quarta-feira, 27 de julho de 2011

A História de Alice no País das Maravilhas

Marcelo Spalding

Esses dias estava perambulando pela Livraria Saraiva, aqui em Porto Alegre, quando encontrei o belo livro Contos que a Vovó Lê Pra Mim, da Disney. O livro, de 2009, tem 320 páginas e custa R$ 59,00. A edição tem as bordas douradas e traz na capa inconfundíveis personagens ilustrados no traço da Disney, como Dumbo, Pequena Sereia, Nemo e Bambi. Abri o exemplar e, primeiro, me surpreendi com a mistura de histórias, pois temos desde clássicos como Branca de Neve até histórias contemporâneas como Rei Leão e Toy Story. Até aí, tudo bem, sinal dos tempos. O que me surpreendeu e provocou esta resenha foi chegar na página de Alice no País das Maravilhas e perceber que não havia nenhuma referência ao nome de Carroll, o autor do livro! Procurei nas páginas iniciais, nas finais, no rodapé, mas nada, Alice no País das Maravilhas estava ali incorporado como um conto clássico, sem autoria, apenas a menção do nome de quem o adaptou.

Curioso, fui até a seção de livros infantis e reparei que há outros casos em que o livro Alice no País das Maravilhas não traz referência ao autor, como na Coleção “Livros Sonoros de Contos Clássicos”, da Editora Ciranda Cultural. Aqui a história de Carroll é reduzida a seis páginas, com ilustrações de tela inteira e o texto, em caixa alta, resumido em um parágrafo. O grande diferencial é que o “leitor”, clicando em botões na lateral do livro, poderá ouvir a narração da história.

Sei que Barthes já escreveu sobre a morte do autor em meados do século passado, que muito se tem discutido sobre Creative Commons nessa era digital, mas a mim pareceu que omitir a autoria de um romance como Alice é criminoso, algo como adaptar Hamlet sem citar Shakespeare (ainda que haja dúvidas sobre a existência real de Shakespeare) ou adaptar Dom Quixote sem mencionar Cervantes. Não são edições amadoras, são edições de grandes grupos editoriais vendidas em uma mega-livraria com ação em Bolsa de Valores, e ainda que a omissão da autoria original esteja protegida pela lei, já que o texto caiu em domínio público, atribuo esse descaso ao fato de tratar-se de literatura infanto-juvenil, pois desafio alguém a encontrar edição de Hamlet sem menção a Shakespeare e de Quixote sem o nome de Cervantes.

Alice no País das Maravilhas (em inglês, Alice's Adventures in Wonderland, frequentemente abreviado para Alice in Wonderland) foi publicado em 4 de julho de 1865 por Lewis Carroll, pseudônimo de Charles Lutwidge Dodgson, com ilustrações de John Tenniel. Carroll, segundo o polêmico e exigente crítico norte-americano Harold Bloom, foi o grande mestre da literatura fantástica (ou de fantasia).

A estória (como diria Guimarães Rosa) surgiu em 1962, num passeio de barco pelo rio Tâmisa, quando Charles Dodgson a conta de improviso para entreter as irmãs Lorina, Edith e Alice Liddell. Dois anos mais tarde, Dodgson presenteia Alice com o manuscrito Alice Debaixo da Terra (em inglês, Alice Adventures Under Ground), manuscrito que continha 37 ilustrações feitas pelo próprio autor.

Anos mais tarde, em 1886, este manuscrito seria publicado e hoje está disponível na internet em http://www.gutenberg.org/files/19002/19002-h/19002-h.htm. A edição é primorosa, pois revela todo o trabalho manual de redação e ilustração das páginas. Ao final, há uma fotografia da menina Alice Liddell e um posfacio de Charles Dodgson em que diz jamais ter pensado na publicação do livro quando o escreveu, mas que o incentivo dos amigos para publicá-lo foi de grande valia, em especial pela alegria que o livro leva às crianças, mesmo que doentes. Ele reproduz, inclusive, uma carta que inicia assim: “Gostaria que você enviasse uma felicitação de Páscoa para uma criança muito querida que está morrendo em nossa casa. Ela está enfraquecendo, e Alice iluminou algumas das desgastantes horas de sua doença. Sei que sua carta seria um deleite para ela, especialmente se você escrever ‘Minnie’ no cabeçalho”.

Para a publicação do livro, em 1865, Dodgson ampliou a história de seu manuscrito, mudou o título para o que hoje conhecemos e trocou seus desenhos pelas 42 ilustrações enviadas por John Tenniel. O trabalho completo pode ser acessado em http://ebooks.adelaide.edu.au/c/carroll/lewis/alice/ num e-book produzido pela Universidade de Adelaide. Anos mais tarde, em 1871, Dodgson publica, novamente sob o pseudônimo de Carroll, Alice Através do Espelho e o que encontrou por lá (em inglês, Through the Looking-Glass and What Alice Found There).

Consta que Alice no País das Maravilhas tornou-se mais popular apenas depois do lançamento de sua continuação, que teria vendido mais que o primeiro, mas chama atenção a rapidez com que o livro foi traduzido pela Europa: em 1869 foram lançadas traduções em alemão e francês; em 1870, em sueco; em 1872, em italiano. No Brasil, a primeira tradução é de Monteiro Lobato, publicada em 1938. O prefácio de Lobato para a edição, aliás, é muito curioso: “(…) Ficou famoso o livro entre os povos de língua inglesa. Foi traduzido por toda a parte. Seu autor imortalizou-se. Hoje aparecem em português. Traduzir é sempre difícil. Traduzir uma obra como a de Lewis Carrol, mais que difícil, é dificílimo. Trata-se do sonho duma menina travessa – sonho em inglês, de coisas inglesas, com palavras, referências, citações, alusões, versos, humorismo, trocadilhos, tudo inglês, – isto é, especial, feito exclusivamente para a mentalidade dos inglesinhos”.

Dodgson ainda publicaria, em 1890, The Nursery "Alice", uma adaptação feita por ele próprio com vinte das ilustrações originais de Tenniel, coloridas e ampliadas, e uma nova capa ilustrada por E. Gertrude Thomson. No prefácio dirigido a “qualquer mãe”, Dodgson afirma ter razões para acreditar que “Alice no País das Maravilhas tem sido lido por centenas de crianças inglesas, entre cinco e quinze, também por crianças entre quinze e vinte e cinco, e ainda por crianças entre vinte e cinco e trinta e cinto (…) Minha ambição agora é ser lido por crianças de zero a cinco”. A edição está disponível na web em http://www.aliang.net/literature/the_nursery_alice/.

Em 1898, aos 65 anos, Charles Lutwidge Dodgson, ou simplesmente Lewis Carroll, morre na casa de sua irmã, em Londres. Provavelmente sem imaginar que cinco anos depois seria produzido o primeiro filme baseado em Alice, que cinquenta anos depois seria lançada a primeira animação de Alice, que dois anos depois uma empresa que sequer existia quando do seu falecimento, a Disney, levaria a história para todos os lares, que mais de cem anos após sua morte um grande diretor de Hollywood faria uma versão em 3D de sua história e que centenas de adaptações e versões seriam escritas e publicadas, algumas sequer mencionando seu nome.

