domingo, 22 de maio de 2011

O certo e o errado no ensino da Língua Portuguesa


Marcelo Spalding

Chegou aos noticiários nacionais o dilema de  cada professor de língua portuguesa: diante das novas teorias linguísticas e,  em especial, da sociolinguistica, como lidar com variações como "nós pega" ou "os  carro" em sala de aula? Simplesmente apontar o erro seria reforçar o que tem se  chamado de preconceito linguístico, mas deixar de fazê-lo poderia colocar a  disciplina num limbo perigoso onde o vale-tudo acaba com a especificidade da  disciplina.

O tema ganhou relevância graças à polêmica  provocada pelo livro Por uma Vida Melhor,  da Coleção Viver, Aprender — adotado pelo Ministério da Educação (MEC) e  distribuído pelo Programa Nacional do Livro Didático para a Educação de Jovens  e Adultos (PNLD-EJA) a 484.195 alunos de 4.236 escolas. Confira um trecho do  livro, publicado pela Editora  Global:
"Você  pode estar se perguntando: 'Mas eu posso falar 'os livro'?' Claro que pode. Mas  fique atento, porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima  de preconceito linguístico (.) Muita gente diz o que se deve e o que não se  deve falar e escrever, tomando as regras estabelecidas para a norma culta como  padrão de correção de todas as formas linguísticas."
Professores respeitados como Claudio Moreno foram  enfáticos na defesa do ensino do português chamado padrão, reafirmando que o  papel da escola é ensinar o futuro cidadão a se utilizar da língua escrita  culta, "cujas potencialidades espantosas aparecem na obra de nossos grandes  autores". Para Moreno, "os lingüistas sabem que nosso idioma é muito mais amplo  do que a língua escrita culta que é ensinada na escola - mas a escola sabe,  mais que os lingüistas, que essa é a língua que ela deve ensinar".
Por outro lado, lingüistas de consistente  formação acadêmica, como Pedro Garcez, reiteraram que não é uma questão de  certo e errado, mas de adequação: "de certa forma, todos nós brasileiros  produzimos frases com falta de concordância. Isso do nosso ponto de vista não é  erro, é a linguagem natural. Esse é o português brasileiro.", afirma o  professor da UFRGS.
Claro que a questão é mais profunda do que esses exemplos um tanto grosseiros pegos pela mídia, pois outras tantas  construções corriqueiras são erradas do ponto de vista gramatical, mas  continuam sendo repetidas por pessoas das mais variadas classes sociais e pela  própria mídia. Exemplos? "Tu vai", "duzentas gramas", "Houveram momentos", "Me  empresta", "Ele trouxe para mim ver", "Assisti o show", etc.
No fundo o que está em jogo é a entrada de  novos atores sociais no dia a dia da língua portuguesa, com suas influências e  estilos. O paulistano usa "então" no começo de cada frase, um vício de  linguagem horrível, mas nem por isso se discrimina o paulistano ou, por outro  lado, se usa isso em filmes, novelas e livros didáticos. Mesma coisa o "r"  carregado dos cariocas ou o "tu vai" dos gaúchos. Essas são as variações geográficas, por isso não causam tanto  furor como as variações sociais,  marcas linguísticas de classes ou grupos sociais específicos. Essa variação  pode ser de interpretação, léxico, sintaxe e até ortografia (como os sempre  criticados "vc" ou "tb" da Era Digital).
E o professor, em sala de aula, faz o quê? Uma  das formas de lidar com o problema sem encara-ló de frente tem sido concentrar  o trabalho com a Língua Portuguesa em textos, evitando a normatização da gramática  e da ortografia. Mas será que, afora os exageros, não é importante que os  jovens tenham um conhecimento técnico de sua língua, e não apenas intuitivo,  para melhor interpretação, correção, clareza e variação na leitura e na produção  textual? Não será importante, especialmente aos futuros profissionais da  língua, como comunicadores, advogados, professores de todas as áreas,  cientistas sociais, etc, saber onde se utiliza ou não o "a" craseado, a  vírgula, a preposição antes do "que"? E não é importante que, para isso, eles  saibam pelo menos o que é um sujeito, um verbo, um objeto, um adjunto adverbial?  Um adjetivo, um advérbio, um substantivo, um pronome, uma preposição?
Pode parecer espantoso, mas nem sempre eles  sabem. Não com facilidade. Vejamos um exemplo bem prático do meu dia a dia em  sala de aula, a frase "A expansão desenfreada da cidade é uma grande  ameaça para seu desenvolvimento". Para muitos, o verbo é  "expansão", o que pode causar grande confusão na hora de concordar o  verbo com o sujeito e faria com que muitos escrevessem essa frase com "Há" ou "À"  no lugar do "A". Adiante, poucos percebem que "seu" é um pronome e retoma a  cidade, ainda que um esteja no masculino e o outro no feminino.
Claro que o mais importante não é a  gramatiquice, é que nosso cidadão saiba expressar-se com coerência, coesão e,  mais ainda, tenha postura crítica e ideias originais. Também é importante,  entretanto, que não sejam sonegadas desse cidadão as regras sociais, incluindo  aí o português padrão, pois ali adiante esse desconhecimento pode acabar  excluindo, ou, pelo menos, subvalorizando pessoas de alta capacidade e que lutaram  muito para reescrever seus destinos.
O papel da escola, enfim, é apresentar e  ensinar ao aluno a variante "culta" da língua: aprender ou não, interessar-se  ou não por ela, é um direito do aluno, mas se ele precisar dessa variante e não  conhecê-la por omissão da escola teremos praticado, sem exagero, um crime. Dos grave.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 22/5/2011.