sexta-feira, 16 de abril de 2010

Propostas para o nosso milênio (I)

Marcelo Spalding


LIANA TIMM© (http://timm.art.br/)

Um dos grandes nomes da literatura mundial no século XX foi, sem dúvida, Italo Calvino, autor de obras como Palomar, Se um viajante numa noite de inverno, As Cidades Invisíveis e o célebre e produtivo Seis propostas para o próximo milênio.

As seis propostas, também conhecidas como lições americanas, são um conjunto de seis palestras que seriam proferidas na Universidade de Harvard em 1985, mas o autor faleceu repentinamente antes de escrever a sexta conferência, sobre a consistência, e antes de proferir as palestras, que foram publicadas postumamente, em 1988. A obra é um verdadeiro inventário de propriedades/convenções que seriam valorizadas pela arte no "próximo milênio", o nosso milênio, enfocando a leveza, a rapidez, a exatidão, a visibilidade e a multiplicidade.

Particularmente, me interessa pensar as propostas em relação às novas tecnologias de comunicação, inexistentes à época, para projetar o que os artistas em geral, e os escritores em particular, poderão fazer a partir dessas ferramentas na criação de suas obras.

Comecemos pela multiplicidade, última proposta na ordem de Calvino, mas a que mais evidentemente se aproxima da World Wide Web. Partindo da obra de Carlo Emilio Gadda, Calvino procura ler o "romance contemporâneo como enciclopédia, como método de conhecimento, e principalmente como rede (grifo nosso) de conexão". Ainda analisando a obra de Gadda, o italiano dirá que "seu discurso se alarga de modo a compreender horizontes sempre mais vastos, e se pudesse desenvolver-se em todas as direções acabaria por abraçar o universo inteiro".

Tais reflexões refletem-se na obra ficcional de Calvino. O próprio autor, adiante, afirmará que "estas considerações constituem a base de minha proposta ao que chamo de hiper-romance e do qual procurei dar um exemplo com Se um viajante numa noite de inverno. Meu intuito aí foi dar a essência do romanesco concentrando-a em dez inícios de romances, que pelos meios mais diversos desenvolvem um núcleo comum que agem sobre um quadro que o determina e é determinado por ele".

Publicado em 1979, o romance narra a busca de um leitor e uma leitora por determinado livro. À medida que eles vão pegando novos livros, a história desses livros interrompe a narrativa original, mas é também ela interrompida para que a narrativa original siga. Ao final do livro teremos lido um romance completo e outros 10 começos de romances inacabados, para desespero do leitor clássico, acostumados a enredos fechados com início, meio e fim. A obra é um modelo de narração como rede de possibilidades, explorando as construções acumulativas, combinatórias, modulares e não-sequenciais.

Dentro da concepção de Calvino de romance como enciclopédia, podemos dizer que as ferramentas utilizadas pela Wikipédia seriam de grande utilidade para a criação de um romance neste ambiente, permitindo a abertura de novas descrições, conflitos e possibilidades ao longo da narrativa. No caso particular de Se um viajante..., Calvino poderia ter escrito de forma linear a história principal, do leitor e da leitora, criando entre um capítulo e outro links que permitissem ao leitor-real acessar o livro que estava na mão do leitor-personagem. Como na versão impressa, a narrativa poderia ser interrompida num momento crítico da trama, mas aí, valendo-se das ferramentas de interatividade como as utilizadas na Wikipédia, o próprio leitor-real poderia continuar aquela história ou ler sugestões de continuação de outros tantos leitores-reais do mundo todo que tivessem passado por ali. Um verdadeiro puzzle, termo citado e valorizado pelo próprio Calvino ao citar o romance La vie mode d'emploi, de George Perec.

Calvino apontará ainda para outras possibilidades narrativas a partir da ideia de rede, como "um prédio tipicamente parisiense, onde se desenrola toda a ação, um capítulo para cada quarto, cinco andares de apartamentos dos quais se enumeram os móveis e os adornos e são mencionadas as transferências de propriedade e a vida de seus moradores, bem como de seus ascendentes e descendentes".