Marcelo Spalding

terça-feira, 19 de julho de 2011

Yes, nós queremos preservar a língua portuguesa

Marcelo Spalding

Salutar a preocupação do deputado Raul Carrion em “proteger o nosso idioma”, segundo suas próprias palavras. Realmente nosso idioma precisa de proteção, mas não contra os estrangeirismos, inerentes a qualquer cultura, e sim ao mau uso e ao parco entendimento que a população média tem dele, fruto de uma educação falha em todos os níveis.

No ensino básico, minha sobrinha formou-se ano passado em uma Escola Estadual de Porto Alegre e em pleno último ano de ensino a disciplina de Língua Portuguesa passou de seis para quatro períodos semanais, pois era preciso acomodar dois períodos de língua espanhola, que se somavam aos dois períodos de língua inglesa. Ou seja, às vésperas do vestibular, a escola subtraiu um terço da quantidade de aulas de língua portuguesa, igualando seu espaço ao ensino de língua estrangeira.

No Ensino Superior, um aluno da UFRGS se forma em Jornalismo, História, Enfermagem e tantos outros cursos sem a necessidade de frequentar uma única disciplina obrigatória de Língua Portuguesa ou Produção Textual, algo que se repete de forma vergonhosa em diversas instituições particulares. Como a língua é fundamental para o crescimento pessoal e profissional de qualquer cidadão, tal descaso promove uma enorme procura por palestras, grupos e cursinhos de língua portuguesa, ampliando sobremaneira o fosso entre os que podem estudar e os que precisam estudar.

Dessa forma, poderia o deputado Carrion voltar à tribuna e exigir um ensino da língua portuguesa de qualidade nas escolas estaduais e nas universidades públicas. Poderia, também, propor a criação de cursos de interpretação e redação de textos, patrocinados pela Assembleia. Poderia, ainda, investir na qualificação dos docentes, insistir pelo pagamento do piso aos professores. Poderia, enfim, lutar pela preservação do idioma onde ele é mais necessário: no dia a dia de seus falantes.

O certo e o errado no ensino da Língua Portuguesa

Marcelo Spalding

Chegou aos noticiários nacionais o dilema de cada professor de língua portuguesa: diante das novas teorias linguísticas e, em especial, da sociolinguistica, como lidar com variações como “nós pega” ou “os carro” em sala de aula? Simplesmente apontar o erro seria reforçar o que tem se chamado de preconceito linguístico, mas deixar de fazê-lo poderia colocar a disciplina num limbo perigoso onde o vale-tudo acaba com a especificidade da disciplina.

O tema ganhou relevância graças à polêmica provocada pelo livro Por uma Vida Melhor, da Coleção Viver, Aprender – adotado pelo Ministério da Educação (MEC) e distribuído pelo Programa Nacional do Livro Didático para a Educação de Jovens e Adultos (PNLD-EJA) a 484.195 alunos de 4.236 escolas. Confira um trecho do livro, publicado pela Editora Global:

“Você pode estar se perguntando: ‘Mas eu posso falar ‘os livro’?’ Claro que pode. Mas fique atento, porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico (…) Muita gente diz o que se deve e o que não se deve falar e escrever, tomando as regras estabelecidas para a norma culta como padrão de correção de todas as formas linguísticas.”

Professores respeitados, como Claudio Moreno, foram enfáticos na defesa do ensino do português chamado padrão, reafirmando que o papel da escola é ensinar o futuro cidadão a se utilizar da língua escrita culta, “cujas potencialidades espantosas aparecem na obra de nossos grandes autores”. Para Moreno, “os lingüistas sabem que nosso idioma é muito mais amplo do que a língua escrita culta que é ensinada na escola — mas a escola sabe, mais que os lingüistas, que essa é a língua que ela deve ensinar”.

Por outro lado, lingüistas de consistente formação acadêmica, como Pedro Garcez, reiteraram que não é uma questão de certo e errado, mas de adequação: “de certa forma, todos nós brasileiros produzimos frases com falta de concordância. Isso do nosso ponto de vista não é erro, é a linguagem natural. Esse é o português brasileiro.”, afirma o professor da UFRGS.

Claro que a questão é mais profunda do que esses exemplos um tanto grosseiros pegos pela mídia, pois outras tantas construções corriqueiras são erradas do ponto de vista gramatical, mas continuam sendo repetidas por pessoas das mais variadas classes sociais e pela própria mídia. Exemplos? “Tu vai”, “duzentas gramas”, “Houveram momentos”, “Me empresta”, “Ele trouxe para mim ver”, “Assisti o show”, etc.

No fundo o que está em jogo é a entrada de novos atores sociais no dia a dia da língua portuguesa, com suas influências e estilos. O paulistano usa “então” no começo de cada frase, um vício de linguagem horrível, mas nem por isso se discrimina o paulistano ou, por outro lado, se usa isso em filmes, novelas e livros didáticos. Mesma coisa o “r” carregado dos cariocas ou o “tu vai” dos gaúchos. Essas são as variações geográficas, por isso não causam tanto furor como as variações sociais, marcas linguísticas de classes ou grupos sociais específicos. Essa variação pode ser de interpretação, léxico, sintaxe e até ortografia (como os sempre criticados “vc” ou “tb” da Era Digital).

E o professor, em sala de aula, faz o quê? Uma das formas de lidar com o problema sem encara-ló de frente tem sido concentrar o trabalho com a Língua Portuguesa em textos, evitando a normatização da gramática e da ortografia. Mas será que, afora os exageros, não é importante que os jovens tenham um conhecimento técnico de sua língua, e não apenas intuitivo, para melhor interpretação, correção, clareza e variação na leitura e na produção textual? Não será importante, especialmente aos futuros profissionais da língua, como comunicadores, advogados, professores de todas as áreas, cientistas sociais, etc, saber onde se utiliza ou não o “a” craseado, a vírgula, a preposição antes do “que”? E não é importante que, para isso, eles saibam pelo menos o que é um sujeito, um verbo, um objeto, um adjunto adverbial? Um adjetivo, um advérbio, um substantivo, um pronome, uma preposição?

Pode parecer espantoso, mas nem sempre eles sabem. Não com facilidade. Vejamos um exemplo bem prático do meu dia a dia em sala de aula, a frase "A expansão desenfreada da cidade é uma grande ameaça para seu desenvolvimento". Para muitos, o verbo é "expansão", o que pode causar grande confusão na hora de concordar o verbo com o sujeito e faria com que muitos escrevessem essa frase com “Há” ou “À” no lugar do “A”. Adiante, poucos percebem que “seu” é um pronome que retoma “a cidade”, ainda que um esteja no masculino e o outro no feminino.

Claro que o mais importante não é a gramatiquice, é que nosso cidadão saiba expressar-se com coerência, coesão e, mais ainda, tenha postura crítica e ideias originais. Também é importante, entretanto, que não sejam sonegadas desse cidadão as regras sociais, incluindo aí o português padrão, pois ali adiante esse desconhecimento pode acabar excluindo, ou, pelo menos, subvalorizando pessoas de alta capacidade e que lutaram muito para reescrever seus destinos.

