terça-feira, 27 de abril de 2010

Propostas para o nosso milênio (II)


Marcelo Spalding


LIANA TIMM© (http://timm.art.br/)

Na coluna anterior iniciei uma abordagem dos cinco conceitos trazidos por Italo Calvino no livro Seis propostas para o próximo milênio sob o prisma da literatura digital, projetando o que os artistas em geral, e os escritores em particular, poderão fazer a partir das novas ferramentas tecnológicas em suas obras. Inicialmente comentei sobre a multiplicidade e visibilidade, e agora abordarei a exatidão, a rapidez e a leveza.

A exatidão, terceira conferência de Calvino, é definida pelo autor de três formas: "1) projeto de obra bem definido e acabado; 2) evocação de imagens nítidas, incisivas, memoráveis; 3) uma linguagem que seja a mais precisa possível com um léxico e em sua capacidade de traduzir as nuanças do pensamento e da imaginação".

O que vale examinar primeiro, por ser o ponto mais incisivo do texto, é o repúdio de Calvino ao uso descuidado da língua: "às vezes me parece que uma epidemia pestilenta tenha atingido a humanidade inteira em sua faculdade mais característica, ou seja, no uso da palavra". Para o escritor, não interessa indagar as origens dessa "epidemia", se é originada na política, na ideologia, na homogeneização dos mass media, e sim a possibilidade de salvação através da literatura, pois só a literatura "pode criar os anticorpos que coíbam a expansão desse flagelo linguístico". Tal valor é importante por reforçar a importância do fazer literário, do trabalho com a palavra. Não é porque estamos diante de outra mídia, uma mídia aparentemente informal como a internet, que devemos despejar qualquer texto, escrito de qualquer jeito e sem nos preocuparmos com revisão, acabamento, estilo (e quem navega na internet sabe que isso ocorre com muita frequência).

Não se pode, entretanto, atribuir o desleixo com o uso da palavra na internet apenas à multiplicidade de emissores, tampouco a uma deformação intelectual dos internautas, e sim a uma enorme facilidade de publicação e edição. Imprimir um livro ou um jornal, todos nós sabemos, é um processo demorado e caro. É raríssimo, portanto, se reimprimir um jornal ou um livro por causa de uma palavra inexata, seja por questões gramaticais ou de estilo. Já na internet bastam alguns segundos para se mudar uma palavra, um parágrafo ou um texto inteiro, o que "relaxa" o emissor.

Em lugar desse "relaxamento", a facilidade de edição poderia ser utilizada para atualizar os textos literários constantemente, quem sabe mudá-los a cada mês do ano, por exemplo. Imaginemos um romance como As cidades invisíveis em que a cada semana uma nova cidade é inserida no livro, de forma que a cada ano o livro que lemos é totalmente modificado. Tecnicamente tal procedimento é possível e até bastante simples, depende apenas do "projeto de obra" que se tem.

Este conceito de Calvino, aliás, é de extrema importância para os escritores digitais: exatidão como "projeto de obra bem definido e acabado". É preciso pensar no texto publicado na WWW como se pensa no texto a ser publicado em papel, como um projeto de um autor. Há muitos sites que publicam textos on-line de qualquer um que enviar, e aqui nem precisamos citar exemplos, mas eles são tão interessantes quanto uma antologia reunindo os 100 melhores escritores veterinários do Rio Grande do Sul ou os 20 mais jovens escritores da Universidade de Cruz Alta (será interessante para os participantes, seus amigos e familiares, mas é possível que não alcance circulação e interesse maiores pelo público em geral). Um projeto de literatura para a World Wide Web precisa pensar o site como se pensaria num livro, com todos os elementos desse site colaborando com a criação de sentido do projeto de forma que cada texto complete e potencialize o sentido do todo.

Um bom exemplo é o Dois Palitos, do escritor Samir Mesquita. Utilizando o Flash, Samir põe o internauta diante de uma caixa de fósforos aberta, e cada clique nos fósforos nos apresentará um miniconto da caixa. Mais do que textos dispersos, a unidade de layout e a brincadeira com os palitos de fósforo nos põe diante de um projeto literário uno, assim como quando abrimos um livro de contos ou poesias: mesmo entendendo que os textos são independentes, sabemos que houve um cuidado de composição por parte do escritor que de alguma forma está refletido no objeto literário.

