segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

O ano do Nobel a Vargas Llosa e do livro digital


Marcelo Spalding

Dois mil e dez chega ao fim com uma farta lista de acontecimentos, da eleição de Dilma ao resgate dos mineiros no Chile, da ocupação dos morros no Rio ao título mundial da Espanha, mas no mundo da cultura e da tecnologia poderíamos dizer que o maior acontecimento é o surgimento do iPad, o novo aparelho da Apple lançado em janeiro de 2010 e que em pouco tempo tornou-se sinônimo de tablet, bagunçou o mercado de desktops e notebooks e reinventou o que temos chamado de livro digital.

Já havia leitores de livros digitais, aparelhos que tentavam em tudo ser igual ao livro, agregando uma ou outra vantagem aqui e ali. Mas o tablet vai além, aliando o formato e a portabilidade do impresso às inúmeras ferramentas da Era Digital, como a interatividade, a multimídia, a conectividade. Alice no País das Maravilhas para iPad já é um clássico pela animação cinética, ainda que um clássico ultrapassado tamanha a gama de possibilidades abertas pelo novo equipamento do Midas Jobs. Finalmente, o tempo dos livros em PDF chamados de e-book pode estar com os dias contados.

Na contramão, outro acontecimento de 2010 foi o Prêmio Nobel de Literatura para Mario Vargas Llosa, romancista peruano, o quinto (de 107!) para um latino-americano. Vargas Llosa estreou na literatura em 1959, com Os chefes, mas foi a partir de 1963, com o premiado Batismo de Fogo, que se tornou mundialmente conhecido. Ao lado de Gabriel García Márquez, tornou-se ícone do chamado realismo mágico no boom do romance latino-americano da metade do século XX, revelando um pedaço do mundo até então exótico e desconhecido aos eurocêntricos intelectuais de então.

Podemos citar, entre suas obras mais conhecidas, Pantaleão e as visitadoras (1973), Tia Júlia e o escrevinhador (1977), A Guerra do Fim do Mundo (sobre a Guerra de Canudos, 1981), Cartas a um jovem escritor (1997) e Travessuras da menina má (2006). No belo Cartas a um jovem escritor (Elsevier, 2006, 182 págs.), Vargas Llosa fala do texto, da concepção de romance como arquitetura, esquema narrativo, chegando a afirmar que nenhum romancista obteve sucesso fulminante, todos foram frutos de anos de disciplina e perseverança.

Disciplina e perseverança são a marca de Travessuras da menina má (Alfaguara, 2006, 304 págs.), recente romance de formação do peruano. A obra traz um narrador em primeira pessoa, Ricardo Somocurcio, intérprete e tradutor apresentado em diferentes fases de sua vida, nos mais variados cantos do mundo, sempre apaixonado pela tal menina má. No primeiro capítulo, Ricardo é um pré-adolescente de Lima, Peru, encantado por uma menina que se diz chilena e, ao final, revela-se uma pobre peruana querendo se passar por chilena. Seu sonho desde pequeno é viver em Paris, e já no segundo capítulo Ricardo está em Paris tentando a vida como intérprete e tradutor, quando casualmente encontrará novamente seu primeiro amor. Entre encontros e desencontros, passam por Londres, Tóquio, Madrid e Paris novamente.

A volta ao mundo que o romance promete (e cumpre), associada à sensação de perda da identidade do protagonista ― "durante as semanas que permaneci no Peru fui abatido por uma sensação opressiva e me senti órfão no meu próprio país" ― estão em absoluta sintonia com os temas preferidos dos acadêmicos contemporâneos, e é sintomático que depois desse romance o peruano tenha sido lembrado por uma academia que há mais de vinte anos premiara seu contemporâneo García Márquez.

Não que Travessuras da menina má seja um grande romance. A bagagem histórica e cultural do narrador e a visão panorâmica do nosso breve século XX permitem comentários e reflexões precisos sobre a política peruana ou a sociedade europeia, com claros reflexos no mundo todo, como nesta bela síntese sobre o surgimento dos hippies: "Na segunda metade dos anos 60, Londres substituiu Paris como a cidade das modas que, partindo da Europa, se espalhavam pelo mundo. A música substituiu os livros e as ideias como centro de atração para os jovens, principalmente a partir dos Beatles, mas também de Cliff Richard, Shadows, Rolling Stones com Mick Jagger e outras bandas e cantores ingleses, e dos hippies e a revolução psicodélica dos flower children. Assim como antes iam fazer a revolução em Paris, muitos latino-americanos emigraram para Londres e se alistaram nas hostes da cannabis, da música pop e da vida promíscua. Carnaby Street substituiu Saint Germain como umbigo do mundo. Em Londres nasceram a minissaia, os cabelos compridos e as roupas extravagantes que consagraram as músicas "Hair" e "Jesus Christ Superstar", a popularização das drogas, a começar pela maconha indo até o ácido lisérgico, a fascinação pelo espiritualismo hindu, o budismo, a prática do amor livre, a saída do armário dos homossexuais e as campanhas de orgulho gay, assim como uma rejeição em bloco do establishment burguês, não em nome da revolução socialista, à qual os hippies eram indiferentes, mas sim de um pacifismo hedonista e anárquico, matizado pelo amor à natureza e aos animais por uma renegação da moral tradicional".

A história, entretanto, é pueril, calcada num amor incondicional e inverossímil e numa perspectiva estereotipada e machista. Ricardo, o homem, é fiel, romântico, dedicado, apaixonado, capaz de tudo por aquela que foi seu primeiro amor na adolescência, e o encontrará outras tantas vezes ao longo da vida. A menina má, a mulher, é sedutora, manipuladora, interesseira, fria. Má, como resume o título.

Evidentemente, não podemos esquecer a perspectiva de um narrador em primeira pessoa, contando sua versão dos fatos em retrospectiva, como o Bentinho machadiano do século retrasado ou o Humbert de Lolita, do século passado. Ainda assim a previsibilidade das personagens, a desmedida do amor de Ricardito e a singeleza do final do romance comprometem a obra, especialmente se lidas a partir de suas próprias considerações sobre o romance: "A ficção", escreve em Cartas a um Jovem Escritor, "é uma mentira que encobre uma verdade profunda, é a vida que não foi, a que os homens e mulheres de determinada época quiseram levar e não levaram, precisando, por isso, inventá-la".

Talvez por tentar abraçar o mundo e metade do século é que tenha faltado essa verdade profunda aos protagonistas de Travessuas da menina má, ainda mais se comparado aos clássicos de Vargas Llosa, como Pantaleãon e as visitadoras, de 1973, em que a hipocrisia e a crise de valores da sociedade peruana (clérigo, militares, imprensa) são representadas em um curioso batalhão de prostitutas.

De qualquer forma, o Nobel para um romancista que ao longo de sua trajetória não se furtou a representar as mazelas políticas e sociais, um latino-americano em permanente diálogo com os escritores brasileiros deve ser saudado como um acontecimento no ano do iPad.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 20/12/2010.

QUERIDA MÃE, QUERIDO PAI

Bela crônica escrita por Celia Maria Maciel sobre o Guilherme, nosso bebê.

Meus braços antigos acolhem Guilherme. Ele é um prêmio amoroso. Movimenta pés e as mãos feito um nadador profissional na raia dos cinco meses de vida. Parece estar ainda no rio do útero materno. E sorri feito um velho conhecido. E é novo. Não para. Está sempre indo. E não é a vida esta raia que demarca só a ida?

O pai de Guilherme escolheu a mim, para acolhê-lo. E foi com a ternura do mundo que eu o fiz. Um bebê que me faz recordar de outro bebê, bem assim como Guilherme. Só que era uma menina. A tez era clara e tinha o mesmo ritmo. É a mesma que embalo nos braços dos meus dias.

Relaciono tudo isso, com o fato de chegar ao final de ano com muita coisa boa na bagagem. Guilherme foi uma surpresa, porque gosto muito do pai dele, o Marcelo Spalding, amigo e escritor de livros infanto-juvenis e de contos. Quem sabe um dia, eu pudesse levá-lo a Cachoeira, não fosse o fato melancólico de Cachoeira não ter praças e nem espaço para a Feira do Livro. Não há lugar ao ar livre, num dia ameno de sol, que se possa sentar e conversar. E que as crianças possam brincar. Não acredito mais que um dia eu volte a caminhar por entre flores, na cidade onde nasci.

Mas voltando aos saldos. Foi um ano de muita leitura. De Martina, João Guilherme e Lázaro. De Manuela e Bianca. De amizades. As perenes. No mais, penso que nestes últimos dias de dezembro, deve haver muita frugalidade nas festas. Que uma mesa de comilança e todos os excessos, enquanto criaturas morrem de fome e de aridez na alma é, no mínimo, perverso. E perversidade é o que mais aniquila crianças no mundo inteiro.

E como pano de fundo a voz da Cesária Évora, que o Cristiano Bernardes, numa atitude gentil e cabo-verdiana, me presenteou. De mais não careço. Como uma crônica é sempre uma carta à cidade, apesar de não ir a Cachoeira pelo Natal, deixo um recado através de cantiga singela, de um grupo de Lisboa: “Querida mãe, querido pai. Então que tal?/ Nós andamos do jeito que Deus quer/ Entre os dias que passam menos mal/ Lá vem um que nos dá mais que fazer”.

Celia Maria Maciel

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Brasil, o país do futebol? Só se for pelo 'joystick'

Mais jovens estão trocando a prática de esportes pelos jogos de videogame, diz pesquisa. E o Brasil tem os piores índices!

‘Não gosto de praticar esportes, prefiro jogar no videogame’. A confissão do pequeno Vincenzo Lima, 6 anos, feita entre um lance e outro de uma partida de futebol virtual, reflete realidade diagnosticada pelo Instituto de Pesquisa Sulamericano Kiddos, a pedido do canal de TV por assinatura Nickelodeon, em 7 países da América Latina: crianças e adolescentes estão praticando menos atividades físicas e virando ‘cyberesportistas’.

O dado preocupa autoridades, pais e educadores.

O Rio é a 2ª capital no ranking da obesidade entre estudantes, segundo dados do IBGE de 2009, que apontam 8,9% dos alunos cariocas como obesos, atrás apenas dos de Porto Alegre.

“Passei a controlar o tempo do videogame. Antes das férias, só deixava ele jogar sextas, sábados e domingos. Agora, estou mais flexível”, diz a mãe Marianne Lima, 31, que matriculou o filho em várias atividades físicas, sem sucesso. No próximo ano, Vincenzo estudará num colégio com referência esportiva. “Espero despertar interesse nele, já que nem playground funciona”.

“A regularidade de exercícios físicos é uma necessidade primordial para o desenvolvimento saudável das crianças e uma base para melhorar a aprendizagem nas demais disciplinas”, opina a secretária municipal de Educação do Rio, Claudia Costin, lembrando convênios firmados com clubes e vilas olímpicas para oferecer atividades esportivas a alunos de escolas sem quadras.

Fonte: O Dia (RJ)

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Quando o autor é protagonista do próprio romance: Verão, de Coetzee

Marcelo Spalding

O romance, gênero de tanta tradição e tão popular no século anterior ao rádio e a TV, está mudado, muito mudado. Hoje, romances manejados pelas mãos de hábeis e treinados escritores não se revelam assim tão lineares, tão fáceis: como na leitura do conto, é preciso penetrar no subtexto, encaixar peças, buscar o efeito mais do que a narrativa, o ritmo poético mais do que o enredo. Leite Derramado, o mais recente de Chico Buarque, é um exemplo. Lavoura Arcaica, um clássico.

