quinta-feira, 16 de maio de 2013

Os tempos verbais do modo indicativo

Marcelo Spalding

Em geral, as pessoas lembram que existem três tempos verbais na língua portuguesa: passado, presente e futuro. Mas nossa língua, ainda bem, é um pouco mais complexa do que isso. No modo indicativo, temos pelo menos seis tempos verbais com sentidos bem distintos um do outro, sendo impossível para o usuário do português prescindir de um ou outro deles.

1) O presente



O tempo presente indica, obviamente, algo que acontece neste momento. Por exemplo: Economia brasileira avança. Mas o tempo presente também indica, como na música de Chico Buarque acima reproduzida, algo recorrente, que ocorre sempre desde o passado até hoje. Por exemplo: Todo dia ela acorda e faz tudo sempre igual. Vemos, ainda, o presente utilizado para eventos próximos, como Grêmio enfrenta Palmeiras amanhã. E o chamado presente histórico, que é uma técnica dos historiadores e ficcionistas de narrar algo do passado com o presente, a fim de aproximar o leitor do fato: Em 1500, Cabral descobre o Brasil.

Vale lembrar, também, que em português não temos o presente contínuo, que é criado através de locução verbal. Por exemplo, O Brasil está crescendo muito nesse século. As locuções em questão são formadas com um verbo auxiliar no presente + um verbo principal no gerúndio.

2) O pretérito perfeito




O pretérito perfeito retoma, obviamente, algo que ocorreu no passado. Mas se fizermos uma linha do tempo, este acontecimento está num único ponto da linha. Se alguém diz, por exemplo, Fulano cheirou, quer dizer que o fulano uma vez na vida usou cocaína. Está incorreta, portanto, a construção Fulano cheirava uma vez, como veremos adiante. Observe que é possível, ainda, usar o pretérito perfeito para fatos repetitivos, mas delimitando o tempo, por exemplo: O Grêmio enfrentou o Palmeiras quatro vezes em 1995.

3) O pretérito imperfeito




O pretérito imperfeito, diferentemente do perfeito, é um traço na nossa linha do tempo. Ou seja, é algo que ocorreu mais de uma vez, durante um período de tempo, mas não ocorre mais. Por exemplo, Fulano cheirava, que é mais comprometedor do que Fulano cheirou. O pretérito imperfeito é usado, ainda, na ficção, como no exemplo de Chico Buarque (agora eu era o herói). Nas narrativas, o pretérito imperfeito cria a cena (Era uma vez uma bruxa que ria muito alto e fazia maldades), enquanto o pretérito perfeito inaugura a narrativa particular (Até que um dia chegou uma princesa).

4) O pretérito mais-que-perfeito


Embora pouco utilizado na sua forma conjugada simples, o pretérito mais-que-perfeito é muito útil à comunicação, pois ele menciona algo ocorrido antes de outro fato. Por exemplo: Quando chegou, o ladrão já fugira com tudo. Isso significa que ele chegou antes do momento da fala e que o ladrão fugira antes de ele ter chegado. Se a frase fosse "Quando chegou, o ladrão fugiu com tudo", entenderíamos que o ladrão fugiu no momento em que ele chegou (não antes). Hoje o pretérito mais-que-perfeito tem sido construído através de locuções verbais: o ladrão tinha fugido com tudo. Construções como tinha fugido ou havia feito têm o mesmo sentido do mais-que-perfeito, embora seus verbos auxiliares estejam no pretérito imperfeito + verbo principal no particípio.

5) O futuro do presente


Na língua portuguesa, temos duas formas de futuro, o futuro do presente e do pretérito. O futuro do presente indica uma ação a se realizar no futuro, como o próprio nome já diz. Por exemplo: Farei a lição de casa, Estudarei mais a partir do ano que vem, Terei mais cuidado com as coisas. Alguns verbos são tão pouco usados na sua forma de futuro do presente que até estranhamos: Eles quererão melhores condições de trabalho. Ocorre que também com o futuro do presente tem se usado muito a locução verbal: Eles vão querer melhores condições de trabalho. Nesse caso, formadas pelo verbo auxiliar no futuro do presente + verbo principal no infinitivo.

6) O futuro do pretérito


O futuro do pretérito indica uma ação que NÃO se realizou, embora ainda haja a possibilidade de que ela se realize (diferentemente do pretérito perfeito). Por muitos gramáticos, é chamado de um tempo do modo condicional, pois ele não indica certeza (como o modo indicativo em geral). Exemplos: Eu iria na festa se pudesse. O homem teria jogado a mulher da janela. Observe que essa última construção, com o verbo auxiliar no futuro do pretérito + verbo principal no particípio, é muito utilizada para eximir o autor da frase de responsabilidade no caso de não for verdadeira sua afirmação. É muito comum no jornalismo: O Grêmio estaria contratando Tevez para seu meio campo. Depois, obviamente, o Grêmio não traz o craque argentino e o repórter diz: "ah, mas eu não dei certeza".

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