sábado, 24 de julho de 2010

A questão do fim do livro

Marcelo Spalding


LIANA TIMM© (http://timm.art.br/)

O debate sobre o fim do livro está realmente palpitante, trazendo consigo uma leva de livros ― sim, o bom e velho livro ―, que prometem abordar de frente o tema. A questão dos livros (Companhia das Letras, 2010, 232 págs.), de Robert Darnton, publicado nos Estados Unidos em 2009 e já traduzido pela respeitável Companhia das Letras, é um deles.
Apresentado como "um livro sobre livros, uma apologia descarada em favor da palavra impressa e seu passado, presente e futuro", traz uma reunião de ensaios e artigos do professor universitário nova-iorquino que fez carreira em projetos acadêmicos e dirigindo bibliotecas. Como todo livro de reunião de ensaios e artigos acadêmicos, há uma boa dose de repetição, redundâncias, por vezes desgastando o leitor que fica com a sensação de que só precisaria ter lido um ou outro ensaio, e não a obra inteira.
Ainda assim a obra traz algumas reflexões importantes e toca nos principais temas sobre a questão dos livros na contemporaneidade, inclusive seu fim e digitalização: "o futuro, seja ele qual for, será digital. O presente é um momento de transição, onde modos de comunicação impressos e digitais coexistem e novas tecnologias tornam-se obsoletas rapidamente". E a biblioteca?, questiona. "Esta pode parecer a instituição mais arcaica de todas. Ainda assim, seu passado guarda bons presságios para seu futuro".
Lançando mão do olhar de historiador, Darnton afirma que houve quatro mudanças fundamentais na tecnologia da informação desde que os humanos aprenderam a falar. A primeira foi a invenção da escrita, tida como alguns pesquisadores como o avanço tecnológico mais importante da história da humanidade. A segunda foi a substituição do pergaminho pelo códice, logo após o início da era cristã. O códice, por sua vez, foi transformado pela invenção da impressão com tipos móveis, na década de 1450. E a comunicação eletrônica, por fim, quarta e grande mudança, aconteceu "ontem, ou anteontem, dependendo dos seus parâmetros":
"Disposta dessa forma, a velocidade das mudanças é de tirar o fôlego: da escrita ao códice foram 4300 anos; do códice aos tipos móveis, 1150 anos; dos tipos móveis à internet, 524 anos; da internet aos buscadores, 17 anos; dos buscadores ao algoritmo de relevância do Google, 7 anos; e quem pode imaginar o que está por vir no futuro próximo?"
O Google, aliás, está no centro da discussão do autor sobre o futuro do livro, graças ao ambicioso projeto Google Search Books. Darnton conta que em julho de 2007 ficou sabendo que Harvard estava envolvida em conversas secretas com o Google a respeito de um projeto que planejava digitalizar milhões de livros, começando com o acervo de Harvard e outras três bibliotecas universitárias, para então disponibilizar as edições digitais no mercado. O projeto já estava se desenvolvendo há alguns anos, tanto que em outubro de 2005 havia sido movida uma ação judicial contra o Google por um grupo de autores e editores que afirmavam ter seus direitos autorais infringidos.
O autor vê muitos méritos no projeto, hoje em pleno funcionamento, que irá facilitar o acesso a livros em qualquer parte do mundo, chegando a comparar a internet ao ideal iluministra de divulgação do conhecimento (aliás, a enciclopédia foi um símbolo iluminista como a Wikipedia é um símbolo da Era Digital). Mas também lembra que o Google já controla os meios de acesso à informação on-line da maioria dos americanos (GoogleSearch, Orkut, YouTube, GoogleMaps, GoogleImages.), e que com a desistência da Microsoft de atuar na digitalização de livros e o acordo feitopelo Google na justiça, apenas ele tem recursos tecnológicos, jurídicos e financeiros para um projeto dessa monta, impedindo qualquer outra iniciativa semelhante de atingir proporções parecidas. E "o que acontecerá se o Google der preferência à lucratividade em detrimento do acesso?", questiona Darnton. Segundo os termos do acordo feito entre a Justiça Americana e o Google, nada.
Outra linha de batalha do autor é a questão dos periódicos científicos, convertidos nos Estados Unidos numa indústria organizada e ambiciosa capaz de sugar todos os recursos possíveis das bibliotecas, pressionadas pelos alunos a adquirir os periódicos mesmo que as assinaturas anuais ultrapassem 10 mil dólares (eu já havia escrito sobre essa questão no Brasil em "Quanto custa rechear seu Currículo Lattes"). Com isso, as bibliotecas deixam de investir no que o autor chama de monografias, que seriam trabalhos acadêmicos de conclusão de cursos de graduação ou pós editados em formato de livro.
Como uma tentativa de recuperar esse tipo de produção, o autor relata sua participação no projeto Gutemberg-e, cujo objetivo era publicar teses de doutorado recriadas para publicação na internet em forma de livro eletrônico. Diferentemente do que imaginavam, os custos para uma publicação eletrônica se mostraram mais altos que os custos para a publicação impressa, graças às complexidades técnicas, o custo com direito de aquisição de imagens, sons, vídeos etc. Ainda assim o projeto conseguiu um aporte financeiro importante e por alguns anos foi realizado, sem, entretanto, a repecussão e o retorno esperados pelos investidores. Com isso o projeto foi interrompido, mas segundo Darnton foi uma bela amostra de como é possível aproveitar as novas tecnologias para disseminação do conhecimento em novas formas, com nova estrutura, diferente da estrutura livresca. Para ele, o Projeto Gutemberg-e passou por dificuldades por estar a frente do seu tempo, tanto que o próprio Darnton está envolvido na criação de um livro eletrônico sobre sua tese de doutorado.
A concepção de Darnton para seu livro eletrônico é interessante: uma construção piramidal em que o leitor pode ir se aprofundando de acordo com seu interesse específico em determinados temas, ou ler apenas a superfície do trabalho integral. O projeto, que tem se mostrado extremamente complexo na elaboração, ainda é apenas um projeto, mas demonstra como o acadêmico apaixonado por livros percebe a função distinta do que é publicado nas novas tecnologias e do que é publicado em livro.
Na parte sobre o passado do livro, vale mencionar uma resenha sobre o livro Double Fold: Libraries and the Assault on Paper, de Nicholson Baker. Baker se insurge contra a política norte-americano de liberar espaços nas bibliotecas através da microfilmagem. Para tanto era aplicada a técnica da dobradura dupla: se a página do livro fosse dobrada duas vezes e quebrasse, o livro estava condenado. Com isso a capa era retirada e as páginas escaneadas em microfilme, depois sendo o papel descartado. Assim milhares de livros sumiram das bibliotecas e, o que para Baker é imperdoável, coleções inteiras de jornais desapareceram, restritas que estão apenas aos microfilmes.
A questão é: quanto tempo irão durar os microfilmes? Há garantia de que eles estarão intactos pelos próximos cem anos de chuva, sol, calor, umidade? Os livros, embora um pouco amarelecidos, estão preservados por mais de cem anos e nada leva a crer que não permanecerão inteiros pelos próximos cem, até porque o leitor folheia páginas, não dobra páginas. E o microfilme? E as mídias digitais?
Como se percebe, são questões bastante diversas, embora todas ligadas à questão do livro, e parece mesmo que precisaríamos um livro eletrônico em formato piramidal para esgotarmos cada aspecto, ou pelo menos compreender toda sua complexidade. O fato é que o fim ou não do livro é uma questão quase insignificante diante do que se tem feito com a informação e o conhecimento na Era Digital, suas novas formas, sua preservação, sua circulação. Não é o fetiche pelo cheiro ou a forma do papel o que está em jogo. E é bom estarmos atento a isso.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 24/7/2010.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

