domingo, 16 de maio de 2010

Bastardos Inglórios e O Caso Sonderberg


Marcelo Spalding

A Segunda Guerra Mundial e os horrores nazistas, especialmente com relação aos judeus, é uma história que a humanidade não se cansa de repetir. Até Tarantino e sua ficção de polpa utilizou uma França ocupada por nazistas como cenário de seu mais recente e quase oscarizado filme, Bastardos Inglórios. Mas a palavra é exatamente esta: utilizado. Tarantino não tem por objetivo contar uma parte, uma versão da história, acrescentar mais uma trajetória particular aos horrores da guerra. Não quer ser como Spielberg em seu belo A lista de Schindler, Benigni no seu premiado A vida é bela, Oliver Hirschbiegel no seu polêmico A queda. Tarantino não tornou-se realista de uma hora pra outra, e o mesmo sangue jorrando na tela de Kill Bill, o mesmo cinismo de Pulp Fiction volta em Bastardos Inglórios.

Na ficção de Tarantino, Hitler morre em uma emboscada organizada por judeus, unidades secretas americanas se mostram tão ou mais violentas que as nazistas, altos oficiais do Terceiro Reich viram personagens planos, quase cômicos. Uma caricatura da história, uma paródia dos filmes de guerra em geral e dos filmes sobre a Segunda Guerra em particular. Festejado pelos cinéfilos e resenhistas de cinema, para a História e a memória sobre a guerra o filme pouco acrescenta, pelo contrário, confunde, descontextualiza e mistura aspectos de forma perigosa, bem ao gosto dos pós-modernos.

Bem diferente é o mais recente romance de Elie Wiesel, O caso Sonderberg (Bertrand Brasil, 2010, 208 págs.). Wiesel é um judeu nascido na Romênia e sobrevivente dos campos de concentração nazistas que recebeu o Nobel da Paz em 1986 pelo conjunto de sua obra de 57 livros, dedicada a resgatar a memória do Holocausto e a defender outros grupos vítimas de perseguições.


Campo de concentração de Buchenwald. Fotografia tirada no dia da libertação
do campo pelas tropas aliadas em Abril de 1945. Wiesel, então com 16 anos,
está na segunda fileira do beliche, de baixo para cima, o sétimo a partir da
esquerda. Fonte: Wikipédia.

O caso Sonderberg conta a história de Yedidyah, um judeu polonês jornalista e crítico teatral que é escalado para acompanhar o julgamento de Werner Sonderberg, jovem estudante universitário alemão acusado de matar o tio durante uma viagem. Judeu e alemão encontram-se nos Estados Unidos contemporâneo, ambos com vidas regulares, esposas, trabalhos, aparentemente sem carregar traumas ou traços da Guerra, que aos poucos vai se mostrando essencial na formação de ambos, mesmo tantos anos depois.

Yedidyah, foco narrativo de toda a história e, em alguns momentos, ele próprio narrador, revelará aos poucos ao leitor que sua família verdadeira, pai, mãe e irmãos, fora capturada pelos nazistas e sua sobrevivência se deve a uma jovem empregada alemã que o levou para sua aldeia como filho bastardo:

"Foi ela que teve a ideia de me separar dos meus pais. Uma noite, alguns dias antes da deportação, ela conseguiu penetrar o gueto e foi ver seus antigos patrões. Propôs-lhes, se necessário, proteger nossa casa contra os ladrões, os abutres. Deram-lhe seu consentimento. Tinham confiança nela. Em seguida, ela lhes fez uma sugestão mais surpreendente: confiar-me a ela, eu, o bebê deles. Estaria adivinhando o que estava para lhes acontecer em um lugar distante? Em nossa pequena comunidade, ainda que boatos assustadores circulassem, nada se sabia. Mas ela achava que uma longa viagem para o desconhecido poderia fazer com que eu adoecesse, eu, que já era agitado, friorento e frágil. Jurou por sua vida e pela de Cristo que ficaria comigo, que cuidaria de mim. Assim que voltassem, eu lhes seria entregue são e salvo."

Do outro lado, saberemos ao longo da história que Sonderberg é neto de um ex-oficial nazista, responsável pela morte de diversos judeus, e que carrega esta culpa a ponto de considerar-se diante do tribunal inocente e culpado ao mesmo tempo. Nas palavras de Yedidyah:

"Olhei para ele com uma espécie de melancolia, compreendendo que, em certo sentido, tive mais sorte do que ele. Eu podia pensar nos meus sem sentir vergonha. Enquanto ele devia continuar a lutar para se desligar do seu passado a fim de encontrar um pouco de paz, ou, pelo menos, de felicidade, na existência. Não seria meu dever ajudá-lo em vez de mantê-lo afastado? Um velho texto hindu veio-me de repente à cabeça: pode acontecer que a terra, ao desabar sob o fardo das paixões e do medo dos seus habitantes, ponha-se a pedir perdão aos deuses por toda a humanidade."

Diferentemente do filme quase oscarizado de Tarantino, no romance não desfilam os protagonistas da Guerra, não há sangue jorrado nem diálogos marcados, apenas a sutileza de um autor ciente de que "o escritor se define por aquilo que cala". O caso do julgamento de Sonderberg em si é apenas história aparente para que o leitor seja apresentado a duas histórias particulares da Guerra, duas cicatrizes ainda abertas de um lado e outro, sem maniqueísmo, sem a possibilidade de se definir culpados e inocentes.

Ficará na minha estante ao lado de A menina que roubava livros e tantas outras tentativas estéticas de preservar uma história terrível, mas que precisa ser contada e recontada com a maior honestidade intelectual possível para que o tempo não transforme fatos em mitos, realidade em ficção, e fatos e realidades voltem a se repetir diante de nossos olhos.

Para ir além



Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 16/5/2010.

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