quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

A reprovação como processo de aprendizado

Marcelo Spalding

A pior parte do trabalho do professor é ter de reprovar seus alunos. Claro que sempre há na turma aqueles poucos que passaram o semestre (ou ano) conversando, não deram bola para suas atividades, faltaram ao máximo possível de aulas, nunca tocaram num livro ou acessaram um site para estudar. Mas há, sempre há, tantos outros que se esforçaram e, por um motivo ou outro, acabaram reprovando.

Particularmente acredito que a reprovação é importante para o processo de aprendizagem. Não que a reprovação por si só garanta aprendizagem, mas a cultura do "passar de qualquer jeito" é nefasta, pois não prepara o jovem para as reais necessidades da vida e do mercado de trabalho, enganando-o sobre suas reais condições e necessidades.

Por isso, para mim, o grande problema são aqueles professores que fingem ensinar e vão empurrando seus alunos, ou melhor, os problemas de seus alunos com a barriga, para não se incomodarem. Talvez por isso tantos estudantes cheguem com tamanhas deficiências na Universidade, pois nos anos escolares alguns vão passando, ano a ano, com notas medianas e desempenhos medíocres.

Claro que a questão da reprovação na vida escolar é bem diferente da reprovação na universidade, pois na vida escolar há aquele crime de fazer a criança repetir TUDO, ainda que tenha faltado meio ponto em química, por exemplo. Já na universidade a repetição de determinada disciplina pode ser uma oportunidade de realmente aprender determinado conteúdo que pode ser fundamental para o desempenho acadêmico e profissional.

Um agravante na questão da repetência são algumas bolsas que, de forma radical, impedem que o aluno repita uma disciplina sequer. Entendo que o objetivo da bolsa é fazer o aluno estudar e se dedicar, mas acredito que seja normal a repetência em uma ou outra disciplina, deveria haver uma margem de segurança para o aluno dedicado. Talvez essa margem não se aplicasse a estudantes com excesso de faltas ou com excesso de trancamentos, pois acho muito mais honesto o aluno que vai até o fim do curso tentando a aprovação do que aquele que tranca sua matrícula no meio do semestre, perdendo a oportunidade de tentar e ir adiante em sua vida estudantil.

Obviamente não estou defendendo, com isso, aqueles professores sem critérios que repetem sem a devida justificativa e explicação para o aluno ou retêm mais da metade da turma. Minha preocupação é que a cultura da permissividade que tem marcado nossas escolas nos últimos anos tenha incorporado no aluno uma falsa ideia de que ele não precisa estudar, esforçar-se, ler, perguntar, participar. Que basta estar presente e fazer cruzinhas na hora da prova. Até porque, não custa lembrar, escola ou universidade não é um fim em si mesmo, passamos anos em suas dependências porque temos sonhos, objetivos, metas. E não os alcançaremos de qualquer jeito.

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Comentários recebidos

Baita texto Marcelo, contrasta realmente com a realidade que vivi no ensino médio principalmente. Professores relapsos que não nos deram a devida preparação para a universidade.

Apesar de decepcionado comigo mesmo por ter ficado por tão pouco em apenas uma matéria, sei que apesar de parecer um destes alunos que faz bagunça e não estuda tenho meus métodos de estudar. Prefiro estar na aula e ouvir, ou as vezes nem ouvir, apenas ver a matéria e estudar em casa. Aprendi a ser assim quando no ensino média não havia maneira de conseguir literalmente decorar o que os professores queriam passar no quadro, pois para eles era mais fácil o aluno decorar e tirar a nota mínima do que aprender e ser alguém na vida.

O meu maior medo é como tu falou, perder a bolsa do Unipoa por rodar em uma cadeira, também acho muito injusto, seria muito mais simples para mim, ter trancado a cadeira no final do semestre quando me apertei do que chegar agora até o final com a faca no pescoço indo pro tudo ou nada hehehe

Mas bola pra frente, hoje vou sentar antes da prova e dar mais uma estudada para tentar ir bem nesta prova.

Abraço,

Diego Ribeiro

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Marcelo, boa tarde!

Concordo plenamente com a tua manifestação, sou bolsista e por determinação contratual da fonte geradora de minha bolsa, a reprovação em qualquer cadeira significa a perda total da bolsa e com o ônus de não poder concorrer à bolsa novamente pelos próximos 2 anos.

