quarta-feira, 29 de junho de 2011

A filosofia mínima de Luís Augusto Fischer


Marcelo Spalding

Contavam os meus professores que no tempo em que eles estavam na faculdade se lia muito. E se lia em livros comprados ou retirados da biblioteca. Livros inteiros, alguns lembram mesmo das famigeradas fichas de leituras, outros das punições severas aplicadas pelo professor a quem chegasse à aula sem a leitura. Tempos outros, esses.
Luís Augusto Fischer, um dos meus professores mais brilhantes e dos poucos com apurado senso crítico marxista, certamente é desse tempo. Sem dúvidas leu os clássicos, confrontou-os com seus mestres, comprou muitos livros, é possível que em algum momento tenha estudado latim e decorado versos de Camões (ou pelo menos de Pessoa, vá lá). Mas não foi nada disso que o tornou o professor brilhante (embora tenha contribuído com seu saudável senso crítico), e sim uma capacidade fantástica de acompanhar o tempo, adaptar-se a ele, pegar as ondas acadêmicas sem demasiado conservadorismo.
Fischer é doutor que não ostenta o título, autor de diversos livros que vão do Dicionário de Porto-Alegrês a Machado e Borges - e outros ensaiso sobre Machado de Assis, passando por belas ficções como Quatro Negros. Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, articulista de Zero Hora e organizador do famoso Sarau Elétrico, tem se notabilizado ao longo dos anos por estrapolar o ambiente acadêmico, angariando simpatias e muchochos.
Dessa experiência vasta, dessa personalidade forte e controvertida, o mínimo que você pode esperar são boas histórias e muitas reflexões, histórias e reflexões que não querem deixar você no mesmo lugar, querem desajustar, questionar, ampliar. E são essas histórias e reflexões que compõem o mosaico de Filosofia Mínima: ler, escrever, ensinar, aprender (Arquipélago, 2011, 336 p.), o mais recente lançamento de Fischer.
O livro reúne textos publicados entre 2006 e o início de 2011 em jornais e revistas (especialmente Zero Hora e ABC Domingo). A edição, fundamental para dar alguma unidade aos textos, dividiu-os em quatro partes com os interessantíssimos títulos “Ler”, “Escrever”, “Ensinar”, “Aprender”, que não por acaso foram parar no subtítulo.
O livro se dirige ao leitor universitário contemporâneo, esse tirador de xerox, e para esse público o tamanho dos textos e o tom entre o informal e o acadêmico está bem adequado. Talvez nós, leitores de mais fôlego, tivéssemos gostado de ler um ensaio mais profundo sobre os temas prometidos no subtítulo, e com certeza Fischer poderia tê-lo feito, e quem sabe ainda o fará para próximas edições.
A primeira parte fala sobre a leitura, e Fischer traz uma categoria interessante, que de certa forma legitima a exigência que se faz por algumas leituras canônicas de alunos de um curso, por exemplo, de Letras: o leitor profissional. Temos, aí, uma questão importante sobre o papel da universidade na formação de leitores, papel que outrora foi da família e ainda é assumido corajosamente pelas escolas.
“As universidades não têm sabido oferecer momentos de formação para os leitores potenciais que são os alunos universitários. Em tese eles deveriam ser já leitores, em qualquer especialidade de estudo em que estejam mergulhados, mas na realidade poucos são os que sobrevivem àquele acachapante ensino médio, em que foram adestrados para ser respondedores de perguntas de vestibular, não leitores. Pois bem: a vida universitária precisa assumir essa tarefa de proporcionar bibliotecas com bom acervo, ambientes de leitura, cursos de leitura, sessões de palestras e conversar relativas à leitura dos clássicos, como forma de recuperar o tempo perdido.”
A segunda parte, sobre o escrever, é um tanto ampla, cabendo ali conselhos e sugestões para a escrita de ficção, de tese ou de texto jornalístico (há, inclusive, um texto com o ousado título de “Verdades gerais sobre escrever”). Para essa seção foi designada, por exemplo, a interessante história da “Morte do Curdo”, que passei a citar em minhas aulas e oficinas. É uma releitura de uma velha sabedoria sobre a arte da necessidade do particular, do específico, para comover o leitor. Depois de contar sobre a indiferença que temos sobre notícias de TV referente ao Iraque com seus números de mortos e feridos, e Fischer inclui-se nisso, ele escreve:
“Em meio àquele mesmo noticiário sobre a desgraça dos curdos, ouço nitidamente o repórter relatar o seguinte: que, no meio daquela legião de famintos e desesperados, um curdo, especificamente um e apenas um daqueles curdos em fuga, havia morrido porque uma caixa de alimentos, jogada de um avião em missão humanitária da ONU, havia caído sobre ele. E este curdo, muito longe de salvar-se com aquela comida, morreu. Para mim, então, o mundo todo parou; os milhares de miseráveis deixaram de existir; nada mais demandava atenção: aquele curdo morrendo com um golpe de caixa de comida, caída do céu ainda, me fez parar o garfo no ar. Um homem como eu, querendo alimentar-se como eu, morria, a milhares de quilômetros do meu conforto; e eu entendia, naquele momento, a dor daquele homem”.
A terceira parte, “Ensinar”, é muito escrita pelo professor Fischer, claro, mas também pelo pai tardio (e tri faceiro, como diríamos aqui no Sul, pois Fischer foi pai pela primeira vez perto dos 50 anos). Aliás, talvez Fischer em breve nos brinde com o livro sobre a experiência de ser pai, temática um tanto clichê, mas que se renova a cada dia e não parece perder nem um pouco sua complexidade existencial (aqui não estamos falando em trocar fraldas, evidentemente, mas em educar, educar-se, dividir espaços, controlar ansiedades e por aí vai).
Para o leitor mais interessado na experiência do professor, aqui temos algumas categorizações que tornam-se muito úteis para a visão de conjunto, como a feita em “Não confunda análise com interpretação”: “São três as dimensões relevantes de um texto para fins de crítica: uma, o tema, o assunto, a coisa que fala – e este é o patamar mais apreciado pelo leitor comum, em se tratando de narrativa, é o patamar do barato conteudístico; (…) duas, a linguagem, ou melhor, o significante – e este é o plano predileto pelo leitor de poesia; (…) e três, a estrutura, o modo de construção – e este é o mundo predileto pelos que gostam de interpretação, em sentido estrito. (…) A virtude do crítico, aqui, tem a ver com sua capacidade analítica, isto é, de separar as três dimensões, para poder apreciá-las adequadamente.”
Há nessa parte, ainda, um belo texto sobre o “Leitor comum”, uma espécie de oposição, ou complementação, à categoria do leitor profissional que sublinhamos lá em cima.
Já “Aprender”, a quarta parte, é a mais irregular, onde cabem mais temas, inclusive um belo ensaio, polêmico, sobre “Ser professor”. Neste, são nove teses e o viés predominante é o marxista, associando o professor a um sujeito de classe média. Vejamos a segunda:
“Ser de classe média tem lá suas limitações. Em regra, como vários sociólogos já disseram, o sujeito de classe média tende a pensar com autonomia restrita. Tem medo de cair socialmente ou de ser confundido com os de baixo, e por isso não costuma afrontar os poderes constituídos, especialmente os poderes intelectualmente fortes. De outro lado, admira e teme os de cima: admira porque vê neles um ideal de vida, teme porque percebe que eles sabem distinguir entre os que realmente são de cima e os que apenas parecem ser de cima, como o sujeito de classe média gosta. Os que vivem neste curto-circuito naturalmente sofrem a ação direta da ideologia, são escravos dela: uma das pontas visíveis desse jogo se encontra na moda. O professor: um enredado na armadilha da ideologia.”
Quem conhece Fischer, das aulas ou dos textos, não se surpreende com essa análise de classe, à Cândido ou Schwarz, hoje tida por muitos como anacrônica e, por outros tantos, como preconceituosa (“como assim os de cima e os de baixo?”, dizem). Mas vale lembrar, e é isso que Fischer faz ao colocar sua lupa nessa direção, que ignorar o conceito de classe social é extremamente útil apenas para os que pretendem manter o status quo, a chamada elite, tenha ela o nome e a largura que tenha.
Talvez seja exatamente esse olhar crítico (outrora diríamos dialético) que torna as filosofias de Fischer sempre tão particulares, ainda que mínimas. E permita que o autor amplie sua biografia para áreas tão díspares, sempre com um quê original e despertando interesses que vão além dos bancos curriculares.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 29/6/2011.