Diante dessa mudança de estrutura, muitos leitores médios acabam se afastando do romance “literário” e buscam os livros de não-ficção, como biografias, grandes reportagens ou reconstituições históricas. Por sua vez, e talvez exatamente por causa disso, muitos escritores começaram a fazer romances com feitio de biografia, de não-ficção, embaralhando as cartas no jogo da literatura e apimentando sobremaneira a distinção entre os gêneros.

Aqui no Brasil temos bons exemplos, de Por que sou gorda, mamãe?, de Cíntia Moscovich, a O filho eterno, de Cristóvão Tezza, mas um romance em especial pode sintetizar bem essa metamorfose sofrida pelo gênero: Verão, do sul-africano J. M. Coetzee (Companhia das Letras, 2010, 276 p.).

Chamo Verão de romance sem constrangimento, ainda que a obra se utilize de recursos estéticos da biografia, da entrevista e do diário para contar a vida de Coetzee nos anos 70, antes da sua afirmação como escritor e professor universitário. Aqui o Coetzee autor é convertido num personagem, inclusive já falecido no momento da história. A narrativa, composta por depoimentos de cinco pessoas que conviveram com o personagem, além de seus cadernos de anotação, traça um perfil errático, desinteressante e opaco de Coetzee, diferentemente do que costuma acontecer nas auto-biografias.

“Eu nunca tinha visto nada mais triste do que aqueles dois holandeses, pai e filho [Coetzee], sentados juntos, lado a lado, debaixo de uma árvore, tentando fingir que não estavam molhados e com frio. Uma coisa triste e engraçada também. (…) Ele é um homem fraco.”

Esse trecho do depoimento de Adriana, uma bailarina por quem Coetzee teria tido uma paixão não correspondida, revela o tom das opiniões emitidas sobre o protagonista, batizado com o mesmo nome do autor, o que amplia o mistério sobre sua figura.

Há alguns pontos a considerar, entretanto. Não podemos esquecer, em primeiro lugar, que os depoimentos (fictícios) são todos de pessoas/personagens que conviveram com o autor/personagem naquele período, não amigos íntimos nem familiares, e sim pessoas que passaram pela vida de um Coetzee iniciante, desajustado em seu país e seu tempo (o país é o do apartheid; o tempo, o da Guerra do Vietnã). Assim, a visão particularizada em Coetzee pode ocultar uma visão de conjunto da sociedade para com o escritor, o artista, o intelectual:

“John e seus poemas de novo! Ela não consegue evitar e rola de rir. John sentado na varanda daquela casinha desolada, inventando poemas!”. Adiante, provocado pela prima Margot a escrever um best-seller e ganhar um monte de dinheiro, ele responde: “Eu não saberia escrever um best-seller, não conheço o suficiente das pessoas e de suas fantasias”.

A opção por fazer de uma auto-crítica mordaz o centro da narrativa ainda permite que o romance traga à tona diversos dilemas históricos e sociais, muitos ainda em aberto, sem converter-se com isso num texto panfletário. Há crítica ao apartheid e suas implicações no dia-a-dia, ao serviço social e de saúde do país, à postura americana na guerra do Vietnã, às ditaduras africanas e sua violência e até ao período ditatorial brasileiro.

“Meu marido tinha essa qualidade”, dirá Adriana ao comparar seu falecido marido à Coetzee, “sempre teve, mas o tempo que passou na prisão aqui no Brasil, sob o poder dos militares, fez aflorar isso, muito embora ele não tenha ficado muito tempo na prisão, só seis meses. Depois desses seis meses, ele dizia, nada que seres humanos fizessem para outros seres humanos seria surpresa para ele”.

Tais depoimentos, no romance, são recolhidos por um biógrafo que tenta recompor a vida de Coetzee nesse período. E o próprio biógrafo, na conversa com uma colega de universidade, ao ser questionado sobre seu discutível método de trabalho, diz: “Madame Denoël, examinei as cartas e os diários. Não dá para confiar no que Coetzee escreve, não como registro factual – não porque ele fosse mentiroso, mas porque ele era um ficcionista. Nas cartas, ele inventa uma ficção de si mesmo para seus correspondentes; nos diários ele faz a mesma coisa para os próprios olhos, ou talvez, ou talvez para a posteridade”.

Ocorre que pouco importa, na verdade, o quão aquele Coetzee ali retratato é autor ou personagem, o quanto há de verdade. Na literatura, muito mais importante que a verdade ou a realidade é a verossimilhança, e há de fato uma verossimilhança latente em cada cena, em cada diálogo, em cada frase. Agora, se um leitor voyeur devorar a “auto-biografia” de Coetzee e sair por aí contando que aquele escritor era rejeitado pelas mulheres, e se isso para ele for um alento por achar que um dia poderá a ganhar um Nobel como Coetzee, provavelmente o sul-africano não fará nenhuma objeção, talvez apenas um riso de canto de boca, de escárnio. Um James Weldon Johson às avessas.

E continuará alimentando a curiosidade dos leitores com mais volumes de sua auto-biografia ficcional (este é o terceiro, depois de Infância e Juventude), enquanto amplia o cânone da literatura universal com mais ficção sobre sua biografia.

Marcelo Spalding

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Patricinha fascista

Juremir Machado da Silva, publicado no Correio do Povo

A estupidez está sempre ao alcance de todos. Mayara Petruso, patricinha paulista, estudante de Direito, saiu do anonimato para fama, via Twitter, graças a um coice na inteligência nacional. Indignada com a vitória de Dilma Rousseff, a moça disparou este petardo: "Nordestino não é gente, faça um favor a São Paulo, mate um nordestino afogado. Tinham que separar o Nordeste e os bolsas-vadio do Brasil (...) Construindo câmaras de gás no Nordeste, matando geral". No Facebook, a burrinha racista se atolou um pouco mais: "Afunda, Brasil. Deem direito de voto pros nordestinos e afundem o país de quem trabalha pra sustentar vagabundos que fazem filhos pra ganhar bolsa 171". Mayara já perdeu o emprego no escritório onde trabalhava e sofrerá ação judicial protocolada pela OAB.

Alguns jovens universitários paulistas têm revelado um grau superior de idiotice. Depois da turminha que hostilizou uma guria por causa da sua minissaia, apareceu o bando do "rodeio das gordas", propondo tratar meninas obesas como animais. E agora entra em cena a tal Mayara. O escândalo maior é imaginar que isso representa uma opinião média difundida na Internet. Como será que a mulinha Mayara explica a vitória de Dilma em Minas Gerais? Achar que as ajudas sociais são incentivos à vagabundagem é típico de uma elite primitiva ou de uma classe média ignorante. Qualquer país civilizado, a começar por França, Alemanha, Inglaterra e, evidentemente, países escandinavos, oferece mais ajudas sociais que o Brasil. Não adianta ir à Europa só para comprar bolsas Vuitton. É preciso espiar o cotidiano.

Quem não recebeu e-mails dizendo que Dilma não podia ser candidata por ter nascido na Bulgária? Quantos analistas têm por aí sugerindo que os nordestinos são subeleitores que votaram com o estômago? Quando um empresário escolhe um candidato seduzido pela possibilidade de redução de impostos, o que é legítimo, não se trata de voto por interesse? Não é voto com o bolso? Quando ruralistas votam num candidato na esperança de conseguir mais incentivos, o que é comum, não é voto interesseiro? Mayara não deixa de ser o produto de uma estratégia perigosa, a divisão ideológica entre bem e mal. Foi essa perspectiva, cara ao vice Índio da Costa, que José Serra adotou. A revista Veja e o jornal Estado de S. Paulo deram aval a essa idiotice retrógrada. Uau!

O PSDB, que nasceu pretendendo ser moderno e racional, podia mais. Veja, que se acha mais moderna do que os modernos, acabou por produzir leitores Mayara. Isso não tem a ver com partidarismo como imaginam os mais simplórios ou ideológicos. Eu jamais terei partido. Meu único capital é a independência selvagem. Sou a favor do voto de castidade partidária para jornalistas. Tudo pela liberdade de dizer que quem acha o Bolsa-Família um incentivo à vadiagem pensa como Mayara. Esse foi o principal erro tucano na campanha eleitoral: ter guinado à direta para tentar seduzir as Mayaras, que arrastaram um intelectual progressista como Serra para o reacionarismo rasteiro do Estadão e da Veja. Mayaras, nunca mais!

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Vendas de livros digitais crescem 193% em um ano nos Estados Unidos

As vendas de livros digitais (e-books) nos Estados Unidos cresceram 193% de acordo com pesquisa divulgada pela Association of American Publishers (Associação Americana de Editores, em portugês). O motivo do crescimento, de acordo com a associação, é o bom resultado nas vendas dos tablets e leitores digitais Kindle, iPad e Nook nos últimos meses.

A pesquisa afirma que, entre os meses de janeiro e agosto de 2010, as vendas de e-books chegaram a US$ 263 milhões. No mesmo período em 2009, este número foi de quase US$ 89 milhões. Com isso, os livros digitais representam 10% de toda a venda de livros nos Estados Unidos, número que era de 3,31% no ano passado.

Quanto mais populares os livros digitais se tornam, as vendas dos livros tradicionais caem. A Amazon afimrou que vende mais publicações para o Kindle do que no formato tradicional e, de acordo com a Association of American Publishers, a venda de livros de capa dura caiu 24% em 2010 em relação ao ano passado.

http://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2010/10/vendas-de-livros-digitais-crescem-193-em-um-ano.html

sábado, 16 de outubro de 2010

O filho eterno e seus prêmios literários


Marcelo Spalding


LIANA TIMM© (http://timm.art.br/)

