quinta-feira, 30 de maio de 2013

A poesia concreto-multimídia de Paulo Aquarone

Marcelo Spalding

Literatura de olhar, e não de ler, não é novidade. No Brasil, seu marco é a Exposição Nacional de Arte Concreta de 1956, em que os criadores Décio Pignatari, Haroldo de Campos e Augusto de Campos propõem que o poema transforme-se em objeto visual, valendo-se do espaço gráfico como agente estrutural, usando os espaços brancos, os recursos tipográficos, etc. O poema, em função disso, passaria a ser simultaneamente lido e visto.

Tal estética influenciou toda uma geração, que, sem abrir mão de poemas tradicionais, passou a se preocupar também com a forma do poema quando impresso ou produzir suas próprias versões de poesia concreta. Um exemplo dessa segunda geração da poesia concreta é o paulista Paulo Aquarone, nascido em 1956, mesmo ano da Exposição Nacional de Arte Concreta. Paulo em diversos livros lançados nos anos 90 explora os recursos gráficos, primeiro como temática (Poemas das Cores e Poema sobre Papel, ambos de 1996) e depois como linguagem (Poemas no livro são Letras e Símbolos, de 1998, Som das Letras, de 1999, Poemas e Ilustrações Gráficas, de 2000).

Ainda em 1999, Paulo reuniu parte dessa produção em seu site www.pauloaquarone.com, que hoje, olhando pelo retrovisor, pode ser considerado ao lado do Ciberpoesia, de Ana Gruzynski  e Sergio Capparelli, um dos precursores da literatura digital no Brasil.

O site inicia com o trecho de um comentário de Augusto de Campos sobre o autor: "O trabalho de Paulo Aquarone, por ele exercido com inegável talento, acentua, com exuberância, que as poéticas da visualidade mostram continuado interesse, oferecendo novas possibilidades de desenvolvimento e expansão". Dentro, ttraz, além das tradicionais seções de Biografia, Livros e Contato, duas seções chamadas “Poemas”. Uma delas, colocada como último item do menu, reproduz poemas visuais das décadas de 70 a 90. A outra, colocada como primeiro item do menu, é dedicada aos poemas chamados pelo autor de “Poemas multimídia”. Um recado no topo da página, entretanto, deixa claro que a origem são mesmo poemas visuais, sendo que em alguns deles foi dado um tratamento digital: “busque a interação em alguns poemas”.

“Caixa de interrogação”, por exemplo, apresenta uma caixa com um “?” e, quando clicada, revela dentro a letra “é”. O “Poemágico” apresenta cartas que formam a palavra TRÊS que, quando viradas, revelam os números de 1 a 4, brincando com o número de letras da palavra. “Fecha” traz duas gavetas que fecham a palavra “fecha”e a abrem a palavra “abre”. “Símbolos e matérias”, quando clicado, revela números dentro de cada letra. “Gaveta” mostra uma porta dentro de uma gaveta, utilizando-se agora não de palavras, mas de sons.

Claro que a tecnologia utilizada é um tanto rudimentar, e a própria navegação não ajuda o usuário a saber onde ele pode ou não intervir, qual o potencial de cada poema. Além disso, muitos poemas estáticos poderiam ser trabalhados à luz das novas tecnologias. É notável, entretanto, que ainda nos anos 90, com seus próprios conhecimentos técnicos, tenha se dado conta da potencialidade das ferramentas digitais para fazer poesia além da poesia, além da letra, além do livro.

Talvez a sua obra não se trate, ainda, de literatura digital, mas certamente é um documento importante da transição que estamos passando da poesia concreta para a poesia visual feita em computador para a poesia realmente multimídia, com animação, som, interação. É importante lembrar, nesse aspecto, que os poemas de Aquarone vão além do Concretismo porque não são apenas trabalhos gráficos com a palavra. Aqui a imagem, a distribuição dos elementos na tela e o jogo de cores faz parte da linguagem poética, como no belo Auto-Retrato, cuja ilustração de uma fotografia com a data de nascimento, mas sem a data de morte, representa poeticamente a finitude da vida.

Alguns, como “Feto”, “Dimensão Óptica” e “Medida do Tempo” sequer trazem a palavra, são construído exclusivamente por imagens.

Sua ligação com a arte visual é tão grande que desde 1996 o poeta já realizou mais de 30 exposições individuais ou participando como convidado, como sua participação em 2010 na Exposição coletiva FILE (Festival Internacional de Linguagem Eletrônica) no prédio da FIESP, em São Paulo, e uma exposição individual na Galeria da Biblioteca Nacional de Lisboa, patrocinado pelo Ministério da Cultura Português, ocasião em que as 40 obras da exposição foram doadas à instituição.


Em entrevista ao portal Literatura Digital, onde busco reunir essa produção inicial do que chamo de literatura digital, Paulo revela um pouco de como surgiu essa produção e evidencia sua despreocupação com os rótulos: “como artista, não busco fazer um ou outro tipo de poesia, dentro da minha produção acabo utilizando diversas ferramentas para concluí-las e divulgá-las”.