O papel da escola, enfim, é apresentar e ensinar ao aluno a variante “culta” da língua: aprender ou não, interessar-se ou não por ela, é um direito do aluno, mas se ele precisar dessa variante e não conhecê-la por omissão da escola teremos praticado, sem exagero, um crime. Dos grave.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Último capítulo


Marcelo Spalding

Helena, Nazaré, Maria e Jade saem do trabalho com pressa, carregam pesadas ancas por calçadas quentes, atravessam ruas e gentes, sobem morros. Ligam a televisão, oito e meia. Último capítulo. O sofá é sujo, os gritos são altos, as paredes, poucas e a vila, grande. O trabalho é trabalho, o mundo é assim. Crucifixos tortos, mandamentos decorados. Mas é o último capítulo e calam as crianças num tapa. Torcem. Gritam. Choram. Enfim, sorriem, emocionadas, corações leves. O final foi feliz. O resto, é ficção.

De pai pra filho


Marcelo Spalding

Ele atende. A voz rouca manda descer. E rápido. Desliga antes de ouvir os palavrões. Respira fundo. Ajeita os enfeites sobre a cômoda, põe o revólver entre as calças e o sobretudo. Limpa uma mancha do espelho. Já na porta, calça sapatos pretos recém lustrados. Desce os degraus sem pressa. Ajeita o tapete. Lembra de fazer um sinal da cruz antes de sair para a rua.

Carlos sempre foi um bom pai. É verdade que não conseguiu conversar com o filho sobre sexo nem vestibular, ensiná-lo a jogar futebol, ver sua primeira peça de teatro e nem o rosto da primeira namorada. Mas era um bom pai: bem-sucedido, bem-humorado, bons presentes no aniversário e Natal. Pouco se viam e por isso pouco brigavam. Um dia o jovem pediu um dinheiro. Mil reais.

Ele sai. O carro verde-escuro o espera. Dentro, vê o contorno de um homem. Entra quieto. Um cumprimento seco mostra que já se conhecem. O carro parte deixando marcas no chão. Ele fuma. O cheiro irrita o que dirige. Apaga o cigarro e fica juntando as cinzas da calça. O outro ri. O chama de puto.

Mil reais para Carlos não era nada. Usou o limite de uma das contas. Não pediu nada em troca, mas se sentiu no direito de fazer uma coisa que há anos desejava: arrumar o armário do filho. Começou dobrando as camisetas, ordenando por cores, tamanhos, estações. Depois as cuecas. Jogou algumas fora, estranhou a ausência de camisinhas. Quando chegou nas meias, um susto.

O carro pára. A rua é escura. Descem. Carlos sente frio, esfrega as mãos, vai em frente. O cheiro começa a ficar bom. Seguem até uma porta de ferro. Batem três vezes. Não demora para abrir. Entram quietos. Assustam-se, a porta fecha num estouro. A voz rouca tenta uma piada. Os outros riem, Carlos não. Está preocupado com o suor que começa a sujar suas roupas. Esquecera de pôr desodorante.

Junto com as meias estava o telefone de um velho conhecido de Carlos. Ele não acreditava que o filho estivesse metido naquelas coisas. Não podia acreditar. Hesitou, mas tinha de tomar uma atitude: pegou o carro e foi na boca de fumo. Era lá que comprava o bagulho quando era novo. E lá encontrou o velho conhecido. Mas era tarde. Ninguém sabia do rapaz, tinha desaparecido deixando uma dívida de dez mil.

Os caras notam que o cheiro dele não é o de sempre. Perguntam o que houve. Seus olhos tremem. Alguém fala: – Porra, Carlos, trouxe ou não a grana?

Dizem que o próprio cara da boca de fumo o matou por causa da dívida. Por dois meses Carlos ainda continuou arrumando o armário à espera da sua criança, daria uma lição exemplar àquele moleque. Dividiu os casacos em novos e velhos, escondeu os bonés e os óculos escuros, juntou as calças com as camisas do pijama. Mas Carlos nunca mais viu o filho. E prometeu se vingar: voltaria a consumir o bagulho apenas para se aproximar dos caras e, na primeira chance, matava eles. A mulher não se importou.

Carlos pede para ficar a sós com o chefe, não gosta de fazer negócio com gente em volta. Os outros saem e vem o Cara. Carlos ajeita a calça. O Cara é o único que sorri naquele lugar. Recebe Carlos com um abraço, conta do fuzilamento de um mauricinho que tinha dedado o esquema pra polícia, fala de presos, armas, negócios. Carlos põe a mão na calça para ter certeza de onde está o gatilho. Disfarça, reclama da bainha mal feita. O Cara só responde uma coisa: seu Puto.

Carlos começou comprando o pó e jogando fora, assim ficou amigo de um dos caras. Mas achou melhor usar o pó para fingir melhor. Planejou a vingança em três meses: iria propôr sociedade ao Cara, seu amigo da boca de fumo e, no dia de fechar o negócio, só eles na sala, tiraria do casaco em vez da senha do banco, uma arma. Talvez morresse junto, mas levaria com ele o canalha que matou seu filho.

Agora que o Cara está em sua frente, Carlos hesita. O Cara diz:

– Vi teu filho – traga devagar, olha nos olhos do outro – o moleque tá com a turma do outro lado. Quero que tu saiba porque, se nós precisar, vamos matar ele junto. Virou inimigo, entende?

Três meses foi tempo demais. Devia ter procurado melhor, se importado mais. Não só nos três meses, nos dezoito anos. Carlos tira a arma. O Cara não se assusta. Pensa num fim, mas não pode levar sua vingança adiante. O Cara oferece ajuda. Só vingaria o filho matando a si próprio. O Cara põe a mão no seu ombro. Carlos prefere trocar a arma pelo pó, a vingança pelo vício e a esposa pelo suicídio lento. No inferno daria uma lição no filho. Pelo pó e pela bagunça do armário.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Eutanásia


Marcelo Spalding

Você diz não querer viver, Daniela. Eu sei, foi sua mãe quem me contou. Lágrima nos olhos, voz baixa. Ela estava com o mesmo vestido rosa de quando a conheci, linda e simples e alegre. Você não pode imaginar como fizemos planos. Ela queria tanto uma casa na praia, uma casa em que nos dias de mar alto as ondas regassem os girassóis do pátio. Uma casa cheia de areia, janelas sempre abertas, ventos e muitas cortinas para mostrar a força do vento. Como admirei ela ter conseguido entrar na medicina. Não que eu duvidasse daqueles ossos pequenos, mãos tão suaves e finas, só poderiam ser mãos de anjo e ela só poderia mesmo ser médica. Vibrei com sua aprovação e chorei muito quando ela teve de parar. Neste país os médicos são muitos, são ricos, tem de ser assim. Sua mãe não conseguiu pagar aquele empréstimo. Seu avô nunca mais seria o mesmo.

Mudaram-se para longe de mim. Nos falamos bastante, depois, mas ela nunca levou nossos planos a sério. Conheceu teu pai numa noite, um pouco embriagada, lutando para ser o oposto da adolescente linda e dedicada. Ela teimava em parecer comum. Depois que ele começou a freqüentar a casa, tive que abandoná-la. Você um dia precisa ler as cartas. Nunca entreguei, mas as escrevia com paixão. Fugi para uma cidadezinha do interior e é de lá que soube da notícia.

Não, você não pediu para nascer. Mas como fez bem para sua mãe, você era um pouco daquela onda sobre os girassóis e ela não parava de dizer que jamais teria conhecido teu pai e te concebido não fosse ter largado a Medicina. Começou a acreditar em destino e voltou a acreditar em Deus. Me escreveu para vir no teu batizado. Depois no teu um ano.