Muitos escritores invejariam o sucesso de Cristovão Tezza com seu O filho eterno (Record, 2007, 224 págs.), que faz questão de se anunciar na capa da nona edição (nona!), publicada em 2010, como vencedor dos prêmios Zaffari & Bourbon 2009, Portugal Telecom 2008, São Paulo de Literatura 2008, Jabuti 2008, Bravo! 2008 e APCA 2007. E o invejaria não apenas pelos prêmios, como também pela crítica, orgulhosamente representada na contracapa da edição, e principalmente porque a obra tem sido indicada em vestibulares de diversos lugares do país (e isso vende muito mais que qualquer troféu na estante ou tapinha nas costas dos críticos).
Sim, muitos escritores invejariam o sucesso de Cristovão Tezza, menos o pai de Felipe. O pai de Felipe é o protagonista de O filho eterno, um escritor que quando tem o filho, na faixa dos 30 anos, acumula cartas de rejeição das editoras e fracassos nos prêmios literários. Mas não parece, o pai de Felipe, ser movido pela vaidade dos troféus, e sim por uma incrível necessidade de escrever: ele escreve, reflete, constrói uma obra anônima, sem leitores, até que, finalmente, seu primeiro livro, Trapo, é publicado por uma grande editora. Daí para as carreiras literária e acadêmica é um pulo.
Não há de ser coincidência que Trapo seja também o primeiro sucesso de Tezza, o autor, e que sua profissão seja dar aulas de linguística numa Universidade Federal, como o protagonista do premiado romance. Evidentemente, ficamos com vontade de saber se as questões pessoais levantadas no livro são ficcionais ou depoimentos corajosos e verdadeiros do autor. Só que nada disso importa e muito menos justifica a quantidade de prêmios recebidos. É preciso ver em O filho eterno um exemplo bem acabado de romance confessional, tão ao gosto do público voyeur contemporâneo, tecnicamente construído de acordo com as normas canônicas e acadêmicas.
A história inicia quando o pai de Felipe, um jovem de 28 anos, leva sua esposa para o hospital em trabalho de parto. É o primeiro filho do casal, e a ansiedade é grande. Desde o princípio, as ações encadeadas a partir do nascimento do bebê são também pretexto para reflexões e devaneios intelectuais do protagonista, fuma e anda de um lado para o outro enquanto o filho não nasce, e que vive às custas da mulher enquanto seu talento não é reconhecido.
"Um homem do sistema. Família é sistema. Daqui a cinquenta anos, ele imagina, sem de fato acreditar na fantasia que põe no corpo, não haverá mais famílias, e o mundo será melhor. Por enquanto, vamos levando com as armas que temos, a entonação já levemente irônica."
O filho, Felipe, finalmente nasce, os parentes são avisados e o narrador vai nos revelando um protagonista não apenas irônico, mas ácido, mordaz. "Um primeiro filho é uma aporrinhação monumental na vida de qualquer casal", dirá adiante. Mas qual não é nossa surpresa quando esse rapaz irônico, ácido, mordaz e sem rumo definido na vida, esse escritor à margem do sistema, esse pai jovem e despreparado descobre que seu filho não é uma criança "normal", ele tem Síndrome de Down. Um "mongolóide", nos termos do pai de Felipe.
"Ele conclui todos os dias: essa criança não lhe dará nada em troca. Sequer aquele prazer mesquinho, mas razoável, de mostrá-lo aos outros como um troféu, já antevendo secretas e inauditas qualidades no futuro daquele (que seria um) belo ser. Se eu escrever um livro sobre ele, ou para ele, o pai pensa, ele jamais conseguirá lê-lo."
A partir desse conflito irreparável e desse tom inconfundível, Tezza costura um texto que é ao mesmo tempo sobre o menino e sobre o pai, metonímias de uma sociedade preconceituosa, conservadora e provinciana. Optando pela narrativa nas cenas com o filho e pelo discurso nas cenas em que o pai reflete sobre seu passado e seu novo desafio, o autor consegue ser contundente sem ser panfletário, emotivo sem cair no piegas. A visão cruel do pai para com o filho num primeiro momento repugna o leitor, mas aos poucos vamos percebendo a sinceridade daquele relato, a dificuldade de lidar com um caso desses e de como não seria muito diferente fôssemos nós o pai.
Nesse sentido, a escolha de um narrador em terceira pessoa, e não um narrador protagonista, embora pareça artifício de adolescente escrevendo sobre seu alter ego, nos aproxima do personagem, que ao não ter nome pode ser qualquer um de nós: pais, tios, irmãos, professores ou vizinhos de uma criança com síndrome de Down, com problema motor, cega, surda, albina, feia, anã (os preconceitos são muito mais numerosos do que as deficiências).
É evidente, porém, o protagonismo absoluto do pai de Felipe, pois em raros momentos o narrador se refere à mãe do menino, que permanecerá casada com o pai de Felipe até o fim do livro, mas será referida em uma ou duas oportunidades, assim como a filha mais nova do casal, uma criança "normal" e que não tem praticamente nenhum espaço no romance. O pai é absoluto em suas ideias, intenções, medos, angústias, conquistas, reversões de expectativa, heroísmos, fracassos, referências (há intertextualidade com dezenas de clássicos da literatura universal, como Dostoiévski, Kafka, Sartre, Thomas Mann, Hemingway; clássicos para o pai, jamais serão lidos pelo menino, admirador de animes japoneses e jogos de futebol).
Assim, valendo-se de um mix pós-moderno de referências eruditas e populares, de questões sociais contemporâneas com aspectos históricos, Tezza constrói um livro provocativo para os analistas e assimilável pelo leitor médio, ainda que este ao final reclame da falta de um final (não está acostumado com a literatura pós-moderna, o leitor médio) e até termine xingando o pai, e o autor, por pensar tão mal sobre o filho.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 16/10/2010.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

O espiritismo e a novela da Globo

Marcelo Spalding

Acabou mais uma novela da Globo, Escrito nas estrelas, uma novela tão igual e tão diferente das outras. Diferente porque parece consolidar uma abordagem insistente da Rede Globo em relação ao espiritismo, iniciada com a exibição de A Viagem e ampliada agora (só nos últimos anos tivemos também a re-exibição de Alma Gêmea e a produção dos filmes Chico Xavier e Nosso Lar). Poderíamos pensar se tal insistência no tema é uma marca da decadência do catolicismo no nosso país ou uma tentativa da Rede Globo combater o crescimento da Record e seus evangélicos, pois mesmo numa cultura sincrética como a nossa é muito difícil conciliar as crenças evangélicas com as doutrinas espíritas, mas vamos nos ater àquilo que a novela teve de igual a todas as outras, o culto ao materialismo e ao consumismo.

Jovens beldades suspiram por novos pares de sapato, gerando belo merchandising, homens importantes dirigem carros modernos e caros, mãe e filha ficam histéricas diante de joias e todos se admiram com a beleza da mocinha quando em vez de cabelos e roupas naturais ela passa por um hair design e faz compras sem limites num shopping qualquer. Eis os valores que imperam, valores absolutamente conflitantes com aquilo que prega o verdadeiro espírita, como desapego às questões materiais, ao carro da moda, ao cabelo da moda, à roupa da moda. Mais do que a história da vida passada de Valentina e da vida presente de Vitória, a novela tratou da enorme diferença da vida de suburbana de Viviane e da vida de madame de Vitória, agora com novas roupas, novo jeito de andar, de falar, de se portar, consagrando preconceitos sociais arraigados e delimitando uns e outros, os que estão na moda e os que não estão, os vitoriosos e os cômicos (sempre havendo entre eles os bandidos).

Os pares românticos, por sua vez, são formados sempre com belíssimas e jovens mulheres se apaixonando por íntegros e riquíssimos homens. Assim a protagonista da vez, Vitória/Viviane, não por acaso descobre-se alma gêmea do viúvo e milionário Dr. Ricardo, e não do taxista, do motorista, do funcionário da clínica, de alguém comum, como nós. A própria protagonista, aliás, alma gêmea do doutor, é jovem, linda e inteligente, figura fácil de se apaixonar nesta ou em qualquer outra vida.

Ocorre que esse tipo de construção, tão comum nas novelas, faz o telespectador mais cético duvidar dessa história de alma gêmea ou mesmo do amor, afinal ele nunca sentiu algo daquele jeito e se sente frustrado porque seus melhores sentimentos são ou foram destinados a pessoas com muito menos virtudes, dinheiros ou curvas.

Esse maniqueísmo absurdo (ricos e pobres, bons e maus) é muito mais inverossímil do que qualquer contato entre vivos e mortos, do que qualquer reencarnação ou carma. O próprio espiritismo, aliás, quebra o dualismo céu e inferno do catolicismo ao trazer outros tantos destinos possíveis para a vida após a morte, afinal, nenhum de nós será sempre e apenas bom ou sempre e apenas mau, há nuances, há momentos, há fraquezas. E, socialmente falando, parece ainda mais óbvio que não há apenas ricos e pobres, entre eles há uma enorme classe média que, aliás, frequenta casas espíritas e foi assistir ao Nosso Lar, uma classe média tão distante das afetações da mansão do Dr. Ricardo quanto das maracutaias de seu Jofre.

O problema da pasteurização é que a novela contraria valores espíritas que supostamente estariam sendo representados, além de prometer uma comprovação quase científica de algo que não se tem como provar, é apenas uma questão de fé, uma questão de fé tão cega e possível quanto acreditar nada haver além desta vida.

O espiritismo kardecista nada mais é do que uma visão de mundo que se define como filosofia, ciência e religião, e não por acaso surgiu na França do século XIX, o das luzes. A premissa básica é que o espírito é imortal, enquanto o corpo é mortal, e se considerarmos apenas que essa premissa possa ser possível, que depois de morrermos nossa alma ou consciência ou seja lá o que for irá para outro lugar, e não simplesmente se apagará de repente, se considerarmos apenas essa premissa já muda tudo: o acaso dá lugar a uma complexa cadeia de ação e reação que ajuda-nos a intuir algum sentido para a vida e compreender algumas injustiças absurdas que vivenciamos.

Se além desse espírito imortal temos realmente almas gêmeas, se os "mortos" estão ao nosso redor, se podemos vê-los ou ouvi-los, se com a regressão realmente lembramos de outra vida, se há céu ou inferno, se há trabalho no nosso lar ou violetas na janela, isso tudo são suposições, criações e possibilidades dentro de uma premissa básica, esta, sim, realmente importante.

Um verdadeiro espírita como a minha mãe, que, aliás, se emocionou muito com o último capítulo da novela, aquele que mais abordou a vida além da vida, não lembra em nada a apática Jane, a interesseira Sueli nem a perfeita Mariana, personagens, aliás, que como todos os outros (exceção ao Vicente) vão mil vezes mais ao shopping do que a qualquer igreja ou centro espírita, cenários curiosamente inexistentes na novela. Um verdadeiro espírita, acima de tudo, é um verdadeiro cidadão desse mundo, alguém capaz de respeitar o próximo tenha ele a cor, o salário, a crença ou a idade que tiver. E isso, acredito, é muito mais difícil do que encontrar uma alma gêmea, do que abraçar uma fé, do que perdoar.

Tenho certeza que mais novelas e filmes sobre essa temática vão surgir, não apenas porque estão se mostrando lucrativos como também por serem um material farto para a ficção (assim como a Bíblia e o catolicismo, fonte inesgotável da arte há dois mil anos). Só espero que aos poucos os valores e as reais premissas do espiritismo prevaleçam e não se pasteurize demais algo tão complexo, tão difícil e já tão deturpado. Ou, pelo menos, que junto com a pasteurização e o interesse popular venha o interesse real e desarmado da academia e da ciência, áreas que, ao livrarem-se dos preconceitos e reconhecerem suas limitações, teriam muito a contribuir com o espiritismo.

domingo, 19 de setembro de 2010

Por que os artistas devem dar seu trabalho de graça

Marcelo Spalding

Sabe quanto um escritor ganha quando um livro seu é vendido? No melhor dos casos, 10%. Digamos R$ 3,00. Sabe quantos livros um autor vende por ano. Sendo otimista, mil livros. Bem otimista. Agora faça as contas: R$ 3000,00 por ano é suficiente para alguém viver da venda de livros? Não, decididamente não. Aí as alternativas são procurar um emprego “decente”, ter uns 50 livros publicados e em catálogo ou continuar dando murro em ponta de faca. E, em todos os casos, reclamando que o brasileiro não lê, que o governo não incentiva, etc, etc, etc.

Esse cenário, com uma ou outra variação, é o mesmo para todas as artes: um artista médio, competente mas não midiaticamente reconhecido, não tem espaço para seu trabalho e é muito mal remunerado por ele. A questão é: será um problema de mercado, do artista ou do sistema? Excluindo-se os casos em que é problema do artista, entre o mercado e o sistema eu diria que o problema é do sistema.

Dizem que o brasileiro não lê, mas você sabia que o Brasil é um dos dez países que mais vendem livros no mundo? Metade são livros didáticos, metade da metade são best-sellers e ainda tem os de auto-ajuda e espiritualidade. Além disso, pesquisas indicam que o brasileiro lê menos de três livros por ano. Três! Ou seja, nossa grande missão é, também, fazer com que as pessoas leiam mais (problema de marcado), mas o principal é fazer com que as pessoas leiam os nossos livros, e não os best-sellers (um problema de sistema).

