quinta-feira, 14 de abril de 2011

História da leitura (VI): o iPad aponta o futuro?


Marcelo Spalding

Lançado em 27 de janeiro de 2010, o iPad é um dispositivo em forma de tablet (há traduções como tabuleta e prancheta), com internet wireless, bluetooth e tela touch screen de 9,7 polegadas. Apesar de ter sido anunciado como um leitor de livros e jornais digitais, o iPad mescla a funcionalidade e legibilidade dos computadores pessoais com a portabilidade dos aparelhos móveis, caindo no gosto do consumidor e vendendo 14,8 milhões de unidades apenas em 2010, cinco vezes mais do que o projetado pela companhia.

Para entendermos o sucesso do iPad é preciso lembrar que o aparelho é fruto de todo o know-how (e do dinheiro) adquirido com os bem-sucedidos iPod e iPhone.

O iPod, lançado pela Apple em 2001, é uma combinação de "I" (eu, em inglês) com Portable on Demand, algo como portátil sob demanda. Em 2001, a companhia apresentou o tocador digital como um aparelho "ultra portátil" capaz de colocar até "mil músicas em seu bolso".

O grande diferencial do iPod, entretanto, não foi lançar um MP3 Player (o sucessor do walkman), já havia outros tantos no mercado, e nem apenas o design arrojado e minimalista ao estilo Apple. O grande diferencial foi o "iTunes Store", uma loja virtual integrada ao iPod para vender músicas com uma tecnologia de encriptação que impede a pirataria, o que soou como música nos ouvidos da combalida indústria fonográfica. Com altos volumes de vendas e nenhum custo de distribuição, as músicas custam ao usuário menos de um dólar, o que fez muitos usuários preferirem a praticidade de adquirir um arquivo através do aparelho do que localizar uma versão pirata na rede. Só para se ter uma ideia da aceitação do público, no começo de 2006 a loja atingiu a marca de um bilhão de músicas vendidas, e em outubro de 2006, ao completar cinco anos de existência, o aparelho já havia vendido 65 milhões de unidades, ou 70% do mercado de MP3 players.

No ano seguinte a esses números estrondosos, a Apple enfim entra no mercado de smartphones com o iPhone, um aparelho com design semelhante ao iPod e funcionalidades semelhantes ao BlackBerry, mas com tela sensível ao toque. Assim como no iPod, o iPhone traz a iTunes Store, ampliando o público consumidor das músicas digitais vendidas no sistema. Além disso, alguns anos depois, em 2008, a Apple agrega uma importante ferramenta aos seus aparelhos, a App Store, uma loja de aplicativos integrada ao iPhone que permite a qualquer programador criar aplicativos para os aparelhos e vender na loja da Apple. Em apenas um mês de funcionamento, são feitos mais de 60 milhões de downloads pela loja, com um faturamento de US$ 30 milhões de dólares, o que impressiona o próprio Steve Jobs. Em janeiro de 2011 já seriam 10 bilhões de downloads.

Para os desenvolvedores, a App Store torna-se um importante espaço de venda de softwares (aplicativos), fazendo com que em 2011 houvesse mais de 350 mil aplicativos disponíveis ao usuário, além de 60 mil para iPads. Para o usuário, quanto mais aplicativos, melhor, pois em um aparelho que inicialmente era um telefone torna-se possível ler jornais, consultar dicionários, códigos jurídicos, bússola, jogar os mais variados jogos, calcular o índice de massa corporal, acompanhar o mercado financeiro, registrar os gastos numa planilha financeira, manipular fotos, fazer anotações, abrir arquivos dos mais diversos, acessar a conta do banco, etc, o que faz com que mais usuários comprem produtos da Apple e, girando o círculo virtuoso de Jobs, mais desenvolvedores lancem novos aplicativos.

Hoje são mais de 400 mil aplicativos divididos em categorias como negócios, educação, entretenimento, saúde, finanças, medicina, estilo de vida, música, navegação, fotografia, notícias, referências, produtividade, esportes, utilidades, viagens, tempo, redes sociais e, claro, livros. Na categoria de livros, o principal aplicativo é o iBooks.

