terça-feira, 2 de maio de 2006

Quando a literatura ouve os ecos da realidade


Marcelo Spalding

Última página. Você está quase no fim, no último ponto final, mas ainda não conseguiu descobrir se aquela história é verdadeira ou não. Pode ser... os detalhes das descrições, das informações, a proximidade das personagens com as que você vê na rua, nos jornais, tudo isso indica que a história seja real. Mas você torce para que não: a brutalidade dos acontecimentos, a animalização do homem e a sensação de falta de sentido para a vida são pesadas demais. Duras demais. Exageradas, até.

Eu poderia estar falando de O Cortiço (1880), de Aluísio Azevedo, clássico romance naturalista brasileiro. Ou de Vidas Secas (1938), de Graciliano Ramos, digno representante do chamado neorealismo. Ou ainda de Feliz Ano Novo (1975), de Rubem Fonseca, conto definitivo da prosa urbana. Mas escrevo sobre Subúrbio (Objetiva, 296 págs.), romance de Fernando Bonassi que, nas palavras de seu apresentador, “atualiza a prosa urbana da década de 70 com cores ainda mais sombrias”.

A síntese feita pelo apresentador de Subúrbio, Manuel da Costa Pinto, só é possível porque foi publicada nesta segunda edição da obra, uma edição consciente da importância de seu texto como marco de uma geração, da retomada do realismo e da prosa urbana, um texto que “abriu caminho para uma série de ficcionistas que fizeram da São Paulo e do Rio de Janeiro suburbanos uma metonímia da tragédia brasileira” (o romance Cidade de Deus, de Paulo Lins, tornou-se o exemplo mais célebre).

Publicado em 1994 e revisto pelo autor doze anos depois, a história suburbana centra-se em um casal de velhos, ele aposentado de uma fábrica, ela dona de casa, um casal que no tempo da história já não conversava há 18 anos. As descrições são econômicas (e nesse sentido há uma grande diferença, ou se diria um avanço, do realismo/naturalismo originais) mas dão um tom de decadência, miséria e desilusão ao velho, à rua, aos vizinhos, ao subúrbio. Em toda a primeira parte as personagens são apresentadas como subprodutos daquela realidade definitiva: Naldinho é menos um menino que o mais temido bandido do bairro; a vizinha trai o marido desde que este foi acometido por grave e escatológica doença; no barbeiro, todos caçoam e humilham o velho chamando-o de broxa; no bar, todos gastam o pouco dinheiro em bebidas e conversas; na fila do banco, um homem que perdera o braço na revolução de 32 surta e é espancado pelo segurança. Um ambiente em preto e branco, um grande vírus que vai impregnando todos, e não apenas o casal de velhos.

Na segunda parte, surge uma cor neste mundo em preto e branco. Uma pessoa em meio aos brutos. Há vida, e a vida é uma menininha muito bonitinha (sempre descrita com diminutivos pelo narrador) que o velho encontra quando ela ia para a escola (e ele, para o bar). Os dois tornam-se amigos, uma amizade improvável e revigorante para o velho, que passa a fazer exercícios, aparar a barba, beber menos. A menina encontra, no velho, um pai, já que o seu trabalhava à noite como vigia e dormia durante o dia. E também um amigo: brincam de casinha, de comidinha, de boneca. O leitor já deve ter imaginado onde vai parar esse encontro da brutalidade com a candura, do velho lobo com a menininha.

A menina, assim, é ao mesmo tempo o centro da tragédia que encerra o livro e o ponto de partida para entendermos este Subúrbio aqui animalizado, um mundo de seres não apenas explorados mas excluídos pela sociedade, seres sem nome (apenas o bandido tem nome no livro de Bonassi), sem esperança, sem perspectivas, sem forças. Seres para quem a morte é, enfim, o descanso.

Afora questões técnicas e estilísticas a respeito do texto de Bonassi, que para este resenhista parece contundente, funcional e claro, o livro reaviva uma polêmica mal resolvida na literatura que é a sua relação com a realidade. Já Platão e Aristóteles discordavam sobre a função da poética, se era imitar ou representar a realidade. E se até os anos 60 o conceito de poesia enquanto representação perdurou, a partir de Roland Barthes não se pode mais falar em representação da realidade por ser impossível captarmos essa realidade. Palavras do mestre: “a função da narrativa não é de representar, é de constituir um espetáculo que permanece ainda para nós muito enigmático”.

Contrário senso, nas palavras de outro teórico, um dos supostos efeitos da convenção estética é que determinados assuntos polêmicos são mais bem tolerados pelos leitores quando apresentados na literatura (ficção, poesia), do que no mundo “real”. E se trazemos a este texto tantos teóricos é para mostrar como Bonassi consegue equilibrar-se nesta tênue linha entre realidade e ficção, não se furtando a expôr um mundo que a sociedade tenta excluir, um mundo desconhecido e, a partir deste mundo, tratar de um tema extremamente sério, difícil e mais comum do que se imagina, o abuso sexual infantil.

Valendo-se da ficção, Bonassi fez mais pelo combate a esta tragédia brasileira do que centenas de pesquisas científicas, ainda que tenham sido as pesquisas fundamentais para a tomada de consciência do problema pelo escritor. E fez mais porque expôs este assunto polêmico não para sugerir o extermínio do subúrbio mas para chamar a atenção da sociedade. Por outro lado, Subúrbio não se pretende definitivo nem fidedigno à realidade suburbana brasileira, tampouco a paulista. Menos pretensioso que Cidade de Deus nesse sentido, Subúrbio limita-se à história de um casal de velhos e seus vizinhos, à relação de um velho e uma menina como exemplares de uma sociedade.

Decerto a crítica foi e ainda será pesada contra o movimento que Bonassi, não propositadamente, inaugurou, um movimento de retomada da preocupação social na literatura. Não poucos acusarão obras deste tipo como sensacionalistas, exageradas, preconceituosas, até. Mas outros, quiçá muitos, olharão debaixo do tapete, olharão além das estatísticas e descobrirão rostos, vidas, gentes, meninas que um dia serão as mulheres e as velhas do mundo que não queremos enxergar. Do mundo que a Literatura (com L maiúsculo) por vezes finge não existir.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 2/5/2006.

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