segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A cabeça de Steve Jobs

Marcelo Spalding

Repita-se um clichê: Steve não morreu. Ou melhor, não poderia morrer. O homem que revolucionou o mundo dos computadores pessoais, depois o cinema de animação e finalmente reinventou a forma de toda uma geração de ouvir música, lidar com seu aparelho celular, ler livros, sites, revistas e jornais e navegar na internet não poderia morrer. Ainda que fosse este homem audacioso, ríspido, meticuloso, egoísta, individualista, este homem não poderia morrer. Mas dia 05 de outubro deste ano, com apenas 56 anos, Steve Jobs morreu.

O legado de Jobs é imensurável e só será sentido ao longo das próximas décadas. Alguns um tanto exagerados já o compararam a Leonardo da Vinci. Outros nem tão exagerados, a Thomas Edison. O pessoal do design diz que Jobs está para o design assim como Henry Ford esteve para a produção. O fato é que há poucas empresas na história capazes de mobilizar uma multidão tão grande de fiéis – e outra ainda maior de clientes – e muito dessa paixão tinha a ver com o carisma do grande líder falecido neste outubro.

Bem, mas esta coluna não é uma homenagem a Jobs nem a retomada de sua biografia, tantas outras assim são escritas quando morre um ídolo (sim, Jobs conseguiu tornar-se ídolo num tempo de Ronaldinhos e Lady Gagas, um ídolo raro para a geração digital). Este texto vai tratar do melhor livro publicado sobre Jobs no Brasil até agora, “A cabeça de Steve Jobs” (Agir, 284p.).

A obra é uma biografia não-autorizada (particularmente sempre desconfio de biografias autorizadas) escrita por um jornalista muito bem informado a respeito da Apple, Leander Kahney, que consegue evitar a louvação a Jobs, retomando algumas críticas e episódios que não estariam numa biografia autorizada, mas também respeitando o tamanho do biografado e sua genialidade sem par no mundo do design e da tecnologia: “Jobs dirige a Apple com uma mistura peculiar de arte intransigente e soberbo talento para negócios. Ele é mais um artista do que um homem de negócios, mas tem a brilhante capacidade de capitalizar sobre suas criações. (…) Jobs pegou seus interesses e os traços de sua personalidade – obsessão, narcicismo, perfeccionismo – e transformou-os nas marcas registradas de sua carreira.”

O que incomoda no livro é um viés de negócios que poderia ser suprimido pelo bem do texto (não sei se das vendas). Já na capa o subtítulo é “as lições do líder da empresa mais revolucionária do mundo”. E no final de cada capítulo temos um pueril “Lições de Steve”, reduzindo complexos pensamentos em meia dúzia de palavras para serem xerocadas por executivos mal preparados e distribuídas entre os seus funcionários.

Outro ponto fraco do livro, mas aí inerente a uma obra escrita como essa, é que quando Kahney publicou a edição atual o iPhone era apenas uma grande promessa recém lançada e o iPad não existia nem na imaginação do autor (talvez na de Jobs), sendo o fenômeno iPod sua principal referência para louvar o ídolo nesse retorno estrondoso ao mundo da tecnologia.

Jobs, enfim, merece uma biografia mais consistente, que traga mais traços de sua personalidade criativa e menos de seus arroubos gerenciais (assim como merece um bom filme, pelo menos do naipe de “A Rede Social”, pois nem se compara a biografia de Steve com a de Mark). E sem dúvidas muitas serão escritas a partir de agora. Enquanto isso, porém, o trabalho de Leander Kahney permite que os milhões de órfãos aproximem-se de seu ídolo através das páginas do livro, conhecendo-o um pouco melhor. E lamentem, a cada página, que Steve tenha morrido. Há homens que não poderiam morrer.

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