terça-feira, 19 de outubro de 2010

Vendas de livros digitais crescem 193% em um ano nos Estados Unidos

As vendas de livros digitais (e-books) nos Estados Unidos cresceram 193% de acordo com pesquisa divulgada pela Association of American Publishers (Associação Americana de Editores, em portugês). O motivo do crescimento, de acordo com a associação, é o bom resultado nas vendas dos tablets e leitores digitais Kindle, iPad e Nook nos últimos meses.

A pesquisa afirma que, entre os meses de janeiro e agosto de 2010, as vendas de e-books chegaram a US$ 263 milhões. No mesmo período em 2009, este número foi de quase US$ 89 milhões. Com isso, os livros digitais representam 10% de toda a venda de livros nos Estados Unidos, número que era de 3,31% no ano passado.

Quanto mais populares os livros digitais se tornam, as vendas dos livros tradicionais caem. A Amazon afimrou que vende mais publicações para o Kindle do que no formato tradicional e, de acordo com a Association of American Publishers, a venda de livros de capa dura caiu 24% em 2010 em relação ao ano passado.

http://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2010/10/vendas-de-livros-digitais-crescem-193-em-um-ano.html

sábado, 16 de outubro de 2010

O filho eterno e seus prêmios literários


Marcelo Spalding


LIANA TIMM© (http://timm.art.br/)

Muitos escritores invejariam o sucesso de Cristovão Tezza com seu O filho eterno (Record, 2007, 224 págs.), que faz questão de se anunciar na capa da nona edição (nona!), publicada em 2010, como vencedor dos prêmios Zaffari & Bourbon 2009, Portugal Telecom 2008, São Paulo de Literatura 2008, Jabuti 2008, Bravo! 2008 e APCA 2007. E o invejaria não apenas pelos prêmios, como também pela crítica, orgulhosamente representada na contracapa da edição, e principalmente porque a obra tem sido indicada em vestibulares de diversos lugares do país (e isso vende muito mais que qualquer troféu na estante ou tapinha nas costas dos críticos).
Sim, muitos escritores invejariam o sucesso de Cristovão Tezza, menos o pai de Felipe. O pai de Felipe é o protagonista de O filho eterno, um escritor que quando tem o filho, na faixa dos 30 anos, acumula cartas de rejeição das editoras e fracassos nos prêmios literários. Mas não parece, o pai de Felipe, ser movido pela vaidade dos troféus, e sim por uma incrível necessidade de escrever: ele escreve, reflete, constrói uma obra anônima, sem leitores, até que, finalmente, seu primeiro livro, Trapo, é publicado por uma grande editora. Daí para as carreiras literária e acadêmica é um pulo.
Não há de ser coincidência que Trapo seja também o primeiro sucesso de Tezza, o autor, e que sua profissão seja dar aulas de linguística numa Universidade Federal, como o protagonista do premiado romance. Evidentemente, ficamos com vontade de saber se as questões pessoais levantadas no livro são ficcionais ou depoimentos corajosos e verdadeiros do autor. Só que nada disso importa e muito menos justifica a quantidade de prêmios recebidos. É preciso ver em O filho eterno um exemplo bem acabado de romance confessional, tão ao gosto do público voyeur contemporâneo, tecnicamente construído de acordo com as normas canônicas e acadêmicas.
A história inicia quando o pai de Felipe, um jovem de 28 anos, leva sua esposa para o hospital em trabalho de parto. É o primeiro filho do casal, e a ansiedade é grande. Desde o princípio, as ações encadeadas a partir do nascimento do bebê são também pretexto para reflexões e devaneios intelectuais do protagonista, fuma e anda de um lado para o outro enquanto o filho não nasce, e que vive às custas da mulher enquanto seu talento não é reconhecido.
"Um homem do sistema. Família é sistema. Daqui a cinquenta anos, ele imagina, sem de fato acreditar na fantasia que põe no corpo, não haverá mais famílias, e o mundo será melhor. Por enquanto, vamos levando com as armas que temos, a entonação já levemente irônica."
O filho, Felipe, finalmente nasce, os parentes são avisados e o narrador vai nos revelando um protagonista não apenas irônico, mas ácido, mordaz. "Um primeiro filho é uma aporrinhação monumental na vida de qualquer casal", dirá adiante. Mas qual não é nossa surpresa quando esse rapaz irônico, ácido, mordaz e sem rumo definido na vida, esse escritor à margem do sistema, esse pai jovem e despreparado descobre que seu filho não é uma criança "normal", ele tem Síndrome de Down. Um "mongolóide", nos termos do pai de Felipe.
"Ele conclui todos os dias: essa criança não lhe dará nada em troca. Sequer aquele prazer mesquinho, mas razoável, de mostrá-lo aos outros como um troféu, já antevendo secretas e inauditas qualidades no futuro daquele (que seria um) belo ser. Se eu escrever um livro sobre ele, ou para ele, o pai pensa, ele jamais conseguirá lê-lo."
A partir desse conflito irreparável e desse tom inconfundível, Tezza costura um texto que é ao mesmo tempo sobre o menino e sobre o pai, metonímias de uma sociedade preconceituosa, conservadora e provinciana. Optando pela narrativa nas cenas com o filho e pelo discurso nas cenas em que o pai reflete sobre seu passado e seu novo desafio, o autor consegue ser contundente sem ser panfletário, emotivo sem cair no piegas. A visão cruel do pai para com o filho num primeiro momento repugna o leitor, mas aos poucos vamos percebendo a sinceridade daquele relato, a dificuldade de lidar com um caso desses e de como não seria muito diferente fôssemos nós o pai.
Nesse sentido, a escolha de um narrador em terceira pessoa, e não um narrador protagonista, embora pareça artifício de adolescente escrevendo sobre seu alter ego, nos aproxima do personagem, que ao não ter nome pode ser qualquer um de nós: pais, tios, irmãos, professores ou vizinhos de uma criança com síndrome de Down, com problema motor, cega, surda, albina, feia, anã (os preconceitos são muito mais numerosos do que as deficiências).
É evidente, porém, o protagonismo absoluto do pai de Felipe, pois em raros momentos o narrador se refere à mãe do menino, que permanecerá casada com o pai de Felipe até o fim do livro, mas será referida em uma ou duas oportunidades, assim como a filha mais nova do casal, uma criança "normal" e que não tem praticamente nenhum espaço no romance. O pai é absoluto em suas ideias, intenções, medos, angústias, conquistas, reversões de expectativa, heroísmos, fracassos, referências (há intertextualidade com dezenas de clássicos da literatura universal, como Dostoiévski, Kafka, Sartre, Thomas Mann, Hemingway; clássicos para o pai, jamais serão lidos pelo menino, admirador de animes japoneses e jogos de futebol).
Assim, valendo-se de um mix pós-moderno de referências eruditas e populares, de questões sociais contemporâneas com aspectos históricos, Tezza constrói um livro provocativo para os analistas e assimilável pelo leitor médio, ainda que este ao final reclame da falta de um final (não está acostumado com a literatura pós-moderna, o leitor médio) e até termine xingando o pai, e o autor, por pensar tão mal sobre o filho.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 16/10/2010.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