Para a livraria e para a editora o melhor é que eles leiam o best-seller. Sai mais barato para eles imprimirem e a margem de lucro é muito maior. Então nossa única saída, na impossibilidade de fazermos um best-seller, é sair desse sistema.

Há vinte anos isso seriam absolutamente difícil, embora ainda assim possível, e que os digam os poetas marginais. Mas hoje, com a internet, temos uma grande oportunidade de estreitarmos nossa relação com o leitor e tirarmos os intermediários da jogada, criando uma vantagem competitiva enorme para os nossos livros em relação aos best-sellers.

Chris Anderson, em seu livro A Cauda Longa, afirma que se a indústria do entretenimento no século XX baseava-se em hits, a do século XXI se concentrará com a mesma intensidade em nichos: "Os consumidores estão mergulhando de cabeça nos catálogos, para vasculhar a longa lista de títulos disponíveis, muito além do que é oferecido na Blockbuster Video e na Tower Records. E quanto mais descobrem, mais gostam da novidade. À medida que se afastam dos caminhos conhecidos, concluem aos poucos que suas preferências não são tão convencionais quanto supunham (ou foram induzidos a acreditar pelo marketing, pela cultura de hits ou simplesmente pela falta de alternativas." (p. 15)

Dessa forma, é mais provável que um potencial leitor de seu livro o encontre navegando na internet do que passeando numa livraria. Muito mais provável. E nesse sentido não surpreende que muitos escritores estejam disponibilizando sua obra toda, de graça, em sites e blogs, numa última e desesperada tentativa de fazer circular algo que lhes deu tanto trabalho, e às vezes custou tanto dinheiro. E adianta? Sim e não.

Realmente o usuário que entrar em seu site ou blog, se identificar com a sua temática ou conhecer você terá a curiosidade de baixar o livro e talvez até leia alguma coisa. Mas para você ter mais acessos é preciso algum tipo de divulgação, investir nisso, e para fazer qualquer investimento, por menor que seja, é preciso dinheiro, que acaba não entrando quando você disponibiliza de graça o livro. Ou seja, é pior que os R$ 3,00 do modelo tradicional, supondo que você ainda consiga vender algo no modelo tradicional.

Um princípio de resposta pode estar em outro livro de Chris Anderson, Free: o futuro dos preços (Elsevier, 2009, 270 p.). O autor traz entrevistas, dados, episódios históricos e atuais para mostrar que os preços no mercado digital estão caindo tanto que logo chegarão a zero, e viveremos uma economia do Grátis. Só que isso, ao invés de apavorar quem atua nesse mercado está se mostrando extremamente lucrativo: as empresas estão ganhando ainda mais dinheiro com isso (basta vermos o Google).

No que tange à livros, Anderson dá alguns exemplos, entre eles o de Paulo Coelho, que brigou com sua editora para colocar seu livro mais popular, O Alquimista, no BitTorrent, gerando um renovado interesse pelo autor e transformando seu novo lançamento em um sucesso de vendas maior ainda (livro que, aliás, também está disponibilizado no BitTorrent). Anderson cita ainda um autor menos conhecido, que disponibilizou seu livro para download e colocou ao lado um link para doações voluntárias no PayPal: “das aproximadamente 8 mil pessoas que baixaram o livro, cerca de 6% pagaram, com preço médio de U$ 4,20)”.

O modelo mais completo de negócios para livros (e para artes) que o autor apresenta é do Flat World Knowledge, que disponibiliza a versão digital de TODOS os seus livros gratuitamente. E como eles vivem? Vendendo livros ou capítulos do livro impressos, versão em PDF imprimível, audiolivro em MP3, e-book para e-readers e por aí vai. Isso sem contar as palestras para as quais os autores são chamados, e que rendem muito mais do que a venda de 100 livros em livrarias.

Ao final Anderson irá ressaltar que “dar o que você faz não o tornará rico; você precisa pensar com criatividade em como converter a reputação e atenção que pode obter com o Grátis em dinheiro”. Mas, acrescento eu, às vezes é muito melhor não ganhar nada do que ganhar quase nada, como ocorrem com nossos contratos com as editoras (isso quando não pagamos para editar nossos livros). Porque não esqueça que ao ser editado por uma editora você cedeu os direitos sobre seu texto para ela, e às vezes teria sido muito mais lucrativo ter esse texto contemplado num concurso literário de sua cidade, inscrito em alguma lei de incentivo ou patrocinado por uma empresa privada em busca de estratégias de investimento em cultura.

Ou seja, caro artista, não tenha vergonha de dar seu trabalho de graça. Não todo ele, parte dele. Descubra qual parte você pode abrir ao seu público a fim de cativá-lo para que ele aí sim compre a outra parte, seja algum lançamento, uma versão impressa do livro, uma palestra ou show, uma camiseta autografada. O que não podemos é permanecer refém daqueles que não querem nos vender, preferem vender os best-sellers a nós, e ainda culpam disso o leitor, que sequer teve a chance de nos conhecer.

Free: o futuro dos preços é ser grátis

Marcelo Spalding

O mundo dos negócios vive de ondas, ondas que passam rápido, ditam tendências, rendem alguns milhares ao seu criador e depois se vão. Não que sejam ondas artificiais, na verdade a velocidade da alternância dessas ondas apenas reflete a velocidade do mundo moderno. E hoje quem está na crista da onda, o mais vendido, mais comentado e talvez um dos mais precisos em suas análises é Chris Anderson, autor de A Cauda Longa e que recentemente lançou Free: o futuro dos preços (Elsevier, 2009, 270 p.), seu segundo livro.

Apesar de a capa do livro, na versão brasileira, fazer de tudo para parecer um livro de auto-ajuda para negócios, citando “gigantes como Google, YouTube e Financial Times”, o autor evita a postura de guru e faz um livro entre o acadêmico e o jornalístico, trazendo entrevistas, dados, episódios históricos e atuais que vão ao encontro de sua tese: os preços no mercado digital estão caindo tanto que logo chegarão a zero, e viveremos uma economia do Grátis. Não aquele grátis do século XX, compre um leve dois, ganhe esse celular e gaste fortunas com ligações, ganhe esse exemplar da revista e assine sem saber um compromisso de assinatura. Não, um Grátis real, como já acontece hoje com o Gmail, o YouTube, o Twitter.

“A ascensão da freeconomics, a economia do Grátis, está sendo abastecida pelas tecnologias da era digital. Da mesma forma que a Lei de Moore dita que o preço de uma unidade de capacidade de processamento em um computador cai pela metade a cada dois anos, o preço da largura de banda e da armazenagem está caindo muito mais rapidamente. O que a Internet faz é integrar os três, combinando as quedas de preço dos três elementos tecnológicos: processadores, largura de banda e armazenagem. Em consequencia, a taxa de deflação anual líquida do mundo on-line é de quase 50%, o que equivale a dizer que o custo do YouTube para divulgar um vídeo hoje cairá para a metade daqui a um ano. Todas as linhas de tendência que determinam o custo de fazer negócios on-line apontam na mesma direção: para zero. Não é de se surpreender que todos os preços on-line avancem na mesma direção.”

Anderson comenta que ao iniciar seu trabalho se deparou com dois tipos de pessoas: as com mais de 30 anos e as com menos de 30 anos. Para os que tinham mais de 30 anos esse negócio de grátis esconde alguma coisa do consumidor e logo o preço será pago. Já para os que tinham menos de 30, o grátis não é nenhuma novidade, não havendo nenhum motivo para se escrever um livro sobre isso. Realmente no mundo digital já estamos nos desacostumando a pagar pelas coisas: jornais caríssimos no mundo real liberam seu acesso, músicas são disponibilizadas aos milhões, bibliotecas abrem grande parte do seu acervo acadêmico, jogos multiplayer sofisticados não cobram um centavo do usuário, softwares são disponibilizados aos milhares, sites permitem a publicação e compartilhamento ilimitados de vídeos e fotos , emails gigantes são oferecidos sem custo algum.

Essa cultura do Grátis não surge de uma súbita boa-vontade dos ricos e poderosos do mundo. Não, há razões técnicas e econômicas para que o Google, por exemplo, ofereça tantos serviços gratuitos na internet: eles querem que você permaneça mais tempo conectado, faça mais buscas e, principalmente, clique mais nos anúncios exibidos em suas ferramentas, ganhando assim mais alguns centavos, que no final do mês se contam aos milhões. E como o custo de armazenamento é muito baixo para a estrutura criada por um gigante como o Google, não há problema algum em oferecer algo Grátis mesmo que você nunca clique em anúncio algum: seu amigo irá clicar, ou o amigo de seu amigo, e por aí vai.

Ou seja, e esse é o ponto central do argumento de Chris Anderson, é possível ganhar dinheiro, e mais dinheiro, com o Grátis. “As pessoas estão ganhando muito dinheiro sem cobrar nada. Não nada por tudo, mas nada pelo suficiente para criarmos uma economia tão grande quanto a de um país de tamanho razoável pelo preço de $0,00”.

O autor traz alguns exemplos históricos e atuais de negócios que conseguiram lucrar a partir do Grátis, começando pelo inventor das gelatinas e por King Gilete, que dispensa apresentações. Em resumo, poderíamos dizer que há quatro modelos principais:

> Subsídios cruzados diretos: quando uma empresa oferece um aparelho de celular porque vai ganhar com as ligações, por exemplo. Esse é o caso clássico do grátis no século XX.

> O mercado de três paticipantes: quando alguém usa o serviço e outro paga, caso clássico da publicidade nos meios de comunicação. Você não paga nada para assistir TV, mas alguém está pagando à empresa em troca de sua atenção no horário comercial. Essa estratégia, que hoje parece óbvia, demorou muito para ser definida como o melhor modelo de negócios para as rádios no seu surgimento, conforme conta bem o autor. E é interessante notar que na internet ela não funciona com a mesma lógica que na grande mídia: aqui em geral as empresas cobram por clique, por resultado, e não um alto valor único pela exibição de um anúncio.

> Freemium: este talvez seja o mais revolucionário modelo de negócios para o grátis: há duas versões do mesmo produto, a versão grátis e a versão paga. Na versão grátis o usuário em geral pode fazer muita coisa, mas se ele estiver muito adaptado ao programa, ou jogo, ou site, talvez ele aceite pagar alguns dólares para ter novas funções ou alguns privilégios. É como se uma danceteria permitisse a entrada grátis para todo mundo, mas cobrasse pela área VIP. Claro que no exemplo da danceteria seria um caos, afinal dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço, mas como bits não são corpos, na internet o espaço de armazenamento é quase grátis, e é por isso que o Club Penguim, o Hattrick e o Ikariam, por exemplo, podem ser jogados sem pagarmos nenhum centavo.

> Mercados não monetários: qualquer coisa que as pessoas resolvem dar sem expectativa de pagamento. É o caso da Wikipedia. Em geral há uma fundação ou governo por trás para sustentar esse mercado, mas também pode ser apenas uma estratégia de isca: uma corretora de valores pode ter um belo portal com notícias sobre a Bolsa para atrair consumidores e expor seus serviços, por exemplo.

Grandes empresas, as citadas pelo livro, provaram que esses modelos de negócios podem ser mesmo muito lucrativo, pois além de resultado financeiro elas rendem dois dividendos que Anderson reputa como extremamente importantes na era digital: atenção e reputação. Basta vermos o valor de mercado do Facebook e do Twitter, totalmente desproporcional ao que conseguem faturar com seus produtos. Mas o autor apenas insinua, sem entrar em detalhes, que para as pequenas empresas, para os habitantes de sua cauda longa, a situação não é tão simples.