Eu sei, você prefere morrer. Você precisa morrer. Já fez sua parte, está cansada. Seu corpo é pequeno, os ossos fracos, o rosto dói, a cabeça. A cabeça... Não, não chore pelos cabelos. O que te faz a menina linda e adorada por todos não são os cachos loiros. Chore de orgulho, se precisa chorar. Chore e reze.

Pedir a Nossa Senhora para ela te levar e deixar tua mãe nessa terra de desilusões... Será que ela agüentaria? Por tanto tempo sonhou contigo e só te tem há oito anos... Não, você não pode deixá-la. Mas eu sei que você precisa, eu sei, a dor é muita. Você e sua mãe são estrelas distantes, muito distantes deste mundo de loucos. Estão se apagando, temores ou tumores estão levando vocês deste covil. Mas não, não se deixe morrer.

O mundo é diferente dos livros que você lê, disso precisa saber. Não há um país das maravilhas e os Pinóquios não são de mentira. Os pequenos príncipes crescem, as cinderelas depois da meia noite não viram abóboras. Mas o mundo precisa de você, sua mãe precisa de você. Não escolhemos a dor, não escolhemos a solidão, nem a perda. Sofreremos todos, dói a todos. Lágrimas aliviam e atormentam. O choro é sincero. A pele branca demais, os ossos aparecem demais. Tua mãe te ama e de tanto amor não sabe se pode ou não atender teu desejo cruel e sincero.

Pediu para eu conversar com você. Contar dos nossos planos e falar sobre o mar, as flores, as coisas boas que te fariam querer viver. Mas eu sei, pequena Daniela, eu sei que é difícil escolher entre a paz ao lado de Nossa Senhora e a dor ao lado dos pais. Mesmo que exista o colo quente e a mão angelical.

Sim, prometo que vou segurar na mão dela.

Não, eles não brigaram por tua causa.

Talvez, talvez ela vá te visitar nos sonhos.

terça-feira, 12 de julho de 2011

A NARRATIVIDADE NO MICROCONTO: ESTUDO NARRATIVO DA OBRA OS CEM MENORES CONTOS BRASILEIROS DO SÉCULO


Marcelo Spalding

A Era da velocidade já fabricou os leitores de manchete, enriqueceu os autores de slogans e espalhou para diversos campos o minimalismo, movimento artístico caracterizado pela extrema simplicidade de forma que, nos anos 1960, ganhou força em Nova York através das artes visuais e se espalhou pelo mundo.

Na literatura, desafiar o tempo do discurso produzindo contos “menores” não é propriamente novidade. Alguns consideram Machado de Assis um precursor pelo seu curto (para a época) Um Apólogo. Outros lembram de Dalton Trevisan, que publicou em 1994 o livro Ah, é?, considerada obra-prima do estilo minimalista. Já o guatemalteco Augusto Monterroso é apontado como autor do mais famoso microtexto, “Quando acordou o dinossauro ainda estava lá”, escrito com apenas trinta e sete letras (Freire, 2005). Mas o que se observa nos últimos anos, aqui no Brasil, é um aumento da produção digital e impressa do que aqui chamaremos microtextos, além da tentativa de definir o miniconto, ou microconto, ou nanoconto, como gênero literário. Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século, livro organizado pelo escritor Marcelino Freire, é uma radicalização enriquecedora para a compreensão, estudo e aceitação – ou não – do novo gênero. Já na apresentação, o organizador explica a proposta e evita a polêmica da categorização:


“[...] resolvi desafiar cem escritores brasileiro, deste século, a me enviar histórias inéditas de até cinqüenta letras (sem contar título, pontuação). Eles toparam. O resultado aqui está. Se ‘conto vence por nocaute’, como dizia Cortázar, então tomá lá.”.

Note que Freire se refere a contos. Ou seja, apesar do subtítulo do livro falar em microcontos, o prefixo micro indica apenas que são contos pequenos, e não a intenção de classificar o microconto enquanto gênero literário próprio. Cerca de um ano depois, na apresentação do livro Contos de Bolso, espécie de versão gaúcha do Cem Menores, Freire já fala em uma “literatura menor” e refere-se ao miniconto como um gênero diferente:

“Uma literatura menor. Por que não? Pequena, magra, enxuta. Como toda boa literatura. Na penúria. Só o osso. [...] Deixemos de conversa. Cortázar já escreveu miniconto. Kafka também, ora essa. Dalton Trevisan é nosso grande mestre [...].”

Mas será possível produzir um conto, “uma estrutura armada de ‘maneira inteligente’, que tira literalmente o máximo do mínimo” (Moscovich, 2005) em apenas cinqüenta letras? Caberá em tão pouco espaço a intensidade, a tensão e o estranhamento propostos por Cortázar?

Edgar Allan Poe, é bem verdade que em outro contexto, ao defender as short stories, já acusasva a valorização dos críticos à extensão de uma obra de nefasta e mal fundada (apud Eikhenbaum, 1971), o que nos previne de eventuais preconceitos em relação ao número de letras. Mas parece consensual que um texto, para reivindicar a natureza de conto, precisa pelo menos ser narrativo, e por isso o presente estudo se concentrará em identifcar narratividade nos textos de Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século. Em encontrando tal propriedade, estará se contribuindo para a classificação destes microtextos no modo narrativo. Vale salientar, entretanto, a busca pela narratividade exime este estudo de atribuir literariedade aos microtextos. Uma anedota, por exemplo, é narrativa sem ser literária (Reis, 2003).

Partimos então para a definição de narrativa, esta mais consensual. Para Genette (1973) “define-se sem dificuldade a narrativa como a representação de um acontecimento ou de uma série de acontecimentos, reais ou fictícios, por meio da linguagem”. Entretanto o próprio Genette, adiante, lembra que as fronteiras da narrativa são tênues.

Evitando a subjetividade na atribuição de narratividade, criamos um mosaico de elementos obrigatórios para um texto narrativo, um mosaico capaz de separar através de critérios o que é narração, o que é descrição, o que é discurso, etc. Não se trata de uma fórmula definitiva, mas da tentativa de lançar algumas bases para o estudo narratológico dos microtextos.

Aristóteles (1966) já afirmava que “sem ação não poderia haver tragédia”. Sem dificuldade se estende o termo tragédia à narração, e assim a presença de AÇÃO é o primeiro elemento essencial ao texto narrativo. Mais tarde Roland Barthes (1973) retoma a importância que os clássicos davam à ação e avança ao afirmar que “não existe uma só narrativa no mundo sem PERSONAGENS”.

Claude Bremond (1973), ao definir narrativa, concordará com ambos e acrescentará a SUCESSÃO e a INTEGRAÇÃO como essenciais para a narratividade:

“Toda narrativa consiste em um discurso integrando uma sucessão de acontecimento de interesse humano na unidade de uma mesma ação. Onde não há sucessão não há narrativa, mas, por exemplo, descrição, dedução, efusão lírica, etc. Onde não há integração na unidade de uma ação, não há narrativa, mas somente cronologia, enunciação de uma sucessão de fatos não relacionados.”


