quarta-feira, 13 de julho de 2011

Eutanásia


Marcelo Spalding

Você diz não querer viver, Daniela. Eu sei, foi sua mãe quem me contou. Lágrima nos olhos, voz baixa. Ela estava com o mesmo vestido rosa de quando a conheci, linda e simples e alegre. Você não pode imaginar como fizemos planos. Ela queria tanto uma casa na praia, uma casa em que nos dias de mar alto as ondas regassem os girassóis do pátio. Uma casa cheia de areia, janelas sempre abertas, ventos e muitas cortinas para mostrar a força do vento. Como admirei ela ter conseguido entrar na medicina. Não que eu duvidasse daqueles ossos pequenos, mãos tão suaves e finas, só poderiam ser mãos de anjo e ela só poderia mesmo ser médica. Vibrei com sua aprovação e chorei muito quando ela teve de parar. Neste país os médicos são muitos, são ricos, tem de ser assim. Sua mãe não conseguiu pagar aquele empréstimo. Seu avô nunca mais seria o mesmo.

Mudaram-se para longe de mim. Nos falamos bastante, depois, mas ela nunca levou nossos planos a sério. Conheceu teu pai numa noite, um pouco embriagada, lutando para ser o oposto da adolescente linda e dedicada. Ela teimava em parecer comum. Depois que ele começou a freqüentar a casa, tive que abandoná-la. Você um dia precisa ler as cartas. Nunca entreguei, mas as escrevia com paixão. Fugi para uma cidadezinha do interior e é de lá que soube da notícia.

Não, você não pediu para nascer. Mas como fez bem para sua mãe, você era um pouco daquela onda sobre os girassóis e ela não parava de dizer que jamais teria conhecido teu pai e te concebido não fosse ter largado a Medicina. Começou a acreditar em destino e voltou a acreditar em Deus. Me escreveu para vir no teu batizado. Depois no teu um ano.

Eu sei, você prefere morrer. Você precisa morrer. Já fez sua parte, está cansada. Seu corpo é pequeno, os ossos fracos, o rosto dói, a cabeça. A cabeça... Não, não chore pelos cabelos. O que te faz a menina linda e adorada por todos não são os cachos loiros. Chore de orgulho, se precisa chorar. Chore e reze.

Pedir a Nossa Senhora para ela te levar e deixar tua mãe nessa terra de desilusões... Será que ela agüentaria? Por tanto tempo sonhou contigo e só te tem há oito anos... Não, você não pode deixá-la. Mas eu sei que você precisa, eu sei, a dor é muita. Você e sua mãe são estrelas distantes, muito distantes deste mundo de loucos. Estão se apagando, temores ou tumores estão levando vocês deste covil. Mas não, não se deixe morrer.

O mundo é diferente dos livros que você lê, disso precisa saber. Não há um país das maravilhas e os Pinóquios não são de mentira. Os pequenos príncipes crescem, as cinderelas depois da meia noite não viram abóboras. Mas o mundo precisa de você, sua mãe precisa de você. Não escolhemos a dor, não escolhemos a solidão, nem a perda. Sofreremos todos, dói a todos. Lágrimas aliviam e atormentam. O choro é sincero. A pele branca demais, os ossos aparecem demais. Tua mãe te ama e de tanto amor não sabe se pode ou não atender teu desejo cruel e sincero.

Pediu para eu conversar com você. Contar dos nossos planos e falar sobre o mar, as flores, as coisas boas que te fariam querer viver. Mas eu sei, pequena Daniela, eu sei que é difícil escolher entre a paz ao lado de Nossa Senhora e a dor ao lado dos pais. Mesmo que exista o colo quente e a mão angelical.

Sim, prometo que vou segurar na mão dela.

Não, eles não brigaram por tua causa.

Talvez, talvez ela vá te visitar nos sonhos.

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