Paulo, quando você iniciou o trabalho com Poemas Multimídias?

Comecei a fazer projetos para poesia multimídia no final dos anos de 1990, um pouco antes da abertura do site que foi em 1999, onde utilizei o computador e internet para produção e divulgação da obra.

De onde veio a inspiração? 

Faz parte do meu ser, desde sempre, a percepção aguçada nas formas, nos sons e nos sentidos de letras, sílabas, palavras e outros. Em grande parte das vezes intuitivas.

Para você, qual a diferença entre os Poemas Multimídia e a poesia visual? Alguns de seus poemas têm interação, mas outros não. Nesse caso, não se tratariam de poesia visual? 

Utilizo o termo Poemas Multimídia, pela característica da produção dos poemas em diversos materiais e algumas mídias. Não sou acadêmico, mas como artista, não busco fazer um ou outro tipo de poesia, dentro da minha produção acabo utilizando diversas ferramentas para concluí-las e divulgá-las. Penso que tanto a poesia multimídia como a visual estão interligadas.

Você segue produzindo literatura para web? Na sua opinião, qual a maior diferença entre produzir para papel e produzir para web? 

Sigo produzindo literatura para web, porque nela tenho programas, imagens e outros instrumentos que me auxiliam e aumentam minhas possibilidades na produção.

Você mesmo monta seus HTMLs ou conta com a ajuda de um programador? 

A produção do site e animações dos poemas é feita juntamente com meu filho Jossua.

Como leitor, o que e em que plataforma você gosta de ler? 

Utilizo de preferência a internet para me informar e buscar em sites, blogs, links, páginas, programas que abordem temas de arte em geral.

Qual será, para você, o futuro do livro impresso?

Como se pode ler também digitalmente, penso que o livro impresso tende a diminuir sua importância, por outro lado os próprios programas digitais barateiam e auxiliam na produção do livro.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 7/6/2013.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Os tempos verbais do modo indicativo

Marcelo Spalding

Em geral, as pessoas lembram que existem três tempos verbais na língua portuguesa: passado, presente e futuro. Mas nossa língua, ainda bem, é um pouco mais complexa do que isso. No modo indicativo, temos pelo menos seis tempos verbais com sentidos bem distintos um do outro, sendo impossível para o usuário do português prescindir de um ou outro deles.

1) O presente



O tempo presente indica, obviamente, algo que acontece neste momento. Por exemplo: Economia brasileira avança. Mas o tempo presente também indica, como na música de Chico Buarque acima reproduzida, algo recorrente, que ocorre sempre desde o passado até hoje. Por exemplo: Todo dia ela acorda e faz tudo sempre igual. Vemos, ainda, o presente utilizado para eventos próximos, como Grêmio enfrenta Palmeiras amanhã. E o chamado presente histórico, que é uma técnica dos historiadores e ficcionistas de narrar algo do passado com o presente, a fim de aproximar o leitor do fato: Em 1500, Cabral descobre o Brasil.

Vale lembrar, também, que em português não temos o presente contínuo, que é criado através de locução verbal. Por exemplo, O Brasil está crescendo muito nesse século. As locuções em questão são formadas com um verbo auxiliar no presente + um verbo principal no gerúndio.

2) O pretérito perfeito




O pretérito perfeito retoma, obviamente, algo que ocorreu no passado. Mas se fizermos uma linha do tempo, este acontecimento está num único ponto da linha. Se alguém diz, por exemplo, Fulano cheirou, quer dizer que o fulano uma vez na vida usou cocaína. Está incorreta, portanto, a construção Fulano cheirava uma vez, como veremos adiante. Observe que é possível, ainda, usar o pretérito perfeito para fatos repetitivos, mas delimitando o tempo, por exemplo: O Grêmio enfrentou o Palmeiras quatro vezes em 1995.

3) O pretérito imperfeito




O pretérito imperfeito, diferentemente do perfeito, é um traço na nossa linha do tempo. Ou seja, é algo que ocorreu mais de uma vez, durante um período de tempo, mas não ocorre mais. Por exemplo, Fulano cheirava, que é mais comprometedor do que Fulano cheirou. O pretérito imperfeito é usado, ainda, na ficção, como no exemplo de Chico Buarque (agora eu era o herói). Nas narrativas, o pretérito imperfeito cria a cena (Era uma vez uma bruxa que ria muito alto e fazia maldades), enquanto o pretérito perfeito inaugura a narrativa particular (Até que um dia chegou uma princesa).

4) O pretérito mais-que-perfeito


Embora pouco utilizado na sua forma conjugada simples, o pretérito mais-que-perfeito é muito útil à comunicação, pois ele menciona algo ocorrido antes de outro fato. Por exemplo: Quando chegou, o ladrão já fugira com tudo. Isso significa que ele chegou antes do momento da fala e que o ladrão fugira antes de ele ter chegado. Se a frase fosse "Quando chegou, o ladrão fugiu com tudo", entenderíamos que o ladrão fugiu no momento em que ele chegou (não antes). Hoje o pretérito mais-que-perfeito tem sido construído através de locuções verbais: o ladrão tinha fugido com tudo. Construções como tinha fugido ou havia feito têm o mesmo sentido do mais-que-perfeito, embora seus verbos auxiliares estejam no pretérito imperfeito + verbo principal no particípio.

