segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Literatura para quê?

Marcelo Spalding

Eis uma questão recorrente em salas de aula, mesas de bar: afinal de contas, literatura para quê? Respostas prontas temos várias: ler é viajar, ler é conhecer a si mesmo, ler é trilegal, ler é tudo. Mas raros são os textos sérios sobre o tema, textos que abordem de frente a diminuição do tempo de leitura, do gosto pelos livros, especialmente os literários, do desinteresse social por uma instituição milenar como a literatura. Por isso indico a leitura do livro de Antoine Compagnon “Literatura para quê?” (Editora UFMG, 2009), resultado de uma conferência do autor no Collège de France.

Logo num primeiro momento percebemos que essa problemática não é própria do Brasil e sua educação deficiente: Compagnon fala do “berço da civilização” para um público de letrados franceses que um dia estudaram ou conheceram Barthes, Lévi-Strauss, etc. E diz:

“Hoje, mesmo se cada outono vê a publicação de centenas de primeiros romances, pode-se ter o sentimento de uma indiferença crescente pela literatura ou mesmo de um ódio à literatura, considerada como uma intimidação e um fator de ‘fratura social’. (...) Toda menção ao poder da literatura era julgada obscena, pois entendia-se que a literatura não servia para nada e que somente o domínio dela contava. Mas em nossa época de latência em que o progressismo como confiança no futuro não está mais na ordem do dia, o evolucionismo sobre o qual a literatura repousou durante todo um século pode ter chegado a seu termo.”

Preciso nos diagnósticos, o autor não consegue, porém, responder de forma convincente sua própria indagação, embora aponte alguns “para quês” fundamentais. Lembra uma frase de Sartre, por exemplo, que dizia: “mesmo que não haja livro que tenha impedido uma criança de morrer, seu poder nos faz escapar das forças de alienação ou de opressão”. “Contrapoder”, dirá Compagnon, “[a literatura] revela toda a extensão de seu poder quando é perseguida. Por conseguinte, o enfraquecimento da literatura no espaço público europeu no final do século XX poderia estar ligado ao triunfo da democracia: lia-se mais na Europa, e não somente no Leste, antes da queda do muro de Berlim”.

O deleite, é claro, também aparece como um motivo importante para a existência da literatura, mas Compagnon ressalta que “a recusa de qualquer outro poder da literatura além da recreação pode ter motivado o conceito degradado da leitura como simples prazer lúdico que se difundiu na escola do fim do século”. Adiante, o autor arrisca que “a literatura deve ser lida e estudada porque oferece um meio de preservar e transmitir a experiência dos outros, aqueles que estão distantes de nós no espaço e no tempo, ou que diferem de nós por suas condições de vida”.

A evolução tecnológica e o surgimento de outras mídias para a ficção, como o cinema, não passam desapercebidos pelo autor, que afirma, entretanto, que “a literatura inicia superiormente às finesses da língua e às delicadezas do diálogo”, para concluir sua fala, adiante, dizendo ser a literatura não a única, mas mais atenta que a imagem e mais eficaz que o documento, o que é suficiente para garantir seu valor perene. “Ela é A vida: modo de usar, segundo um título impecável de Georges Perec.”

Até aqui me ative ao precioso texto de Compagnon, que não poderia mesmo ser definitivo, mas expõe uma ferida aberta e nos permite, também, pensar sobre ela. Afinal, literatura para quê? Agora me proponho a arriscar algumas respostas.

Primeiro, não sou daqueles que acham que a literatura torna o homem ou a humanidade melhores. Meu pai deve ter lido meia dúzia de livros em toda sua vida e é uma pessoa boníssima, enquanto pessoas de ética duvidosa têm estantes abarrotadas de clássicos (lidos ou não), e por vezes se jactam em citá-los (Fausto e O Príncipe, não por acaso, entre eles).

