quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O iPad não é coisa do nosso século

Marcelo Spalding

Parece que faz mais tempo, mas agora em janeiro o iPad completa recém dois anos de existência, pois seu lançamento mundial foi em 27 de janeiro de 2010. No Brasil, tem pouco mais de um ano, pois foi lançado em dezembro de 2010. Mas o sucesso foi tão estrondoso que muitos já têm o seu iPad e já não sabem como poderiam viver sem ele.

O curioso, porém, é que o iPad não é uma revolução tão grande como se pensa. Pesquisando na internet mesmo você descobrirá que computadores em forma de tabuleta são desenvolvidos desde antes da popularização do PC, como o Dynabook, lançado em 1968 por Alan Kay, um computador portátil desenvolvido para crianças, similar a um caderno, com memória suficiente para 500 páginas de texto ou áudio.



A própria Apple, em 1979, já havia lançado um dispositivo para o Apple II que permitia aos usuários desenhar com uma caneta stylus com fio e transferir esses traços digitalizados para o seu computador. Em um anúncio da época, a Apple descrevia o produto como "uma forma fantástica com técnicas e ferramentas fáceis de usar para criar e exibir imagens digitais".



Ednei Procópio, em O livro na era digital (Giz Editorial, 2010, 230 p.), dedica um capítulo inteiro à história dos tablets e dos e-readers, mostrando que o iPad e o Kindle são frutos de anos de pesquisas, tentativas e erros. O autor, entretanto, começa esse histórico pelo WebPAD, da empresa de semicondutores National Semiconductor, apontado por Procópio como um "um novo conceito em termos de computação pessoal portátil, uma espécie de notebook sem os teclados, que serviria basciamente para navegar na Web". O WebPAD não chegou a tornar-se reconhecido no mercado, mas a partir dele a Microsoft "inventou", ainda em 2001, mesmo ano em que a Apple lançava o iPod, o Tablet PC.

"A solução da Microsoft não era na verdade um PC, mas um conceito 'novo', desenvolvido para encorajar as empresas OEMs a construírem equipamentos de 'nova' geração. (.) A chave para o Tablet PC era uma caneta e um monitor de cristal líquido touch screen, que possibilitariam aos usuários escrever na tela como no papel, igualzinho a um WebPAD. O Tablet PC original vinha com um editor de textos [baseado no MS Word] que permitia apagar, inserir, copiar e colar anotações, de forma similar aos ASCII que são editados em computadores convencionais. Para nós, que nos interessamos por eBooks, ele só vai ter uma utilidade eficiente clara: a da leitura. Igual ao iPad? Sim", afirma Procópio.

É difícil dizer por que o tablet da Microsoft, lançado dez anos antes do iPad, não chegou a movimentar o mercado de tecnologia e nem mesmo o mercado editorial, já que, segundo Procópio, "a tela TFT de cristal líquido era a melhor coisa que se pode pensar em termos de leitura de livros eletrônicos [.], melhor que o papel". O autor menciona, superficialmente, que o impeditivo sempre foi o tamanho e a duração da bateria, e chama a atenção para uma questão cultural: "quem tinha um celular, um Palm, um notebook e um computador de mesa não ia ver utilidade em seu novo aparelho. A não ser os que eles chamam de hard-users e nerds, com muita grana (será que nós estamos falando dos applemaníacos?)".

Podemos, contudo, apontar alguns fatores para esse sucesso tão rápido do iPad se comparado a seus antecessores. Em primeiro lugar, um grande diferencial do iPad em relação ao tablet da Microsoft e outros é a iTunes e a AppStore. Só para se ter uma ideia, até meados de 2011 já eram mais de 500 mil aplicativos divididos em categorias como negócios, educação, entretenimento, saúde, finanças, medicina, estilo de vida, música, navegação, fotografia, notícias, referências, produtividade, esportes, utilidades, viagens, tempo, redes sociais, livros.

