domingo, 31 de janeiro de 2010

Homens x Mulheres, ainda


Marcelo Spalding

Desde os tempos de Xou da Xuxa ou Programa do Gugu até os estúdios atuais da Record ― onde Rodrigo Faro é uma espécie de dublê do Gugu ―, sempre as competições se dão entre Homens x Mulheres, Eles x Elas, Meninos x Meninas. Essa dicotomia faz parte do imaginário contemporâneo mesmo depois das conquistas femininas do século XX (ou talvez por causa delas), e está presente dos almoços em família às redações de vestibular. Não poderia ser diferente na literatura.
Eu e Você, Você e Eu (Record, 2009, 144 págs.), de Martha Mendonça e Nelito Fernandes, é mais um romance que explora essa dicotomia, mas de uma forma curiosa: temos uma história com dois narradores, e cada narrador é construído por um autor diferente. Marcelo, o narrador-personagem de Nelito Fernandes, começa como um jovem, promissor e ambicioso advogado de família. Mariana, a narradora-personagem de Martha, começa como uma jovem, bonita e independente estudante de psicologia. Ex-colegas de colégio, quando se reencontram rola uma atração, e daí surge um relacionamento. E, claro, as dúvidas: o que Marcelo pode fazer? Convidar Mariana para jantar ou ir a um motel? Decidir ou pedir que ela decida? Nessas horas, uma frase fora do lugar pode pôr fim a qualquer clima que esteja surgindo. E, mais do que isso, é quase impossível para um saber o que se passa na cabeça do outro:
"Eu sugeri outro lugar porque o restaurante estava um pouco cheio, tinha fila na porta, e eu detesto esperar de pé pra comer, parece coisa de gado indo pro pasto. Mas ela aceitou assim de pronto, será que está pensando em motel? Sim, porque uma coisa é o sujeito perguntar 'Vamos pra outro lugar?', a outra é dizer 'Vamos a outro restaurante?'. Se ela estiver realmente pensando que meu convite foi pra trepar, vai me achar um banana. Sinuca, Marcelo. Como saio dessa? Bom, deixá-la decidir é o melhor. 'Onde você quer ir?', perguntei. Pronto, a bola está com ela.
Onde eu quero ir? Mas será que ele está perguntando em que restaurante eu quero ir, em que motel eu quero ir ou se quero ir ao restaurante ou ao motel? Ou será que ele quer mesmo é que eu decida o nosso destino? Esperto. Mas não vou devolver a bola, não. 'Dizem que no Vip's a comida é boa e a vista é linda.' Ele sorriu e pegou o retorno para a avenida Niemeyer.
Gostei da resposta direta da Mariana. Uma das coisas que eu mais odeio em mulher é essa história de fazer joguinhos. Quer dar, mas prefere ficar cheia de rodeios. Quer uma coisa, diz outra. A gente não tem como adivinhar tudo, pô.
Ai, será que fiz mal? Será que ele tá me achando uma vagabunda??"
E assim vai, passando pelas várias fases do relacionamento, a primeira briga, o dia de conhecer a família de um, a família de outro, a decisão sobre o casamento, o dia do casamento, a primeira crise, a separação, a educação do filho em meio à separação, a reaproximação... Só não vou contar o final, até porque, segundo o próprio livro, todas as histórias são iguais.