Segundo, não acho que seja impossível vivermos sem literatura. Uma vez uma professora comentou, na faculdade, que era impossível vivermos sem poesia. Contestei, dizendo que muitas pessoas jamais abriram um livro de poemas, e ela me respondeu que na sociedade moderna muitas vezes as músicas, com suas letras, suprem esse papel. Bela resposta, me convenceu. Assim também nenhuma pessoa pode viver sem narrativas, mas pode viver sem ler romances, pois as narrativas estão no cinema, no teatro, nas telenovelas, nos quadrinhos.

Terceiro, não acredito que a literatura ajude alguém a “vencer na vida”. Não por culpa da literatura, mas porque “vencer na vida”, hoje, significa ter mais dinheiro ou mais poder ou mais respeito, e a literatura por si só não torna ninguém mais rico ou poderoso ou influente. Não por acaso policiais ganham muito mais que professores, e aspirantes a modelos são muito mais valorizada$ que escritores. Sem falar nos jogadores de futebol...

Ou seja, parte desse questionamento de literatura para quê tem a ver também com questionamentos mais amplos que devemos fazer sobre a vida. Viver para quê?, pergunto eu. Se for para acumular riquezas e porres e cargos, a literatura não serve para nada mesmo. Não se iluda. Agora se vivemos para conhecer, ampliar os horizontes, descobrir o outro e nós mesmos, explorar aquela enorme fatia do cérebro inexplorada pela maioria dos homens, a literatura é, sim, fundamental. Se valorizamos a liberdade e a diversidade, a literatura é, sim, fundamental. Se queremos indivíduos críticos e ativos socialmente, a literatura é, sim, fundamental.

Não só a literatura, claro. E está aí, aliás, uma grande confusão: a literatura perdeu muito espaço de 100 anos para cá, de 50 anos para cá, porque seu espaço era exagerado, superestimado. A literatura havia se institucionalizado de tal forma que se confundiu com a arte em si, mas a arte abriga o cinema, a música, o teatro, a ilustração, a pintura, a escultura e, inclusive, a literatura. Nem mais nem menos importante: a literatura é a arte da palavra.

Aliás, talvez responder para que literatura seja olhar com atenção essa definição: a literatura é a arte da palavra. Ou seja, enquanto existir arte ou enquanto existir palavra, fatalmente haverá alguém fazendo literatura e alguém buscando literatura.

Outra resposta mais afinada com nossa sociedade materialista seria a de que a literatura é uma “vantagem competitiva” porque um leitor de literatura sempre será um leitor melhor, mais preparado para as leituras técnicas, os concursos, os contratos... Mas deixo esse tipo de argumentação para os leitores de Maquiavel.