Ocorre que na internet as marcas que lideram seus segmentos acabam sendo quase monopólios, criando empresas gigantescas com as quais é muito difícil concorrer. Conte nos dedos: Microsoft, Apple, Google, Sun, Yahoo, Amazon, eBay, PayPal, Facebook, Twitter e por aí vai. Isso se dá por causa da escala, nesse tipo de negócio quanto mais você puder trabalhar em escala (com milhões de usuários e não milhares), mais diluído ficarão os custos fixos (mais próximos de zero) e a receita daqueles que pagarem serão suficientes para gerar receita, receita essa que permite altos investimentos em pesquisa, desenvolvimento e publicidade, atraindo ainda mais usuários e realimentando o processo.

Não por acaso a última frase do livro é: “os empreendedores da Web precisam inventar não somente produtos que as pessoas adorem, como também produtos pelos quais elas pagarão. O Grátis pode ser o melhor preço, mas não pode ser o único”. Curioso, nesse aspecto, que o próprio livro de Anderson no Brasil não seja disponibilizado gratuitamente. Porque no livro ele cita diversas vezes sua própria experiência, dizendo que a obra está disponível em versão e-book, à venda em PDF ou na versão impressa, porque sua principal fonte de receita são palestras customizadas a determinada empresa ou instituição que queira contratá-lo. Agora, no Brasil, se você acessar a versão do Scrib do livro, em http://www.scribd.com/doc/17135767/FREE-by-Chris-Anderson, verá a antipática mensagem: “Sorry, this content is geographically restricted”.

Mais do que atrapalhar os argumentos do próprio livro de Anderson, essa estratégia mostra como nossas editoras estão despreparadas para lidar com o mercado digital, agindo como as jurássicas gravadoras de CDs e DVDs, insistindo em manter indústrias físicas centradas em meia dúzia de privilegiados e dificultando o surgimento de um mercado digital amplo e diversificado. Mas isso é outra história que abordarei em nova coluna.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Luiz Antonio de Assis Brasil


Marcelo Spalding

O nome é imponente. E a obra, construída com o mesmo cuidado de cada romance, de cada frase, faz jus a tal imponência. Luiz Antônio de Assis Brasil, porto-alegrense de vida inteira, publicou seu primeiro livro em 1976 pela editora gaúcha Movimento. De lá para cá foram quase duas dezenas de romances, alguns com uma dezena de edições, muitos premiados e todos publicados por editoras gaúchas. Além disso, Assis ministra há 25 anos a Oficina de Criação Literária da PUCRS, reconhecida nacionalmente por forjar alguns dos melhores nomes da literatura contemporânea, como Cintia Moscovich, Daniel Galera, Michel Laub e Amílcar Bettega.
Não por acaso fala-se aqui no Sul que, em terra de Scliar e Verissimo, Assis Brasil é o mais importante nome do sistema literário gaúcho (aqui "sistema" entendido na definição de Cândido, autores, editoras e público), pois Assis ao mesmo tempo forma autores, arrebata leitores e fomenta o cambaleante mercado editorial local ao permanecer com suas edições por aqui.
Neste ano, felizmente, sua editora atual, a L&PM, resolveu retribuir essa postura e está republicando alguns títulos da obra do mestre que estavam fora das livrarias há mais de cinco anos. Com isso, Videiras de cristal, a trilogia Um castelo no Pampa, Bacia das almas, As virtudes da casa, Anais da Província-Boi, O Homem Amoroso, Manhã transfigurada e Cães da Província ganharão novas edições e voltarão a um catálogo de onde não poderiam ter saído, pois a obra de um autor como Assis Brasil não se mede por um dois títulos, um ou dois prêmios, e sim pelo seu conjunto.
Os romances Manhã transfigurada (L&PM, 2010, 128 págs.) e Cães da Província (L&PM, 2010, 264 págs.) foram os escolhidos para iniciar essa retomada, e poderíamos dizer que ambos representam bem a temática e a estética deste Assis anterior a Um pintor de retratos, publicado em 2001 e que, segundo palavras do próprio autor, é uma virada na sua forma de escrever. O Assis pré-2000, autor desses clássicos da literatura gaúcha que estão sendo republicados, recorre a episódios históricos da sociedade rio-grandense para criticar a organização burguesa e provinciana desta, aproximando-se daquilo que hoje chamamos Nova História. Alguns poderiam dizer que é um olhar contemporâneo do passado, o passado olhado com a lente pós movimento feminista, pós movimentos sociais.
Manhã transfigurada, por exemplo, narra a história de Camila, uma jovem que se casa por obrigação com um rude sargento local, dono de bela casa em frente à Igreja de Viamão e alguma terra no interior. O que nas mãos dos românticos seria uma bela história de amor torna-se, entretanto, uma intrincada disputa de direito canônico, pois o marido, ao descobrir que sua esposa não é mais virgem, pedirá anulação do casamento e prisão domiciliar da esposa enquanto o caso não for decidido pela Igreja, valendo-se de uma lei existente à época, o século XVIII.
A mesquinhez da minúscula cidade, o preconceito social e a opressão às mulheres, especialmente à sua sexualidade, ficam bastante evidentes na história, embora devamos considerar que as duas protagonistas, Camila e sua empregada, Laurinda, agem como mulheres contemporâneas.
"Camila teve um instante em que sentiu um calor no rosto: o homem descia o olhar perturbado pelo seu pescoço e parava-se no colo, para depois subir aos ombros, para novamente baixar, fixando-se nos peitos. Camila obtinha êxito na sedução, um jogo do qual não conhecia bem as regras, guiada mais pelos ensinos de Laurinda e por aquilo que toda mulher sabe de nascença."
Cães da Província é do estilo bom e velho romanção, com dois ou três núcleos de personagens, descrições generosas, diálogos mais extensos e conflitos marcados, como crimes, traição e loucura. A loucura, aliás, pode ser considerada o tema central dessa obra que traz Qorpo-Santo como protagonista, o hoje reconhecido dramaturgo que viveu em Porto Alegre no século XIX, "século das luzes", como ironicamente irá descrever o narrador.
Ironicamente porque o narrador, ao expor os acontecimentos e fatos da época, vai revelando ao leitor contemporâneo o quanto as relações sociais e a própria ciência de então tinham de absurdo e o quanto a aparente loucura de Qorpo-Santo tinha de genialidade, permitindo-nos percebê-lo como um homem a frente do seu tempo numa cidade que não parece a mesma que hoje circulamos. Dessa forma, o narrador em Cães da Província comporta-se como seus contemporâneos ficcionais, enquanto é Qorpo-Santo quem faz a crítica social mais contundente e questiona os valores da época:
"Onde se viu? Então acham que podem simplesmente apontar para qualquer cidadão e gritar-lhe na cara que é louco? E quem nos garante que eles é que são os certos? Só porque são bem-casados, bem-afamiliados, bem-dormidos, com empreguinhos públicos, julgam-se melhores que os outros?".
Vale ressaltar que embora os romances de Assis Brasil invariavelmente se passem no Rio Grande do Sul, os conflitos representados são universais, no melhor estilo queiroziano. Assim como em Manhã transfigurada é o papel da mulher que está em discussão, algo com o que o século XX de certa forma conseguiu lidar, em Cães da Província é a loucura e suas nuances o tema central, e este é um conflito que nem o século de Machado, autor do grande O Alienista, e nem o século de Assis conseguiu lidar de forma satisfatória, permanecendo a linha entre a sanidade e a loucura (hoje com nomes pomposos como mania, depressão, bipolaridade, esquizofrenia etc.) muito tênue, e os laudos médicos muito subjetivos.
Também é importante perceber que o olhar que dirigimos aos romances dessa primeira fase de Assis Brasil são, de certa forma, transformados pela ficção que o próprio autor apresenta em sua segunda fase, a fase de romances mais concisos e sutis. Ficamos com a impressão de que nos primeiros romances a linguagem era mais acessível ao leitor médio, o que explica o sucesso de vendas de muitos de seus livros, enquanto nos mais recentes a linguagem busca um leitor formado, maduro, como maduro está o próprio escritor. E isso, longe de ser algum tipo de defeito de um ou outro estilo, demonstra apenas que a literatura nos é fértil em possibilidades, e que feliz é aquele escritor capaz de, mesmo em meio a uma carreira tão exitosa, se reinventar.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 8/9/2010.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

A quem interessa uma sociedade alienada?


Marcelo Spalding


LIANA TIMM© (http://timm.art.br/)

Em tempos de Eleições e Twitter, me espanta a quantidade de críticas, ironias e deboches destinados aos candidatos e à classe política. Tiririca, pseudocelebridade de gosto duvidoso, tornou-se porta-voz desse pensamento ao afirmar em pleno horário eleitoral: "O que é que faz um deputado federal? Na realidade eu não sei. Mas vote em mim que eu te conto. Vote Tiririca, pior do que tá, não fica".

Nunca pensei que Tiririca soubesse o que se faz no Congresso, assim como não deve saber como funciona um tribunal, um hospital ou uma universidade. Isso não lhe dá direito a pleitear vaga de juiz, médico ou professor, mas pode, sim, pleitear vaga no mesmo Congresso que debocha (como já o fez Clodovil e tantos outros). Isso é ruim? Não, isso é democracia. Ruim, e muito ruim para a democracia e para a nação, é a alienação declarada de um Tiririca encontrar eco na população, revelando um total desconhecimento do que seja política, ideologia.

Evidentemente os escândalos propagados com estardalhaço pela mídia ajudam a afastar o cidadão do fazer político, ampliando a alieanação, mas aí repito a pergunta do título: a quem interessa a alienação?

Lembremos que quanto mais enfraquecida a ideologia, mais fortalecido o casuísmo, e mais a sociedade fica vulnerável às mensagens e interesses da grande mídia. Aqui no RS, por exemplo, Ana Amélia Lemos, a mesma jornalista que por décadas criticou os escândalos do congresso, agora candidata-se a uma vaga ao Senado. Será vontade de mudar ou oportunismo? Ou será porque Sérgio Zambiasi, oriundo da mesma empresa, não quis tentar a reeleição?

Não estou sendo benevolente com maracutaias e conchavos políticos, mas alguém realmente acredita que nas grandes empresas seja muito diferente? Alguém questiona os absurdos gastos com o salário dos generais do exército, dos ministros do Supremo?

A outra face da alienação é a ingenuidade, e não há dúvidas de que a ingenuidade é muito útil para a manutenção do status quo, para que se continue tendo poucas opções de canais de TV, continue se pagando caro pelo acesso à internet, para que os passageiros de ônibus continuem sendo tratados como sardinhas em lata. E útil também para que a parcela podre dos políticos enriqueça a si e aos seus familiares, para que multinacionais gozem de renúncias fiscais, para que magistrados tenham o direito de julgar o aumento do próprio salário, multiplicando-o.

Por outro lado, tenho certeza de que a "Geração CQC" exibe-se nas redes sociais mais alienadas e superficial do que realmente é. Quero acreditar que as pessoas ainda saibam que a diferença entre PT e DEM é de visão de mundo, ideológica, não de jingle, cor ou candidato. E não há bem ou mal, certo ou errado, há apenas formas de pensar a sociedade, e é isso, estritamente isso o que deve guiar nosso voto.

Um tema central em qualquer campanha eleitoral deveria ser o tamanho do Estado, discussão secular que opôs republicanos e liberais. O que é melhor, um Estado forte, com alta carga de impostos e intervindo em diversas áreas da sociedade, mantendo bancos para a área financeira, escolas e universidades públicas e gratuitas, garantindo acesso à saúde, ou um Estado menor, com baixos impostos e serviços de saúde, segurança e educação privatizados, pois o mercado saberia se autorregular?

