segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

QUERIDA MÃE, QUERIDO PAI

Bela crônica escrita por Celia Maria Maciel sobre o Guilherme, nosso bebê.

Meus braços antigos acolhem Guilherme. Ele é um prêmio amoroso. Movimenta pés e as mãos feito um nadador profissional na raia dos cinco meses de vida. Parece estar ainda no rio do útero materno. E sorri feito um velho conhecido. E é novo. Não para. Está sempre indo. E não é a vida esta raia que demarca só a ida?

O pai de Guilherme escolheu a mim, para acolhê-lo. E foi com a ternura do mundo que eu o fiz. Um bebê que me faz recordar de outro bebê, bem assim como Guilherme. Só que era uma menina. A tez era clara e tinha o mesmo ritmo. É a mesma que embalo nos braços dos meus dias.

Relaciono tudo isso, com o fato de chegar ao final de ano com muita coisa boa na bagagem. Guilherme foi uma surpresa, porque gosto muito do pai dele, o Marcelo Spalding, amigo e escritor de livros infanto-juvenis e de contos. Quem sabe um dia, eu pudesse levá-lo a Cachoeira, não fosse o fato melancólico de Cachoeira não ter praças e nem espaço para a Feira do Livro. Não há lugar ao ar livre, num dia ameno de sol, que se possa sentar e conversar. E que as crianças possam brincar. Não acredito mais que um dia eu volte a caminhar por entre flores, na cidade onde nasci.

Mas voltando aos saldos. Foi um ano de muita leitura. De Martina, João Guilherme e Lázaro. De Manuela e Bianca. De amizades. As perenes. No mais, penso que nestes últimos dias de dezembro, deve haver muita frugalidade nas festas. Que uma mesa de comilança e todos os excessos, enquanto criaturas morrem de fome e de aridez na alma é, no mínimo, perverso. E perversidade é o que mais aniquila crianças no mundo inteiro.

E como pano de fundo a voz da Cesária Évora, que o Cristiano Bernardes, numa atitude gentil e cabo-verdiana, me presenteou. De mais não careço. Como uma crônica é sempre uma carta à cidade, apesar de não ir a Cachoeira pelo Natal, deixo um recado através de cantiga singela, de um grupo de Lisboa: “Querida mãe, querido pai. Então que tal?/ Nós andamos do jeito que Deus quer/ Entre os dias que passam menos mal/ Lá vem um que nos dá mais que fazer”.

Celia Maria Maciel

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