sexta-feira, 23 de março de 2012

A catástrofe dos cursos de Letras

Marcos Bagno
Revista Caros Amigos – Nov/ 2008

A formação dos professores de português, hoje, no Brasil, é uma catástrofe. Nós, os responsáveis pelos cursos de Letras, não enxergamos a bomba-relógio que temos nas mãos. As estatísticas não mentem: a retumbante maioria dos estudantes de Letras vêm de camadas sociais pobres ou mesmo miseráveis, filhos de pais analfabetos ou que têm escolarização inferior a quatro anos. Isso significa muita coisa. Significa que esses estudantes têm um histórico de letramento muito reduzido: no ambiente familiar, não convivem com a cultura letrada, não têm acesso a livros, revistas, enciclopédias etc. Significa que não são falantes das normas urbanas de prestígio (as mesmas que supostamente terão de ensinar a seus futuros alunos) e têm domínio escasso da leitura e da escrita. Só na faculdade é que a maioria deles vai ler, pela primeira vez na vida, um romance inteiro ou um texto teórico. Vêm, quase todos, do ensino público, essa tragédia ecológica brasileira muito pior que as queimadas na Amazônia. Nós, porém, fingimos que eles são ótimos leitores e redatores, e despejamos sobre eles, logo no primeiro semestre, teorias sofisticadas, que exigem alto poder de abstração e familiaridade com a reflexão filosófica, e textos de literatura clássica, escritos numa língua que para eles é quase estrangeira. E assim vamos nos iludindo e iludindo os estudantes.

O resultado é que os estudantes de Letras saem diplomados sem saber lingüística, sem saber teoria e crítica literária e sem saber escrever um texto acadêmico com pé e cabeça. Todos os dias, recebo mensagens de formandos que me pedem orientação para seus trabalhos finais. Alguns até me enviam seus projetos. São textos repletos de erros primários de ortografia, pontuação, sintaxe, vocabulário, com frases truncadas e sem sentido. Assim eles chegam ao final do curso, e suas monografias, mal escritas, sem nenhum rigor teórico ou metodológico, são aprovadas alegre e irresponsavelmente por seus supostos orientadores.

O problema, é claro, não está no fato (que merece comemoração) de acolhermos na universidade alunos vindos das camadas mais desfavorecidas da população. O problema é não oferecermos a eles condições de, primeiro, se familiarizar com o mundo acadêmico, que lhes é totalmente estranho, por meio de cursos intensivos (e exclusivos) de leitura e produção de textos, de muita leitura e muita produção de textos, para só depois desses (no mínimo) dois anos de preparação eles poderem começar a adentrar o terreno das teorias, das reflexões filosóficas, da alta literatura. Se não fizermos isso urgentemente (anteontem!), as salas de aula do ensino básico estarão ocupadas por professores que, mal sabendo ler e escrever adequadamente, não poderão desempenhar sua principal tarefa: ensinar a ler e a escrever adequadamente! Não sei, aliás, por que escrevi “estarão ocupadas”: elas já estão ocupadas, neste momento, por essas pessoas, de quem se cobra tanto e a quem não se oferece uma formação docente que também seja, minimamente, decente.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Capacidade de expressão X capacidade linguística


Marcelo Spalding

Ensinar língua nativa, por exemplo português para brasileiros ou inglês para ingleses, é sempre muito difícil, pois a rigor todos os nativos de uma língua a conhecem desde os dois, três anos de idade (embora todos vivam com a sensação de falá-la erradamente, motivo pelo qual muitos não escrevem um texto por conta própria há anos).

É preciso, porém, entendermos que uma coisa é a capacidade linguística e outra, a capacidade de expressão. A capacidade de expressão é aquela que nos permite narrar fatos, defender ideias, descrever situações, falar com nossos amigos, falar em público, falar ao telefone, etc. Em suma, participar da vida social, comunicar-se, defender ideias.

A capacidade linguística, por sua vez, é o conhecimento da estrutura de um idioma em especial, sua ortografia (que é apenas um dos itens do idioma), sua estrutura, seu léxico. Aqui ainda temos a capacidade de interpretação, que exige capacidade linguística, mas também um certo conhecimento de mundo.

Em geral, treina-se nas disciplinas de Língua Portuguesa a capacidade linguística, fazendo os alunos ler, escrever, interpretar, ensinando ou relembrando convenções ortográficas, estruturas sintáticas e morfológicas, etc. Esse conhecimento é infinito, quanto mais se estuda uma língua e mais nos aprofundamos nela, mais dúvidas temos e, por vezes, mais inseguros nos sentimos (quem acha que sabe tudo de seu idioma, procure saber o que é fonologia, etmologia ou pragmática, por exemplo).