Repito, não há bem ou mal, certo ou errado, há visões de mundo. Ingenuidade é o discurso da mídia de que o Brasil precisa urgentemente reduzir impostos, que isso é um roubo, aliado ao discurso de melhoria dos serviços, de que precisamos de educação de mais qualidade, saúde de mais qualidade, ampliar os programas sociais. Assim a mídia fica numa posição confortável para tentar agradar gregos e troianos, ainda que saiba ser tudo apenas discurso, pois na prática há uma escolha a ser feita.

A mesma mídia, aliás, que aboliu o termo "classes" ou "burguesia" de seu discurso, como se vivêssemos numa sociedade harmônica em que não houvesse ricos e pobres, como se as oportunidades para uns e outros fossem as mesmas, como se não fosse quase impossível para o jovem nascido na periferia ter o padrão de vida da burguesinha ironizada por Seu Jorge.

Outro ponto importante: uma vez um professor, falando sobre a diferença e os erros fundamentais do capitalismo e do socialismo, sintetizou a questão numa frase: "é muito difícil termos igualdade e liberdade ao mesmo tempo". Os regimes ou são mais rígidos e tornam a população mais igual ou o contrário. Pois então, e você, entre a liberdade e a igualdade optaria por qual deles? Claro que ninguém irá implantar o comunismo nem o anarquismo no Brasil, mas algumas pequenas decisões passam por essa questão maior, como a isenção de impostos a ricas universidades privadas, que amplia o leque de opções aos estudantes mas aprofunda a distorção entre o ensino de uns e de outros.

Embora essas questões ideológicas apareçam mais na Presidência, este critério para escolher um representante deve valer para todos os cargos, do presidente ao vereador que escolheremos daqui a dois anos. Primeiro escolhe-se uma visão de mundo mais próxima a nossa, depois observa-se quais são os candidatos daquele partido, e aí, sim, personificamos o voto em um nome, já que assim o sistema político exige.

Do mais, não esqueçamos que os políticos são um espelho do povo, e se Tiriricas e Amélias forem eleitos será porque a mídia ― e sua pasteurização ― está obtendo algum sucesso nas conquistas do poder de fato, além do já consolidado poder simbólico.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 31/8/2010.

domingo, 22 de agosto de 2010

Nasce um imortal: José Saramago


Marcelo Spalding

Enquanto os jornais anunciavam a morte de José Saramago, primeiro Prêmio Nobel de Literatura oriundo de países da Língua Portuguesa, nascia no cânone literário mais um daqueles nomes para serem lidos, relidos e admirados, entidades que vão muito além de certa biografia, diluindo-se e multiplicando-se em cada romance, em cada página, em cada palavra.

Português da pequena Azinhaga, Saramago ficou mundialmente conhecido após o Nobel de 1998 e é muito citado na mídia por suas posições polêmicas acerca de religião e política, mas foi através de uma obra densa e sólida que o autor tornou-se uma quase unanimidade entre os críticos e acadêmicos brasileiros, com traduções em diversas línguas e elogios até do exigente e liberal Harold Bloom.

Em As pequenas memórias, um dos raros livros em que fala de si, ainda que obliquamente, Saramago revela-se filho de um casal humilde, que vai aos dois anos para Lisboa onde muda-se "dez vezes em dez anos". Faz estudos secundários (liceal e técnico) mas não pode continuar por dificuldades econômicas, tornando-se serralheiro mecânico e só depois desenhador, funcionário da saúde e da previdência social para finalmente aproximar-se das letras como editor, tradutor e jornalista. Sua lembrança de leitura mais remota é o folhetim Maria, a fada dos bosques, lido para ele por uma vizinha (a mãe também era analfabeta). Mais tarde, quando finalmente aprende a ler, o único exemplar que os vizinhos têm em casa e podem lhe emprestar ― na casa de Saramago não havia dinheiro para livros ou jornais ― é A Toutinegra do Moinho, livro francês que ele lê e relê.

Pois será este menino apartado dos livros, filho de mãe analfabeta, que irá alguns anos depois provocar intelectuais do mundo todo, criando uma linguagem erudita, sem marcas de diálogo nem pontos de exclamação ou interrogação, um narrador intruso, irônico e prolixo para representar uma visão de mundo crítica do seu tempo, da sua nação, da sua história.

Ateu fervoroso numa nação católica, pintou um dos mais belos retratos de Cristo humanizado em O Evangelho segundo Jesus Cristo: "O filho de José e Maria nasceu como todos os filhos dos homens, sujo do sangue de sua mãe, viscoso das suas mucosidades e sofrendo em silêncio. Chorou porque o fizeram chorar, e chorará por esse mesmo e único motivo". A obra, publicada em 1990, é o aprofundamento de uma revisão histórica do papel da Igreja já iniciado em Memorial do Convento, de 1982, um dos primeiros romances do autor a serem lidos no Brasil e que trazia uma sagaz revisão histórica lusitana, colocando em evidência a ambição, luxúria e mesquinhez do clero, que aproveita-se da insegurança e onipotência da nobreza por um lado, da fé e da fraqueza do povo por outro, forçado este a construir um monumental convento em remoto local do país, Mafra, apenas para satisfazer o capricho de seu Rei ― e os desejos dos franciscanos.

Crítico social num país de forte nacionalismo, criado num governo de longa ditadura, derrubou Salazar com gosto e paciência no célebre conto "Cadeira", do livro Objecto Quase. Ousou, ainda, colocar seu país à deriva em Jangada de Pedra, ironizando e questionando a identidade nacional: "Vê-se pelas feições do rosto, e pelos bilhetes de identidade se confirmaria, que os soldados são realmente filhos do povo, mas o major deles, ou também o é e repudiou nos assentos da escola militar a humilde ascendência, ou pertence desde o nascimento às classes superiores, para quem os hotéis do Algarve foram feitos, pela resposta dada não se pôde saber".

Porém esta mesma densidade que lhe rendeu o Nobel e grande admiração da intelectualidade brasileira foi, por outro lado, alvo de severas críticas da Igreja Católica e certa animosidade de seus compatriotas portugueses, tendo o escritor vivido seus últimos anos na ilha espanhola de Lanzarote, nas Ilhas Canárias. Tais diferenças políticas talvez tenham obscurecido o quanto Saramago defendia a língua portuguesa escrita em Portugal, sendo inclusive contra a recente Reforma Ortográfica e exigindo que seus livros fossem publicados com a ortografia original mesmo no Brasil.

A lucidez com que via o mundo e a perspicácia com que o criticava, aliás, permaneceram vivas até seus últimos anos, sendo Saramago autor de uma das melhores análises sobre o Twitter: "Os tais 140 caracteres refletem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido".

É na própria internet, porém, que sua imortalidade já se revela, pois podemos ler Saramago todos os dias em seu blog. No dia de sua morte, estava lá precisamente escrito: "Acho que na sociedade actual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de refexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, nao vamos a parte nenhuma".

Talvez o permanente e anacrônico exercício do pensar, mais até do que a linguagem, a ortografia ou a temática, é o que torne Saramago um escritor tão mais conhecido do que lido, e também o que agora o alça ao panteão dos imortais da literatura, para que com o tempo possa ser lido, relido, compreendido e admirado nas intermitências da vida.

Nota do Editor
Leia também "Nem memórias nem autobiografia, mas Saramago" e "A sombra de Saramago".

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 22/8/2010.

sábado, 24 de julho de 2010

A questão do fim do livro

Marcelo Spalding


LIANA TIMM© (http://timm.art.br/)

O debate sobre o fim do livro está realmente palpitante, trazendo consigo uma leva de livros ― sim, o bom e velho livro ―, que prometem abordar de frente o tema. A questão dos livros (Companhia das Letras, 2010, 232 págs.), de Robert Darnton, publicado nos Estados Unidos em 2009 e já traduzido pela respeitável Companhia das Letras, é um deles.
Apresentado como "um livro sobre livros, uma apologia descarada em favor da palavra impressa e seu passado, presente e futuro", traz uma reunião de ensaios e artigos do professor universitário nova-iorquino que fez carreira em projetos acadêmicos e dirigindo bibliotecas. Como todo livro de reunião de ensaios e artigos acadêmicos, há uma boa dose de repetição, redundâncias, por vezes desgastando o leitor que fica com a sensação de que só precisaria ter lido um ou outro ensaio, e não a obra inteira.
Ainda assim a obra traz algumas reflexões importantes e toca nos principais temas sobre a questão dos livros na contemporaneidade, inclusive seu fim e digitalização: "o futuro, seja ele qual for, será digital. O presente é um momento de transição, onde modos de comunicação impressos e digitais coexistem e novas tecnologias tornam-se obsoletas rapidamente". E a biblioteca?, questiona. "Esta pode parecer a instituição mais arcaica de todas. Ainda assim, seu passado guarda bons presságios para seu futuro".
Lançando mão do olhar de historiador, Darnton afirma que houve quatro mudanças fundamentais na tecnologia da informação desde que os humanos aprenderam a falar. A primeira foi a invenção da escrita, tida como alguns pesquisadores como o avanço tecnológico mais importante da história da humanidade. A segunda foi a substituição do pergaminho pelo códice, logo após o início da era cristã. O códice, por sua vez, foi transformado pela invenção da impressão com tipos móveis, na década de 1450. E a comunicação eletrônica, por fim, quarta e grande mudança, aconteceu "ontem, ou anteontem, dependendo dos seus parâmetros":
"Disposta dessa forma, a velocidade das mudanças é de tirar o fôlego: da escrita ao códice foram 4300 anos; do códice aos tipos móveis, 1150 anos; dos tipos móveis à internet, 524 anos; da internet aos buscadores, 17 anos; dos buscadores ao algoritmo de relevância do Google, 7 anos; e quem pode imaginar o que está por vir no futuro próximo?"
O Google, aliás, está no centro da discussão do autor sobre o futuro do livro, graças ao ambicioso projeto Google Search Books. Darnton conta que em julho de 2007 ficou sabendo que Harvard estava envolvida em conversas secretas com o Google a respeito de um projeto que planejava digitalizar milhões de livros, começando com o acervo de Harvard e outras três bibliotecas universitárias, para então disponibilizar as edições digitais no mercado. O projeto já estava se desenvolvendo há alguns anos, tanto que em outubro de 2005 havia sido movida uma ação judicial contra o Google por um grupo de autores e editores que afirmavam ter seus direitos autorais infringidos.
O autor vê muitos méritos no projeto, hoje em pleno funcionamento, que irá facilitar o acesso a livros em qualquer parte do mundo, chegando a comparar a internet ao ideal iluministra de divulgação do conhecimento (aliás, a enciclopédia foi um símbolo iluminista como a Wikipedia é um símbolo da Era Digital). Mas também lembra que o Google já controla os meios de acesso à informação on-line da maioria dos americanos (GoogleSearch, Orkut, YouTube, GoogleMaps, GoogleImages.), e que com a desistência da Microsoft de atuar na digitalização de livros e o acordo feitopelo Google na justiça, apenas ele tem recursos tecnológicos, jurídicos e financeiros para um projeto dessa monta, impedindo qualquer outra iniciativa semelhante de atingir proporções parecidas. E "o que acontecerá se o Google der preferência à lucratividade em detrimento do acesso?", questiona Darnton. Segundo os termos do acordo feito entre a Justiça Americana e o Google, nada.
Outra linha de batalha do autor é a questão dos periódicos científicos, convertidos nos Estados Unidos numa indústria organizada e ambiciosa capaz de sugar todos os recursos possíveis das bibliotecas, pressionadas pelos alunos a adquirir os periódicos mesmo que as assinaturas anuais ultrapassem 10 mil dólares (eu já havia escrito sobre essa questão no Brasil em "Quanto custa rechear seu Currículo Lattes"). Com isso, as bibliotecas deixam de investir no que o autor chama de monografias, que seriam trabalhos acadêmicos de conclusão de cursos de graduação ou pós editados em formato de livro.
Como uma tentativa de recuperar esse tipo de produção, o autor relata sua participação no projeto Gutemberg-e, cujo objetivo era publicar teses de doutorado recriadas para publicação na internet em forma de livro eletrônico. Diferentemente do que imaginavam, os custos para uma publicação eletrônica se mostraram mais altos que os custos para a publicação impressa, graças às complexidades técnicas, o custo com direito de aquisição de imagens, sons, vídeos etc. Ainda assim o projeto conseguiu um aporte financeiro importante e por alguns anos foi realizado, sem, entretanto, a repecussão e o retorno esperados pelos investidores. Com isso o projeto foi interrompido, mas segundo Darnton foi uma bela amostra de como é possível aproveitar as novas tecnologias para disseminação do conhecimento em novas formas, com nova estrutura, diferente da estrutura livresca. Para ele, o Projeto Gutemberg-e passou por dificuldades por estar a frente do seu tempo, tanto que o próprio Darnton está envolvido na criação de um livro eletrônico sobre sua tese de doutorado.
A concepção de Darnton para seu livro eletrônico é interessante: uma construção piramidal em que o leitor pode ir se aprofundando de acordo com seu interesse específico em determinados temas, ou ler apenas a superfície do trabalho integral. O projeto, que tem se mostrado extremamente complexo na elaboração, ainda é apenas um projeto, mas demonstra como o acadêmico apaixonado por livros percebe a função distinta do que é publicado nas novas tecnologias e do que é publicado em livro.
Na parte sobre o passado do livro, vale mencionar uma resenha sobre o livro Double Fold: Libraries and the Assault on Paper, de Nicholson Baker. Baker se insurge contra a política norte-americano de liberar espaços nas bibliotecas através da microfilmagem. Para tanto era aplicada a técnica da dobradura dupla: se a página do livro fosse dobrada duas vezes e quebrasse, o livro estava condenado. Com isso a capa era retirada e as páginas escaneadas em microfilme, depois sendo o papel descartado. Assim milhares de livros sumiram das bibliotecas e, o que para Baker é imperdoável, coleções inteiras de jornais desapareceram, restritas que estão apenas aos microfilmes.
A questão é: quanto tempo irão durar os microfilmes? Há garantia de que eles estarão intactos pelos próximos cem anos de chuva, sol, calor, umidade? Os livros, embora um pouco amarelecidos, estão preservados por mais de cem anos e nada leva a crer que não permanecerão inteiros pelos próximos cem, até porque o leitor folheia páginas, não dobra páginas. E o microfilme? E as mídias digitais?
Como se percebe, são questões bastante diversas, embora todas ligadas à questão do livro, e parece mesmo que precisaríamos um livro eletrônico em formato piramidal para esgotarmos cada aspecto, ou pelo menos compreender toda sua complexidade. O fato é que o fim ou não do livro é uma questão quase insignificante diante do que se tem feito com a informação e o conhecimento na Era Digital, suas novas formas, sua preservação, sua circulação. Não é o fetiche pelo cheiro ou a forma do papel o que está em jogo. E é bom estarmos atento a isso.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 24/7/2010.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

