sábado, 27 de agosto de 2011

A Jornada de Literatura de Passo Fundo


Marcelo Spalding

Há muitos eventos e instituições que promovem o livro, em geral com o interesse de fomentar o que se chama de economia do livro, ou seja, de vender mais livros. São feiras, salões, bienais, todos muito badalados. Há outros eventos, porém, em que o grande objetivo é fomentar não necessariamente o livro, mas a leitura, a literatura, independente de suporte. As festas literárias são as mais famosas, mas há um desses eventos que é realizado dentro do campus de uma universidade privada do interior do Rio Grande do Sul e nesse ano completou 30 anos, reafirmando sua vitalidade e importância: a Jornada de Literatura de Passo Fundo.


A Jornada surgiu de uma provocação de Josué Guimarães à professora Tânia Rösing, da UPF, no longínquo ano de 1981. Segundo o site do evento, o propósito se manteve nesses 30 anos: "a formação de um leitor que priorize o texto literário, mas que também possa se constituir em um intérprete das linguagens veiculadas em diferentes suportes e das características peculiares das várias manifestações culturais". Na primeira jornada o público era de 750 participantes. Hoje já são mais de 30 mil.


Para os autores convidados, a Jornada é uma grande oportunidade de conviver com grandes artistas contemporâneos, hospedando-se no mesmo hotel e dividindo com eles os mesmos restaurantes. Nesse ano, fui convidado da Jornada, juntando-me a mais de 800 escritores e pesquisadores que, ao longo desses 30 anos, já participaram das Jornadas Nacionais de Literatura, das Jornadinhas e dos demais eventos paralelos que ocorrem durante a movimentação cultural.


Lá em Passo Fundo, além de falar sobre oficinas de criação literária em uma mesa com os mestres Charles Kiefer, Jane Tutilian, Luís Augusto Fischer e Luiz Antonio de Assis Brasil (hoje também Secretário de Cultura do Rio Grande do Sul), conheci poetas como Ignácio de Loyola Brandão e Affonso Romano Sant'Ana, fui apresentado aos confundíveis e excelentes Irmãos Caruso, apertei a mão de Pierre Lévy, vi de perto o assédio ao global Edney Silvestre, além de tomar um inesquecível café da manhã bem em frente a Humberto Gessinger, vocalista do Engenheiros do Hawaii que hoje está arrebentando com Duca numa dupla chamada Pouca Vogal. Ele, naquela manhã, foi meu aliado gremista contra as piadas coloradas de Fischer.


Evidentemente esse convívio se reflete na produção e na divulgação de autores locais, ampliando a importância da Jornada para além dos impressionantes números de público, mídia e venda. Nesse sentido, deve-se reconhecer a acertada opção da Jornada por nomes de peso (Ziraldo e Mauricio de Sousa, por exemplo, são figurinhas carimbadas do evento, sem contar a histórica vinda de Chico Buarque, em 2009), custem o que custarem, opção que causou alguma polêmica em nosso Estado, mas que preserva a intensa e renovada presença da mídia e, por que não, do público.


Outro aspecto interessante da Jornada é o fato de ela ser organizada por uma Universidade, mas sem o ranço de um evento universitário. Com isso, temos a cada edição temas de enorme interesse público, mesas muito bem formadas e a presença de pesquisadores importantes, não tão conhecidos pelo grande público, mas presenças constantes nas bibliografias dos estudiosos de literatura. São pesquidadores, professores universitários, doutores e pós-doutores do Brasil e do exterior.


Nesta 14ª Jornada, que ocorreu em agosto de 2011, estiveram em Passo Fundo nomes como os portugueses Gonçalo Tavares e Tatiana Salem, os argentinos Alberto Manguel e Beatriz Sarlo, os franceses Roger e Anne-Marie Chartier e o tunisiano Pierre Lévy, além dos nacionais Mauricio de Sousa, Ziraldo, Tony Bellotto, Elisa Lucinda, Edney Silvestre, Eliane Brum, Alckmar dos Santos e tantos outros. O tema escolhido atesta a desvinculação do evento com o tal mercado livreiro: "Leitura entre nós: redes, linguagens e mídias".


O tema, aliás, provocou acalorada discussão justamente na mesa de encerramento, quando o escritor e ensaísta argentino Alberto Manguel discutiu com a editora escocesa Kate Wilson depois que ela apresentou um aplicativo para crianças durante o debate "Formação do Leitor Contemporâneo". Segundo release da própria Jornada, após a editora mostrar um aplicativo interativo da Cinderela, Manguel pediu a palavra e falou, enfaticamente: "Eu não sabia que faria parte dessa discussão a deformação do leitor defendida com argumentos comerciais, de vender este ou aquele produto. O livro não é um produto comercial. É nocivo que uma crianças de 3 ou 4 anos seja introduzida à leitura dessa forma, aprendendo a ler na tela."


Kate, depois de recitar um poema de William Blake e dizer que também gostava de literatura, disse: "Eu não me importo com o que as crianças leem, contanto que elas leiam e tenham prazer. Isso as torna melhores." Mais tarde, ela acrescentaria que "hoje, quando as crianças passam tanto tempo em frente às telas, é preciso criar literatura para essa plataforma."


Além da Jornada, desde 2001 ocorre também a Jornadinha, já em sua sexta edição. A Jornadinha, segundo o site do evento, "oferece aos leitores a oportunidade de interagir com os autores e conhecer mais sobre suas obras, por meio de conversas com escritores, contação de histórias, feira de livros, sessões de autógrafos e espetáculos teatrais e musicais. Propõe ainda uma reflexão sobre o processo de aprendizado, leitura e interconexões em face do crescimento da utilização de novas ferramentas tecnológicas, em uma sociedade que cada vez mais se comunica e transmite informações em rede."


Bienal, a Jornada só volta a acontecer em 2013, mas fica a sugestão para que outras universidades conheçam esse fantástico projeto de promoção da LEITURA e abram suas portas para eventos comunitários como esse.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 27/8/2011.

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