domingo, 19 de setembro de 2010

Por que os artistas devem dar seu trabalho de graça

Marcelo Spalding

Sabe quanto um escritor ganha quando um livro seu é vendido? No melhor dos casos, 10%. Digamos R$ 3,00. Sabe quantos livros um autor vende por ano. Sendo otimista, mil livros. Bem otimista. Agora faça as contas: R$ 3000,00 por ano é suficiente para alguém viver da venda de livros? Não, decididamente não. Aí as alternativas são procurar um emprego “decente”, ter uns 50 livros publicados e em catálogo ou continuar dando murro em ponta de faca. E, em todos os casos, reclamando que o brasileiro não lê, que o governo não incentiva, etc, etc, etc.

Esse cenário, com uma ou outra variação, é o mesmo para todas as artes: um artista médio, competente mas não midiaticamente reconhecido, não tem espaço para seu trabalho e é muito mal remunerado por ele. A questão é: será um problema de mercado, do artista ou do sistema? Excluindo-se os casos em que é problema do artista, entre o mercado e o sistema eu diria que o problema é do sistema.

Dizem que o brasileiro não lê, mas você sabia que o Brasil é um dos dez países que mais vendem livros no mundo? Metade são livros didáticos, metade da metade são best-sellers e ainda tem os de auto-ajuda e espiritualidade. Além disso, pesquisas indicam que o brasileiro lê menos de três livros por ano. Três! Ou seja, nossa grande missão é, também, fazer com que as pessoas leiam mais (problema de marcado), mas o principal é fazer com que as pessoas leiam os nossos livros, e não os best-sellers (um problema de sistema).

Para a livraria e para a editora o melhor é que eles leiam o best-seller. Sai mais barato para eles imprimirem e a margem de lucro é muito maior. Então nossa única saída, na impossibilidade de fazermos um best-seller, é sair desse sistema.

Há vinte anos isso seriam absolutamente difícil, embora ainda assim possível, e que os digam os poetas marginais. Mas hoje, com a internet, temos uma grande oportunidade de estreitarmos nossa relação com o leitor e tirarmos os intermediários da jogada, criando uma vantagem competitiva enorme para os nossos livros em relação aos best-sellers.

Chris Anderson, em seu livro A Cauda Longa, afirma que se a indústria do entretenimento no século XX baseava-se em hits, a do século XXI se concentrará com a mesma intensidade em nichos: "Os consumidores estão mergulhando de cabeça nos catálogos, para vasculhar a longa lista de títulos disponíveis, muito além do que é oferecido na Blockbuster Video e na Tower Records. E quanto mais descobrem, mais gostam da novidade. À medida que se afastam dos caminhos conhecidos, concluem aos poucos que suas preferências não são tão convencionais quanto supunham (ou foram induzidos a acreditar pelo marketing, pela cultura de hits ou simplesmente pela falta de alternativas." (p. 15)

Dessa forma, é mais provável que um potencial leitor de seu livro o encontre navegando na internet do que passeando numa livraria. Muito mais provável. E nesse sentido não surpreende que muitos escritores estejam disponibilizando sua obra toda, de graça, em sites e blogs, numa última e desesperada tentativa de fazer circular algo que lhes deu tanto trabalho, e às vezes custou tanto dinheiro. E adianta? Sim e não.

Realmente o usuário que entrar em seu site ou blog, se identificar com a sua temática ou conhecer você terá a curiosidade de baixar o livro e talvez até leia alguma coisa. Mas para você ter mais acessos é preciso algum tipo de divulgação, investir nisso, e para fazer qualquer investimento, por menor que seja, é preciso dinheiro, que acaba não entrando quando você disponibiliza de graça o livro. Ou seja, é pior que os R$ 3,00 do modelo tradicional, supondo que você ainda consiga vender algo no modelo tradicional.

Um princípio de resposta pode estar em outro livro de Chris Anderson, Free: o futuro dos preços (Elsevier, 2009, 270 p.). O autor traz entrevistas, dados, episódios históricos e atuais para mostrar que os preços no mercado digital estão caindo tanto que logo chegarão a zero, e viveremos uma economia do Grátis. Só que isso, ao invés de apavorar quem atua nesse mercado está se mostrando extremamente lucrativo: as empresas estão ganhando ainda mais dinheiro com isso (basta vermos o Google).