A conferência anterior, sobre a visiblidade, também encontrará forte ressonância no nosso milênio. Primeiro porque a cultura contemporânea pelo menos desde o apogeu da televisão é uma era de imagens, com dezenas de televisões transmitindo imagens 24 horas por dia, milhares de filmes sendo produzidos pela indústria cinematográfica todo ano, milhões de fotografias sendo tiradas e compartilhadas em câmeras digitais e telefones celulares. Depois porque a World Wide Web é por natureza um ambiente gráfico e multimídia, o que a diferencia de ferramentas anteriores de hipertexto e, à medida que as velocidades de conexão aumentam, mais são vistos imagens, sons e vídeos nos sites da internet.

Tecnicamente, assim como é possível criar um site feito apenas com textos, é possível criar um site feito apenas com imagens em movimento, seja em vídeo ou em Flash. Mais do que isso, economicamente quase não há diferença entre manter um site apenas com textos ou apenas com animações, desde que se tenha conhecimento para criar o conteúdo.

Neste ponto, impõe-se a questão sobre a necessidade de protagonismo do texto num objeto que se quer literário, sob o risco de um jogo de palavras-cruzadas ou caça-palavras on-line ser chamado de ciberpoesia. E aqui, novamente, se trará como exemplo a Wikipédia.

Apesar de sua natureza multimídia, as imagens nos verbetes da enciclopédia estão sempre em função do texto, com o fim de ilustrar, esclarecer e/ou demonstrar. Vejamos o caso do verbete Brasil da versão em português: ali temos uma imagem da bandeira, do brasão, um mapa-múndi identificando a posição do Brasil, um mapa topográfico brasileiro, alguns infográficos, fotos e reproduções de pintura que ilustram os capítulos do verbete, mas sempre como acessórios ao texto, organizado de forma linear, e apontando diversos hyperlinks.

Naturalmente, é possível que exista ou que venha a existir enciclopédia baseada na imagem ou no vídeo, em que os verbetes serão representados em filmes ou em áudios, mas isso não impedirá que haja a Wikipédia e que muitos usuários prefiram a Wikipédia, prefiram o texto à imagem, a leitura à visualização, por diversas razões que não nos cabe aqui examinar, mas que também asseguram, então, um lugar para o texto ficcional mesmo num universo multimídia como a internet.

Ainda assim, voltando à citação de Calvino, não pode o escritor negar a prioridade da imagem visual de nossos dias, e será necessário que ele escolha a melhor apresentação visual para o seu texto on-line, assim como as editoras já o fazem com os livros impressos, definindo cuidadosamente capa, tipo e tamanho da fonte, investindo por vezes em páginas internas de cores diferentes etc. Não há, evidentemente, fórmula para o quanto ou como se deve usar de imagens nos textos literários. Se utilizarmos como termo de comparação os websites empresariais, há alguns extremamente limpos, com pouquíssimas imagens, como o próprio Google, e outros mais "poluídos", com diversas imagens, cores e animações, como o Portal UOL. Vale, no caso empresarial, a estratégia mercadológica da empresa. E, no caso literário, o senso estético do criador.

Sobre este aspecto, Calvino fará questão de alertar que inclui a visibilidade em sua lista de valores para advertir que "estamos correndo o perigo de perder uma faculdade humana fundamental: a capacidade de pôr em foco visões de olhos fechados, [...] de pensar por imagens".

Enfim, assim como será necessário que o escritor escolha a melhor apresentação visual para o seu texto on-line, será fundamental que não perca de vista a tradição literária e o que motiva as pessoas a procurarem literatura na internet ou nas prateleiras das bibliotecas. Não podemos perder de vista que é o mesmo internauta que, cansado do YouTube e suas imagens pré-fabricadas, rápidas e superficiais, procura a literatura on-line, assim como é o mesmo homem ou a mesma mulher que cansados da telenovela desligarão a TV para buscar na estante um bom livro.

Na próxima coluna faremos esta relação com as outras três propostas, exatidão, rapidez e leveza.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 16/4/2010.

Um comentário:

  1. Muito interessante Marcelo. Em especial, destaco os trechos a seguir:

    “A obra é um modelo de narração como rede de possibilidades, explorando as construções acumulativas, combinatórias, modulares e não-sequenciais. ”

    “(...) permitindo a abertura de novas descrições, conflitos e possibilidades ao longo da narrativa.”

    “(...) outras possibilidades narrativas a partir da ideia de rede.”

    A ideia central me fez refletir sobre os textos que já escrevi e sobre como dar prosseguimento ao meu trabalho.

    Vou dar continuidade lendo a próxima coluna que contém as outras três propostas. Parabéns pelo texto.

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