quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

O melhor da década na literatura brasileira: prosa

Marcelo Spalding

Todo final de ano são feitos aqueles balanços sobre o que houve de melhor e pior em cada área. Em literatura, este tipo de lista é sempre problemática, pois muito dificilmente alguém conseguiu ler parte significativa da produção daquele ano, e acaba se repetindo os vencedores de prêmios ou os preferidos da mídia.

Este ano, porém, tem uma particularidade: fecha também uma década, a década dos zeros (2000 a 2009). Virá algum purista me dizer que a década só fecha em 2010, mas não é verdade, porque apesar de não ter existido o ano 0, existiu o ano 2000, então de 2000 para 2009 são 10 anos, uma década.

Arrisco, então, uma lista com os dez livros mais interessantes, para mim, dessa década. Lista restrita à prosa e sujeita a todo tipo de acréscimos, e o leitor fique à vontade para postar nos comentários seu preferido da década.

Dois Irmãos, de Milton Hatoum, 2000

Quando um livro consegue se tornar leitura obrigatória de vestibulares do Norte ao Sul, literalmente, em menos de 10 anos, ele merece atenção. E é o caso de Dois Irmãos, belíssimo romance do manauara Milton Hatoum sobre a relação de dois irmãos tão diferentes entre si, Hakim e Omar, narrada a partir de Nael, filho da empregada da casa com um dos dois irmãos. Ainda na década, Hatoum lançaria o ótimo Cinzas do Norte (2005), também Prêmio Jabuti, mas eu sigo preferindo a força narrativa de Dois Irmãos.

Coração aos Pulos, de Carlos Herculano Lopes, 2001

A obra do mineiro Carlos Herculano Lopes reúne 39 contos que tratam de temas como suicídio, morte, relações familiares distorcidas e conflito de identidade, permitindo-se alguns finais felizes e boa dose de surrealismo. Mesclando contos longos e curtos (o conto que dá título ao livro tem seis páginas), predominam os mínis, de cem, cento e cinqüenta palavras, quando muito, o que marca uma forte tendência da contística da década.

O pintor de retratos, Luiz Antonio de Assis Brasil, 2001

Este é o primeiro livro da nova fase desse grande romancista gaúcho. Segundo conta o próprio Assis, na viragem do milênio ele escrevia seu décimo quinto romance quando, a certa altura, achou que estava se repetindo e apagou tudo o que tinha escrito. Conta o mestre que então abriu em sua biblioteca um livro de El Cid e deu-se conta de que dizer mais em menos espaço era a solução técnica que procurava. “Na Idade Média se fazia assim, a Bíblia é escrita assim”, ele diz. E desta forma escreveu Pintor de Retratos, lançado em 2001, A margem imóvel do rio, de 2003, premiado com o Jabuti e o Portugal Telecom, e Música perdida, de 2006.

Arquitetura do Arco-Íris, Cíntia Moscovich, 2004

Cíntia Moscovich, a ótima contista gaúcha, tem três livros de contos e uma dissertação sobre o conto: O Reino das Cebolas, sua estreia em 1996, antes de estudar o conto; Anotações durante o incêncio, publicado em 2000, durante seu mestrado sobre o conto; e Arquitetura do Arco-Íris, publicado em 2004, que de alguma forma sintetiza toda a leitura e o estudo da escritora sobre o gênero. Em contos de feitio clássico, reafirma toda a potencialidade do gênero e projeta a autora como das melhores da década no Brasil.

Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século, organizado por Marcelino Freire, 2004

A obra traz cem histórias inéditas com até cinqüenta letras, sem contar o título e a pontuação. Feita como paródia a ótima antologia Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século, organizada por Ítalo Moriconi, leva a estética minimalista ao limite e marca definitivamente o surgimento e a afirmação do gênero miniconto no Brasil (muito popular na internet). Claro que há ótimas realizações como péssimas tentativas, mas a proposta em si é extremamente produtiva e já virou moda em oficinas de criação literária Brasil afora.