No que tange à livros, Anderson dá alguns exemplos, entre eles o de Paulo Coelho, que brigou com sua editora para colocar seu livro mais popular, O Alquimista, no BitTorrent, gerando um renovado interesse pelo autor e transformando seu novo lançamento em um sucesso de vendas maior ainda (livro que, aliás, também está disponibilizado no BitTorrent). Anderson cita ainda um autor menos conhecido, que disponibilizou seu livro para download e colocou ao lado um link para doações voluntárias no PayPal: “das aproximadamente 8 mil pessoas que baixaram o livro, cerca de 6% pagaram, com preço médio de U$ 4,20)”.

O modelo mais completo de negócios para livros (e para artes) que o autor apresenta é do Flat World Knowledge, que disponibiliza a versão digital de TODOS os seus livros gratuitamente. E como eles vivem? Vendendo livros ou capítulos do livro impressos, versão em PDF imprimível, audiolivro em MP3, e-book para e-readers e por aí vai. Isso sem contar as palestras para as quais os autores são chamados, e que rendem muito mais do que a venda de 100 livros em livrarias.

Ao final Anderson irá ressaltar que “dar o que você faz não o tornará rico; você precisa pensar com criatividade em como converter a reputação e atenção que pode obter com o Grátis em dinheiro”. Mas, acrescento eu, às vezes é muito melhor não ganhar nada do que ganhar quase nada, como ocorrem com nossos contratos com as editoras (isso quando não pagamos para editar nossos livros). Porque não esqueça que ao ser editado por uma editora você cedeu os direitos sobre seu texto para ela, e às vezes teria sido muito mais lucrativo ter esse texto contemplado num concurso literário de sua cidade, inscrito em alguma lei de incentivo ou patrocinado por uma empresa privada em busca de estratégias de investimento em cultura.

Ou seja, caro artista, não tenha vergonha de dar seu trabalho de graça. Não todo ele, parte dele. Descubra qual parte você pode abrir ao seu público a fim de cativá-lo para que ele aí sim compre a outra parte, seja algum lançamento, uma versão impressa do livro, uma palestra ou show, uma camiseta autografada. O que não podemos é permanecer refém daqueles que não querem nos vender, preferem vender os best-sellers a nós, e ainda culpam disso o leitor, que sequer teve a chance de nos conhecer.

Free: o futuro dos preços é ser grátis

Marcelo Spalding

O mundo dos negócios vive de ondas, ondas que passam rápido, ditam tendências, rendem alguns milhares ao seu criador e depois se vão. Não que sejam ondas artificiais, na verdade a velocidade da alternância dessas ondas apenas reflete a velocidade do mundo moderno. E hoje quem está na crista da onda, o mais vendido, mais comentado e talvez um dos mais precisos em suas análises é Chris Anderson, autor de A Cauda Longa e que recentemente lançou Free: o futuro dos preços (Elsevier, 2009, 270 p.), seu segundo livro.

Apesar de a capa do livro, na versão brasileira, fazer de tudo para parecer um livro de auto-ajuda para negócios, citando “gigantes como Google, YouTube e Financial Times”, o autor evita a postura de guru e faz um livro entre o acadêmico e o jornalístico, trazendo entrevistas, dados, episódios históricos e atuais que vão ao encontro de sua tese: os preços no mercado digital estão caindo tanto que logo chegarão a zero, e viveremos uma economia do Grátis. Não aquele grátis do século XX, compre um leve dois, ganhe esse celular e gaste fortunas com ligações, ganhe esse exemplar da revista e assine sem saber um compromisso de assinatura. Não, um Grátis real, como já acontece hoje com o Gmail, o YouTube, o Twitter.

“A ascensão da freeconomics, a economia do Grátis, está sendo abastecida pelas tecnologias da era digital. Da mesma forma que a Lei de Moore dita que o preço de uma unidade de capacidade de processamento em um computador cai pela metade a cada dois anos, o preço da largura de banda e da armazenagem está caindo muito mais rapidamente. O que a Internet faz é integrar os três, combinando as quedas de preço dos três elementos tecnológicos: processadores, largura de banda e armazenagem. Em consequencia, a taxa de deflação anual líquida do mundo on-line é de quase 50%, o que equivale a dizer que o custo do YouTube para divulgar um vídeo hoje cairá para a metade daqui a um ano. Todas as linhas de tendência que determinam o custo de fazer negócios on-line apontam na mesma direção: para zero. Não é de se surpreender que todos os preços on-line avancem na mesma direção.”