Dessa forma, o iPad tornou-se em pouco tempo não um aparelho a mais para aficcionados por tecnologia ou nerds applemaníacos, como ironicamente afirma Procópio, e sim um equipamento capaz de centralizar diversas funções num só lugar, de agenda de compromissos a leitor de revistas e jornais, de GPS a locadora de filmes. Um equipamento do qual ninguém sentia falta antes de conhecer, mas sem o qual agora não se consegue ficar.

Ocorre que Steve contrariava uma das regras básicas do marketing, a da necessidade de se ouvir o público-alvo. Ele, ao contrário, concentrava-se na experiência do usuário: "como é que eu posso perguntar às pessoas como um computador baseado em uma interface gráfica deveria ser quando elas não têm a menor ideia do que seja um computador baseado em uma interface gráfica?". A este respeito, Jobs costuma usar uma atribuída a Henry Ford: "se eu perguntasse a meus clientes o que eles queriam, teriam respondido que era um cavalo mais rápido".

É um exagero, portanto, afirmar que o iPad seja revolucionário e inédito, mas você pode continuar dizendo que ele é inovador e foi o responsável pela criação de um efetivo mercado de tablets. O próprio Jobs diz que "criatividade é apenas conectar as coisas". E conectando o modelo de negócios bem sucedido do iPod com as experiências de um hardware portátil e sem teclado, a Apple mudou o modo como o usuário lida com seu computador, tirando-o da mesa do quarto ou do escritório para o sofá, a cama, a fila de espera, o carro, o ônibus, a escola...

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 22/12/2011.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

A reprovação como processo de aprendizado

Marcelo Spalding

A pior parte do trabalho do professor é ter de reprovar seus alunos. Claro que sempre há na turma aqueles poucos que passaram o semestre (ou ano) conversando, não deram bola para suas atividades, faltaram ao máximo possível de aulas, nunca tocaram num livro ou acessaram um site para estudar. Mas há, sempre há, tantos outros que se esforçaram e, por um motivo ou outro, acabaram reprovando.

Particularmente acredito que a reprovação é importante para o processo de aprendizagem. Não que a reprovação por si só garanta aprendizagem, mas a cultura do "passar de qualquer jeito" é nefasta, pois não prepara o jovem para as reais necessidades da vida e do mercado de trabalho, enganando-o sobre suas reais condições e necessidades.

Por isso, para mim, o grande problema são aqueles professores que fingem ensinar e vão empurrando seus alunos, ou melhor, os problemas de seus alunos com a barriga, para não se incomodarem. Talvez por isso tantos estudantes cheguem com tamanhas deficiências na Universidade, pois nos anos escolares alguns vão passando, ano a ano, com notas medianas e desempenhos medíocres.

Claro que a questão da reprovação na vida escolar é bem diferente da reprovação na universidade, pois na vida escolar há aquele crime de fazer a criança repetir TUDO, ainda que tenha faltado meio ponto em química, por exemplo. Já na universidade a repetição de determinada disciplina pode ser uma oportunidade de realmente aprender determinado conteúdo que pode ser fundamental para o desempenho acadêmico e profissional.

Um agravante na questão da repetência são algumas bolsas que, de forma radical, impedem que o aluno repita uma disciplina sequer. Entendo que o objetivo da bolsa é fazer o aluno estudar e se dedicar, mas acredito que seja normal a repetência em uma ou outra disciplina, deveria haver uma margem de segurança para o aluno dedicado. Talvez essa margem não se aplicasse a estudantes com excesso de faltas ou com excesso de trancamentos, pois acho muito mais honesto o aluno que vai até o fim do curso tentando a aprovação do que aquele que tranca sua matrícula no meio do semestre, perdendo a oportunidade de tentar e ir adiante em sua vida estudantil.

Obviamente não estou defendendo, com isso, aqueles professores sem critérios que repetem sem a devida justificativa e explicação para o aluno ou retêm mais da metade da turma. Minha preocupação é que a cultura da permissividade que tem marcado nossas escolas nos últimos anos tenha incorporado no aluno uma falsa ideia de que ele não precisa estudar, esforçar-se, ler, perguntar, participar. Que basta estar presente e fazer cruzinhas na hora da prova. Até porque, não custa lembrar, escola ou universidade não é um fim em si mesmo, passamos anos em suas dependências porque temos sonhos, objetivos, metas. E não os alcançaremos de qualquer jeito.