Lançado em 25 de maio de 2010, o iBooks é um software desenvolvido pela Apple para leitura de arquivos EPUB e PDF no iPad. Ele é integrado a iBookstore, onde os usuários podem comprar diversos livros ou baixar gratuitamente clássicos de domínio público ali disponibilizados, mas também permite que se adicione arquivos próprios recebidos por email ou encontrados na internet.

Assim como no Kindle, as funcionalidades da leitura de um arquivo do formato ePub são muito mais abrangentes do que a leitura no formato PDF. No formato ePub, a troca de páginas é feita simulando um livro tradicional, com a página sendo virada. Também é possível ao leitor fazer marcações no texto, adicionar notas, destacar determinadas páginas, ampliar ou diminuir o tamanho da fonte, mudar o tipo de fonte, mudar a cor do fundo para sépia, mudar o contraste da tela, pesquisar uma palavra dentro do livro, navegar através de hiperlinks, criar um sumário personalizado, consultar dicionário, copiar um trecho do livro, entre outros.

Já no formato PDF, que é reconhecido como imagem, o usuário não pode aumentar ou diminuir o tamanho da fonte, e sim aproximar ou afastar o zoom. As páginas são deslizadas, sem o efeito de passar páginas, e não é possível fazer anotações ou marcações, apenas mudar o contraste, pesquisar determinada palavra ou destacar uma página. Por outro lado, os arquivos em PDF podem ser impressos ou enviados por email, diferentemente do EPUB.

Mais do que inovar o mercado de livros digitais, o iPad em cerca de um ano "tornou-se o queridinho tecnológico do momento, conquistou corações e mentes e fez a proeza de praticamente criar um segmento de mercado", o dos tablets. A partir dele, diversos outros tablets foram lançados, como o Galaxy, da Samsumg, o Playbook, da RIM, o Xoom, da Motorola e o Slate, da HP.

Diferentemente da Apple, que vende seus aparelhos com um sistema operacional próprio, onde se encontra a loja de aplicativos, músicas e livros, esses tablets utilizam o sistema operacional Windows, da Microsoft, ou o Honeycomb, fornecido gratuitamente pelo Google.

O Honeycomb é uma versão especial para tablets do Android, sistema operacional do Google para smartphones. Assim como ocorre na Apple, há uma loja de aplicativos, o Android Market, e uma loja de livros digitais, o Google Books for Android. Um diferencial desse aplicativo é que ele disponibiliza os milhões de livros digitalizados no site Google Books para acesso no Android.

É importante perceber, entretanto, que os livros de aplicativos como o iBooks e o Google Books ou de leitores como o Kindle, o Alfa e o Nook são, na verdade, livros digitalizados, e não livros digitais, pois foram textos criados para uma versão impressa, com as características e limitações da versão impressa, convertidos para uma mídia digital por questões logísticas ou comerciais. É uma variação dos projetos de digitalização de livros descritos no capítulo anterior, como o Projeto Gutenberg e o Domínio Público.

Por outro lado, as possibilidades do livro em geral — e da literatura em particular — quando nos suportes digitais e multimídia vão muito além de páginas e páginas de textos diagramadas em formato de códice, pois "gêneros tradicionais passam por transformações quando migram do livro para a internet, gerando novas formas de expressão", nas palavras de Lajolo e Zilbermann.

Um exemplo significativo nesse sentido são as versões para iPad de livros conhecidos do grande público, como A Menina do Narizinho Arrebitado, Alice no País das Maravilhas e Toy Story. Essas versões são encontradas na loja de aplicativos da Apple na seção de livros, e não na iBookstore, pois elas não são arquivos de livro digital para serem lidos no iBooks, e sim softwares próprios que precisam do iPad para funcionarem e exploram ao máximo suas potencialidades e ferramentas, como tela sensível ao toque e sensor de movimento.

Desenvolvido pela Disney Digital Books e lançado em abril de 2010, o aplicativo Toy Story para iPad é gratuito e explora as potencialidades multimídia do novo suporte, mas mantém o texto como centro da narrativa, aliando ao texto a contação de história, tão importante para crianças em idade pré-escolar.