À presença de AÇÃO, PERSONAGENS, INTEGRAÇÃO e SUCESSÃO acrescentamos a TOTALIDADE DE SIGNIFICAÇÃO, lembrada por Greimas (1973), como essencial para a narrativa. E a partir desse pequeno mosaico podemos afirmar, com alguma segurança, que o texto Assim:, de Luís Rufatto, consegue reproduzir em quarenta e seis letras uma narração:

ASSIM:


Ele jurou amor eterno.
E me encheu de filhos.
E sumiu por aí.


A ação está garantida pela presença dos verbos jurar, encher e sumir. A sucessividade das ações é graficamente marcada pela conjunção ‘e’: primeiro a personagem jurou, depois encheu de filhos e depois sumiu. Esta seqüência evidencia, ainda, a integração entre uma ação e outra. Quanto aos personagens, é possível apontar um protagonista (ela, a mãe), que também faz papel do narrador, um antagonista (ele) e os coadjuvantes (filhos). A significação, ainda que leve ao extremo a teoria do iceberg de Hemingway, está preservada na sua totalidade: uma mulher desiludida conta a forma como o marido jurou amá-la para sempre e, depois de mudar sua vida e transformá-la em mãe de várias crianças, sumiu.

Com algum esforço conseguimos inclusive identificar categorias narrativas (Reis 2003): o personagem já foi referido acima, bem como a ação; o espaço é o seio de qualquer família, não sabemos a classe social, apesar de parecer uma família humilde; o tempo da história são os anos que separam a primeira jura de amor do tempo presente, quando o marido já está sumido; o narrador é autodiegético seletivo – para ficar nos conceitos de Reis – contando apenas a sua versão ressentida dos fatos.

Uma hipótese para o sucesso narrativo de Rufatto é que o autor preservou apenas o que Barthes (1973) chama de núcleos da narrativa, descartando catálises, índices e informantes: “os núcleos formam conjuntos acabados de termos pouco numerosos, são regidos por uma lógica, são ao mesmo tempo necessários e suficientes”. Dessa forma, o texto Assim: pode ser ampliado e mesmo transformado em romance, mas não mudará sua essência se forem preservadas as três funções núcleo acima analisadas.

Nem sempre será fácil identificar os elementos narrativos nos microtextos de Cem Menores, ainda que eles estejam presentes, como é o caso do conto de Adrienne Myrtes, sem título:

Caiu da escada e foi para o andar de cima.


A ação está representada pelos verbos cair e ir, e novamente a sucessão é assegurada através da conjunção aditiva ‘e’. Como sabemos, pela tradição literária, que o conto se trata de um conjunto fechado, presumimos o todo de significação, entendendo a locução “ir para o andar de cima” no seu sentido conotativo “morrer”. Aqui percebe-se um narrador heterodiegético, diferente do de Rufatto. Assim, a personagem é desconhecida, não se sabe se homem ou mulher, velha ou nova, gorda ou magra. Mas existe, caiu e foi para o andar de cima.

A grande quantidade de elipses que precisam ser preenchidas pelo leitor explica o porquê desses microtextos serem impensáveis há cem anos atrás. Hoje se tem claro que o autor não é o narrador (Barthes, 1973), que a experiência da leitura é como um jogo (Poe apud Cíntia, 2004) e que no interior da história aparente há uma outra história (Piglia apud Cíntia, 2004). Esse conhecimento acumulado é o que nos faz preencher as lacunas com o máximo possível de confiança, captando a significação do texto e absorvendo deste algo além de prazer estético. Todorov (1973) chega a afirmar que “o sentido (ou função) de um elemento da obra é sua possibilidade de entrar em correlação com outros elementos desta obra e com a obra inteira”.

Mas mesmo cientes de que a literatura é um continuum e buscando preencher as lacunas do texto, nos depararemos com casos dentro da própria coletânea em que é impossível apontar qualquer um dos elementos da narrativa, inclusive a significação.

– Com este dedo, viu?

A frase acima é todo o microtexto. Não há título e nem qualquer outra referência que possa nos ajudar a desvendar o destino ou a origem do dedo. A única pista é o travessão inicial, mas nem ele seria necessário, já que todo narrador é uma personagem. Podemos supor que o destino do dedo seja um órgão genital, masculino ou feminino. Apenas porque combinaria com outros microtextos de natureza semelhante presentes no livro. Mas seria uma suposição tão plausível quanto a de que o dedo será usado para roubar a cobertura de chocolate de uma deliciosa torta sobre a mesa. O dedo pode ser o do narrador, mas pode o narrador estar indicando para alguém usar o polegar para registrar suas digitais. Enfim, o texto da obra literária precisa pelo menos indicar esquemas de aparências para que, completando os espaços livres, o leitor compreenda o objeto representado nela. (Ingarden, 1947)

Outros microtextos conseguem ter significação e ação, mas, segundo Bremond, seriam apenas descrição, sem narratividade.

Botei uma sunga pra apavorar.

O verbo em primeira pessoa poderia significar o sujeito poético, e não um narrador autodiegético, mas digamos que seja um narrador e, assim, está satisfeita a necessidade de personagem. O verbo de ação ‘botar’ preencheria a necessidade de ação. Mas falta, aí, seqüência, sucessividade. E, repetindo as palavras de Bremond (1973), “onde não há sucessão não há narrativa, mas, por exemplo, descrição, dedução, efusão lírica, etc”. De fato a frase pode ser usada para descrever uma personagem, pode iniciar ou encerrar um texto mais longo ou mesmo ser atribuída ao lirismo.

O lirismo, aliás, rouba a cena da narrativa em diversos microtextos.

PODE
Você pode morrer
a qualquer momento.


LAST BLUES
Não espalho,
mas ando triste pra caralho.



Se eu soubesse o que procuro com esse controle remoto...

A suposição pessimista de Sant’Ana em Pode, a tristeza envergonhada de Bortolotto em Last Blues e a indecisão apática de Bonassi em Só encaixam-se perfeitamente na definição do processo de interiorização, uma das três propriedades do lirismo, formulada por Reis (2003): “a interiorização a que os textos líricos procedem relaciona-se com a propensão eminentemente egocêntrica própria do sujeito poético”.

Além disso, podemos identificar uma quebra de linha que se aproxima do verso lírico em Pode e Last Blues, assonância da sibiliar em Só, rima em Last Blues, entre outros recursos poéticos (Goldstein, 1999).

Avançando na busca por casos diversos entre a mais de centena de microtextos, há alguns em que não podemos identificar nem um personagem-narrador, nem um sujeito poético.

QUATRO LETRAS
Nada.


OFÍCIO
Culpa do cu.

Ambos os microtextos parecem o que Genette (1973) chama de discurso, uma forma de expressão direta não representativa que hoje na prosa pode ser conhecida como tudo que é eloqüência, reflexão, exposição científica, ensaio, correspondência, etc. Sem entrar no mérito da significação, ofício é culpa do cu para Pelizzari (na ausência de um personagem que justifique a frase), e quatro letras nada significam para Carreiro.

Assim já demonstramos que a fronteira da narrativa é tão tênue quanto a narratividade dos microcontos. Como não há espaço para contextualizar o leitor, criar os esquemas de aparências de Ingarden nem situar a posição exata da ponta do iceberg de Hemingway, o microtexto é como um revólver com apenas uma bala, não permite meio termo e não perdoa indecisão. E mesmo quando acertam e narram em poucas letras uma história, os microcontos dificultam o processo de identificação das partes narrativas, como neste de Cíntia Moscovich.