domingo, 12 de junho de 2011

Apego


Marcelo Spalding

Lembro de um dia da minha meninice quando parei diante do retrato da nossa família: mamãe e papai exibindo seus gêmeos com orgulho numa praia qualquer do nosso litoral. Devo ter permanecido ali algum tempo, até meu pai se aproximar, me pegar no colo e me acomodar em sua cama. Sem virar o rosto, perguntei:
– Pai, por que a mamãe foi pro céu?
Respondeu enquanto apertava forte minha mão:
– Pra não deixar teu irmãozinho sozinho lá, filho.

Cabra-cega


Marcelo Spalding

O lápis encosta na folha branca, amassada, amarrotada, um tanto úmida, mas ainda branca. Lápis de grafite negro, de base comida, o negro do grafite deslizando na superfície machucada da folha. Ali caberiam sonhos, projetos, desejos. Maria poderia, com o negro do grafite e o branco da folha, amenizar o sofrimento da filha, dar-lhe conselhos, confessar seus crimes, protegê-la de seus próprios erros. Maria poderia apelar para algum antigo cliente, um vizinho, alguém haveria de acreditar nela e procurar um bom advogado, quem sabe até amenizar aquele sofrimento todo. Maria poderia contar de suas colegas de cela, as ameaças, as brigas, as noites insones à espera da primeira unhada, do primeiro abuso.