Ao virar cada página, o leitor se depara com uma animação elaborada até que a cena congela e surge o texto (em inglês, naturalmente). Então o texto é lido por um narrador, enquanto as palavras que estão sendo lidas vão sendo destacadas na tela. No menu de opções, o usuário descobrirá que ele pode gravar sua própria voz contando a história (aí na língua e da forma que desejar) e depois dar o iPad para seu filho, sobrinho ou aluno ouvir a história salva na sua versão.

Além do texto, algumas páginas, quando congeladas, trazem um ponto indicando a possibilidade de clique, e, se o usuário clicar, ouvirá vozes ou som das personagens, complementar mas não necessário à história. Além disso, no topo ele encontrará um ícone, e clicando ali será remetido a uma ilustração para ser colorida. Esses ícones especiais se repetem em outras páginas, dando acesso a outros desenhos para colorir, jogos (com três níveis de dificuldade distintos) e clipes de músicas. É interessante notar, porém, que nem todas as páginas têm esses ícones extras, e eles não se repetem na mesma página, o que de certa forma não sobrecarrega o leitor, desviando sua atenção da história que está sendo contada.

Abaixo da tela há um simpático Mickey lendo um livro, como se fosse o leitor, e clicando sobre ele o usuário ativa um menu com diversas opções, como pular de página, mudar a forma como as páginas são passadas (há inclusive a opção de virar a página automaticamente), ouvir ou não o narrador, gravar sua própria narração, tutorial, acesso direto aos jogos, às pinturas e às músicas.

A história em si repete o que já vimos nas versões cinematográficas de Toy Story, mas é interessante notar como o texto conduz a narrativa e os jogos e animações tornam-se complementares ao envolvimento com a história, cumprindo um papel que a ilustração e, em alguns casos, a contação de histórias já tem feito.

Alice for iPad também foi lançado em abril de 2010 e tornou-se um símbolo das possibilidades do livro digital, com ilustrações que se movem à medida que o leitor balança o aparelho, trabalho gráfico cuidadoso e diversas animações que o transformam numa emblemática releitura do clássico de Carrol para a era digital. Na loja da Apple há duas versões, uma gratuita, com as páginas iniciais, e outra completa à venda por US$ 8,99. Diferentemente de Toy Story, Alice opta pela sobriedade, com um formato que lembra o livro tradicional tanto na navegação quanto no visual, deixando a novidade para os efeitos gráficos da ilustração.

Outra dessas primeiras versões digitais que merece referência é a adaptação da obra de Monteiro Lobato A Menina do Narizinho Arrebitado, lançada pela Globo Livros em dezembro de 2010, mês de lançamento do iPad no Brasil. O livro, disponibilizado gratuitamente na AppStore, segue a sobriedade de Alice, mas lança mão de mais recursos nas suas páginas animadas, como o som do vento, do espirro ou da água. Em determinada página, quando Narizinho entra no reino de Escamado, "onde a escuridão era pior do que a de uma noite sem estrelas", a tela fica escura e o usuário, para conseguir ler o texto, precisa mover um vagalume pela tela, iluminando-a a partir de sua intervenção.

Não por acaso os três exemplos citados são livros infanto-juvenis. Perrone-Moisés, num texto dos anos 90, já alertava para o que chama de desafeto progressivo pela leitura: "leitura exige tempo, atenção, concentração, luxos ou esforços que não condizem com a vida cotidiana atual. Ouvi recentemente, de uma criança com preguiça de ler, a reclamação de que 'os livros têm muitas letras'. De fato, para concorrer com os outros meios de comunicação, os livros atuais e futuros precisarão ter mais atrativos do que aqueles ocultos pelas letras".

Por ora, o espanto com a novidade ainda é maior e muitos sabem descrever o que as crianças (e a sociedade em geral) estão perdendo. É preciso aguardar os próximos capítulos dessa história, porém, para conhecer o que as crianças (e a sociedade em geral) estão ganhando.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 14/4/2011.