Uma vida inteira pela frente.
O tiro veio por trás.

Aqui não temos a primeira ação explícita no texto, mas implícita nas entrelinhas. O personagem, se tem uma vida inteira pela frente, nasceu. E a segunda ação, essa sim, está expressa através de um motivo, o tiro: a personagem morreu. A sucessividade e integração estão evidenciadas através do antagonismo entre vida e morte, frente e trás. Se a primeira frase fosse algo como Teria sido um ótimo escritor, não haveria nenhuma integração entre os dois trechos, e a sucessividade ficaria comprometida. Mas se identificar ação, personagem, sucessão, integração e significação foi fácil, tente encontrar espaço e tempo. Sua reposta certamente começará com ‘pode ser’. O espaço pode ser uma cidade grande, um bairro pobre, uma avenida escura. O tempo de vida do menino (ou menina, ou homem, ou mulher) pode ser de cinco anos, vinte anos, trinta anos. Mas, como acima afirmamos, o leitor mesmo preenche tais lacunas sem prejudicar a significação, pois são apenas índices e informantes (Barthes, 1973) da narrativa.

É interessante notarmos, depois de identificar a possibilidade narrativa dos microcontos, uma espécie de síntese de escolas literárias. O texto acima parece marcadamente realista, enquanto este, de Menalton Braf, lembra o fantástico.

CREPUSCULAR

Pegou o chapéu, embrulhou o sol, então nunca mais amanheceu.

Apesar de parecer irreal em uma leitura apressada, a verossimilhança da narrativa está assegurada. Mas não vamos falar de verossimilhança, que não é objeto deste estudo. Note novamente o narrador heterodiegético contando uma história, a vírgula marcando a integração e a sucessividade de termos tão distintos quanto chapéu e sol sendo garantida pela tradição da literatura fantástica do século XX.

E diante de resultados tão diversos como estes, aqui apontados como amostras, o que podemos esperar do microtexto? Será ele um conto? Ou o microconto/miniconto/nanoconto precisa ser definitivamente batizado e estudado como um gênero à parte?

Parece evidente que a tentativa de inscrever o novíssimo gênero no modo narrativo, como o tataraneto das epopéias e bisneto dos grandes romances realistas, fartos no número de páginas e descrições, esbarra na dificuldade de narrar em espaços mínimos. Talvez a solução para a narratividade quando se tem tão poucas palavras seja eliminar a paisagem (Morigoni, 2004). Deixar só o osso (Freire, 2005). Ou, em termos narrativos, só as funções núcleo (Barthes, 1973).

Nesse sentido, o novo gênero, aqui chamado de microconto, seria o haicai dos gêneros narrativos, a manchete da ficção, o slogan da literatura. Um gênero extremamente contemporâneo e fiel ao culto da velocidade e do impacto. Mas, para cumprir esse papel, é preciso que ele não se afaste de todo da rica tradição narrativa literária e das conquistas já seculares do conto.

Retomando o conceito de Moscovich (2005) para conto, “é uma estrutura armada de ‘maneira inteligente’, que tira literalmente o máximo do mínimo, que pede e convoca a participação intelectual de seu leitor, sem que se o subestime ou superestime”. O ideal, prossegue a autora citando Piglia, “é que o ponto médio entre ocultação e revelação seja mantido, introduzindo-se o leitor nesta gramática do silêncio representada pelo conto”.

Assim, o microtexto ainda tem um longo caminho de afirmação, mas deve convergir na busca pela narratividade como ponto fundamental. A partir daí, leitores, escritores e críticos saberão encontrar o ponto médio entre ocultação e revelação, mesmo que os textos tenham trinta ou cinqüenta letras, e poderá aí se reconhecer o nascimento de um novo gênero literário.




Referências:

––––––. Minimalism. Britannica Concise Encyclopedia, 2005. Disponível no endereço da WEB . Acessado em 01/09/2005.

ARISTÓTELES. Poética. Trad. Eudoro de Souza, Porto Alegre: Editora Globo, 1966.

ASSIS, Machado de. Obra Completa, vol. II. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

BARTHES, Roland. Introdução à Análise Estrutural da Narrativa. In: BARTHES, Roland (org.). Análise estrutural da narrativa. São Paulo: Vozes, 1973.

BONASSI, Fernando. Só. In: Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século. Cotia: Ateliê Editorial, 2004. 2 ed.

BORTOLOTTO, Mário. Last Blues. In: Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século. Cotia: Ateliê Editorial, 2004. 2 ed.

BRAF, Menalton. Crepuscular. In: Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século. Cotia: Ateliê Editorial, 2004. 2 ed.

BREMOND, Claude. A lógica dos possíveis narrativos. In: BARTHES, Roland (org.). Análise estrutural da narrativa. São Paulo: Vozes, 1973.

CARREIRO, Raimundo. Quatro letras. In: Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século. Cotia: Ateliê Editorial, 2004. 2 ed.

EIKHENBAUM, B. Sobre a teoria da prosa. In: EIKHENBAUM, B. Teoria da liteartura: formalistas russos. Porto Alegre: Globo, 1971.

FREIRE, Marcelino (org.). Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século. Cotia: Ateliê Editorial, 2004. 2 ed.

FREIRE, Marcelino. Bum!. In: Contos de Bolso. Porto Alegre: Casa Verde, 2005.

GALERA, Daniel. Sem título. In: Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século. Cotia: Ateliê Editorial, 2004. 2 ed.

GENETTE, Gérard. Fronteiras da Narrativa. In: BARTHES, Roland (org.). Análise estrutural da narrativa. São Paulo: Vozes, 1973.

GOLDSTEIN, Norma. Versos, sons, ritmos. São Paulo: Ática, 1999.

GREIMAS, A.J. Elementos para uma Teoria da Interpretação da Narrativa Mítica. In: BARTHES, Roland (org.). Análise estrutural da narrativa. São Paulo: Vozes, 1973.

INGARDEN, Roman. A bidimensionalidade da estrutura da obra literária. Trad. Maria Aparecida Pereira. In: Cadernos do centro de pesquisas literárias da PUCRS. Porto Alegre: Centro de Pesquisas Literárias do Curso de Pós-Graduação em Letras da PUCRS, 1995.

MIRISOLA, Marcelo. Sem título. In: Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século. Cotia: Ateliê Editorial, 2004. 2 ed.

MORIGONI, Ítalo. Um prefácio em cinqüenta palavras. In: Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século. Cotia: Ateliê Editorial, 2004. 2 ed.

MOSCOVICH, Cíntia. De Poe a Piglia: em busca das teorias sobre o conto e o encontro de uma gramática do silêncio. In: Veredas, 2005. Disponível no endereço da WEB . Acessado em 03/09/2005.

MOSCOVICH, Cíntia. Sem título. In: Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século. Cotia: Ateliê Editorial, 2004. 2 ed.

MYRTES, Adrienne. Sem título. In: Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século. Cotia: Ateliê Editorial, 2004. 2 ed.

PELIZZARI, Daniel. Ofício. In: Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século. Cotia: Ateliê Editorial, 2004. 2 ed.