A milésima segunda noite, de Fausto Wolff, 2005

A mistura de gêneros é, sem dúvidas, uma das principais características da contemporaneidade, e nessa década poucos a levaram ao ponto de Fausto Wolff neste livro. Fausto intercala narrativas (com tempos, personagens, narradores e onisciências diversos) com pensamentos, trechos de livros seus, artigos opinativos, breves e geniais biografias, breves e geniais ensaios, resenhas, verbetes, poemas em prosa... Politicamente incorreto como poucos escritores contemporâneos têm coragem de ser, Fausto questiona a política de Israel, os movimentos feminista e homossexual, ironiza a grande mídia e seu jornalismo subserviente, não poupa palavras para definir Bush, FHC, os banqueiros e políticos em geral. Talvez este livro, se não tivesse Noll publicado um antes, devesse carregar o epíteto de “um painel minimalista da criação”. Estaria se definindo melhor do que todas as tentativas do próprio livro de o fazer.

Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves, 2006

Na década dos mini e microcontos, da mistura de gêneros, da rapidez e fragmentação, nada como uma saga anacrônica, com quase 1000 páginas, para contar a história da escravidão no Brasil. Pois essa foi a ambição da mineira Ana Maria Gonçalves em Um defeito de cor, romance que narra a história de Kehinde desde seu nascimento em Savalu, reino de Daomé, em 1810, até a morte em Salvador, Bahia, já liberta mas com as marcas da escravidão. Millôr Fernandes, em coluna na Folha de São Paulo em setembro de 2006, coloca Um defeito de cor entre um dos livros mais importantes, entre os 10 melhores que leu “em nossa bela língua eslava”.

Os Vendilhões do Templo, de Moacyr Scliar, 2006

Política, religião e mulher não se discute: ainda bem que Scliar nunca deve ter ouvido esta frase. Em Vendilhões do Templo, as personagens não apenas discutem como suas vidas são movidas pela política, pela religião ou pelas mulheres. Quando não o são é porque a personagem deixou-se levar pela ganância, pelas moedas sujas que Cristo já condenara no episódio do vendilhão do templo. Romance em três partes, leva o leitor de volta a Era Cristã, depois a uma fictícia redução indígena no Sul do Brasil, no ano de 1635, e finalmente ao ano de 1997 nessa mesma redução, hoje cidade (fictícia) de São Nicolau do Oeste. Em meio a isso tudo, três histórias de fôlego e questionamentos importantes sobre feridas ainda abertas como a mercantilização até mesmo das ideologias ou a falta de sentido e de respostas para a vida da classe média.

Adeus contos de fadas, de Leonardo Brasiliense, 2006

A literatura infanto-juvenil atravessa a década com uma vitalidade impressionante, e Adeus contos de fadas é apenas um exemplo de livros feitos para adolescentes que podem – e devem – ser lidos por toda a família. Reunião de setenta e duas histórias com mais ou menos cem palavras (às vezes bem menos do que isso), surpreende pela explosão possível a partir de verdadeiras pérolas, pequenas e valiosíssimas. Depois do premiado livro, Leonardo, que já escrevia e publicava desde o século passado, lançou nacionalmente um livro de contos e deve estrear em breve pela Companhia das Letras. Promete ser um nome forte já da próxima década.

Leite derramado, de Chico Buarque, 2009

Chico Buarque é artista que o tempo valorizará como poucos. Músico, compositor e dramaturgo, ao se lançar na literatura produziu belos romances como Budapeste (2003) e o mais recente Leite derramado. Aqui Chico faz uma volta pela história brasileira dos últimos cem anos a partir de um personagem à beira da morte, tal qual Brás Cubas, de Machado. Nestes cem anos estão a ascensão e queda de certa burguesia carioca, a ditadura militar e sua violência, o surgimento do tráfico de drogas e a desestruturação das famílias. Chico, porém, ao deslocar seu narrador faz com que os temas sejam vistos apenas de soslaio, e ao invés de um romance político-ideológico utiliza a ideia de romance-estrelar, muito própria desta década, aliás, com as histórias sendo contadas alternadamente, sem linearidade definida. Chico seria, hoje, meu candidato brasileiro a um Nobel.

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