terça-feira, 12 de julho de 2011

Cédula viva


Marcelo Spalding

Faltavam seis dias para o fim do mês, quinze para a chegada do bebê, doze prestações para sair do cheque especial e dez minutos para fechar o banco. Ele corre em meio à multidão, tropeça, levanta. Entra na agência exausto. O gerente demora vinte minutos para o receber e dois para lhe negar o empréstimo: primeiro precisava quitar o cheque especial. Chega em casa cabisbaixo, evita o olhar da esposa. No quarto do bebê, o pintor o espera. Suado, cansado, um curativo no polegar. O serviço está pronto, diz, cabeça baixa. Custava cento e cinco mas só recebeu cinqüenta.

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O trabalhador entra no primeiro ônibus. Por sorte, não estava cheio. Senta-se ao lado de uma senhora e tira do bolso a cédula. O curativo parece ceder, suja a nota com um pouco de sangue. Repara pela primeira vez naquela figura feminina sorrindo para ele e é como se todo o seu dia passasse num segundo: acordar, beijar a esposa, lavar o rosto, escovar os dentes, tomar um café frio, chegar na firma, ver se tem pedidos, lamentar a falta de trabalho, jogar sinuca, atender o celular, ir correndo comprar as tintas, pintar o quarto do bebê, machucar o dedão arrastando o berço, pintar o berço, o armário, receber cinqüenta reais. Seria muito ou pouco? Ouve gritos, o ônibus trava: é um assalto.

*

Oitocentos e dez, oitocentos e quinze, um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oitocentos e vinte e dois!, conta o bandido em voz baixa. Põe as carteiras e os documentos todos num saco de lixo preto e ateia fogo. Junta as notas por cor, dobra num bolo só e enfia no bolso do casaco. No caminho para casa, tem vontade de uma bebida, um vinho especial para ele e a esposa naquela noite quente. Separa uma nota de cinqüenta, entra num mercado vazio. A moça do caixa acompanha seus movimentos com angústia. Chama o segurança, que se posta ao lado dela. O bandido escolhe o tinto mais caro e se dirige ao caixa. A moça e o segurança o observam, desconfiados. Ele quer ser simpático, pergunta porque nunca tinha visto mulher tão bonita pela vila. A moça não responde, pega a nota com nojo, verifica com atenção. Encontra uma pequena mancha de sangue. Olha para o sorriso nervoso do outro, as mãos sempre no bolso. Chama o segurança e acusa a nota de ser falsa. O bandido poderia ter sacado o revólver e descarregado raiva e cartucho ali mesmo. Preferiu a tristeza. Jogou a cédula no chão e cuspiu sobre ela.

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A cédula amanheceu quase no mesmo lugar onde o bandido a jogou. O cuspe fora absorvido mas a mancha de sangue ainda resistia no seu cantinho. Ali perto, mãe e filho saíam de mãos dadas para a escola. Ela, passo apressado, teria deixado a nota para trás não fosse o menino gritar. Voltaram e recolheram o dinheiro. O menino disse que deveriam achar o dono da nota, mas ela respondeu que se a nota estava ali é porque não tinha dono. O menino desconfiou, insistiu, e ela comprou a anuência da criança lhe prometendo um presente. Os olhinhos dele brilharam. Nem foram à escola: ele escolheu uma miniatura de Ferrari com fricção e ela sorriu quando a moça do caixa lhe deu trinta reais de troco. A corrupção do filho lhe custara vinte.

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A moça não sonhava em ser caixa de loja quando tinha a idade do menino. Lembrava disso enquanto via ele se afastar, mãos grudadas na Ferrari. Queria ser atriz de televisão ou professora, mas cresceu demais e engordou além da conta para uma atriz. Professora os pais não deixaram ser. Acabou espremida entre o fim do colégio e o não passar no vestibular. Sua maior alegria era ser caixa de uma loja de brinquedos, odiou ter trabalhado em banco, chegava em casa com as mãos doendo e os dedos sujos de tanto contar essas malditas cédulas. O menino já ia longe e ela ainda segurava os cinqüenta reais, os manchados e sujos reais, pensando no dia em que teria um filho e uma nota dessas para comprar um presente.

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Uma bicicleta. Um homem comprava uma bicicleta. A moça que queria ser atriz e não pôde porque engordou muito e queria ser professora e não pôde porque os pais não deixaram sorriu para o homem que comprava uma bicicleta. Ele perguntou se aceitavam cartão de crédito. Ela sorriu novamente mas disse que infelizmente a loja não trabalhava com aquela bandeira. Ele ironizou e tirou da bolsa uma carteira de couro escuro. Pôs quatrocentos reais em notas de cem diante da moça. Ela, perdida na lembrança do tempo em que pela última vez andou de bicicleta, demorou para pegar as notas. Impaciente, o homem perguntou: nunca viu, né? A moça ficou sem graça, registrou a compra e deu o troco: cinqüenta e três. Ele saiu sem agradecer.

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O celular toca num ritmo frenético. O jovem atende aos gritos, enche a casa de gírias. Beleza, combinado, tô indo praí. Sobe as escadas de dois em dois degraus e encontra o pai fazendo a barba. Tô precisando de grana, ele diz. O homem se concentra na gilete, termina aquele movimento e pergunta o que o filho fez com a mesada. Qual é, meu velho, vai dar uma de durão pra cima de mim? Pro pirralho tu compra bicicletinha... Bate a espuma da gilete na pia, olha para o filho e pede que abra sua carteira e pegue o que tiver ali. O jovem vai e volta reclamando: pô, meu velho, só isso? Cinqüenta e três pila? O pai não responde, ocupado com um novo movimento da gilete. O garoto insiste: então pelo menos empresta o carro, velho.

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Não há esquina em que ele não desacelere para ver as meninas. Buzina, fica imaginando o que vai fazer se uma delas entrar no carro e lembra que não tem dinheiro nem para um bom restaurante nem para um motel. Reclama do pai, onde já se viu só andar com cinqüenta pila na carteira. Pára na sinaleira e aproveita pra conferir de novo. Pega a cédula levemente manchada de sangue, amassada, pegajosa. Pensa, pensa e, como se achasse a solução, sorri para a figura feminina. Quando o sinal abre, sai cantando pneu. Engata a segunda, a terceira, a quarta, a quinta. Abre os vidros, aumenta o volume do rádio, acelera. Buzina para um grupo de prostitutas. Desvia de um ônibus, troca de faixa, ultrapassa o amarelo. A cédula, viva, é a primeira a voar do carro quando ele capota em frente a um banco.

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