------

Comentários recebidos

Baita texto Marcelo, contrasta realmente com a realidade que vivi no ensino médio principalmente. Professores relapsos que não nos deram a devida preparação para a universidade.

Apesar de decepcionado comigo mesmo por ter ficado por tão pouco em apenas uma matéria, sei que apesar de parecer um destes alunos que faz bagunça e não estuda tenho meus métodos de estudar. Prefiro estar na aula e ouvir, ou as vezes nem ouvir, apenas ver a matéria e estudar em casa. Aprendi a ser assim quando no ensino média não havia maneira de conseguir literalmente decorar o que os professores queriam passar no quadro, pois para eles era mais fácil o aluno decorar e tirar a nota mínima do que aprender e ser alguém na vida.

O meu maior medo é como tu falou, perder a bolsa do Unipoa por rodar em uma cadeira, também acho muito injusto, seria muito mais simples para mim, ter trancado a cadeira no final do semestre quando me apertei do que chegar agora até o final com a faca no pescoço indo pro tudo ou nada hehehe

Mas bola pra frente, hoje vou sentar antes da prova e dar mais uma estudada para tentar ir bem nesta prova.

Abraço,

Diego Ribeiro

----------

Marcelo, boa tarde!

Concordo plenamente com a tua manifestação, sou bolsista e por determinação contratual da fonte geradora de minha bolsa, a reprovação em qualquer cadeira significa a perda total da bolsa e com o ônus de não poder concorrer à bolsa novamente pelos próximos 2 anos.

No meu caso, não há margem para o erro ou para problemas pessoais, não há margem para nada, é radical ao extremo. Tenho plena consciência de que concordei com as condicionantes desse contrato, porém, se não concordasse, não teria a oportunidade de tentar. Então aceitei a proposta de passar e não perder a bolsa, estou no 2º semestre aprovado em todas as cadeiras e informo que neste semestre gostaria de ter rodado em pelo menos uma cadeira, passei no "susto", por "sorte", carrego algum conteúdo, mas não aquele que realmente gostaria.

O intuito dessa bolsa é formar a "Excelência", formar os melhores, se eu chegar ao fim do curso utilizando essa bolsa creio que estarei numa "EXCELÊNCIA" de pessoas que fizeram de tudo para "PASSAR" mesmo que no "SUSTO".

Não ganhei notas, não pedi notas a nenhum professor e informo que todas as minhas notas foram obtidas através do meu estudo, dedicação e ajuda de alguns colegas que se prontificaram em me ajudar nos finais de semana e antes ou depois do horário de aula.

Concluindo: com dedicação, esforço, força de vontade e passando por cima de problemas pessoais é possível passar, mas algumas vezes por SUSTO, SORTE e NÃO por QUALIDADE, isso só prova que a EXCELÊNCIA prezada pela fonte geradora de minha bolsa não existe!

P.S. Peço desculpas pelas vírgulas, pontos e algumas concordâncias verbais, colocadas indevidamente, não queria perder a oportunidade de relatar meu caso e acabei escrevendo apressadamente.

Abraços

André S. Aguiar

------

Boa noite professor!

Agradecemos muito pelo seu carinho e, principalmente, pela sua demonstração de amizade. Hoje em dia, atitudes assim são raríssimas, e por isso mesmo, muito especiais. Agradeço muito o carinho e o respeito com que o Senhor sempre tratou meu marido. Sabíamos que não seria fácil, pois fazia muitos anos que ele não tinha contato com os estudos. Afinal, um rapaz que estudou na escola rural de Lajeado e que terminou o segundo grau fazendo supletivo, não teria a mesma facilidade de aprendizado. Vou fazer o possível para ajudar o Valdir nessa nova etapa, no curso de Direito, estudaremos juntos e tenho certeza de que o Senhor vai se orgulhar, e muito, do seu ex-aluno. Adoraria tê-lo conhecido, mas creio que não faltará oportunidade! Um feliz natal e um 2012 cheio de realizações! Muito, muito, obrigada mesmo, do fundo do coração!

