segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Quando o autor é protagonista do próprio romance: Verão, de Coetzee

Marcelo Spalding

O romance, gênero de tanta tradição e tão popular no século anterior ao rádio e a TV, está mudado, muito mudado. Hoje, romances manejados pelas mãos de hábeis e treinados escritores não se revelam assim tão lineares, tão fáceis: como na leitura do conto, é preciso penetrar no subtexto, encaixar peças, buscar o efeito mais do que a narrativa, o ritmo poético mais do que o enredo. Leite Derramado, o mais recente de Chico Buarque, é um exemplo. Lavoura Arcaica, um clássico.

Diante dessa mudança de estrutura, muitos leitores médios acabam se afastando do romance “literário” e buscam os livros de não-ficção, como biografias, grandes reportagens ou reconstituições históricas. Por sua vez, e talvez exatamente por causa disso, muitos escritores começaram a fazer romances com feitio de biografia, de não-ficção, embaralhando as cartas no jogo da literatura e apimentando sobremaneira a distinção entre os gêneros.

Aqui no Brasil temos bons exemplos, de Por que sou gorda, mamãe?, de Cíntia Moscovich, a O filho eterno, de Cristóvão Tezza, mas um romance em especial pode sintetizar bem essa metamorfose sofrida pelo gênero: Verão, do sul-africano J. M. Coetzee (Companhia das Letras, 2010, 276 p.).

Chamo Verão de romance sem constrangimento, ainda que a obra se utilize de recursos estéticos da biografia, da entrevista e do diário para contar a vida de Coetzee nos anos 70, antes da sua afirmação como escritor e professor universitário. Aqui o Coetzee autor é convertido num personagem, inclusive já falecido no momento da história. A narrativa, composta por depoimentos de cinco pessoas que conviveram com o personagem, além de seus cadernos de anotação, traça um perfil errático, desinteressante e opaco de Coetzee, diferentemente do que costuma acontecer nas auto-biografias.

“Eu nunca tinha visto nada mais triste do que aqueles dois holandeses, pai e filho [Coetzee], sentados juntos, lado a lado, debaixo de uma árvore, tentando fingir que não estavam molhados e com frio. Uma coisa triste e engraçada também. (…) Ele é um homem fraco.”

Esse trecho do depoimento de Adriana, uma bailarina por quem Coetzee teria tido uma paixão não correspondida, revela o tom das opiniões emitidas sobre o protagonista, batizado com o mesmo nome do autor, o que amplia o mistério sobre sua figura.

Há alguns pontos a considerar, entretanto. Não podemos esquecer, em primeiro lugar, que os depoimentos (fictícios) são todos de pessoas/personagens que conviveram com o autor/personagem naquele período, não amigos íntimos nem familiares, e sim pessoas que passaram pela vida de um Coetzee iniciante, desajustado em seu país e seu tempo (o país é o do apartheid; o tempo, o da Guerra do Vietnã). Assim, a visão particularizada em Coetzee pode ocultar uma visão de conjunto da sociedade para com o escritor, o artista, o intelectual:

“John e seus poemas de novo! Ela não consegue evitar e rola de rir. John sentado na varanda daquela casinha desolada, inventando poemas!”. Adiante, provocado pela prima Margot a escrever um best-seller e ganhar um monte de dinheiro, ele responde: “Eu não saberia escrever um best-seller, não conheço o suficiente das pessoas e de suas fantasias”.

A opção por fazer de uma auto-crítica mordaz o centro da narrativa ainda permite que o romance traga à tona diversos dilemas históricos e sociais, muitos ainda em aberto, sem converter-se com isso num texto panfletário. Há crítica ao apartheid e suas implicações no dia-a-dia, ao serviço social e de saúde do país, à postura americana na guerra do Vietnã, às ditaduras africanas e sua violência e até ao período ditatorial brasileiro.

“Meu marido tinha essa qualidade”, dirá Adriana ao comparar seu falecido marido à Coetzee, “sempre teve, mas o tempo que passou na prisão aqui no Brasil, sob o poder dos militares, fez aflorar isso, muito embora ele não tenha ficado muito tempo na prisão, só seis meses. Depois desses seis meses, ele dizia, nada que seres humanos fizessem para outros seres humanos seria surpresa para ele”.