Mãe (estranho chamar você assim), prometi para o pai e para a vó que nunca ia te escrever, nunca mesmo. Mas desde que segurei o primeiro lápis e numa folha colorida escrevi meu nome, nosso nome, sempre esperei por este dia, o dia em que poderia escrever tudo o que ficou entalado aqui, tudo o que devia ter dito nas visitas que nunca te fiz. Por que, mãe, por quê? Porque se meter com essa gente, nos abandonar assim? O pai sofreu tanto! Tivemos de sair da cidade, disso você deve saber. E a cada um ou dois anos mudamos de lugar para não nos acharem. O pai tinha muito medo. Eu, nem tanto, perdi quem poderia ter me dado uma infância, você, e com isso perdi a vontade de acreditar, levantar, partir, voltar, esperar. Não espero mais nada, mãe, não espero te perdoar um dia, ouvir tuas razões, mas também não posso acreditar nas do pai. Não, não posso...

Apertando forte o grafite negro, Maria aos poucos faz uma linha grossa, marcada, passeia com o lápis de um lado para o outro. Ela não tem a pretensão de transformar aquelas linhas em palavras, nem traços, simplesmente rabisca e lembra o dia que marcou sua vida para sempre. O olhar da pequena, ainda com cinco aninhos, de mochila nas costas para mais um dia de aula, o latido estridente do cão tentando espantar os homens, o sumiço repentino do marido, para nunca mais. Poderia escrever tudo isso, mas Maria não teve a chance de aprender a escrever, nem tempo de aprender a ler.

Você não estava aqui pra ver meus primeiros cadernos, pra me ajudar na primeira menstruação nem pra conhecer meu primeiro namorado. Mas sabe, mãe, talvez tenha sido melhor a gente viver separada, assim eu vou pra sempre pensar que você é melhor do que realmente é. Posso imaginar que a prisão foi um erro, que você só piorou as coisas tentando fugir porque não aguentou ficar longe de mim, que o pai mentiu o tempo todo. Posso nos ver passeando de mãos dadas por um parque, você me ensinando o alfabeto, você me perguntando qual cor de batom eu prefiro. Nos sonhos a gente pode tanto...

Segura as páginas enviadas pela filha como se a pegasse no colo depois de anos. Pesam, e pesam mais que o bebê, mais que a menina deixada com o pai depois daquele dia. Preenche os espaços vazios das letras, faz um pingo no lugar do ponto do “i”, pinta com cuidado cada “o”, e finge que as letras são dela, as palavras são dela. Prefere assim, acredita que a sentença proferida por aquelas palavras seria mil vezes mais definitiva que a de qualquer juiz, tem certeza da condenação, da raiva que a menina sente pelos anos distantes. Aprendera a viver sem a filha, agora aprenderia a viver com suas folhas brancas manchadas pelo grafite negro, e as guardaria como tesouro.

O pai, você sabe, nunca foi um pai. E eu, nunca fui uma filha. Precisava de alguém para cuidar da casa, cozinhar, e outras coisas de homem. Homem é homem. Também nunca mais falava de você, aliás ele fala pouco, desconfiava dos vizinhos, da própria mãe, de mim. A vó morreu e não deixou saudades. Estivesse viva e eu não poderia escrever, não poderia te mandar essa carta como não pude mandar as outras tantas que escrevi desde os sete anos.

Um dia uma das colegas de cela perguntou o que estava escrito na carta. A resposta, simplória e inevitável, foi: não sei, não sei ler. A outra pegou o papel das mãos de Maria e com dificuldade leu a primeira linha, “mãe (estranho chamar você assim), prometi...”. Mas Maria gritava tanto, e tão alto, que logo vieram as monitoras e a confusão começou. Maria não queria que lessem a carta para ela, não queria saber o que estava escrito, tinha medo de cada uma daquelas letras, medo e fascínio. Talvez adivinhasse o final que a filha reservara para ambas.

Mas escrevo agora, mãe, para você saber que amanhã estaremos mais perto do que nunca. Sei que eu errei, sei que vou pagar caro, mas eu precisava me libertar, às vezes a prisão é nossa própria casa e as grades, nossos medos. Sempre tive medo de fugir e depois o pai me achar, me achar e depois me bater, me bater e depois... Sempre tive medo, e pensei em morrer, e pensei em matar. Agora, não mais. Agora está feito. E sei que mais cedo ou mais tarde, a gente vai se encontrar.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Traição


Marcelo Spalding

Teresa freqüenta a casa, mas não está nas fotografias.
Conhece a cama, mas não ignora a aliança.
Espalha o vírus, mas não deixa vestígios.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Neném


Marcelo Spalding

Depois de muitos anos e várias tentativas, ele chegou, chorando forte. A cunhada foi a única com coragem para trazê-lo.