O miniconto, aliás, é um gênero que vem se constituindo como tal nos últimos anos e encontrou na internet seu espaço ideal de circulação e disseminação. O próprio Calvino menciona na conferência sobre a "rapidez" que "gostaria de organizar uma coleção de histórias de uma só frase, ou de uma linha apenas, se possível", apontando para a importância da concisão "nos tempos cada vez mais congestionados que nos esperam".

Dessa forma, passamos para a penúltima conferência (ou segunda, de acordo com a ordem do livro), a rapidez. Assim como fez com a visibilidade, Calvino novamente irá sublinhar as virtudes e os riscos deste valor para o nosso milênio, apontando a literatura como capaz de reinventar a rapidez diante da pasteurização midiática: "dado que me propus em cada uma destas conferências recomendar ao próximo milênio um valor que me seja especialmente caro, o valor que hoje quero recomendar é precisamente este: numa época em que outros media triunfam, dotados de uma velocidade espantosa e de um raio de ação extremamente extenso, arriscando reduzir toda comunicação a uma crosta uniforme e homogênea, a função da literatura é a comunicação entre o que é diverso pelo fato de ser diverso, não embotando mas antes exaltando a diferença, segundo a vocação própria da linguagem escrita".

O miniconto, sob este ponto de vista, poderia ser visto como uma narrativa extremamente curta que através de poucas palavras tenta provocar algum efeito no leitor, tirando-o do lugar comum, explorando a diferença, o não-dito, o poético. É a "explosão de energia espiritual" exigida por Cortázar para o conto elevada a uma potência ainda maior, revelando a importância de se dizer cada vez mais com menos na cultura contemporânea.

Sobre este aspecto, vale mencionar que a infinidade de sites existentes na internet faz com que o tempo médio de permanência do internauta em um site seja bastante reduzido, o que só aumenta a importância da rapidez. Como exemplo, podemos citar alguns dados do relatório de acessos gerado pelo Google Analytics para o Portal Artistas Gaúchos: o tempo médio no site é de 2 minutos e 46 segundos, sendo a média de páginas por visita de 3,54 .

A leveza, por fim, talvez seja o mais complexo conceito de Calvino sob o prisma da Era Digital. Primeiro porque o próprio autor iniciará admitindo os argumentos válidos a respeito do peso, ainda que tenha "mais coisas a dizer sobre a leveza". Depois porque seus efeitos recaem mais sobre o texto em si do que sobre as ferramentas tecnológicas, conforme pretendemos demonstrar.

Citando sua própria obra, Calvino afirma que no mais das vezes sua intervenção "se traduziu por uma subtração do peso; esforcei-me por retirar peso, ora às figuras humanas, ora aos corpos celestes, ora às cidades; esforcei-me sobretudo por retirar peso à estrutura da narrativa e à linguagem".

Dessa forma, podemos entender a leveza como uma sugestão de abordagem para o escritor contemporâneo, leveza esta que costuma render críticas ácidas de alguns estudiosos literários: "os novos escritores, afinados com os hábitos alimentícios deste fim de século, publicam livros light, para serem consumidos rapidamente. (...) De modo geral, os livros de ficção se tornaram mais curtos e mais leves; nenhum pretende ser mais o Livro, e os próprios fragmentos se contentam com ser meros pedaços soltos".

É preciso, porém, ler este valor de Calvino em conjunto com os demais, especialmente a rapidez e a exatidão. A rapidez, tida como um valor dos tempos, mais do que uma predileção do autor, de certa forma justifica a leveza, seja essa leveza temática ou formal (através de textos extremamente curtos que não afastem o leitor). A exatidão, por sua vez, vista como uma linguagem mais precisa possível, impede que se confunda a ideia de leveza com a de superficialidade, e sim que se perceba a leveza como um contraponto ao "peso do mundo".