História da leitura (V): o livro na Era Digital


Marcelo Spalding

Atravessar o milênio foi como atravessar a fronteira entre o presente e o futuro, chegando finalmente ao tal futuro das roupas cinzas e naves espaciais. É verdade que a frustração foi grande para a maioria das pessoas, não estamos pilotando carros voadores, sendo teletransportados para lugares distantes nem foi descoberta a fonte da juventude (sem falar que não foram dizimadas a fome, a miséria, a desigualdade, a opressão, as ditaduras), mas a era pós-2000 traz consigo uma revolução rápida e silenciosa, a revolução dos bits.

Nicholas Negroponte, em livro de 1996, já afirmava que a melhor maneira de avaliar os méritos e as consequências da vida digital é refletindo sobre a diferença entre bits e átomos. Ele lembra que à época, apesar de já estarmos numa era da informação, a maior parte das informações chegavam até nós em forma de átomos. Aos poucos, porém, previa o pesquisador, "todas as indústrias, uma após a outra, olham-se no espelho e se perguntam sobre seu futuro; pois bem, esse futuro será determinado em 100% pela possibilidade de seus produtos e serviços adquirirem forma digital". Assim, como não seria mais física, a informação em bits poderia ser transmitida em um tempo e espaço cada vez menores, ultrapassando os limites da informática e estando ainda mais presentes na vida das pessoas.

No campo cultural, foi a partir do desenvolvimento da internet e suas múltiplas possibilidades que a era digital popularizou-se e revelou todo o seu poder transformador, ainda que já houvesse alguns experimentos com a área digital nas mais variadas linguagens: na arte visual, por exemplo, a exposição Luz e Movimento, organizada por Frank Popper em 1967, na França, trouxera obras que se utilizavam de meios tecnológicos; na música, Karlheinz Stockhausen abrira em 1953 o que seria o mais famoso estúdio de música eletrônica do mundo em Colônia, Alemanha, berço da Elektronische Musik; no cinema, George Lucas, em 1977, lançara Star Wars, transformando os efeitos visuais em principal atração de Hollywood.

Com a internet, entretanto, não apenas a produção dos bens culturais mudou, como também seu consumo e distribuição. Emblemática nesse sentido foi a revolução causada pela troca de arquivos no mercado da música a partir do MP3, que fez a venda de CDs nas lojas despencar, ainda que, como bem salienta Chris Anderson, nunca se tenha ouvido tanta música. Hoje, além da venda de CDs, existe a venda de músicas em formato digital por sites autorizados pelas gravadoras e, claro, a própria troca de arquivos, que estimula o consumo da música e, o mais importante, abre espaço para uma enormidade de músicos e bandas que não teriam acesso aos meios de distribuição tradicionais, criando o que Anderson chama de "cauda longa".

É natural que, diante desse quadro, pensemos no que a era digital pode fazer com o livro e seu respectivo mercado, o mercado editorial, ainda que por muito tempo se tenha pensado que o livro fosse "como a colher, o martelo, a roda ou a tesoura: uma vez inventados, não podem ser aprimorados", palavras de Umberto Eco. Ocorre que, embora desde meados do século o mercado editorial tenha se utilizado das tecnologias digitais para desenvolver sua produção, com avanços gráficos que permitiram livros de melhor qualidade e significativamente mais baratos, até o início do terceiro milênio ― dos anos 2000 ―, parecia que o livro enquanto objeto permaneceria incólume a essa revolução dos bits. Pesquisando mais a fundo, porém, veremos que já no século XX houve instituições preocupadas em digitalizar livros impressos para conservá-lo nos novos formatos, e empresas que vislumbraram no livro o produto ideal para vendas on-line.

Comecemos pelo nobre projeto de conservação. Já em 1971 foi criado por Michael Hart, um estudante da Universidade de Illinois, o Projeto Gutenberg, um esforço voluntário para arquivar e distribuir obras culturais através da digitalização de livros. O primeiro texto digitalizado foi uma cópia da Declaração de Independência dos Estados Unidos e hoje são mais de 33 mil livros eletrônicos digitalizados para leitura on-line ou nos leitores digitais. O catálogo é composto basicamente de livros em domínio público. Há uma versão em inglês e outra em português.