5) O futuro do presente


Na língua portuguesa, temos duas formas de futuro, o futuro do presente e do pretérito. O futuro do presente indica uma ação a se realizar no futuro, como o próprio nome já diz. Por exemplo: Farei a lição de casa, Estudarei mais a partir do ano que vem, Terei mais cuidado com as coisas. Alguns verbos são tão pouco usados na sua forma de futuro do presente que até estranhamos: Eles quererão melhores condições de trabalho. Ocorre que também com o futuro do presente tem se usado muito a locução verbal: Eles vão querer melhores condições de trabalho. Nesse caso, formadas pelo verbo auxiliar no futuro do presente + verbo principal no infinitivo.

6) O futuro do pretérito


O futuro do pretérito indica uma ação que NÃO se realizou, embora ainda haja a possibilidade de que ela se realize (diferentemente do pretérito perfeito). Por muitos gramáticos, é chamado de um tempo do modo condicional, pois ele não indica certeza (como o modo indicativo em geral). Exemplos: Eu iria na festa se pudesse. O homem teria jogado a mulher da janela. Observe que essa última construção, com o verbo auxiliar no futuro do pretérito + verbo principal no particípio, é muito utilizada para eximir o autor da frase de responsabilidade no caso de não for verdadeira sua afirmação. É muito comum no jornalismo: O Grêmio estaria contratando Tevez para seu meio campo. Depois, obviamente, o Grêmio não traz o craque argentino e o repórter diz: "ah, mas eu não dei certeza".

O modo subjuntivo: usos e tempos verbais

Marcelo Spalding

Muitos estudantes de língua portuguesa temem o modo subjuntivo pelas suas peculiares formas e uso não tão cotidiano. Entretanto, poucos sabem que diversas línguas, do ínglês ao árabe, passando por todas as línguas latinas, utilizam o modo subjuntivo.

O modo subjuntivo normalmente é descrito como o modo que expressa dúvida, desejo ou possibilidade. Entretanto, sua característica mais importante talvez não seja semântica, já que o conceito de "dúvida, desejo ou possibilidade" costuma gerar discussões, e sim sintática.

Ocorre que o verbo no modo subjuntivo em geral não pode formar uma frase sozinho, ele é, por assim dizer, um auxiliar de um verbo no modo indicativo. Vejamos:
Gostaria que ele chegasse a tempo.
Espero que ele venha logo.
Adorarei quando ele voltar.
Em cada frase, o primeiro verbo em destaque é um verbo no modo INDICATIVO, enquanto o segundo é um verbo no modo SUBJUNTIVO. Essa mudança de modo é, também, uma forma de a língua manter clareza em sua estrutura. Imagine a confusão que seria se fossem todos verbos indicativos:
*Gostaria que ele chegou a tempo.
*Espero que ele vem logo.
*Adorarei quando ele volta.
Além disso, sempre há uma palavra, em geral uma conjunção, que manda o verbo para o modo SUBJUNTIVO. Observe:
Se eu chegasse mais cedo...
Embora eu chegasse mais cedo...
Espero que ele venha logo.
Se eu for rico...
Quando eu for rico...
Em relação ao TEMPO, o modo subjuntivo traz o PRETÉRITO, o PRESENTE e o FUTURO.
O pretérito do subjuntivo costuma apresentar verbos com o sufixo -sse e tem, naturalmente, uma ideia de passado (jogasse, vendesse, perdesse). Uma forma mais precisa de explicá-lo, porém, seria dizer que o verbo no indicativo que o acompanha sempre está no futuro do pretérito. Observe:
Se eu chegasse mais cedo, teria ligado para você.
Caso eu tivesse visto alguma coisa, você seria o primeiro a saber.
O presente do subjuntivo costuma tem uma ideia de presente, sendo comum para expressar desejo (seja, chegue, tenha). Uma forma mais precisa de explicá-lo, porém, seria dizer que o verbo no indicativo que o acompanha sempre está no presente. Observe:
Espero que eu chegue a tempo.
Imagino que você queira ser o primeiro a saber.
O futuro do subjuntivo costuma apresentar verbos com o mesmo radical do infinitivo e tem uma ideia de futuro (jogar, jogarmos, jogarem). Uma forma mais precisa de explicá-lo, porém, seria dizer que o verbo no indicativo que o acompanha sempre está no futuro do presente. Observe:
Quando eu chegar, ligarei para você.
Se eu ver alguma coisa, você será o primeiro a saber.
Vale lembrar que as conjugações no subjuntivo podem reservar surpresas a quem não está acostumado à forma culta da língua. Expressões como "Espero que nós cheguemos a tempo", embora corretas, costumam levantar suspeitas de muitos que se policiam para não dizer "Nós cheguemos mais cedo", numa clara - mas natural - confusão entre os modos indicativo e subjuntivo.