domingo, 22 de agosto de 2010

Nasce um imortal: José Saramago


Marcelo Spalding

Enquanto os jornais anunciavam a morte de José Saramago, primeiro Prêmio Nobel de Literatura oriundo de países da Língua Portuguesa, nascia no cânone literário mais um daqueles nomes para serem lidos, relidos e admirados, entidades que vão muito além de certa biografia, diluindo-se e multiplicando-se em cada romance, em cada página, em cada palavra.

Português da pequena Azinhaga, Saramago ficou mundialmente conhecido após o Nobel de 1998 e é muito citado na mídia por suas posições polêmicas acerca de religião e política, mas foi através de uma obra densa e sólida que o autor tornou-se uma quase unanimidade entre os críticos e acadêmicos brasileiros, com traduções em diversas línguas e elogios até do exigente e liberal Harold Bloom.

Em As pequenas memórias, um dos raros livros em que fala de si, ainda que obliquamente, Saramago revela-se filho de um casal humilde, que vai aos dois anos para Lisboa onde muda-se "dez vezes em dez anos". Faz estudos secundários (liceal e técnico) mas não pode continuar por dificuldades econômicas, tornando-se serralheiro mecânico e só depois desenhador, funcionário da saúde e da previdência social para finalmente aproximar-se das letras como editor, tradutor e jornalista. Sua lembrança de leitura mais remota é o folhetim Maria, a fada dos bosques, lido para ele por uma vizinha (a mãe também era analfabeta). Mais tarde, quando finalmente aprende a ler, o único exemplar que os vizinhos têm em casa e podem lhe emprestar ― na casa de Saramago não havia dinheiro para livros ou jornais ― é A Toutinegra do Moinho, livro francês que ele lê e relê.

Pois será este menino apartado dos livros, filho de mãe analfabeta, que irá alguns anos depois provocar intelectuais do mundo todo, criando uma linguagem erudita, sem marcas de diálogo nem pontos de exclamação ou interrogação, um narrador intruso, irônico e prolixo para representar uma visão de mundo crítica do seu tempo, da sua nação, da sua história.

Ateu fervoroso numa nação católica, pintou um dos mais belos retratos de Cristo humanizado em O Evangelho segundo Jesus Cristo: "O filho de José e Maria nasceu como todos os filhos dos homens, sujo do sangue de sua mãe, viscoso das suas mucosidades e sofrendo em silêncio. Chorou porque o fizeram chorar, e chorará por esse mesmo e único motivo". A obra, publicada em 1990, é o aprofundamento de uma revisão histórica do papel da Igreja já iniciado em Memorial do Convento, de 1982, um dos primeiros romances do autor a serem lidos no Brasil e que trazia uma sagaz revisão histórica lusitana, colocando em evidência a ambição, luxúria e mesquinhez do clero, que aproveita-se da insegurança e onipotência da nobreza por um lado, da fé e da fraqueza do povo por outro, forçado este a construir um monumental convento em remoto local do país, Mafra, apenas para satisfazer o capricho de seu Rei ― e os desejos dos franciscanos.

Crítico social num país de forte nacionalismo, criado num governo de longa ditadura, derrubou Salazar com gosto e paciência no célebre conto "Cadeira", do livro Objecto Quase. Ousou, ainda, colocar seu país à deriva em Jangada de Pedra, ironizando e questionando a identidade nacional: "Vê-se pelas feições do rosto, e pelos bilhetes de identidade se confirmaria, que os soldados são realmente filhos do povo, mas o major deles, ou também o é e repudiou nos assentos da escola militar a humilde ascendência, ou pertence desde o nascimento às classes superiores, para quem os hotéis do Algarve foram feitos, pela resposta dada não se pôde saber".

Porém esta mesma densidade que lhe rendeu o Nobel e grande admiração da intelectualidade brasileira foi, por outro lado, alvo de severas críticas da Igreja Católica e certa animosidade de seus compatriotas portugueses, tendo o escritor vivido seus últimos anos na ilha espanhola de Lanzarote, nas Ilhas Canárias. Tais diferenças políticas talvez tenham obscurecido o quanto Saramago defendia a língua portuguesa escrita em Portugal, sendo inclusive contra a recente Reforma Ortográfica e exigindo que seus livros fossem publicados com a ortografia original mesmo no Brasil.

A lucidez com que via o mundo e a perspicácia com que o criticava, aliás, permaneceram vivas até seus últimos anos, sendo Saramago autor de uma das melhores análises sobre o Twitter: "Os tais 140 caracteres refletem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido".

É na própria internet, porém, que sua imortalidade já se revela, pois podemos ler Saramago todos os dias em seu blog. No dia de sua morte, estava lá precisamente escrito: "Acho que na sociedade actual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de refexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, nao vamos a parte nenhuma".

Talvez o permanente e anacrônico exercício do pensar, mais até do que a linguagem, a ortografia ou a temática, é o que torne Saramago um escritor tão mais conhecido do que lido, e também o que agora o alça ao panteão dos imortais da literatura, para que com o tempo possa ser lido, relido, compreendido e admirado nas intermitências da vida.

Nota do Editor
Leia também "Nem memórias nem autobiografia, mas Saramago" e "A sombra de Saramago".

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 22/8/2010.

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