A literatura, segundo Calvino, é uma busca de um outro mundo, um mundo de sonhos, e também a internet pode ser vista como um "mundo paralelo", um "mundo virtual" . A insegurança das pessoas nas grandes cidades decerto colabora com o aumento do tempo de permanência na rede, pois assim as pessoas ficam no conforto e na segurança de seus lares, mas em contato permanente com outras pessoas, ainda que um contato virtual. Isso também explicaria por que as redes sociais e os sites de entretenimento são os mais procurados na internet , reforçando a sugestão de Calvino para que se opte, entre o peso e a leveza, pela leveza.

Tal predominância da leveza no ambiente virtual, que de certa forma limitam a internet enquanto mídia, pode se tornar também fundamental para a permanência de uma mídia como o livro. Vejamos, por exemplo, o caso do site da Biblioteca Nacional, que disponibiliza gratuitamente obras de domínio público para download. Apesar disso, milhares de livros de Machado de Assis e José de Alencar seguem sendo vendidos nas livrarias, muitos para jovens pré-vestibulandos que estão acostumados com a rede, mas preferem ler o texto mais "pesado" em outro ambiente, guardando o tempo no computador para "se divertir".

Curiosamente, a conferência sobre a consistência, que talvez refutasse os chamados hábitos lights que teria a literatura contemporânea, não foi escrita por Calvino, que faleceu antes de concluir a sexta proposta para nosso milênio. Não podemos, entretanto, perdê-la de vista, especialmente para não permitir que as ideias de leveza e rapidez confundam-se com a de superficialidade.

Não esgotamos aqui, evidentemente, todas as abordagens possíveis sobre as questões levantadas por Calvino, tampouco agregamos citações suficientes de obras importantes da tradição literária. Esperamos, porém, ter demonstrado como, ao olhar para as novas tecnologias, para um ambiente absolutamente multimídia e plural como a internet não estaremos, de forma alguma, negando a literatura, mas sim resgatando sua especificidade, especificidade esta que, se for preservada, apesar de tantas possibilidades técnicas e midiáticas, garantiria a sobrevivência da literatura neste e nos próximos milênios, como sempre sobreviveu desde que o homem contou a primeira história numa caverna.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 27/4/2010.

O hiperconto e a literatura digital

A literatura digital é aquela nascida no meio digital, um objeto digital de primeira geração criado pelo uso de um computador e (geralmente) lido em uma tela de computador. Katherine Hayles, no livro Literatura Eletrônica: novos horizontes para o literário, define-a, em poucas linhas, como "obra com um aspecto literário importante que aproveita as capacidades e contextos fornecidos por um computador independente ou em rede".

A autora identifica diversas estéticas para este tipo de literatura, como ficção em hipertexto, ficção na rede interligada, ficção interativa, narrativas locativas, instalações, "codework", arte generativa e poemas em Flash. No que tange ao conto, pelo menos dois gêneros despontam na Era Digital como grandes possibilidades literárias já adaptadas ao novo meio: o miniconto e o que chamamos de hiperconto.

O miniconto encontrou na Web um ambiente propício devido a extensão e aos poucos se torna parte de projetos maiores, bem definidos e acabados, como o caso de Dois Palitos, de Samir Mesquita. Utilizando o Flash, Samir põe o internauta diante de uma caixa de fósforos aberta, e cada clique nos fósforos nos apresentará um miniconto da caixa. Mais do que textos dispersos, a unidade de layout e a brincadeira com os palitos de fósforo nos põe diante de um projeto literário uno, assim como quando abrimos um livro de contos ou poesias: mesmo entendendo que os textos são independentes, sabemos que houve um cuidado de composição por parte do escritor, que de alguma forma está refletido no objeto literário.

É um bom exemplo de uma estética que chega na internet a partir do texto impresso, encontra no novo meio espaço privilegiado de circulação e aos poucos é transformado por este meio, à medida que em obras como a de Mesquita deixam de ser mero exercício de concisão e convertem-se em estética para a produção de uma obra maior, completa, multilinear.

Outra possibilidade do conto nas novas tecnologias é o conto em que o leitor participa de sua evolução através de hiperlink, gênero que estamos definindo como hiperconto.