Abraços, Gesilane e Valdir Karsek

------

Muito interessante!
Apoio esta ideia! Os estudantes têm esta visão de não existir necessidade alguma de ler, se empenhar, dedicar tempo, sacrificar-se em algumas fases para lá em diante obter sucesso. O índice de reprovação na OAB, em destaque na mídia, é muito alto, e este fator define-se pelo fato de os alunos colarem, levarem as aulas, as matérias e até mesmos as provas na brincadeira. Reprovar, talvez, esta palavra seja inexistente para muitos, mais eis aí uma realidade.

Att.
Tatiara Muniz

------

Obrigado pelo envio do texto. Lembrei-me dele ontem, quando minha mulher, professora de Português, teve que aprovar, no conselho de classe, seis alunos dos 11 que estavam reprovados, porque "onde já se viu um aluno rodar só por causa de uma disciplina, mesmo que seja Português". Enquanto isso, outros alunos saem do colégio indo atrás, justamente, de educação mais efetiva, cansados de terem que dividir a sala com quem já deveria ter ficado para trás.

Luiz Eduardo

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Os critérios do Google

Marcelo Spalding

Uma das perguntas mais frequentes entre os profissionais web é: quais são os critérios do Google para classificar um site em seus mecanismos? Como faço para me inscrever?

Bem, primeiro, o Google tem um robô, ou milhares, que fazem periodicamente uma varredura nos sites da web, então essa identificação e classificação são automáticas. E como é periódica, a posição do seu site varia de acordo com a classificação que ele recebe.

Há quem diga que o Google utilize mais de 200 critérios para analisar um site e, a partir desses, atribuir uma pontuação a cada um dos sites selecionados. Com isso, o Google apresenta nas primeiras posições aqueles sites que têm maior pontuação e, quanto menor a pontuação do site, pior a classificação dele.

Para não fugir da resposta, vejamos aqui alguns dos critérios mais importantes.

1. O domínio: é muito importante o domínio do site, então uma busca por Confidentia, por exemplo, deve retornar primeiro o www.confidentia.com.br (no Brasil). Isso evidencia a importância de se ter um domínio relevante para a empresa, e até de se adquirir mais de um domínio (.com.br, .com), evitando que um concorrente adquira um domínio semelhante.

2. O título e as meta-tags: o título do site é extremamente importante na busca, por isso sempre é bom colocar o nome da empresa, o local da empresa e algumas palavras-chave. Não adianta colocar centenas delas, há um limite e quanto menos, mais o Google irá considerar relevante. Vale o mesmo para as meta-tags (informações que ficam escondidas no site), como descrição, idioma, palavras-chave. Também é importante que o título da página altere de acordo com o conteúdo dela, reproduzindo, por exemplo, o título da notícia.

3. Conteúdo relevante e atualizado: um site com mais conteúdo e conteúdos mais relevantes e atualizados será melhor indexado, isso é um fato conhecido. E o Google cada vez mais incentiva essa classificação qualitativa (há pouco inaugurou a possibilidade do próprio usuário ranquear os sites).

4. Troca de links: um dos segredos do ranqueamento do Google é que quanto mais páginas linkarem para o seu site, melhor classificado ele estará. Então a troca de links é uma prática extremamente saudável para qualquer site, assim como conteúdos relevantes que sejam linkados em outros sites e blogs.

5. Programação otimizada: há diversas questões de programação que interferem nos robôs do Google. A mais importante delas é que o Google (ainda) não varre arquivos Flash (SWF), então um site feito totalmente em Flash terá mais dificuldades de ser encontrado do que um site em HTML. Outras, como a criação de um SiteMap, devem ser solicitadas ao seu programador.

Do mais, a lição parece ser que quanto melhor um site, melhor indexado ele estará, então não acredite em soluções mágicas e não trabalhe apenas olhando para o Google: invista num site de qualidade, com conteúdo interessante e atualizado, e o resultado virá paulatinamente.