O Projeto Gutenberg lançou uma tendência de digitalização e disponiblização de diversos livros em domínio público ao redor do mundo. No Brasil, o governo brasileiro lançou em 2004 o portal Domínio Público, inicialmente com 500 obras, incluindo a obra completa de Machado de Assis e José de Alencar, por exemplo, além de documentos importantes para a história nacional. Hoje são 186.740 obras cadastradas na forma de textos, sons, imagens e vídeos, um acervo que recebe em torno de 500 mil visitas por mês, segundo estatísticas disponibilizadas pelo próprio site.

O Google, porém, foi além desse projeto de digitalização de obras em domínio público e em outubro de 2004 lançou o
Google Books, com o objetivo de digitalizar em massa acervos inteiros de bibliotecas, como a da Universidade de Michigan, Harvard, Stanford, Oxford e da Biblioteca Pública de New York, disponibilizando em uma década 15 milhões de volumes para acesso e transformando-se em uma verdadeira Biblioteca de Alexandria da era digital. Robert Darnton, em A questão dos livros, revela parte dos bastidores dessa negociação do Google com as bibliotecas:

"Embora sofra alguns processos por monopólio e quebra de direitos autorais, especialmente na comunidade europeia, o projeto segue a pleno vapor, disponibilizando milhões de livros, revistas, trabalhos acadêmicos, entre outros, nas mais variadas línguas. A maioria dos livros são escaneados usando uma câmera Elphel 323 que permite um ritmo de mil páginas por hora, tornando possível, se não do ponto de vista comercial, pelo menos do ponto de vista técnico, a realização do sonho borgeano de uma Biblioteca universal contendo todos os livros em todas as línguas."

Afora a experiência do Google, a digitalização de livros logo mostrou-se, também, um negócio extremamente rentável para a maior vendedora de livros do mundo, a loja eletrônica Amazon.com. Jeff Bezos fundou a Amazon em 1995 com o intuito de vender livros pela internet. O grande diferencial da empresa, com sede de Seattle, era poder vender livros de nicho, já que não havia necessidade de ter todos os livros expostos numa prateleira física, o que a tornou a maior livraria do planeta. Dois anos depois, a companhia abriu capital na bolsa de valores NASDAQ, e, em 1999, Bezos foi eleito a "Personalidade do Ano" pela revista Time por popularizar a compra on-line.

A Amazon, apesar do sucesso comercial, ainda era uma empresa que vendia átomos, ou seja, o usuário comprava via internet um livro (posteriormente a loja passou a vender CDs, DVDs e outros produtos eletrônicos), a empresa postava esse livro e o cliente o recebia em casa. Com o objetivo de transferir o livro de forma digital e praticamente zerar os custos de distribuição, a Amazon lançou em 19 de novembro de 2007 o Kindle, primeiro leitor de livros digitais a se tornar popular no mundo tudo, embora já houvesse outros leitores utilizando o chamado "papel eletrônico" no mercado.

O Kindle pode ser definido como um hardware, um software e uma rede que utiliza conexão sem fio para que os usuários comprem, baixem e leiam livros, jornais, revistas ou blogs. Seu grande diferencial, já na primeira versão, foi a utilização do chamado papel eletrônico, uma tecnologia que torna a leitura em sua tela muito mais agradável do que nos microcomputadores.

Além do papel eletrônico, o modelo de negócios adotado pela Amazon foi fundamental para popularizar o aparelho e o transformar num grande negócio para a empresa: o usuário compra o aparelho por um valor relativamente baixo (hoje ele está anunciado a US$ 139,00 na versão Wi-Fi e US$ 189,00 na versão 3G + Wi-Fi) e tem acesso livre à rede, sem precisar contratar um plano de telefonia. Na loja virtual, o usuário encontra mais de 630 mil livros, como best-sellers a US$ 9,90, e uma grande quantidade de clássicos disponíveis.

Além de acessar a loja, a rede mundial gratuita permite que o usuário faça backup (cópia de segurança) dos livros adquiridos nos servidores da Amazon para o caso de perda ou dano no aparelho. Também é possível acessar a Wikipedia, ler blogs, jornais e revistas.