Um bom exemplo vindo do exterior é Inanimate Alice, de Kate Pullinger, uma narrativa linear produzida em Flash em que uma menina e sua mãe procuram desesperadamente pelo pai em certa localidade da China. Publicado em outubro de 2005 no site da autora e selecionado pelo volume I da Coleção Literatura Eletrônica, organizada por Katherine Hayles em 2006, utiliza as ferramentas tecnológicas como apoio à história narrada, com áudio, fotografias, imagens em movimento, ilustrações, pequenos vídeos, mapas. Forma e conteúdo, aqui, combinam de forma perfeita, pois a vida da menina de oito anos é completamente mediada pelos meios eletrônicos, chamando a atenção do leitor para o excesso de informações a que a menina está submetida (não por acaso a tela do celular da menina é recorrente ao longo da história, convertendo-se em cursor na tela, em certo momento, simulando uma máquina fotográfica). Essa familiaridade com os meios eletrônicos não impede que no capítulo "To do list", quando ela digita em seu celular coisas que gostaria de estar fazendo naquele momento, mencione andar de skate, brincar numa piscina com os amigos e cuidar de um cachorro, embora lembre nunca ter tido um cachorro para cuidar, o que evidencia ser a presença constante dos eletrônicos mais do que uma opção da menina, uma contingência das circunstâncias, o que poderíamos interpretar como uma crítica à sociedade contemporânea.

Experiência brasileira semelhante é a de Mauro Paz em seu desfocado. A obra também é uma narrativa em Flash que conta a história de um jovem rapaz, seus relacionamentos fugazes, seus sonhos, seus medos, sua angústia. A rapidez dos capítulos é também a rapidez da vida particular do protagonista, e a rapidez da contemporaneidade como um todo. Formalmente, a história tem sete capítulos não lineares, cada um com um visual elaborado e completamente diferente e estratégias narrativas também distintas. Há cartas, SMS, notícias de jornal e até uma criativa lista cerebral, em que cada área do cérebro nos remete a algo que o personagem está pensando naquele momento.

Em ambos os casos, porém, a narrativa está posta e o leitor não tem o poder de interferir no rumo dos acontecimentos. Já em experiência hipertextual que desenvolvemos com alunos de um curso de extensão em Narrativas para Web, na PUCRS, criamos uma história em que há oito possíveis finais, definidos a partir da escolha do leitor em três momentos decisivos. Publicado no site Hiperconto, Um estudo em vermelho utiliza análise combinatória para que os finais necessariamente tenham relação com o caminho escolhido pelo leitor ao longo do texto. A história começa com um e-mail enviado pelo leitor a um detetive informando que sua irmã sumiu. A partir daí o detetive responde sempre abrindo possibilidades, e se o leitor, por exemplo, afirmar que sua irmã é uma falsa, aceitar pagar o valor exorbitante pedido pelo detetive e quando perceber a fraude em vez de chamar a polícia resolver enfrentar ele mesmo o homem, acabará descobrindo que tudo fora armado e a irmã àquela hora estará muito longe com seu amante, o detetive. Já se o leitor, achando que sua irmã é uma falsa, resolver não pagar o detetive e ainda enfrentá-lo sem a polícia, pegará ambos na cama e matará os dois.

Este tipo de texto narrativo que explora a interatividade e os hiperlinks tem sido chamado pelos norte-americanos de hiperfiction. Nesse estudo, porém, optamos por chamá-lo de hiperconto em vez de hiperficção, assim como o termo miniconto no Brasil é mais comum do que minificção, apesar de em língua inglesa ser usado o microfiction.

O hiperconto seria uma versão do conto para a Era Digital. Sendo ainda um conto, de tradição milenar, requer narratividade, intensidade, tensão, ocultamento, autoria. O texto, naturalmente, ainda deve ser o cerne do hiperconto, preservando seu caráter literário. Mas um bom hiperconto será capaz de aproveitar as ferramentas das novas tecnologias para potencializar a história que conta da mesma forma que os livros infanto-juvenis, por exemplo, têm se utilizado da ilustração. Imagens, em movimento ou não, áudios, hiperlinks, interatividade e quebra da linearidade são apenas algumas das possibilidades do hiperconto. Claro que um bom hiperconto não precisa utilizar todos esses recursos ao mesmo tempo, assim como há filmes belíssimos sem efeitos especiais.