O problema é que o público leigo, que realmente acredita que não sabe sua língua nativa, usa isso como desculpa para não exercitar sua capacidade de expressão, o fazendo apenas quando é obrigado a tal, como numa entrevista de emprego. Com isso, não escrevem e até evitam falar em público para não errarem, deixando de praticiar aquilo que é o mais importante para qualquer ser-humano: a comunicação.

Para que se deve ter capacidade linguística, afinal de contas, se não for para nos expressarmos, nos comunicarmos?

Claro que algumas pessoas têm uma invejável capacidade de expressão sem necessariamente ter um grande conhecimento linguístico. Nosso ex-presidente Lula é um bom exemplo. Alguns músicos e escritores também demonstram genialidade em suas áreas, ainda que nunca tenham estudado a fundo questões de gramática. Mas parece inegável que quanto mais capacidade linguística tivermos, mais ferramentas para usarmos com nossa capacidade de expressão teremos.

Particularmente, acredito que o ideal seja trabalhar com esta capacidade de expressão como objetivo, mas lidar, sim, com os aspectos técnicos da língua. Percebi que muitos dos meus alunos de graduação, muitos mesmo, não sabem diferenciar um verbo de sua forma nominal, um adjetivo de um advérbio, não lembram o que é preposição, conjunção, interjeição, isso sem falar no absoluto esquecimento sobre o básico de sintaxe (sujeito, verbo, objeto, adjunto adverbial). Pergunto: como ensinar pontuação ou crase, por exemplo, para estes alunos, sem primeiro retomar esses aspectos técnicos, gramaticais?

Tal desconhecimento irá prejudicá-los até quando, fora dos bancos universitários, procurarem um livro sobre linguagem ou produção de texto, bem como uma gramática, e se depararem com dicas como: "transforme verbos em substantivos abstratos para dar coesão ao texto". No caso das gramáticas, lerão o seguinte: "objeto indireto é precedido de preposição". Aí o aluno coça a cabeça e se pergunta: "o que é mesmo preposição?".

Além disso, percebo que a própria interpretação de textos fica prejudicada quando, por exemplo, o leitor não sabe a diferença de um verbo no modo indicativo, subjuntivo ou imperativo, quando não consegue identificar o referente de determinado pronome ou o sujeito de determinado verbo (isso sem falar na compreensão de longos períodos subordinados ou construções na voz passiva).

Pode parecer um exagero dar tamanha importância à capacidade linguística, mas numa sociedade em que até a marca do tênis é fonte de preconceito e segregação, cometer erros como "menas" e "previlégio" pode comprometer uma ascenção profissional, assim como erros menos grosseiros, como "para mim comer" ou "peguei ela" podem servir de chacota entre colegas de profissão. O alvo da chacota, talvez com o histórico de dificuldades na disciplina nos tempos escolares, vai criando uma ideia errônea de que não sabe "escrever", não sabe "se expressar direito", restringindo suas intervenções sociais linguísticas àquelas poucas vezes em que é obrigado a redigir um email ou um texto profissional.

Raramente esse jovem (ou nem tão jovem assim) enviará uma carta questionando determinada empresa, um texto para um jornal com sua opinião sobre determinado assunto, uma correspondência para o político que ajudou a eleger cobrando determinada atitude. Pior que isso: será facilmente fisgado por textos pomposos publicados em jornais e revistas de grande circulação e escritos por pessoas com domínio linguístico, mas posições discutíveis, ficando nosso jovem (ou não tão jovem assim) a mercê dos posicionamentos ideológicos da chamada grande mídia, incapaz que ele é de desenvolver conceitos e reflexões próprios.

Dependendo da profissão, mais do que uma questão de afirmação social a capacidade de expressão associada à capacidade linguística é vital. Vejamos o caso do advogado, por exemplo. Como bem salientam Cláudio Moreno e Túlio Martins, em Português para Convencer, "a relação do advogado com a linguagem, no entanto, é muito mais complexa do que a dos outros profissionais. (.) Para o advogado, tudo é linguagem: é esse o único instrumento de que ele dispõe para tentar convencer, refutar, atacar ou defender-se. Também é na linguagem que se concretizam as leis, as petições, as sentenças ou as mais ínfimas cláusulas de um contrato".

Tal máxima vale para jornalistas, publicitários, professores (de todas as áreas), acadêmicos em geral e, por que não, para médicos e administradores que diariamente lidam com pessoas, sendo a comunicação sua principal ferramenta.

Enfim, ter capacidade de expressão, , é fundamental para sermos bons profissionais, bons cidadãos, participarmos ativamente da sociedade. Ter capacidade de expressão é decisivo para convencer, explicar, contar. Ter capacidade de expressão linguística é, em última análise, o que nos diferencia dos outros tantos animais.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 19/3/2012.