Anderson comenta que ao iniciar seu trabalho se deparou com dois tipos de pessoas: as com mais de 30 anos e as com menos de 30 anos. Para os que tinham mais de 30 anos esse negócio de grátis esconde alguma coisa do consumidor e logo o preço será pago. Já para os que tinham menos de 30, o grátis não é nenhuma novidade, não havendo nenhum motivo para se escrever um livro sobre isso. Realmente no mundo digital já estamos nos desacostumando a pagar pelas coisas: jornais caríssimos no mundo real liberam seu acesso, músicas são disponibilizadas aos milhões, bibliotecas abrem grande parte do seu acervo acadêmico, jogos multiplayer sofisticados não cobram um centavo do usuário, softwares são disponibilizados aos milhares, sites permitem a publicação e compartilhamento ilimitados de vídeos e fotos , emails gigantes são oferecidos sem custo algum.

Essa cultura do Grátis não surge de uma súbita boa-vontade dos ricos e poderosos do mundo. Não, há razões técnicas e econômicas para que o Google, por exemplo, ofereça tantos serviços gratuitos na internet: eles querem que você permaneça mais tempo conectado, faça mais buscas e, principalmente, clique mais nos anúncios exibidos em suas ferramentas, ganhando assim mais alguns centavos, que no final do mês se contam aos milhões. E como o custo de armazenamento é muito baixo para a estrutura criada por um gigante como o Google, não há problema algum em oferecer algo Grátis mesmo que você nunca clique em anúncio algum: seu amigo irá clicar, ou o amigo de seu amigo, e por aí vai.

Ou seja, e esse é o ponto central do argumento de Chris Anderson, é possível ganhar dinheiro, e mais dinheiro, com o Grátis. “As pessoas estão ganhando muito dinheiro sem cobrar nada. Não nada por tudo, mas nada pelo suficiente para criarmos uma economia tão grande quanto a de um país de tamanho razoável pelo preço de $0,00”.

O autor traz alguns exemplos históricos e atuais de negócios que conseguiram lucrar a partir do Grátis, começando pelo inventor das gelatinas e por King Gilete, que dispensa apresentações. Em resumo, poderíamos dizer que há quatro modelos principais:

> Subsídios cruzados diretos: quando uma empresa oferece um aparelho de celular porque vai ganhar com as ligações, por exemplo. Esse é o caso clássico do grátis no século XX.

> O mercado de três paticipantes: quando alguém usa o serviço e outro paga, caso clássico da publicidade nos meios de comunicação. Você não paga nada para assistir TV, mas alguém está pagando à empresa em troca de sua atenção no horário comercial. Essa estratégia, que hoje parece óbvia, demorou muito para ser definida como o melhor modelo de negócios para as rádios no seu surgimento, conforme conta bem o autor. E é interessante notar que na internet ela não funciona com a mesma lógica que na grande mídia: aqui em geral as empresas cobram por clique, por resultado, e não um alto valor único pela exibição de um anúncio.

> Freemium: este talvez seja o mais revolucionário modelo de negócios para o grátis: há duas versões do mesmo produto, a versão grátis e a versão paga. Na versão grátis o usuário em geral pode fazer muita coisa, mas se ele estiver muito adaptado ao programa, ou jogo, ou site, talvez ele aceite pagar alguns dólares para ter novas funções ou alguns privilégios. É como se uma danceteria permitisse a entrada grátis para todo mundo, mas cobrasse pela área VIP. Claro que no exemplo da danceteria seria um caos, afinal dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço, mas como bits não são corpos, na internet o espaço de armazenamento é quase grátis, e é por isso que o Club Penguim, o Hattrick e o Ikariam, por exemplo, podem ser jogados sem pagarmos nenhum centavo.

> Mercados não monetários: qualquer coisa que as pessoas resolvem dar sem expectativa de pagamento. É o caso da Wikipedia. Em geral há uma fundação ou governo por trás para sustentar esse mercado, mas também pode ser apenas uma estratégia de isca: uma corretora de valores pode ter um belo portal com notícias sobre a Bolsa para atrair consumidores e expor seus serviços, por exemplo.