No futebol, como na vida

Marcelo Spalding

No futebol, como na vida, nem sempre vencem os melhores. Até porque quem são os melhores? A Argentina com seu futebol ofensivo de vários craques canhotos, o Uruguai com seu charme centenário e sua garra renovada, o Brasil com sua cara de Itália, a Alemanha com seus estrangeiros contratados, a Holanda com seus atacantes de olhos azuis, a Espanha com seus um-a-zero? No futebol, como na vida, há melhores e piores em cada situação, para cada adversário/adversidade, mas no futebol, diferentemente da vida, é preciso que alguém saia como campeão, e essa conjunção de fatores que leva um melhor a vencer outro melhor e se tornar O melhor nos diz que a Espanha é, enfim, a melhor seleção do mundo.

Um jornal espanhol estampou que finalmente o futebol retribuía a um século de paixão dos espanhóis pelo esporte. Pois é, no futebol, como na vida, jornais gostam de hipérboles, sensacionalismos, goleiros que matam namoradas com ajuda de traficantes, pais que atiram filhos pela janela, namorados que sequestram namorada, amiga, atenção.

No futebol, como na vida, a Europa ainda dá as cartas, e não há crise financeira internacional, não há queda nas bolsas ou especulação imobiliária que impeça uma final entre Holanda e Espanha, como outrora fora França e Itália. Não há risco país ou déficit público que impeça os PIGS (Portugal, Itália, Grécia, Espanha) de participar da Copa. Todos eles. E um deles, ganhar.

Verdade que no futebol, diferentemente da vida, os Estados Unidos joguem como nunca e percam como sempre, e os chineses sequer consigam vencer os coreanos do norte para pelo menos figurar na Copa com seus milhões de turistas. E aposto que a FIFA adoraria que lá estivessem.

Até porque no futebol, como na vida, alguns são mais iguais do que outros perante a Lei. Rege a lenda que uma seleção nacional é composta pelos melhores jogadores do seu país, mas o que explica, então, na Alemanha haver jogadores poloneses, ganeses, brasileiros, sérvios, e até alemães? Por que será que na África do Sul ou na Costa do Marfim não havia nenhum jogador alemão, inglês ou espanhol para fingir que sabia o hino do seu novo país? Mesmo entre europeus há os mais iguais, ou o que explica o árbitro evitar os cartões amarelos para Robben e Sneijder, os craques de olhos azuis da laranja outrora mecânica, desta vez macanizada?

No futebol, como na vida, não serão os tolos aplaudidos pela sua tolice, os corretos lembrados pela sua retidão, e sim a astúcia saudada com vinhetas como a providencial mão do uruguaio Suárez ou os dois passes de braço do nosso Luís Fabiano. E lances decisivos, como o belo gol de Iniesta, sairão de jogadas irregulares como o escanteio transformado em tiro de meta pelo belo árbitro da grande final.

Bom que no futebol, como na vida, a roda gira, gira e os eventos se repetem para uma espécie de tira-teima. Ingleses e alemães depois de 44 anos reviram o lance da bola que bate no travessão e entra ou não entra, enganando o juiz e mudando o rumo da partida. Mas desta vez do lado contrário.

No futebol, como na vida, não há limites para a vaidade humana. Milhares de personagens fantasiados compareciam aos estádios para um segundo de take no telão, uma fotografia na contracapa de algum jornal, um instante de admiração dos amigos. Talvez sejam todos netos da minha avó, que dizia "quer aparecer, pendura uma melancia no pescoço". Faltou pouco, até celular acomodado entre os peitos valeu. Sem contar alguns jogadores que gastaram mais tempo com seus cortes de cabelo do que aprimorando seus passes, e um em especial, o gajo Ronaldo, que em campo cuidou mais do telão do que o goleiro adversário.

Aliás dessa vez a vaidade humana foi tão longe que, pasmem, atingiu o reino animal com a criação de um polvo vidente, um polvo a quem já foi oferecido 30 mil euros para mudar de país, um polvo que atrairá, decerto, milhões de turistas para uma cidadezinha alemã enquanto estiver vivo, um polvo que talvez o que mais quisesse era não ter participado de Copa nenhuma, e sim voltar para de onde foi um dia retirado.

No futebol, como na vida, há sempre um culpado pelos tropeços, frangos, fracassos. Numa escola a culpa da desorganização é dos alunos; numa empresa, dos funcionários; e na Copa, da bola. Ora, seria tão melhor uma Copa sem a bola, não é mesmo? Apenas badalação, hinos, um placar combinado, festa, choro. Sem esquecer do telão, é claro. Pois curiosamente nessa Copa se ouviu falar muito mais da tal Jabulani, Geni dos derrotados, do que de qualquer craque. Aliás, quem foi mesmo o craque?

No futebol, como na vida, os operários não são lembrados, eternizados, e quando o são ganham lá sua plaquinha de funcionário do mês e ponto final. Aposto que Furlán não será eleito o melhor do mundo no final do ano pela FIFA. Aposto num espanhol ou num dos olhos azuis da Holanda, talvez aquele que estava proibido de levar cartão amarelo. Mas não Furlán, que merecia ter sido artilheiro da Copa, merecia ter feito aquele gol no minuto final, merecia até estar jogando a final (e tenho certeza que teríamos um jogo com menos pontapés), mas não sei se merecia ser o melhor da Copa. Porque no futebol, como na vida, eleger um melhor é esquecer de uma centena de outros tão bons quanto o melhor.

Agora é esperar a aguardada Copa no Brasil. Claro que ao longo desses anos estaremos permanentemente sendo ameaçados pela FIFA, pela mídia, pela oposição de que não sairá a Copa no Brasil, de que será preciso fazer mais, gastar mais, porque no futebol, como na vida, há muito mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia. E troque coisas por interesses, se assim desejar.

Ainda assim nós amamos o futebol, como a vida. E aos que falam mal do futebol, e aos que reclamam da vida, diria eu a mesma coisa: no futebol, como na vida, há muito menos justiça que emoção, e de emoção é feita a vida. E o futebol.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 12/7/2010.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Dicas para aumentar os acessos ao seu site

Uma das queixas mais comuns entre os clientes da msmidia.com é que o site não tem tantos acessos quanto eles imaginavam, pois muita gente acha que só por ter um site e aparecer no Google vão surgir inúmeras visitas e novos clientes. Não é bem assim.

Abaixo irei listar algumas dicas para aumentar os acessos ao seu site, mas antes vale lembrar que é fundamental monitorar quantos acessos seu site tem, a variação mensal deles e se algum evento específico (lançamento, notícia, promoção) fazem esse número aumentar mais do que a média normal. Além disso, e talvez mais importante que o número de acessos, é observar quantos contatos você recebe, recados, pedidos de informação ou orçamento. De nada adianta um site visitado que não gere retornos objetivos, e esses são sempre mais difíceis. Por outro lado, lembre-se: um único contato que gere negócio será suficiente para pagar seu site, pois o custo/benefício ainda é muito baixo.

Bem, vamos às dicas:

1) Divulgue seu endereço em todos os emails enviados, cartão de visita, embalagem de produtos, capa de livro ou CD, folders, etc; O endereço do seu site deve ser tão importante quanto o seu nome ou o nome da sua empresa, então sempre o coloque ao lado.

2) Troque links com sites parceiros, catálogos, amigos. A participação em redes e comunidades sempre ajuda muito a alimentar o acesso ao seu site.

3) Tenha conteúdo atualizado e interessante. Procure manter seu site sempre atualizado, com periodicidade pelo menos mensal, se não um visitante não verá motivo de retornar em seu site.

4) Divulgue as atualizações. Quando você atualizar o site, divulgue por email, Twitter, blog, Orkut, Facebook, etc. Se a periodicidade for razoável, ninguém vai achar se incomodar.

5) Use as redes sociais como isca do site. Para quem tem tempo de acompanhar, é sempre útil ter perfil no Twitter ou outras redes sociais, bem como um blog, mas procure sempre levar o visitante ao seu site através de links que caiam lá, pois é no site que está todo seu esforço institucional, o blog e as redes sociais devem ser sempre complementares, iscas.