O espiritismo e a novela da Globo

Marcelo Spalding

Acabou mais uma novela da Globo, Escrito nas estrelas, uma novela tão igual e tão diferente das outras. Diferente porque parece consolidar uma abordagem insistente da Rede Globo em relação ao espiritismo, iniciada com a exibição de A Viagem e ampliada agora (só nos últimos anos tivemos também a re-exibição de Alma Gêmea e a produção dos filmes Chico Xavier e Nosso Lar). Poderíamos pensar se tal insistência no tema é uma marca da decadência do catolicismo no nosso país ou uma tentativa da Rede Globo combater o crescimento da Record e seus evangélicos, pois mesmo numa cultura sincrética como a nossa é muito difícil conciliar as crenças evangélicas com as doutrinas espíritas, mas vamos nos ater àquilo que a novela teve de igual a todas as outras, o culto ao materialismo e ao consumismo.

Jovens beldades suspiram por novos pares de sapato, gerando belo merchandising, homens importantes dirigem carros modernos e caros, mãe e filha ficam histéricas diante de joias e todos se admiram com a beleza da mocinha quando em vez de cabelos e roupas naturais ela passa por um hair design e faz compras sem limites num shopping qualquer. Eis os valores que imperam, valores absolutamente conflitantes com aquilo que prega o verdadeiro espírita, como desapego às questões materiais, ao carro da moda, ao cabelo da moda, à roupa da moda. Mais do que a história da vida passada de Valentina e da vida presente de Vitória, a novela tratou da enorme diferença da vida de suburbana de Viviane e da vida de madame de Vitória, agora com novas roupas, novo jeito de andar, de falar, de se portar, consagrando preconceitos sociais arraigados e delimitando uns e outros, os que estão na moda e os que não estão, os vitoriosos e os cômicos (sempre havendo entre eles os bandidos).