No futebol, como na vida

Marcelo Spalding

No futebol, como na vida, nem sempre vencem os melhores. Até porque quem são os melhores? A Argentina com seu futebol ofensivo de vários craques canhotos, o Uruguai com seu charme centenário e sua garra renovada, o Brasil com sua cara de Itália, a Alemanha com seus estrangeiros contratados, a Holanda com seus atacantes de olhos azuis, a Espanha com seus um-a-zero? No futebol, como na vida, há melhores e piores em cada situação, para cada adversário/adversidade, mas no futebol, diferentemente da vida, é preciso que alguém saia como campeão, e essa conjunção de fatores que leva um melhor a vencer outro melhor e se tornar O melhor nos diz que a Espanha é, enfim, a melhor seleção do mundo.

Um jornal espanhol estampou que finalmente o futebol retribuía a um século de paixão dos espanhóis pelo esporte. Pois é, no futebol, como na vida, jornais gostam de hipérboles, sensacionalismos, goleiros que matam namoradas com ajuda de traficantes, pais que atiram filhos pela janela, namorados que sequestram namorada, amiga, atenção.

No futebol, como na vida, a Europa ainda dá as cartas, e não há crise financeira internacional, não há queda nas bolsas ou especulação imobiliária que impeça uma final entre Holanda e Espanha, como outrora fora França e Itália. Não há risco país ou déficit público que impeça os PIGS (Portugal, Itália, Grécia, Espanha) de participar da Copa. Todos eles. E um deles, ganhar.