É nesse ponto, aliás, que está a maior fraqueza do romance. Pela temática universal e pela abordagem coloquial e leve dos autores, a leitura flui maravilhosamente e nos faz dar boas gargalhadas, mas o texto ganharia em profundidade caso se livrasse de alguns estereótipos, como o advogado bem-sucedido e comedor, a psicóloga de família que escreve livros de autoajuda, o homem que trabalha demais e não dá atenção à mulher, a lua de mel em Paris. Porque todos os relacionamentos passam por fases, mas nenhum relacionamento é igual ao outro. Pelo simples motivo de que as pessoas não são iguais às outras, as condições não são iguais, os resultados não são iguais. E embora o livro conte especificamente a história de Marcelo e Mariana, em alguns trechos cai na tentação de generalizar para que o leitor se aproxime mais da história do casal, ame exageradamente como eles, transe enlouquecidamente como eles e sofra ensadecidamente como eles.
Talvez por trás dessa impossibilidade de generalizar esteja também a impossibilidade de dividirmos o mundo entre homens e mulheres, como fazia o programa da Xuxa e faz os domingos da Record. Isso pode render algumas risadas, vender livros, transformar filmes em sucessos de bilheteria ― Se eu fosse você talvez seja o exemplo mais recente ―, mas encerra um reducionismo inaceitável nos dias de hoje, pois fosse Marcelo um jovem artista ou professor, provavelmente sua visão de mundo e sua expectativa em relação às mulheres fosse completamente diferente; fosse Mariana filha de um rico industrial ou neta da faxineira do rapaz, certamente sua reação diante do outro seria completamente diferente. Ou seja, não é por ser homem que Marcelo pensa e age daquela forma, não é por ser mulher que Mariana pensa e reage daquela maneira.
O leitor dirá que a estratégia do narrador duplo funciona muito bem, e é verdade, mas não necessariamente pela diferença entre homens e mulheres, mas pela diferença entre as personalidades. Duas mulheres pensariam de forma diferente e dariam resposta diferente a pergunta de Marcelo: "Onde você quer ir?". Possivelmente muitas diriam o nome de um belo restaurante, mesmo querendo ir para um motel, outras fariam o contrário, algumas fariam questão que ele decidisse e há aquelas que agarrariam o rapaz ali mesmo no carro.
Na epígrafe do livro há uma citação de Cenas de um casamento, de Ingmar Bergman, que diz que homens e mulheres não falam a mesma língua. Mas se pensarmos um pouco parece é que as pessoas em geral parecem estar falando línguas distintas. Pais e filhos, professores e alunos, professores e diretores, patrões e empregados, irmãos, todos têm problemas sérios de comunicação em suas relações familiares, e talvez a maior dificuldade seja se colocar no lugar do outro, tentar compreender as respostas e reações do outro em vez de julgá-las ou defini-las com padrões.
E nesse ponto, aliás, está um grande mérito do livro, pois ao termos as duas vozes com a mesma importância e intensidade, colocamo-nos no lugar de um e outro, percebemos os reflexos das atitudes de um na vida do outro, e aí não importa se a dicotomia em questão é homem e mulher, pai e filho ou patrão e empregado, importa é que precisamos, cada vez mais, nos preocupar com o outro.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em  31/1/2010.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