Naturalmente, esse tipo de trabalho nada mais é do que uma tentativa de explorar as novas ferramentas tecnológicas para produzir um texto literário narrativo, e a própria intenção de criar o site Hiperconto visa atrair outros autores de obras digitais para que enviem seus links e possamos, aos poucos, ter um corpus consistente desse tipo de produção em língua portuguesa.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Propostas para o nosso milênio (I)

Marcelo Spalding


LIANA TIMM© (http://timm.art.br/)

Um dos grandes nomes da literatura mundial no século XX foi, sem dúvida, Italo Calvino, autor de obras como Palomar, Se um viajante numa noite de inverno, As Cidades Invisíveis e o célebre e produtivo Seis propostas para o próximo milênio.

As seis propostas, também conhecidas como lições americanas, são um conjunto de seis palestras que seriam proferidas na Universidade de Harvard em 1985, mas o autor faleceu repentinamente antes de escrever a sexta conferência, sobre a consistência, e antes de proferir as palestras, que foram publicadas postumamente, em 1988. A obra é um verdadeiro inventário de propriedades/convenções que seriam valorizadas pela arte no "próximo milênio", o nosso milênio, enfocando a leveza, a rapidez, a exatidão, a visibilidade e a multiplicidade.

Particularmente, me interessa pensar as propostas em relação às novas tecnologias de comunicação, inexistentes à época, para projetar o que os artistas em geral, e os escritores em particular, poderão fazer a partir dessas ferramentas na criação de suas obras.

Comecemos pela multiplicidade, última proposta na ordem de Calvino, mas a que mais evidentemente se aproxima da World Wide Web. Partindo da obra de Carlo Emilio Gadda, Calvino procura ler o "romance contemporâneo como enciclopédia, como método de conhecimento, e principalmente como rede (grifo nosso) de conexão". Ainda analisando a obra de Gadda, o italiano dirá que "seu discurso se alarga de modo a compreender horizontes sempre mais vastos, e se pudesse desenvolver-se em todas as direções acabaria por abraçar o universo inteiro".

Tais reflexões refletem-se na obra ficcional de Calvino. O próprio autor, adiante, afirmará que "estas considerações constituem a base de minha proposta ao que chamo de hiper-romance e do qual procurei dar um exemplo com Se um viajante numa noite de inverno. Meu intuito aí foi dar a essência do romanesco concentrando-a em dez inícios de romances, que pelos meios mais diversos desenvolvem um núcleo comum que agem sobre um quadro que o determina e é determinado por ele".

Publicado em 1979, o romance narra a busca de um leitor e uma leitora por determinado livro. À medida que eles vão pegando novos livros, a história desses livros interrompe a narrativa original, mas é também ela interrompida para que a narrativa original siga. Ao final do livro teremos lido um romance completo e outros 10 começos de romances inacabados, para desespero do leitor clássico, acostumados a enredos fechados com início, meio e fim. A obra é um modelo de narração como rede de possibilidades, explorando as construções acumulativas, combinatórias, modulares e não-sequenciais.

Dentro da concepção de Calvino de romance como enciclopédia, podemos dizer que as ferramentas utilizadas pela Wikipédia seriam de grande utilidade para a criação de um romance neste ambiente, permitindo a abertura de novas descrições, conflitos e possibilidades ao longo da narrativa. No caso particular de Se um viajante..., Calvino poderia ter escrito de forma linear a história principal, do leitor e da leitora, criando entre um capítulo e outro links que permitissem ao leitor-real acessar o livro que estava na mão do leitor-personagem. Como na versão impressa, a narrativa poderia ser interrompida num momento crítico da trama, mas aí, valendo-se das ferramentas de interatividade como as utilizadas na Wikipédia, o próprio leitor-real poderia continuar aquela história ou ler sugestões de continuação de outros tantos leitores-reais do mundo todo que tivessem passado por ali. Um verdadeiro puzzle, termo citado e valorizado pelo próprio Calvino ao citar o romance La vie mode d'emploi, de George Perec.

Calvino apontará ainda para outras possibilidades narrativas a partir da ideia de rede, como "um prédio tipicamente parisiense, onde se desenrola toda a ação, um capítulo para cada quarto, cinco andares de apartamentos dos quais se enumeram os móveis e os adornos e são mencionadas as transferências de propriedade e a vida de seus moradores, bem como de seus ascendentes e descendentes".

