segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

O Olho da Fechadura, de Ângela Schnoor

Marcelo Spalding

Algumas pessoas sentem falta de quando eu indicava bons livros de minicontos, num tempo em que tanto se fala e tanto se publica minicontos: pois nesse verão li “O Olho da Fechadura”, de Ângela Schnoor, e eis um livro que eu recomendo a leitura.

Não é necessariamente uma leitura de verão, pois as dezenas de minicontos de Ângela aparentam simplicidade na forma para exigir muito do leitor no seu subtexto, além de trazer temas reflexivos e existenciais. Impressiona, nesse sentido, a profundidade dos mínis:

Sua escolha

Na mesa de cirurgia, seu coração parou. Viu-se ante três portas e sabia que devia escolher seu caminho. Uma lhe pareceu fria e escura e, de imediato, a rejeitou. A seguinte, reta e sem apelo, não despertou interesse. Entrou na que lhe pareceu bem-acabada e agradável e, imediatamente, ouviu:

- Bem-vindo ao inferno. E, neste exato minuto, em meio ao bip-bip dos aparelhos, o médico dizia: - Conseguimos ressucitá-lo! (p. 41)

Tal profundidade parece contraditória num gênero tido como leve, tão próximo a piada ou ao sarcasmo, e é por desafiar esse lugar comum que Ângela consegue produzir uma quantidade tão grande de bons minicontos neste “O olho da fechadura”. Sua formação em psicologia, suas conversas de consultório e, especialmente, sua longa trajetória de leituras tornam a autora madura e capaz de dialogar em poucas linhas com seu tempo e com a literatura de todos os tempos:

Peter Pan

Desde que Sininho desapareceu com seu pó, Peter não voa mais. Casou-se com Wendy, almoça aos domingos em casa da sogra e se empanturra de cerveja para esquercer que mora na Terra do Sempre, onde meninos perdidos morrem de fome. (p. 42)

Em nosso tempo há a família e seus conflitos, a violência e suas barbáries (presença quase obrigatória num livro de uma carioca), mas também há o espaço para a crítica social fina como neste singelo miniconto fantástico

Céu e Terra

Tornou-se mendigo. Abrigava-se nos vãos do aeroporto, mas cuidava da aparência. Diariamente, percorria os salões levando um carrinho com suas bagagens imaginárias. No ir e vir dos voos, ia a todos os lugares do mundo. Ajudando turistas, aprendeu idiomas. Não mais voou. Um emprego lhe partiu as asas. (p. 13)

Para terminar, outro tema recorrente nos mínis é a doença, a morte, a velhice, o tempo ou suas variações, mas em geral não tratadas com a frieza niilista de um Trevisan, e sim arejadas com uma pitada de poesia capaz de fazer o texto transcender a mísera história que conta.

Frestas

Ao acordar a filha pela manhã, Lúcia encontrou todas as bonecas da menina sem cabelos. Quando, na noite anterior, tirou a peruca diante do espelho e chorou copiosamente, não se imaginava descoberta. (p. 39)

2 comentários:

  1. Marcelo,
    Não agradeço apenas a você, mas ao dom que recebestes e que te torna capaz desta análise tão bem escrita. Impressionada com a leitura cuidadosa, atenta e lúcida, fiquei até com vontade de ler o livro!:D

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  2. Angela e Marcelo,

    A mim, lendo a minirresenha, deu vontade de reler o livro.

    Parabéns aos dois: a você, pela análise, e a Angela, pelos minicontos.

    Forte abraço.
    W. Gorj

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