No meu caso, não há margem para o erro ou para problemas pessoais, não há margem para nada, é radical ao extremo. Tenho plena consciência de que concordei com as condicionantes desse contrato, porém, se não concordasse, não teria a oportunidade de tentar. Então aceitei a proposta de passar e não perder a bolsa, estou no 2º semestre aprovado em todas as cadeiras e informo que neste semestre gostaria de ter rodado em pelo menos uma cadeira, passei no "susto", por "sorte", carrego algum conteúdo, mas não aquele que realmente gostaria.

O intuito dessa bolsa é formar a "Excelência", formar os melhores, se eu chegar ao fim do curso utilizando essa bolsa creio que estarei numa "EXCELÊNCIA" de pessoas que fizeram de tudo para "PASSAR" mesmo que no "SUSTO".

Não ganhei notas, não pedi notas a nenhum professor e informo que todas as minhas notas foram obtidas através do meu estudo, dedicação e ajuda de alguns colegas que se prontificaram em me ajudar nos finais de semana e antes ou depois do horário de aula.

Concluindo: com dedicação, esforço, força de vontade e passando por cima de problemas pessoais é possível passar, mas algumas vezes por SUSTO, SORTE e NÃO por QUALIDADE, isso só prova que a EXCELÊNCIA prezada pela fonte geradora de minha bolsa não existe!

P.S. Peço desculpas pelas vírgulas, pontos e algumas concordâncias verbais, colocadas indevidamente, não queria perder a oportunidade de relatar meu caso e acabei escrevendo apressadamente.

Abraços

André S. Aguiar

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Boa noite professor!

Agradecemos muito pelo seu carinho e, principalmente, pela sua demonstração de amizade. Hoje em dia, atitudes assim são raríssimas, e por isso mesmo, muito especiais. Agradeço muito o carinho e o respeito com que o Senhor sempre tratou meu marido. Sabíamos que não seria fácil, pois fazia muitos anos que ele não tinha contato com os estudos. Afinal, um rapaz que estudou na escola rural de Lajeado e que terminou o segundo grau fazendo supletivo, não teria a mesma facilidade de aprendizado. Vou fazer o possível para ajudar o Valdir nessa nova etapa, no curso de Direito, estudaremos juntos e tenho certeza de que o Senhor vai se orgulhar, e muito, do seu ex-aluno. Adoraria tê-lo conhecido, mas creio que não faltará oportunidade! Um feliz natal e um 2012 cheio de realizações! Muito, muito, obrigada mesmo, do fundo do coração!

Abraços, Gesilane e Valdir Karsek

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Muito interessante!
Apoio esta ideia! Os estudantes têm esta visão de não existir necessidade alguma de ler, se empenhar, dedicar tempo, sacrificar-se em algumas fases para lá em diante obter sucesso. O índice de reprovação na OAB, em destaque na mídia, é muito alto, e este fator define-se pelo fato de os alunos colarem, levarem as aulas, as matérias e até mesmos as provas na brincadeira. Reprovar, talvez, esta palavra seja inexistente para muitos, mais eis aí uma realidade.

Att.
Tatiara Muniz

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Obrigado pelo envio do texto. Lembrei-me dele ontem, quando minha mulher, professora de Português, teve que aprovar, no conselho de classe, seis alunos dos 11 que estavam reprovados, porque "onde já se viu um aluno rodar só por causa de uma disciplina, mesmo que seja Português". Enquanto isso, outros alunos saem do colégio indo atrás, justamente, de educação mais efetiva, cansados de terem que dividir a sala com quem já deveria ter ficado para trás.

Luiz Eduardo

Um comentário:

  1. Pois é, Marcelo! Concordo contigo em vários aspectos. Teu discurso aponta, em última instância, para a própria obsolescência do sistema atual de ensino. Urge um caminho do meio entre a intransigência e a permissividade na discussão do caráter reprobatório do aluno (e, por extensão [não é?!] do próprio professor!). Creio que um bom início seria justamente uma discussão semântica dos termos "repetir" e "reprovar" (o primeiro, no meu ponto de vista, mais relacionado ao processo dialético de "eterno retorno" [não necessariamente nietzschiano]; e o segundo com uma carga mais negativa, remetendo ao fracasso e à frustração). Ou seja, é preciso - reitero -repensar a Educação como um processo cíclico de ir e vir, num constante devir, e não como um processo linear e cartesiano.

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