A conferência anterior, sobre a visiblidade, também encontrará forte ressonância no nosso milênio. Primeiro porque a cultura contemporânea pelo menos desde o apogeu da televisão é uma era de imagens, com dezenas de televisões transmitindo imagens 24 horas por dia, milhares de filmes sendo produzidos pela indústria cinematográfica todo ano, milhões de fotografias sendo tiradas e compartilhadas em câmeras digitais e telefones celulares. Depois porque a World Wide Web é por natureza um ambiente gráfico e multimídia, o que a diferencia de ferramentas anteriores de hipertexto e, à medida que as velocidades de conexão aumentam, mais são vistos imagens, sons e vídeos nos sites da internet.

Tecnicamente, assim como é possível criar um site feito apenas com textos, é possível criar um site feito apenas com imagens em movimento, seja em vídeo ou em Flash. Mais do que isso, economicamente quase não há diferença entre manter um site apenas com textos ou apenas com animações, desde que se tenha conhecimento para criar o conteúdo.

Neste ponto, impõe-se a questão sobre a necessidade de protagonismo do texto num objeto que se quer literário, sob o risco de um jogo de palavras-cruzadas ou caça-palavras on-line ser chamado de ciberpoesia. E aqui, novamente, se trará como exemplo a Wikipédia.

Apesar de sua natureza multimídia, as imagens nos verbetes da enciclopédia estão sempre em função do texto, com o fim de ilustrar, esclarecer e/ou demonstrar. Vejamos o caso do verbete Brasil da versão em português: ali temos uma imagem da bandeira, do brasão, um mapa-múndi identificando a posição do Brasil, um mapa topográfico brasileiro, alguns infográficos, fotos e reproduções de pintura que ilustram os capítulos do verbete, mas sempre como acessórios ao texto, organizado de forma linear, e apontando diversos hyperlinks.

Naturalmente, é possível que exista ou que venha a existir enciclopédia baseada na imagem ou no vídeo, em que os verbetes serão representados em filmes ou em áudios, mas isso não impedirá que haja a Wikipédia e que muitos usuários prefiram a Wikipédia, prefiram o texto à imagem, a leitura à visualização, por diversas razões que não nos cabe aqui examinar, mas que também asseguram, então, um lugar para o texto ficcional mesmo num universo multimídia como a internet.

Ainda assim, voltando à citação de Calvino, não pode o escritor negar a prioridade da imagem visual de nossos dias, e será necessário que ele escolha a melhor apresentação visual para o seu texto on-line, assim como as editoras já o fazem com os livros impressos, definindo cuidadosamente capa, tipo e tamanho da fonte, investindo por vezes em páginas internas de cores diferentes etc. Não há, evidentemente, fórmula para o quanto ou como se deve usar de imagens nos textos literários. Se utilizarmos como termo de comparação os websites empresariais, há alguns extremamente limpos, com pouquíssimas imagens, como o próprio Google, e outros mais "poluídos", com diversas imagens, cores e animações, como o Portal UOL. Vale, no caso empresarial, a estratégia mercadológica da empresa. E, no caso literário, o senso estético do criador.

Sobre este aspecto, Calvino fará questão de alertar que inclui a visibilidade em sua lista de valores para advertir que "estamos correndo o perigo de perder uma faculdade humana fundamental: a capacidade de pôr em foco visões de olhos fechados, [...] de pensar por imagens".

Enfim, assim como será necessário que o escritor escolha a melhor apresentação visual para o seu texto on-line, será fundamental que não perca de vista a tradição literária e o que motiva as pessoas a procurarem literatura na internet ou nas prateleiras das bibliotecas. Não podemos perder de vista que é o mesmo internauta que, cansado do YouTube e suas imagens pré-fabricadas, rápidas e superficiais, procura a literatura on-line, assim como é o mesmo homem ou a mesma mulher que cansados da telenovela desligarão a TV para buscar na estante um bom livro.

Na próxima coluna faremos esta relação com as outras três propostas, exatidão, rapidez e leveza.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 16/4/2010.