REIS, Carlos. O conhecimento da literatura: introdução aos estudos literários. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003.

RUFFATO, Luís. Assim:. In: Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século. Cotia: Ateliê Editorial, 2004. 2 ed.

SANT’ANNA, André. Pode. In: Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século. Cotia: Ateliê Editorial, 2004. 2 ed.

TREVISAN, Dalton. Ah, é?, Editora Record - Rio de Janeiro, 1994.

Cédula viva


Marcelo Spalding

Faltavam seis dias para o fim do mês, quinze para a chegada do bebê, doze prestações para sair do cheque especial e dez minutos para fechar o banco. Ele corre em meio à multidão, tropeça, levanta. Entra na agência exausto. O gerente demora vinte minutos para o receber e dois para lhe negar o empréstimo: primeiro precisava quitar o cheque especial. Chega em casa cabisbaixo, evita o olhar da esposa. No quarto do bebê, o pintor o espera. Suado, cansado, um curativo no polegar. O serviço está pronto, diz, cabeça baixa. Custava cento e cinco mas só recebeu cinqüenta.

*

O trabalhador entra no primeiro ônibus. Por sorte, não estava cheio. Senta-se ao lado de uma senhora e tira do bolso a cédula. O curativo parece ceder, suja a nota com um pouco de sangue. Repara pela primeira vez naquela figura feminina sorrindo para ele e é como se todo o seu dia passasse num segundo: acordar, beijar a esposa, lavar o rosto, escovar os dentes, tomar um café frio, chegar na firma, ver se tem pedidos, lamentar a falta de trabalho, jogar sinuca, atender o celular, ir correndo comprar as tintas, pintar o quarto do bebê, machucar o dedão arrastando o berço, pintar o berço, o armário, receber cinqüenta reais. Seria muito ou pouco? Ouve gritos, o ônibus trava: é um assalto.

*

Oitocentos e dez, oitocentos e quinze, um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oitocentos e vinte e dois!, conta o bandido em voz baixa. Põe as carteiras e os documentos todos num saco de lixo preto e ateia fogo. Junta as notas por cor, dobra num bolo só e enfia no bolso do casaco. No caminho para casa, tem vontade de uma bebida, um vinho especial para ele e a esposa naquela noite quente. Separa uma nota de cinqüenta, entra num mercado vazio. A moça do caixa acompanha seus movimentos com angústia. Chama o segurança, que se posta ao lado dela. O bandido escolhe o tinto mais caro e se dirige ao caixa. A moça e o segurança o observam, desconfiados. Ele quer ser simpático, pergunta porque nunca tinha visto mulher tão bonita pela vila. A moça não responde, pega a nota com nojo, verifica com atenção. Encontra uma pequena mancha de sangue. Olha para o sorriso nervoso do outro, as mãos sempre no bolso. Chama o segurança e acusa a nota de ser falsa. O bandido poderia ter sacado o revólver e descarregado raiva e cartucho ali mesmo. Preferiu a tristeza. Jogou a cédula no chão e cuspiu sobre ela.

*

A cédula amanheceu quase no mesmo lugar onde o bandido a jogou. O cuspe fora absorvido mas a mancha de sangue ainda resistia no seu cantinho. Ali perto, mãe e filho saíam de mãos dadas para a escola. Ela, passo apressado, teria deixado a nota para trás não fosse o menino gritar. Voltaram e recolheram o dinheiro. O menino disse que deveriam achar o dono da nota, mas ela respondeu que se a nota estava ali é porque não tinha dono. O menino desconfiou, insistiu, e ela comprou a anuência da criança lhe prometendo um presente. Os olhinhos dele brilharam. Nem foram à escola: ele escolheu uma miniatura de Ferrari com fricção e ela sorriu quando a moça do caixa lhe deu trinta reais de troco. A corrupção do filho lhe custara vinte.

*

A moça não sonhava em ser caixa de loja quando tinha a idade do menino. Lembrava disso enquanto via ele se afastar, mãos grudadas na Ferrari. Queria ser atriz de televisão ou professora, mas cresceu demais e engordou além da conta para uma atriz. Professora os pais não deixaram ser. Acabou espremida entre o fim do colégio e o não passar no vestibular. Sua maior alegria era ser caixa de uma loja de brinquedos, odiou ter trabalhado em banco, chegava em casa com as mãos doendo e os dedos sujos de tanto contar essas malditas cédulas. O menino já ia longe e ela ainda segurava os cinqüenta reais, os manchados e sujos reais, pensando no dia em que teria um filho e uma nota dessas para comprar um presente.

*

Uma bicicleta. Um homem comprava uma bicicleta. A moça que queria ser atriz e não pôde porque engordou muito e queria ser professora e não pôde porque os pais não deixaram sorriu para o homem que comprava uma bicicleta. Ele perguntou se aceitavam cartão de crédito. Ela sorriu novamente mas disse que infelizmente a loja não trabalhava com aquela bandeira. Ele ironizou e tirou da bolsa uma carteira de couro escuro. Pôs quatrocentos reais em notas de cem diante da moça. Ela, perdida na lembrança do tempo em que pela última vez andou de bicicleta, demorou para pegar as notas. Impaciente, o homem perguntou: nunca viu, né? A moça ficou sem graça, registrou a compra e deu o troco: cinqüenta e três. Ele saiu sem agradecer.

*

O celular toca num ritmo frenético. O jovem atende aos gritos, enche a casa de gírias. Beleza, combinado, tô indo praí. Sobe as escadas de dois em dois degraus e encontra o pai fazendo a barba. Tô precisando de grana, ele diz. O homem se concentra na gilete, termina aquele movimento e pergunta o que o filho fez com a mesada. Qual é, meu velho, vai dar uma de durão pra cima de mim? Pro pirralho tu compra bicicletinha... Bate a espuma da gilete na pia, olha para o filho e pede que abra sua carteira e pegue o que tiver ali. O jovem vai e volta reclamando: pô, meu velho, só isso? Cinqüenta e três pila? O pai não responde, ocupado com um novo movimento da gilete. O garoto insiste: então pelo menos empresta o carro, velho.

*

Não há esquina em que ele não desacelere para ver as meninas. Buzina, fica imaginando o que vai fazer se uma delas entrar no carro e lembra que não tem dinheiro nem para um bom restaurante nem para um motel. Reclama do pai, onde já se viu só andar com cinqüenta pila na carteira. Pára na sinaleira e aproveita pra conferir de novo. Pega a cédula levemente manchada de sangue, amassada, pegajosa. Pensa, pensa e, como se achasse a solução, sorri para a figura feminina. Quando o sinal abre, sai cantando pneu. Engata a segunda, a terceira, a quarta, a quinta. Abre os vidros, aumenta o volume do rádio, acelera. Buzina para um grupo de prostitutas. Desvia de um ônibus, troca de faixa, ultrapassa o amarelo. A cédula, viva, é a primeira a voar do carro quando ele capota em frente a um banco.

domingo, 10 de julho de 2011

Carnaval


Marcelo Spalding

Entre pólvora e gozo, confete e cachaça, conheci Catarina. Olho no olho, depois peitos no peito, nas costas, na boca. Evolução, bateria, porta-bandeira, fantasia. A baiana rodava e rodava e rodava. A língua se perde, o corpo se leva, tiriguidum. Paradinha. Aplauso. Mangueira e Beija-Flor. Gosto do cheiro, ela do gosto. Da mão e do pé. Da virilha. Os fogos estouram, os peitos se ajeitam, passou a festa popular. E entre quartas e cinzas, volto para casa sem sorriso nem fantasia.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Helena


Marcelo Spalding

Helena é virgem desde que o pai sumiu de casa.