Os pares românticos, por sua vez, são formados sempre com belíssimas e jovens mulheres se apaixonando por íntegros e riquíssimos homens. Assim a protagonista da vez, Vitória/Viviane, não por acaso descobre-se alma gêmea do viúvo e milionário Dr. Ricardo, e não do taxista, do motorista, do funcionário da clínica, de alguém comum, como nós. A própria protagonista, aliás, alma gêmea do doutor, é jovem, linda e inteligente, figura fácil de se apaixonar nesta ou em qualquer outra vida.

Ocorre que esse tipo de construção, tão comum nas novelas, faz o telespectador mais cético duvidar dessa história de alma gêmea ou mesmo do amor, afinal ele nunca sentiu algo daquele jeito e se sente frustrado porque seus melhores sentimentos são ou foram destinados a pessoas com muito menos virtudes, dinheiros ou curvas.

Esse maniqueísmo absurdo (ricos e pobres, bons e maus) é muito mais inverossímil do que qualquer contato entre vivos e mortos, do que qualquer reencarnação ou carma. O próprio espiritismo, aliás, quebra o dualismo céu e inferno do catolicismo ao trazer outros tantos destinos possíveis para a vida após a morte, afinal, nenhum de nós será sempre e apenas bom ou sempre e apenas mau, há nuances, há momentos, há fraquezas. E, socialmente falando, parece ainda mais óbvio que não há apenas ricos e pobres, entre eles há uma enorme classe média que, aliás, frequenta casas espíritas e foi assistir ao Nosso Lar, uma classe média tão distante das afetações da mansão do Dr. Ricardo quanto das maracutaias de seu Jofre.

O problema da pasteurização é que a novela contraria valores espíritas que supostamente estariam sendo representados, além de prometer uma comprovação quase científica de algo que não se tem como provar, é apenas uma questão de fé, uma questão de fé tão cega e possível quanto acreditar nada haver além desta vida.

O espiritismo kardecista nada mais é do que uma visão de mundo que se define como filosofia, ciência e religião, e não por acaso surgiu na França do século XIX, o das luzes. A premissa básica é que o espírito é imortal, enquanto o corpo é mortal, e se considerarmos apenas que essa premissa possa ser possível, que depois de morrermos nossa alma ou consciência ou seja lá o que for irá para outro lugar, e não simplesmente se apagará de repente, se considerarmos apenas essa premissa já muda tudo: o acaso dá lugar a uma complexa cadeia de ação e reação que ajuda-nos a intuir algum sentido para a vida e compreender algumas injustiças absurdas que vivenciamos.

Se além desse espírito imortal temos realmente almas gêmeas, se os "mortos" estão ao nosso redor, se podemos vê-los ou ouvi-los, se com a regressão realmente lembramos de outra vida, se há céu ou inferno, se há trabalho no nosso lar ou violetas na janela, isso tudo são suposições, criações e possibilidades dentro de uma premissa básica, esta, sim, realmente importante.

Um verdadeiro espírita como a minha mãe, que, aliás, se emocionou muito com o último capítulo da novela, aquele que mais abordou a vida além da vida, não lembra em nada a apática Jane, a interesseira Sueli nem a perfeita Mariana, personagens, aliás, que como todos os outros (exceção ao Vicente) vão mil vezes mais ao shopping do que a qualquer igreja ou centro espírita, cenários curiosamente inexistentes na novela. Um verdadeiro espírita, acima de tudo, é um verdadeiro cidadão desse mundo, alguém capaz de respeitar o próximo tenha ele a cor, o salário, a crença ou a idade que tiver. E isso, acredito, é muito mais difícil do que encontrar uma alma gêmea, do que abraçar uma fé, do que perdoar.

Tenho certeza que mais novelas e filmes sobre essa temática vão surgir, não apenas porque estão se mostrando lucrativos como também por serem um material farto para a ficção (assim como a Bíblia e o catolicismo, fonte inesgotável da arte há dois mil anos). Só espero que aos poucos os valores e as reais premissas do espiritismo prevaleçam e não se pasteurize demais algo tão complexo, tão difícil e já tão deturpado. Ou, pelo menos, que junto com a pasteurização e o interesse popular venha o interesse real e desarmado da academia e da ciência, áreas que, ao livrarem-se dos preconceitos e reconhecerem suas limitações, teriam muito a contribuir com o espiritismo.