quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Claraboia, o jovem Saramago


Marcelo Spalding

Poucos ofícios imortalizam tanto um homem quanto o de escritor. Um bom livro sobrevive ao seu autor nas prateleiras das livrarias, nas estantes das casas, no orgulho da família. E não raro novos textos seus são publicados mesmo depois de sua morte.
Com José Saramago, o Nobel da língua portuguesa, o mais polêmico, conhecido e reconhecido escritor contemporâneo de nossa língua, não poderia ser diferente. Um ano e meio depois de sua morte, ocorrida em 2010, foi lançado o romance Claraboia (Companhia das Letras, 2006, 384 págs.), incrivelmente escrito em 1953 - se fosse publicado à época seria o segundo romance do autor.
Os motivos para a não-publicação nos anos 1950 são mais comerciais que literários: a obra foi enviada a uma editora lusitana que nunca respondeu ao autor, nem aceitando nem rejeitando o original (desrespeitosa prática comum até hoje, diga-se de passagem), até que nos anos 1980, com Saramago já famoso por sua literatura, a tal editora entrou em contato com o autor para publicar o livro. Aí foi a vez de Saramago rejeitar, por despeito ou por questões literárias, sabe-se lá. Deixou a decisão para que a família tomasse, depois de sua morte.
Felizmente para os leitores, a família optou por publicar o romance, cuja história narra episódios da vida de seis famílias do subúrbio lisboeta, histórias que se encontram e desencontram ao longo da narrativa. Enredos desse tipo hoje são comuns no cinema (Babel, Crash), mas acrescente-se a essa falta de unidade temática o fato de que em Claraboia o leitor começa a conhecer as famílias no meio de suas histórias e não saberá o final delas. Trata-se, portanto, de uma crônica de costumes, de um romance de representação social em que o cenário é mais importante que os acontecimentos.
Para quem gosta de literatura e de Saramago em especial, o romance é leitura obrigatória porque revela os primeiros passos do gênio, o que primeiro ele inventou na prosa até chegar à sua forma complexa e admirável de um Evangelho Segundo Jesus Cristo, por exemplo. Em Claraboia, os diálogos ainda são pontuados da maneira tradicional, mas já temos aqui o narrador intruso, onisciente e irônico, marca da ficção do autor. O começo, misto de descrição com narrativa, é arrebatador:
"Por entre os véus oscilantes que lhe povoavam o sono, Silvestre começou a ouvir rumores de loiça mexida e quase juraria que transluziam claridades pelas malhas largas dos véus. Ia aborrecer-se, mas percebeu, de repente, que estava acordando. Piscou os olhos repetidas vezes, bocejou e ficou imóvel, enquanto sentia o sono afastar-se devagar. Com um movimento rápido, sentou-se na cama. Espreguiçou-se, fazendo estalar rijamente as articulações dos braços. Por baixo da camisola, os músculos do dorso rolaram e estremeceram. Tinha o tronco forte, os braços grossos e duros, as omoplatas revestidas de músculos encordoados. Precisava desses músculos para o seu ofício de sapateiro. As mãos, tinha-as como petrificadas, a pele das palmas tão espessa que podia passar-se nela, sem sangrar, uma agulha enfiada."
Silvestre, aliás, será um personagem importante nesse mosaico de tipos por expressar em seus diálogos os pensamentos político-ideológicos do autor. Nesse romance, o Saramago jovem (o autor tinha em torno de 30 anos, a idade de Abel, personagem-chave do livro pelos diálogos que trava com Silvestre) é muito mais explícito do que nos romances de sua maturidade acerca de política, filosofia e engajamento social, utilizando-se dos diálogos entre o jovem Abel e o sapateiro Silvestre para expressá-los.
"- Ouça, Abel! Quando ouvir falar no homem, lembre-se dos homens. O Homem, com H grande, como às vezes leio nos jornais, é uma mentira, uma mentira que serve de capa a todas as vilanias. Toda a gente quer salvar o Homem, ninguém quer saber dos homens.
Abel encolheu os ombros, num gesto de desalento. Reconhecia a verdade das últimas palavras de Silvestre, ele próprio já o pensara muitas vezes, mas não tinha aquela fé. Perguntou:
- E que podemos nós fazer? Eu? O senhor?
- Vivemos entre os homens. Ajudemos os homens.
- E o que faz o senhor para isso?
- Conserto-lhes os sapatos, já que nada mais posso fazer agora. O Abel é novo, é inteligente, tem uma cabeça sobre os ombros... Abra os olhos e veja, e se depois disto ainda não tiver compreendido, feche-se em casa e não saia, até que o mundo lhe desabe em cima!"
Muitos dirão e escreverão que esse parece um diálogo entre o jovem Saramago e o velho Saramago, que talvez o autor tenha dado algumas pinceladas no original dos anos 50 antes de falecer. Mas tudo será especulação, e evitemos a especulação...
Vale ressaltar é que esse uso da ficção para a veiculação de discussões político-ideológicas é comum nos anos 50, época de grandes e inesquecíveis romances como O Tempo e o Vento (1959) e Cem Anos de Solidão (1962). Já no final do século XX, com o fim dos regimes totalitários e a mudança das discussões do eixo político para o econômico, a ficção volta a se preocupar mais com o sujeito e sua identidade. E é importante ressaltar que embora a história de Abel e Silvestre seja repleta de discussões políticas, e que essa história abra e feche o livro, ela é apenas uma das seis histórias de Claraboia, e as outras têm um aprofundamento psicológico e identitário dignos dos romances psicológicos mais modernos.
Entramos não apenas na casa dos casais e seus filhos, descobrimos seus pensamentos, suas intenções, seus medos, seus desejos, penetramos em cada um como jamais conseguiríamos penetrar em nós mesmos, com uma lucidez e praticidade que só alguém de fora poderia enxergar. Vemos sob a claraboia a mãe que perdeu a filha pequena e vive com um marido grosseiro e repulsivo; o casal que zela pela bela filha adolescente enquanto faz as contas para fechar o mês; a vizinha sedutora e seu amante; as quatro mulheres unidas pela música e por amores não realizados; o filho que quer unir os pais e os vê cada vez mais distantes, embora sob o mesmo teto. Desta história vale reproduzirmos um trecho:
"Henrique não compreendia. Amara pouco o pai, mas descobrira que podia amá-lo sem reservas; durante algum tempo receara a mãe, mas agora a mãe chorava e ele reconhecia que nunca deixara de a amar. Amava ambos e via que eles se afastavam cada vez mais um do outro. Por que não falavam? Por que se olhavam, às vezes, como se não se conhecessem ou como se se conhecessem demais?"
Poder-se-ia acusar a abordagem, e não seria de todo injusto, de certo machismo. É evidente, aqui, a influência do narrador homem revelando alguns fetiches, reproduzindo alguns valores, talvez próprios dos anos 50, mas talvez próprios de um pensamento sexista. De qualquer forma, poderíamos dizer que esse narrador-observador é mais uma das personagens vivendo sob a claraboia, e seus valores são mais reflexo do que ele vê do que criações suas. Nesse aspecto, a propósito, a obra pode ser lida em linha com Pequenas Memórias, livro de memórias de Saramago publicado em 2006 que revela a infância pobre do autor, sem dinheiro para livros ou jornais. E muitos dirão e escreverão, também, que o cenário diz muito sobre o autor, que isso é natural nos primeiros romances de um escritor, que a obra vale mais pelo aspecto histórico e biográfico que literário ou ideológico. Mas tudo será especulação. E evitemos a especulação...

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 20/12/2012.

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