Grandes empresas, as citadas pelo livro, provaram que esses modelos de negócios podem ser mesmo muito lucrativo, pois além de resultado financeiro elas rendem dois dividendos que Anderson reputa como extremamente importantes na era digital: atenção e reputação. Basta vermos o valor de mercado do Facebook e do Twitter, totalmente desproporcional ao que conseguem faturar com seus produtos. Mas o autor apenas insinua, sem entrar em detalhes, que para as pequenas empresas, para os habitantes de sua cauda longa, a situação não é tão simples.

Ocorre que na internet as marcas que lideram seus segmentos acabam sendo quase monopólios, criando empresas gigantescas com as quais é muito difícil concorrer. Conte nos dedos: Microsoft, Apple, Google, Sun, Yahoo, Amazon, eBay, PayPal, Facebook, Twitter e por aí vai. Isso se dá por causa da escala, nesse tipo de negócio quanto mais você puder trabalhar em escala (com milhões de usuários e não milhares), mais diluído ficarão os custos fixos (mais próximos de zero) e a receita daqueles que pagarem serão suficientes para gerar receita, receita essa que permite altos investimentos em pesquisa, desenvolvimento e publicidade, atraindo ainda mais usuários e realimentando o processo.

Não por acaso a última frase do livro é: “os empreendedores da Web precisam inventar não somente produtos que as pessoas adorem, como também produtos pelos quais elas pagarão. O Grátis pode ser o melhor preço, mas não pode ser o único”. Curioso, nesse aspecto, que o próprio livro de Anderson no Brasil não seja disponibilizado gratuitamente. Porque no livro ele cita diversas vezes sua própria experiência, dizendo que a obra está disponível em versão e-book, à venda em PDF ou na versão impressa, porque sua principal fonte de receita são palestras customizadas a determinada empresa ou instituição que queira contratá-lo. Agora, no Brasil, se você acessar a versão do Scrib do livro, em http://www.scribd.com/doc/17135767/FREE-by-Chris-Anderson, verá a antipática mensagem: “Sorry, this content is geographically restricted”.

Mais do que atrapalhar os argumentos do próprio livro de Anderson, essa estratégia mostra como nossas editoras estão despreparadas para lidar com o mercado digital, agindo como as jurássicas gravadoras de CDs e DVDs, insistindo em manter indústrias físicas centradas em meia dúzia de privilegiados e dificultando o surgimento de um mercado digital amplo e diversificado. Mas isso é outra história que abordarei em nova coluna.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Luiz Antonio de Assis Brasil