6) Crie um mailing e o mantenha ativo. Você tem uma relação com os emails das pessoas que se cadastraram em seu site, entraram em contato ou compraram algum produto? Pois essa relação é o que de mais precioso seu site pode lhe fornecer. Guarde-a, use-a sempre, mas sempre com moderação.

7) Crie promoções no seu site. Uma forma de valorizar os cadastrados num site e aumentar o número de cadastrados é criar promoções sorteando algum brinde ou oferecendo desconto a quem se cadastrar no site. Se o prêmio for vultuoso essa promoção se torna uma bela oportunidade de marketing viral.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

A vida de 4 em 4 anos

Marcelo Spalding


LIANA TIMM© (http://timm.art.br/)

Gui, eu também nasci numa Copa, a Copa na Espanha, em 1982. Era para eu ter nascido dia dois de julho, mas como havia jogo do Brasil no dia os médicos anteciparam para o dia primeiro de julho e eu pude ver o encantado escrete canarinho perder para os italianos e voltar mais cedo para casa.

Vinte e oito anos depois, em 2010, ano da Copa na África, você nasce, meu primeiro filho. Os tempos são outros, nosso escrete de encantado virou rabugento mas já temos cinco, isso mesmo, cinco!, e não mais três estrelas bordadas em nosso uniforme. Cinco estrelas e muitos milhões, mas isso é outra história. Até porque não quero te escrever para falar do Mundial e da questionável qualidade técnica dos times neste 2010, nem sobre os méritos do país anfitrião ou a desigualdade da divisão dos países classificados, ficando os europeus com quase metade das vagas. Quero propor que você aproveite essa bela coincidência de nascer no ano de um evento grandioso como a Copa do Mundo para pensar um pouco sobre sua vida de quatro em quatro anos. Sim, eu sei quatro anos é muito tempo, ainda mais para jovens acostumados a pensar a vida em longo prazo, apenas viver intensamente cada dia, cada ano, parando para refletir no réveillon sobre os 365 dias anteriores e tentando traçar metas para os dias que virão.

Eu, por exemplo, em 2006 sequer conhecia a tua mãe, ainda morava com meus pais e teu avô, o meu pai, andava pra cima e pra baixo antes de ter um AVC que paralisou suas pernas. É, filho, quatro anos mudam muito a vida da gente, diria o poeta que um minuto pode mudar tudo, mas se pensarmos na vida de quatro em quatro anos veremos como é importante planejar.

Quando você começar a pensar nas grandes questões da vida, lá pela Copa de 2030, a Copa do centenário, no Uruguai, leia esta crônica e passe a pensar a vida de 4 em 4 anos. A cada Copa pense o que quero estar fazendo na Copa que vem, onde quero assistir, com quem, estarei trabalhando, terei terminado uma faculdade, terei filhos, cachorros, ainda terei meus avós ao meu lado? Provavelmente você terá muitas surpresas ao longo dos quatro anos seguintes, mas é provável que se realmente desejar estar debaixo dos cobertores com alguém especial, por exemplo, isso tem tudo para acontecer, enquanto se quiser muito estar em pleno estádio cercado por belas holandesas, é bom começar uma academia de ginástica logo.

Falando sério, é claro que planejar a vida pessoal não é nada fácil, ainda mais para quatro anos adiante, mas é fundamental que você faça isso com a vida profissional e financeira, porque nosso mundo cada vez mais gira em torno do dinheiro, que compra muito pouca coisa mas quando falta pode destruir tantas outras. Acontece que somos hoje o reflexo de atitudes que tivemos há 4, 5 anos atrás, e precisarão outros 4 ou 5 anos para mudarmos alguns aspectos importantes de nossa vida. Se até a Copa do Uruguai, de 2030, você estiver procurando um emprego, estudando para um concurso, enrolado numa faculdade, endividado num negócio ou odiando um chefe tenho certeza que vai querer resolver todos problemas para ontem, mas o melhor é você planejar uma saída para que na outra Copa, a de 2034, não esteja exatamente no mesmo lugar com as mesmas queixas.

Uma vez um professor me ensinou que para resolver um grande problema não basta uma grande sacada, muito menos um milagre, precisa apenas começar. E começar às vezes é prestar um vestibular, conversar seriamente com alguém, trocar a camionete e suas intermináveis prestações por um carro popular, matricular-se numa aula de yoga, inciar um blog, enfim, milhares são os caminhos porque milhares são os destinos. Mas poucos desses destinos são alcançados de um dia para o outro, filho.

Pense que neste momento a grande revelação da próxima Copa está em algum recanto distante e não sabido treinando muito para daqui a quatro anos ser a grande revelação da Copa, sem ter certeza nenhuma de que tanto esforço vai valer a pena, porque certo mesmo é dizer que das dezenas de milhares de jovens que vivem num clube de futebol, treinam todos os dias e acalentam o sonho de se tornaram craques mundiais, poucos, muito poucos realmente terão essa chance. Da maioria não saberemos sequer os nomes.

Para você, Guilherme, desejo que guarde alguma lembrança da Copa de 2014, a Copa no Brasil, afinal poucos sortudos podem ver a primeira Copa de sua vida de dentro do estádio. Desejo que na Copa de 2018 colecione com interesse o álbum e troque figurinhas com o pai bobalhão aqui. Que na Copa de 2022 já participe do nosso bolão com tua mesada e, de preferência, ganhe dos teus tios e arremate a bolada. Que na Copa de 2026 encha a casa de amigos e amigas para todos verem juntos os jogos do Brasil, que a esta altura já vai ser octacampeão. E que na Copa de 2030 esteja no Centenário rodeado de holandesas.

Tudo o que eu posso garantir é que de 4 em 4 anos o mundo vai parar bem na época do nosso aniversário, e que por um motivo muito particular a Copa da África, esta Copa, para mim vai permanecer para sempre como a mais emocionante de todas.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 18/6/2010.

domingo, 16 de maio de 2010

Bastardos Inglórios e O Caso Sonderberg


Marcelo Spalding

A Segunda Guerra Mundial e os horrores nazistas, especialmente com relação aos judeus, é uma história que a humanidade não se cansa de repetir. Até Tarantino e sua ficção de polpa utilizou uma França ocupada por nazistas como cenário de seu mais recente e quase oscarizado filme, Bastardos Inglórios. Mas a palavra é exatamente esta: utilizado. Tarantino não tem por objetivo contar uma parte, uma versão da história, acrescentar mais uma trajetória particular aos horrores da guerra. Não quer ser como Spielberg em seu belo A lista de Schindler, Benigni no seu premiado A vida é bela, Oliver Hirschbiegel no seu polêmico A queda. Tarantino não tornou-se realista de uma hora pra outra, e o mesmo sangue jorrando na tela de Kill Bill, o mesmo cinismo de Pulp Fiction volta em Bastardos Inglórios.

Na ficção de Tarantino, Hitler morre em uma emboscada organizada por judeus, unidades secretas americanas se mostram tão ou mais violentas que as nazistas, altos oficiais do Terceiro Reich viram personagens planos, quase cômicos. Uma caricatura da história, uma paródia dos filmes de guerra em geral e dos filmes sobre a Segunda Guerra em particular. Festejado pelos cinéfilos e resenhistas de cinema, para a História e a memória sobre a guerra o filme pouco acrescenta, pelo contrário, confunde, descontextualiza e mistura aspectos de forma perigosa, bem ao gosto dos pós-modernos.

Bem diferente é o mais recente romance de Elie Wiesel, O caso Sonderberg (Bertrand Brasil, 2010, 208 págs.). Wiesel é um judeu nascido na Romênia e sobrevivente dos campos de concentração nazistas que recebeu o Nobel da Paz em 1986 pelo conjunto de sua obra de 57 livros, dedicada a resgatar a memória do Holocausto e a defender outros grupos vítimas de perseguições.


Campo de concentração de Buchenwald. Fotografia tirada no dia da libertação
do campo pelas tropas aliadas em Abril de 1945. Wiesel, então com 16 anos,
está na segunda fileira do beliche, de baixo para cima, o sétimo a partir da
esquerda. Fonte: Wikipédia.

O caso Sonderberg conta a história de Yedidyah, um judeu polonês jornalista e crítico teatral que é escalado para acompanhar o julgamento de Werner Sonderberg, jovem estudante universitário alemão acusado de matar o tio durante uma viagem. Judeu e alemão encontram-se nos Estados Unidos contemporâneo, ambos com vidas regulares, esposas, trabalhos, aparentemente sem carregar traumas ou traços da Guerra, que aos poucos vai se mostrando essencial na formação de ambos, mesmo tantos anos depois.

Yedidyah, foco narrativo de toda a história e, em alguns momentos, ele próprio narrador, revelará aos poucos ao leitor que sua família verdadeira, pai, mãe e irmãos, fora capturada pelos nazistas e sua sobrevivência se deve a uma jovem empregada alemã que o levou para sua aldeia como filho bastardo:

"Foi ela que teve a ideia de me separar dos meus pais. Uma noite, alguns dias antes da deportação, ela conseguiu penetrar o gueto e foi ver seus antigos patrões. Propôs-lhes, se necessário, proteger nossa casa contra os ladrões, os abutres. Deram-lhe seu consentimento. Tinham confiança nela. Em seguida, ela lhes fez uma sugestão mais surpreendente: confiar-me a ela, eu, o bebê deles. Estaria adivinhando o que estava para lhes acontecer em um lugar distante? Em nossa pequena comunidade, ainda que boatos assustadores circulassem, nada se sabia. Mas ela achava que uma longa viagem para o desconhecido poderia fazer com que eu adoecesse, eu, que já era agitado, friorento e frágil. Jurou por sua vida e pela de Cristo que ficaria comigo, que cuidaria de mim. Assim que voltassem, eu lhes seria entregue são e salvo."

Do outro lado, saberemos ao longo da história que Sonderberg é neto de um ex-oficial nazista, responsável pela morte de diversos judeus, e que carrega esta culpa a ponto de considerar-se diante do tribunal inocente e culpado ao mesmo tempo. Nas palavras de Yedidyah:

"Olhei para ele com uma espécie de melancolia, compreendendo que, em certo sentido, tive mais sorte do que ele. Eu podia pensar nos meus sem sentir vergonha. Enquanto ele devia continuar a lutar para se desligar do seu passado a fim de encontrar um pouco de paz, ou, pelo menos, de felicidade, na existência. Não seria meu dever ajudá-lo em vez de mantê-lo afastado? Um velho texto hindu veio-me de repente à cabeça: pode acontecer que a terra, ao desabar sob o fardo das paixões e do medo dos seus habitantes, ponha-se a pedir perdão aos deuses por toda a humanidade."

Diferentemente do filme quase oscarizado de Tarantino, no romance não desfilam os protagonistas da Guerra, não há sangue jorrado nem diálogos marcados, apenas a sutileza de um autor ciente de que "o escritor se define por aquilo que cala". O caso do julgamento de Sonderberg em si é apenas história aparente para que o leitor seja apresentado a duas histórias particulares da Guerra, duas cicatrizes ainda abertas de um lado e outro, sem maniqueísmo, sem a possibilidade de se definir culpados e inocentes.

Ficará na minha estante ao lado de A menina que roubava livros e tantas outras tentativas estéticas de preservar uma história terrível, mas que precisa ser contada e recontada com a maior honestidade intelectual possível para que o tempo não transforme fatos em mitos, realidade em ficção, e fatos e realidades voltem a se repetir diante de nossos olhos.

Para ir além



Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 16/5/2010.