Marias


Marcelo Spalding

Maria acorda, pega ônibus cheio, toma chuva, recebe ordens, lava passa esfrega limpa encera cozinha costura seca estende guarda arruma lava passa esfrega limpa encera cozinha costura seca estende guarda arruma lava passa esfrega limpa encera cozinha costura seca estende guarda arruma lava passa esfrega limpa encera cozinha costura seca estende guarda arruma.

Nós pagamos um salário mínimo.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Colégio Novo


Marcelo Spalding

A criança roda e roda e roda procurando uma outra com pernas iguais às suas. Encontra risos e cochichos. Para de rodar e pede que a empurrem de volta para casa.

sábado, 2 de julho de 2011

Gota D'água


Marcelo Spalding

Pai, talvez você continue sem querer notícias, mas precisa saber que estou bem. A cidade é um grande cartão postal, me recebeu de luzes acessas. Você, que sempre gostou das águas paradas, adoraria conhecer o Guaíba, um lago tão grande que aqui chamam de rio. E não tem dono, qualquer um pode sentar à margem e namorar, conversar, escrever, pensar, sonhar. Eu, quando sinto falta do mato, do milho crescido, da casinha que não temos mais, venho pra cá. E lembro daquela tua frase: o que é uma gota de lágrima diante dum rio grande? Lembra o dia em que me disse isso? É, mas eu não achei que fosse sentir tanta falta dela. Nem que nossa vida mudaria assim.

Rosa, os dias aqui são curtos e o tempo parece que passa mais rápido. Por isso não escrevi antes. Mas saiba que a cada dia levanto, lavo as mãos, olho para o espelho e nele está nossa foto. É por ti que vim, por ti que trabalho. Não peça prazo, não tenha pressa. Está próximo o dia em que voltarei para ti buscar. Aqui você vai trabalhar numa loja muito fina, atender madames e ganhar altas gorjetas. Nunca mais vai precisar tirar leite, carnear boi, correr atrás das galinhas, ouvir aquele grosso te dando ordens e te explorando. Nem você nem a mana.

Carlos, sei que nesse mês vence a primeira prestação. Nem parece que há tanto tempo deixei o campo, o pai, a Rosa, os manos. Confesso ter ficado triste com tua carta, mas é a dificuldade que eles passam aí o que me dá forças para esta loucura. E, claro, tua ajuda. Aquele dinheiro foi fundamental nos primeiros meses, e mais ainda quando precisei comprar roupas. Para que roupas? As coisas na capital são muito diferentes, não se pode sair de camisa rasgada, velha, cabelos despenteados. As pessoas nos olham como se fôssemos bandidos e nos dão no máximo moedas, nunca trabalho.

Mana, que saudades! O Carlos contou das dificuldades que têm passado com o pai. Coitado, ao invés de chorar, ele bebe a falta da mãe. Assim acaba mal, mana, acaba mal, não esquece o que o padre disse. Bem, mas a verdade é que daqui não te mando notícias muito melhores. Pelamordedeus, não conte pro pai, mas a cidade e o campo sofrem do mesmo mal: tem gente demais e espaço de menos. Ou gente de menos com todo o espaço para si, não sei. O fato é que tive problemas com nossos pães. Até capinei, tirei pedras da casa duma madame, derrubei uma árvore, tudo que odiava fazer aí só para não passar fome. Pior quando olho o rio e lembro dos nossos planos. A gente fazia tantos...

Dra. Marisa, só a senhora pode me ajudar nesse momento difícil. Vim para a cidade com a roupa do corpo, alguns pães feitos pela mana e um dinheiro emprestado pelo Carlos. Aluguei um quarto, vendi uns pães, comprei os ingredientes para fazer mais pães. Só que onde moro não deixaram usar a cozinha, e me sugeriram alugar a da padaria do Seu Manoel. Fui lá e combinei de trabalhar de graça para ele de dia e fazer meus próprios pães de noite. Venderia ali mesmo. Só que ontem cheguei lá e ele tinha me demitido! Nunca fui empregado dele, levei meus pães, única riqueza que eu tinha, e ajudei o cretino a fabricar outros. Como posso ter sido demitido? Calculo que ficaram mais de cem dos meus pães para serem vendidos.

Mano velho, não sei nem o que responder. Esta tua carta me cai como mais uma bomba. Imagina que hoje de manhã mesmo fui expulso do quartinho. Agora essa, que a Rosa está de casamento marcado. E com o Carlos! O sem vergonha nunca respondeu às minhas cartas, nem pra cobrar ele me escreveu. Só podia ter coisa errada. Agora, mano, não sei o que faço. O pai cada vez mais doente, a Rosa não me espera mais, o dinheiro acabou. Voltar, talvez voltar. Mas voltar para onde? Para o acampamento? Levar a mana e o pai comigo e tentar de novo? Sabemos como funciona, não é solução. Nem ficar esperando outro explorador e suas migalhas. Não, voltar eu não vou. Que a Rosa case, faz bem. Não sei quando poderia buscá-la mesmo. No fundo fiz tudo isso pela mana. Ela não pode ser a vida inteira empregada daquele porco imundo. E quando morrer a patroa, a Dra. Marisa, nem respeito o filho da mãe vai ter. Deus me livre.

Padre, lamento não estar aí no campo para falar com o senhor. Tentei os padres aqui da cidade, mas poucas igrejas ficam abertas para alguém como eu. Não, padre, não sou mais o mesmo. Primeiro perdi os pães, depois as roupas ficaram trancadas no meu quartinho como pagamento dos atrasados, e hoje nem esperanças tenho mais. Sobrevivo graças a um senhor que me alimenta, me deixa dormir em sua garagem e em troca capino um terreno para ele. Isso não é vida. Não ganho nada, só comida, caneta e papel. Ele já disse para eu voltar, o mano também. Mas é por isso que escrevo, não posso voltar. Não existe mais a minha terra. Desde que a mãe morreu ela não existe mais. E o pai sabe disso, tanto que nunca mais viveu. Foi o senhor, padre, quem me explicou o perigo que era a cabeça de um viúvo, a força da tristeza mesmo nas almas mais nobres. Foi o senhor, padre, quem pediu para eu vender todas as facas afiadas demais, esconder cordas e navalhas. Foi o senhor, padre, quem pediu para eu acompanhar ele no rio. E foi no rio que eu entendi o porquê, padre. Ele não chorou, nunca chorou. Só olha para aquelas águas paradas, tristes, quietas. Um dia me perguntou o que é uma lágrima diante do rio grande. Não sabia, padre, não sabia mas aquelas palavras me cortaram. Verdade que não percebi isso naquele instante, precisei atravessar o estado, me arriscar neste cartão postal, perder pães, roupas e sonhos para descobrir a tristeza do rio. Do pai.
Agora eu entendo.

Que o senhor me perdoe, padre. E que a mana pense ter sido um acidente. Ela ainda merece ser feliz.