O videogame de Ricardo Silvestrin


Marcelo Spalding

Inventivo, provocador, ambicioso. Assim pode se definir o mais recente romance de Ricardo Silvestrin, O videogame do Rei (Record, 2009, 144 págs.).
Inventivo pelo enredo: a obra inicia por um diálogo entre um Ministro de Guerra e um rei, sobre uma longa e interminável guerra. Há leve divergência e, quando o Ministro sai, o rei o explode. O explode mas ele volta, reclamando: "se o rei acabar com as vidas daqueles que o protegem, acabará consigo mesmo".
Ocorre que o videogame em questão é um imenso visor instalado no palácio que permite ao tal Rei ver todo o mundo lá fora e explodir quem quer que seja pela força de seu pensamento. Enquanto a vítima ainda tiver vidas, ela retorna.
Num primeiro momento pensamos estar diante de uma ficção científica e que a história se passe em outro planeta ou outro milênio, mas aos poucos descobrimos que nem sempre o Rei foi Rei:
"A corrupção das classes políticas acabou fazendo com que todos nem quisessem mais saber de votar em alguém. A última votação que fizeram foi para rei. E o rei que se encarregasse de fazer no reino a organização política que quisesse. Teria plenos e ilimitados poderes. O dinheiro que antes ia para pagar os salários e os custos dos políticos seria investido em tecnologia. O reino virou um dos mais avançados e preparados para enfrentar tempos de guerra sem fim que se iniciavam. O rei era professor de filosofia antes de ganhar a votação. Não tinha muito dinheiro, pois dava poucas aulas, já que a maioria das escolas não oferecia a disciplina. Sobrava apenas a universidade. Sua mulher era formada em sociologia. Estava fazendo doutorado e interrompeu quando virou rainha. Estudava a história das mulheres na política. A tese que não defendeu na banca de doutorado expunha a conta-gotas no blog."
Uma vez eleito e com muita verba para investir em tecnologia, o Rei criou o "videogame", com o que conseguiu a estabilidade da nação e a supremacia nas guerras com as nações vizinhas.
Assim, ao deixar tempo e espaço indefinidos, mas próximos de nós (pode ser a qualquer tempo e qualquer espaço), o livro se torna extremamente provocador, tocando em feridas um tanto esquecidas pela literatura contemporânea, como política, desigualdade social, banalização da violência. Tudo isso numa linguagem pós-moderna, nada pretensiosa, concisa e direta.
Mas se a estética é pós-moderna, a temática, não. E daí a ambição do livro: abarcar em pouco mais de cem páginas conflitos de toda uma sociedade, reproduzindo em seu universo particular relações familiares, afetivas, sociais, políticas, econômicas. Perguntas das mais cruciais, e diversas, são suscitadas: "onde nos levará tanta tecnologia?", "como seria, afinal, um mundo governado só pelas mulheres?", "diante de tanta corrupção, não seria melhor acabar com a política?", "como a cultura pode contribuir com a guerra e vice-versa?", "é justo o povo trabalhar para sustentar seus governantes?", e por aí vai.
A forma encontrada para a construção desse mosaico é a boa e velha polifonia, com cada capítulo narrando a partir de uma personagem distinta, de classe distinta: o rei, a rainha, o Conselho Real e o povo (aqui um homem, uma mulher e um pai, marcando os conflitos de gênero e de gerações). São capítulos curtos, alguns funcionando por si, mas todos fundamentais para a construção daquele universo peculiar criado a partir do videogame do rei:
"Uma das mais ardorosas fãs do pensamento da rainha ficou decepcionada ao ler o blog [da rainha] pela manhã. Foi cabisbaixa abrir seu bar, como fazia todos os dias. O chaveiro que agora tinha o novo hábito de tomar o café da manhã no boteco perguntou o que estava deixando a moça tão abatida.
― Você não leu o blog da rainha hoje? (...) Quando penso nas noites em claro que passei lendo o blog dela pra no fim ser tudo mentira...

Blog é blog. Serve para a gente ler. É que nem livro. O que tem ali não é verdade. Mas é divertido. Não dá pra levar tudo tão a sério. Se fosse verdade mesmo, ninguém escrevia. A verdade verdadeira a pessoa só fala depois de muita pinga. Por falar nisso, ó..."
Difícil saber qual será a trajetória desse livro, e confesso estar curioso. Pelo tom despretensioso com que trata temas tão cruciais, pode se tornar um símbolo de uma nova era, de uma nova relação que a sociedade terá com a literatura (não por acaso eis um livro em que a leitura se dá por blogs, não por livros). Contrário senso, pode ser confundido como mais um livro de fait-divers, com um título inventivo para vender um tanto num primeiro momento e depois ser esquecido.
De qualquer forma, é interessante notar que seu autor, Ricardo Silvestrin, desde que chegou à Record tem se mostrado dos mais produtivos e inventivos. Seu volume de histórias curtas, Play, lançado em 2008, já traz contos construídos de forma objetiva, com narradores muito bem escolhidos e marcados pelo que podemos chamar de ousadia temática, misturando motivos do cotidiano com situações fantásticas e conflitos universais. Um crítico digital, Paulo Santoro, afirma que Silvestrin "como artista sabe que precisa ser profundo, como homem do século XXI sabe que precisa comunicar rápido". E, nesse sentido, talvez O videogame do Rei seja sua obra mais contundente.

Para ir além




Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 1/1/2010.