de temas, de quadros que capta da cidade em acelerada metamorfose, rindo tanto do atraso como do falso progresso, certamente vai contribuindo para as mudanças de seu estilo, agora mais ágil, mais engraçado, mais gráfico – e ao mesmo tempo mais tolerante e mais cético. Pouco a pouco o idealista, o jovem que acreditava nas forças civilizadoras do teatro e do jornal, assim como no monarca esclarecido, vai desaparecendo. ‘O mundo está virado’, termina ele uma crônica em que comenta a chegada dos bondes a Santa Teresa.”

A biografia, por óbvio, não tenta esgotar a obra machadiana – nem sua função primeira é renovar seu estudo –, mas ela não se furta em apontar que um dos sucessos de Machado está em revelar a partir de sua obra as sutilezas da natureza humana pelos exemplos encontrados em seu tempo e lugar, transcendidos pela arte de sua imaginação e estilo. A questão de fundo é que, segundo Piza, “não se pode entender muitas coisas da obra de Machado se não se tiver em mente a riqueza de sua vida”. E a riqueza da sua vida está na riqueza do seu tempo, um tempo em ebulição com as discussões entre romantismo contra realismo, abolicionismo contra escravismo, nacionalismo contra internacionalismo, monarquia contra república, um tempo em que “o país começava a se tornar nação”.

Outro ponto importante da biografia – e fundamental para nós, leitores da nova geração – são os resumos das obras, resumos críticos, é verdade, mas que têm mais o objetivo de apresentar os textos principais para o não-leitor do que lançar novas luzes sobre eles. E quando se fala em textos fala-se dos romances, obviamente, mas também de diversos contos, alguns poemas, crônicas e um ou outro ensaio crítico famoso, como o “Instinto de Nacionalidade” e a crítica a Eça de Queirós. Para cada um destes textos é feita uma sinopse e normalmente mencionada a recepção da obra à época, o que nos mostra que Machado foi, sim, lido e saudado por seus contemporâneos mesmo na “fase romântica”.

Desta forma, resgatando os textos, os fatos mais importantes da vida e da época em que Machado viveu, a biografia cria um mosaico importantíssimo para estes leitores muito distantes da realidade machadiana, leitores tão próximos do folhetim do Segundo Reinado quanto Machado estava do Orkut destes tempos digitais. Por isso, ao invés de soar repetitiva – como acusa Martins – ou superficial – como acusariam outros – a biografia Um gênio brasileiro consegue ser clara e bastante útil para os sessenta mil fãs de Machado no Orkut e os outros tantos leitores dessa magnífica obra. É possível que a partir de Piza tais leitores procurem Caldwell, Schwarz ou o último livro de Alfredo Bosi que trata de Brás Cubas, mas em nenhum destes encontrarão um sumário tão completo e lúcido como o desta biografia – ainda que jamais entenderão profundamente o gênio se não forem além desta biografia.

Do mais, é torcer que as bibliotecas públicas de nossas universidades modestas possam adquirir pelo menos um exemplar da obra, e que novas edições sigam sendo produzidas para reparar um ou outro erro inerente a um trabalho desse porte, mas imperdoável a uma obra desta importância.

Para ir além

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 16/1/2007.

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