Verdade que no futebol, diferentemente da vida, os Estados Unidos joguem como nunca e percam como sempre, e os chineses sequer consigam vencer os coreanos do norte para pelo menos figurar na Copa com seus milhões de turistas. E aposto que a FIFA adoraria que lá estivessem.

Até porque no futebol, como na vida, alguns são mais iguais do que outros perante a Lei. Rege a lenda que uma seleção nacional é composta pelos melhores jogadores do seu país, mas o que explica, então, na Alemanha haver jogadores poloneses, ganeses, brasileiros, sérvios, e até alemães? Por que será que na África do Sul ou na Costa do Marfim não havia nenhum jogador alemão, inglês ou espanhol para fingir que sabia o hino do seu novo país? Mesmo entre europeus há os mais iguais, ou o que explica o árbitro evitar os cartões amarelos para Robben e Sneijder, os craques de olhos azuis da laranja outrora mecânica, desta vez macanizada?

No futebol, como na vida, não serão os tolos aplaudidos pela sua tolice, os corretos lembrados pela sua retidão, e sim a astúcia saudada com vinhetas como a providencial mão do uruguaio Suárez ou os dois passes de braço do nosso Luís Fabiano. E lances decisivos, como o belo gol de Iniesta, sairão de jogadas irregulares como o escanteio transformado em tiro de meta pelo belo árbitro da grande final.

Bom que no futebol, como na vida, a roda gira, gira e os eventos se repetem para uma espécie de tira-teima. Ingleses e alemães depois de 44 anos reviram o lance da bola que bate no travessão e entra ou não entra, enganando o juiz e mudando o rumo da partida. Mas desta vez do lado contrário.

No futebol, como na vida, não há limites para a vaidade humana. Milhares de personagens fantasiados compareciam aos estádios para um segundo de take no telão, uma fotografia na contracapa de algum jornal, um instante de admiração dos amigos. Talvez sejam todos netos da minha avó, que dizia "quer aparecer, pendura uma melancia no pescoço". Faltou pouco, até celular acomodado entre os peitos valeu. Sem contar alguns jogadores que gastaram mais tempo com seus cortes de cabelo do que aprimorando seus passes, e um em especial, o gajo Ronaldo, que em campo cuidou mais do telão do que o goleiro adversário.

Aliás dessa vez a vaidade humana foi tão longe que, pasmem, atingiu o reino animal com a criação de um polvo vidente, um polvo a quem já foi oferecido 30 mil euros para mudar de país, um polvo que atrairá, decerto, milhões de turistas para uma cidadezinha alemã enquanto estiver vivo, um polvo que talvez o que mais quisesse era não ter participado de Copa nenhuma, e sim voltar para de onde foi um dia retirado.

No futebol, como na vida, há sempre um culpado pelos tropeços, frangos, fracassos. Numa escola a culpa da desorganização é dos alunos; numa empresa, dos funcionários; e na Copa, da bola. Ora, seria tão melhor uma Copa sem a bola, não é mesmo? Apenas badalação, hinos, um placar combinado, festa, choro. Sem esquecer do telão, é claro. Pois curiosamente nessa Copa se ouviu falar muito mais da tal Jabulani, Geni dos derrotados, do que de qualquer craque. Aliás, quem foi mesmo o craque?

No futebol, como na vida, os operários não são lembrados, eternizados, e quando o são ganham lá sua plaquinha de funcionário do mês e ponto final. Aposto que Furlán não será eleito o melhor do mundo no final do ano pela FIFA. Aposto num espanhol ou num dos olhos azuis da Holanda, talvez aquele que estava proibido de levar cartão amarelo. Mas não Furlán, que merecia ter sido artilheiro da Copa, merecia ter feito aquele gol no minuto final, merecia até estar jogando a final (e tenho certeza que teríamos um jogo com menos pontapés), mas não sei se merecia ser o melhor da Copa. Porque no futebol, como na vida, eleger um melhor é esquecer de uma centena de outros tão bons quanto o melhor.

Agora é esperar a aguardada Copa no Brasil. Claro que ao longo desses anos estaremos permanentemente sendo ameaçados pela FIFA, pela mídia, pela oposição de que não sairá a Copa no Brasil, de que será preciso fazer mais, gastar mais, porque no futebol, como na vida, há muito mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia. E troque coisas por interesses, se assim desejar.

Ainda assim nós amamos o futebol, como a vida. E aos que falam mal do futebol, e aos que reclamam da vida, diria eu a mesma coisa: no futebol, como na vida, há muito menos justiça que emoção, e de emoção é feita a vida. E o futebol.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 12/7/2010.