A leitura em si é como a de um livro tradicional, com páginas exibidas sequencialmente e botões para avançar ou retroceder. Nas configurações, o usuário pode escolher o tamanho da fonte, o contraste e a rotação da tela. Também é possível fazer anotações, assinalar trechos do livro e visualizar quais foram os trechos mais assinalados pelos leitores daquele livro. Além disso, a função Text-to-Speech transforma textos escritos em textos falados, ou seja, lidos em voz alta pelo aparelho para o leitor.

Na terceira versão do aparelho, lançada após o surgimento dos tablets, em julho de 2010, o Kindle tornou-se ainda mais fino e leve, melhorou seu contraste, criou a possibilidade de o usuário reproduzir um trecho de sua leitura nas redes sociais (Facebook ou Twitter), incorporou novos tipos de fontes, integrou um dicionário para os textos em inglês, ampliou seu armazenamento para até 3500 livros e a autonomia da bateria para até cinco dias, reforçando a ideia de que um leitor de livros digitais deve ser extremamente portátil, rápido e capaz de carregar toda uma biblioteca em poucas gramas. Há projetos, ainda, de criar uma rede social entre os leitores, permitindo que se divida com amigos as impressões sobre as obras lidas no Kindle e se acesse observações e destaques feitos por eles.

Embora num primeiro momento o leitor habituado com o livro tradicional estranhe a espessura e a forma de passar as páginas com cliques desse tipo de reader, estudiosos como Robert Darnton afirmam que é uma questão de treino: "se você foi treinado a guiar uma caneta com seu indicador, observe a maneira como os jovens usam o polegar em seus celulares e perceberá como a tecnologia penetra o corpo e a alma de uma nova geração".

Com o sucesso do Kindle, outras grandes livrarias passaram a adotar um modelo de negócios semelhante em busca desse mercado digital. A tradicional livraria nova-iorquina Barnes&Noble, maior livraria varejista dos EUA, lançou em 30 de novembro de 2009 o Nook, e um ano mais tarde o Nook Color, leitor de livros digitais com tela sensível ao toque, visor colorido e capacidade de armazenamento de 6000 livros. Diferentemente do Kindle, que só suporta arquivos adquiridos na Amazom (e posteriormente arquivos em PDF), o Nook é compatível com os formatos PDF e ePUB, sendo este último um formato de arquivo de livro digital que tem se tornado o preferido do mercado.

O formato ePUB (Electronic Publication) é um padrão aberto para livros digitais instituído pela IDPF ― International Digital Publishing Forum. O ePUB foi desenvolvido para que o conteúdo se adapte a qualquer aparelho, o que significa que a visualização do texto pode ser otimizada para diferentes modelos. Hoje diversos leitores de e-books são compatíveis com o ePUB, a Sony inclusive abandonou seu formato proprietário para ficar só no padrão ePUB. Diferentemente do PDF, que é lido pelos aparelhos como uma imagem fechada, um arquivo EPUB tem cada letra reconhecida, o que permite ao leitor configurar tipo e tamanho da fonte, fazer anotações, copiar um texto, consultar determinada palavra no dicionário ou fazer buscas dentro do livro. O autor, por sua vez, pode criar um livro com texto, imagens e hiperlinks, abrindo um enorme leque de possibilidades.

No Brasil, as Livrarias Saraiva e Cultura, que saíram na frente na comercialização de livros digitais, optaram por vender os livros nos formatos ePUB e PDF com DRM, não ficando vinculadas a um ou outro aparelho. Ainda assim o grupo Positivo lançou, em meados de 2010, o Positivo Alfa, primeiro leitor de livros digitais brasileiro. O Alfa é aberto, assim como o Nook, tem 8,9 milímetros de espessura, pesa 240 gramas, tem tela sensível ao toque e memória para 1500 livros.

É nesse cenário de consolidação do livro digital como possibilidade de negócio, com editores reunidos em Frankfurt preocupados com o avanço da tecnologia, escritores consagrados publicando versão impressa e digital, livrarias tradicionais pedindo falência e grandes grupos de mídia anunciando projetos de publicação de e-books que a Apple entra no mercado com seu iPad, lançado em 27 de janeiro de 2010. Mas o iPad já inaugura outro capítulo desta história...

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 14/4/2011.