sexta-feira, 18 de junho de 2010

A vida de 4 em 4 anos

Marcelo Spalding


LIANA TIMM© (http://timm.art.br/)

Gui, eu também nasci numa Copa, a Copa na Espanha, em 1982. Era para eu ter nascido dia dois de julho, mas como havia jogo do Brasil no dia os médicos anteciparam para o dia primeiro de julho e eu pude ver o encantado escrete canarinho perder para os italianos e voltar mais cedo para casa.

Vinte e oito anos depois, em 2010, ano da Copa na África, você nasce, meu primeiro filho. Os tempos são outros, nosso escrete de encantado virou rabugento mas já temos cinco, isso mesmo, cinco!, e não mais três estrelas bordadas em nosso uniforme. Cinco estrelas e muitos milhões, mas isso é outra história. Até porque não quero te escrever para falar do Mundial e da questionável qualidade técnica dos times neste 2010, nem sobre os méritos do país anfitrião ou a desigualdade da divisão dos países classificados, ficando os europeus com quase metade das vagas. Quero propor que você aproveite essa bela coincidência de nascer no ano de um evento grandioso como a Copa do Mundo para pensar um pouco sobre sua vida de quatro em quatro anos. Sim, eu sei quatro anos é muito tempo, ainda mais para jovens acostumados a pensar a vida em longo prazo, apenas viver intensamente cada dia, cada ano, parando para refletir no réveillon sobre os 365 dias anteriores e tentando traçar metas para os dias que virão.

Eu, por exemplo, em 2006 sequer conhecia a tua mãe, ainda morava com meus pais e teu avô, o meu pai, andava pra cima e pra baixo antes de ter um AVC que paralisou suas pernas. É, filho, quatro anos mudam muito a vida da gente, diria o poeta que um minuto pode mudar tudo, mas se pensarmos na vida de quatro em quatro anos veremos como é importante planejar.

Quando você começar a pensar nas grandes questões da vida, lá pela Copa de 2030, a Copa do centenário, no Uruguai, leia esta crônica e passe a pensar a vida de 4 em 4 anos. A cada Copa pense o que quero estar fazendo na Copa que vem, onde quero assistir, com quem, estarei trabalhando, terei terminado uma faculdade, terei filhos, cachorros, ainda terei meus avós ao meu lado? Provavelmente você terá muitas surpresas ao longo dos quatro anos seguintes, mas é provável que se realmente desejar estar debaixo dos cobertores com alguém especial, por exemplo, isso tem tudo para acontecer, enquanto se quiser muito estar em pleno estádio cercado por belas holandesas, é bom começar uma academia de ginástica logo.

Falando sério, é claro que planejar a vida pessoal não é nada fácil, ainda mais para quatro anos adiante, mas é fundamental que você faça isso com a vida profissional e financeira, porque nosso mundo cada vez mais gira em torno do dinheiro, que compra muito pouca coisa mas quando falta pode destruir tantas outras. Acontece que somos hoje o reflexo de atitudes que tivemos há 4, 5 anos atrás, e precisarão outros 4 ou 5 anos para mudarmos alguns aspectos importantes de nossa vida. Se até a Copa do Uruguai, de 2030, você estiver procurando um emprego, estudando para um concurso, enrolado numa faculdade, endividado num negócio ou odiando um chefe tenho certeza que vai querer resolver todos problemas para ontem, mas o melhor é você planejar uma saída para que na outra Copa, a de 2034, não esteja exatamente no mesmo lugar com as mesmas queixas.

Uma vez um professor me ensinou que para resolver um grande problema não basta uma grande sacada, muito menos um milagre, precisa apenas começar. E começar às vezes é prestar um vestibular, conversar seriamente com alguém, trocar a camionete e suas intermináveis prestações por um carro popular, matricular-se numa aula de yoga, inciar um blog, enfim, milhares são os caminhos porque milhares são os destinos. Mas poucos desses destinos são alcançados de um dia para o outro, filho.

Pense que neste momento a grande revelação da próxima Copa está em algum recanto distante e não sabido treinando muito para daqui a quatro anos ser a grande revelação da Copa, sem ter certeza nenhuma de que tanto esforço vai valer a pena, porque certo mesmo é dizer que das dezenas de milhares de jovens que vivem num clube de futebol, treinam todos os dias e acalentam o sonho de se tornaram craques mundiais, poucos, muito poucos realmente terão essa chance. Da maioria não saberemos sequer os nomes.

Para você, Guilherme, desejo que guarde alguma lembrança da Copa de 2014, a Copa no Brasil, afinal poucos sortudos podem ver a primeira Copa de sua vida de dentro do estádio. Desejo que na Copa de 2018 colecione com interesse o álbum e troque figurinhas com o pai bobalhão aqui. Que na Copa de 2022 já participe do nosso bolão com tua mesada e, de preferência, ganhe dos teus tios e arremate a bolada. Que na Copa de 2026 encha a casa de amigos e amigas para todos verem juntos os jogos do Brasil, que a esta altura já vai ser octacampeão. E que na Copa de 2030 esteja no Centenário rodeado de holandesas.

Tudo o que eu posso garantir é que de 4 em 4 anos o mundo vai parar bem na época do nosso aniversário, e que por um motivo muito particular a Copa da África, esta Copa, para mim vai permanecer para sempre como a mais emocionante de todas.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 18/6/2010.

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