Marcelo Spalding

O nome é imponente. E a obra, construída com o mesmo cuidado de cada romance, de cada frase, faz jus a tal imponência. Luiz Antônio de Assis Brasil, porto-alegrense de vida inteira, publicou seu primeiro livro em 1976 pela editora gaúcha Movimento. De lá para cá foram quase duas dezenas de romances, alguns com uma dezena de edições, muitos premiados e todos publicados por editoras gaúchas. Além disso, Assis ministra há 25 anos a Oficina de Criação Literária da PUCRS, reconhecida nacionalmente por forjar alguns dos melhores nomes da literatura contemporânea, como Cintia Moscovich, Daniel Galera, Michel Laub e Amílcar Bettega.
Não por acaso fala-se aqui no Sul que, em terra de Scliar e Verissimo, Assis Brasil é o mais importante nome do sistema literário gaúcho (aqui "sistema" entendido na definição de Cândido, autores, editoras e público), pois Assis ao mesmo tempo forma autores, arrebata leitores e fomenta o cambaleante mercado editorial local ao permanecer com suas edições por aqui.
Neste ano, felizmente, sua editora atual, a L&PM, resolveu retribuir essa postura e está republicando alguns títulos da obra do mestre que estavam fora das livrarias há mais de cinco anos. Com isso, Videiras de cristal, a trilogia Um castelo no Pampa, Bacia das almas, As virtudes da casa, Anais da Província-Boi, O Homem Amoroso, Manhã transfigurada e Cães da Província ganharão novas edições e voltarão a um catálogo de onde não poderiam ter saído, pois a obra de um autor como Assis Brasil não se mede por um dois títulos, um ou dois prêmios, e sim pelo seu conjunto.
Os romances Manhã transfigurada (L&PM, 2010, 128 págs.) e Cães da Província (L&PM, 2010, 264 págs.) foram os escolhidos para iniciar essa retomada, e poderíamos dizer que ambos representam bem a temática e a estética deste Assis anterior a Um pintor de retratos, publicado em 2001 e que, segundo palavras do próprio autor, é uma virada na sua forma de escrever. O Assis pré-2000, autor desses clássicos da literatura gaúcha que estão sendo republicados, recorre a episódios históricos da sociedade rio-grandense para criticar a organização burguesa e provinciana desta, aproximando-se daquilo que hoje chamamos Nova História. Alguns poderiam dizer que é um olhar contemporâneo do passado, o passado olhado com a lente pós movimento feminista, pós movimentos sociais.
Manhã transfigurada, por exemplo, narra a história de Camila, uma jovem que se casa por obrigação com um rude sargento local, dono de bela casa em frente à Igreja de Viamão e alguma terra no interior. O que nas mãos dos românticos seria uma bela história de amor torna-se, entretanto, uma intrincada disputa de direito canônico, pois o marido, ao descobrir que sua esposa não é mais virgem, pedirá anulação do casamento e prisão domiciliar da esposa enquanto o caso não for decidido pela Igreja, valendo-se de uma lei existente à época, o século XVIII.
A mesquinhez da minúscula cidade, o preconceito social e a opressão às mulheres, especialmente à sua sexualidade, ficam bastante evidentes na história, embora devamos considerar que as duas protagonistas, Camila e sua empregada, Laurinda, agem como mulheres contemporâneas.
"Camila teve um instante em que sentiu um calor no rosto: o homem descia o olhar perturbado pelo seu pescoço e parava-se no colo, para depois subir aos ombros, para novamente baixar, fixando-se nos peitos. Camila obtinha êxito na sedução, um jogo do qual não conhecia bem as regras, guiada mais pelos ensinos de Laurinda e por aquilo que toda mulher sabe de nascença."
Cães da Província é do estilo bom e velho romanção, com dois ou três núcleos de personagens, descrições generosas, diálogos mais extensos e conflitos marcados, como crimes, traição e loucura. A loucura, aliás, pode ser considerada o tema central dessa obra que traz Qorpo-Santo como protagonista, o hoje reconhecido dramaturgo que viveu em Porto Alegre no século XIX, "século das luzes", como ironicamente irá descrever o narrador.
Ironicamente porque o narrador, ao expor os acontecimentos e fatos da época, vai revelando ao leitor contemporâneo o quanto as relações sociais e a própria ciência de então tinham de absurdo e o quanto a aparente loucura de Qorpo-Santo tinha de genialidade, permitindo-nos percebê-lo como um homem a frente do seu tempo numa cidade que não parece a mesma que hoje circulamos. Dessa forma, o narrador em Cães da Província comporta-se como seus contemporâneos ficcionais, enquanto é Qorpo-Santo quem faz a crítica social mais contundente e questiona os valores da época:
"Onde se viu? Então acham que podem simplesmente apontar para qualquer cidadão e gritar-lhe na cara que é louco? E quem nos garante que eles é que são os certos? Só porque são bem-casados, bem-afamiliados, bem-dormidos, com empreguinhos públicos, julgam-se melhores que os outros?".
Vale ressaltar que embora os romances de Assis Brasil invariavelmente se passem no Rio Grande do Sul, os conflitos representados são universais, no melhor estilo queiroziano. Assim como em Manhã transfigurada é o papel da mulher que está em discussão, algo com o que o século XX de certa forma conseguiu lidar, em Cães da Província é a loucura e suas nuances o tema central, e este é um conflito que nem o século de Machado, autor do grande O Alienista, e nem o século de Assis conseguiu lidar de forma satisfatória, permanecendo a linha entre a sanidade e a loucura (hoje com nomes pomposos como mania, depressão, bipolaridade, esquizofrenia etc.) muito tênue, e os laudos médicos muito subjetivos.
Também é importante perceber que o olhar que dirigimos aos romances dessa primeira fase de Assis Brasil são, de certa forma, transformados pela ficção que o próprio autor apresenta em sua segunda fase, a fase de romances mais concisos e sutis. Ficamos com a impressão de que nos primeiros romances a linguagem era mais acessível ao leitor médio, o que explica o sucesso de vendas de muitos de seus livros, enquanto nos mais recentes a linguagem busca um leitor formado, maduro, como maduro está o próprio escritor. E isso, longe de ser algum tipo de defeito de um ou outro estilo, demonstra apenas que a literatura nos é fértil em possibilidades, e que feliz é aquele escritor capaz de, mesmo em meio a uma carreira tão exitosa, se reinventar.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 8/9/2010.