Tais depoimentos, no romance, são recolhidos por um biógrafo que tenta recompor a vida de Coetzee nesse período. E o próprio biógrafo, na conversa com uma colega de universidade, ao ser questionado sobre seu discutível método de trabalho, diz: “Madame Denoël, examinei as cartas e os diários. Não dá para confiar no que Coetzee escreve, não como registro factual – não porque ele fosse mentiroso, mas porque ele era um ficcionista. Nas cartas, ele inventa uma ficção de si mesmo para seus correspondentes; nos diários ele faz a mesma coisa para os próprios olhos, ou talvez, ou talvez para a posteridade”.

Ocorre que pouco importa, na verdade, o quão aquele Coetzee ali retratato é autor ou personagem, o quanto há de verdade. Na literatura, muito mais importante que a verdade ou a realidade é a verossimilhança, e há de fato uma verossimilhança latente em cada cena, em cada diálogo, em cada frase. Agora, se um leitor voyeur devorar a “auto-biografia” de Coetzee e sair por aí contando que aquele escritor era rejeitado pelas mulheres, e se isso para ele for um alento por achar que um dia poderá a ganhar um Nobel como Coetzee, provavelmente o sul-africano não fará nenhuma objeção, talvez apenas um riso de canto de boca, de escárnio. Um James Weldon Johson às avessas.

E continuará alimentando a curiosidade dos leitores com mais volumes de sua auto-biografia ficcional (este é o terceiro, depois de Infância e Juventude), enquanto amplia o cânone da literatura universal com mais ficção sobre sua biografia.

Marcelo Spalding

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Patricinha fascista

Juremir Machado da Silva, publicado no Correio do Povo

A estupidez está sempre ao alcance de todos. Mayara Petruso, patricinha paulista, estudante de Direito, saiu do anonimato para fama, via Twitter, graças a um coice na inteligência nacional. Indignada com a vitória de Dilma Rousseff, a moça disparou este petardo: "Nordestino não é gente, faça um favor a São Paulo, mate um nordestino afogado. Tinham que separar o Nordeste e os bolsas-vadio do Brasil (...) Construindo câmaras de gás no Nordeste, matando geral". No Facebook, a burrinha racista se atolou um pouco mais: "Afunda, Brasil. Deem direito de voto pros nordestinos e afundem o país de quem trabalha pra sustentar vagabundos que fazem filhos pra ganhar bolsa 171". Mayara já perdeu o emprego no escritório onde trabalhava e sofrerá ação judicial protocolada pela OAB.

Alguns jovens universitários paulistas têm revelado um grau superior de idiotice. Depois da turminha que hostilizou uma guria por causa da sua minissaia, apareceu o bando do "rodeio das gordas", propondo tratar meninas obesas como animais. E agora entra em cena a tal Mayara. O escândalo maior é imaginar que isso representa uma opinião média difundida na Internet. Como será que a mulinha Mayara explica a vitória de Dilma em Minas Gerais? Achar que as ajudas sociais são incentivos à vagabundagem é típico de uma elite primitiva ou de uma classe média ignorante. Qualquer país civilizado, a começar por França, Alemanha, Inglaterra e, evidentemente, países escandinavos, oferece mais ajudas sociais que o Brasil. Não adianta ir à Europa só para comprar bolsas Vuitton. É preciso espiar o cotidiano.

Quem não recebeu e-mails dizendo que Dilma não podia ser candidata por ter nascido na Bulgária? Quantos analistas têm por aí sugerindo que os nordestinos são subeleitores que votaram com o estômago? Quando um empresário escolhe um candidato seduzido pela possibilidade de redução de impostos, o que é legítimo, não se trata de voto por interesse? Não é voto com o bolso? Quando ruralistas votam num candidato na esperança de conseguir mais incentivos, o que é comum, não é voto interesseiro? Mayara não deixa de ser o produto de uma estratégia perigosa, a divisão ideológica entre bem e mal. Foi essa perspectiva, cara ao vice Índio da Costa, que José Serra adotou. A revista Veja e o jornal Estado de S. Paulo deram aval a essa idiotice retrógrada. Uau!

O PSDB, que nasceu pretendendo ser moderno e racional, podia mais. Veja, que se acha mais moderna do que os modernos, acabou por produzir leitores Mayara. Isso não tem a ver com partidarismo como imaginam os mais simplórios ou ideológicos. Eu jamais terei partido. Meu único capital é a independência selvagem. Sou a favor do voto de castidade partidária para jornalistas. Tudo pela liberdade de dizer que quem acha o Bolsa-Família um incentivo à vadiagem pensa como Mayara. Esse foi o principal erro tucano na campanha eleitoral: ter guinado à direta para tentar seduzir as Mayaras, que arrastaram um intelectual progressista como Serra para o reacionarismo rasteiro do Estadão e da Veja. Mayaras, nunca mais!