sábado, 14 de novembro de 2009

A arte de narrar a História


Marcelo Spalding

Escritores contam histórias, inventam histórias. Mas não só. Airton Ortiz, por exemplo, é um jornalista e escritor que viaja pelo mundo em busca da História com "H" maiúsculo para transformá-la em histórias de gentes e lugares distintos, distantes, por vezes esquecidos. Sua série Viagens Radicais já percorreu Egito, Himalaia, Índia, Everest, Kilimanjaro, Amazônia, Tibete, Alasca, o mundo Maia. E agora chega ao palco da guerra mais simbólica do século XX, a guerra que plantou a semente do pacifismo numa nação sempre belicosa e manchou de sangue a bandeira norte-americana.
Vietnã Pós-Guerra: uma aventura no sudeste asiático (Record, 2009, 266 págs.) começa quase como um diário de bordo, relatando desde o embarque de Ortiz (o autor-narrador-personagem) com seu amigo e fotógrafo Ferreira (que o acompanhará pela aventura) em Porto Alegre até a parada em Amsterdã, a chegada na Tailândia, depois a ida para Laos e, finalmente, a viagem ao Vietnã, quando a história toma novo rumo.
A partir daqui o livro é muito mais do que uma aventura, um relato de viagem, é uma contundente lição de história e humanismo. Ortiz, mais do que procurar no país o exótico de uma cultura outra ou deixar-se maravilhar pelas muitas belezas naturais, ao longo da viagem conhece o palco das mais importantes batalhas da Guerra do Vietnã (ou Guerra Americana, como chamam os vietnamitas) e apresenta ao leitor passagens da milenar (e guerreira) história daquele povo, suas divisões e unificações, a influência/invasão francesa, a influência/invasão comunista, a influência/invasão chinesa.
Com um apanhado amplo, ajuda-nos a compreender como a guerra pôde ser vencida, o que estava em jogo, de que forma a luta influenciou na história mundial e, de quebra, nos leva a questionar que civilização é essa que mata, tortura, destrói o outro e sua cultura em prol de interesses políticos e econômicos.
"Antes de sair do parque, no final do dia, fomos conhecer o pagode de um só pilar, um dos símbolos de Hanói, construído em 1049 pelo imperador Ly Thaí Tong. Em 1954, um dos últimos atos de vandalismo dos franceses, ao abandonarem a colônia, foi destruir o prédio de madeira construído em volta de um único pilar de pedra. Livres dos franceses, os vietnamitas o reconstruíram a partir do material original."
Não espere, porém, uma leitura difícil. O maior mérito do livro, que pode ser encarado por outros como sua fraqueza, é a leveza da abordagem, pois não esqueçamos que se trata do relato de um viajante inserido num contexto de "aventura". Em meio a retomadas históricas temos cenas do prosaico cotidiano local, jantares em restaurantes típicos, diálogos com outros brasileiros que passam por lá. A pretensão de Ortiz, afinal, não é fazer um livro de História, e sim contar histórias a partir da História, e daí o humanismo do texto, que olha para as pessoas ao longo do trajeto, repara na menina descalça que os conduz no topo de uma montanha, no argentino que há anos joga futebol no país, no jovem que oferece até mesmo sua moto para ganhar algum dólar.
Ao jornalista e viajante soma-se ao longo do texto o escritor, capaz de condensar em cenas como essa toda uma trajetória:
"Durante a viagem tínhamos visto muitas fotos mostrando os horrores das batalhas, mas nada se igualava às cenas das pessoas fugindo com os corpos em chamas, outras sendo assassinadas enquanto pediam misericórdia deitadas no chão. Muitas, inclusive crianças, umas sem pernas, outras sem braços, algumas com as entranhas de fora, afogadas em sangue, tinham as feições retorcidas pelo horror ― os olhos pareciam querer saltar do rosto. Os corpos mutilados, espalhados pela aldeia, provavam que haviam sido torturados, por certo para confessarem onde estavam os vietcongues. Ao fundo do cenário, as casas queimavam. Em primeiro plano, soldados bem nutridos. Com pesadas botas e grossas roupas de guerra a proteger seus corpos, manuseavam armas de última geração. Orgulho da tecnologia industrial da América, eram capazes de matar dezenas de seres humanos em poucas rajadas. Impossível não chorar."
Já em outros trechos é o olhar crítico do jornalista que aparece ao analisar a situação do país pós-guerra, de uma geração que parece não ter vivido no palco de tantas atrocidades:
"Simpático e prestativo, Chung representava o padrão do jovem vietnamita nascido após a guerra, cuja única ideologia era ganhar dinheiro. Se durante anos infindáveis o Vietnã esteve dividido entre Norte e Sul, entre comunistas e capitalistas, entre cristãos e budistas, agora estava dividido entre os jovens empreendedores, ávidos por ganhar dinheiro, e os velhos, saudosistas da antiga utopia."
E aos poucos esse narrador-viajante, tão caro a Walter Benjamin, nos envolve com suas experiências e converte-se em personagem da própria história.
O jornalismo de aventura
A peculiaridade estética das obras de Ortiz renderam-lhe o mérito de criador de um novo gênero, o "Jornalismo de Aventura". Conversando com o autor, ele explica como surgiu esse termo e por que o adotou: "Não fui eu que criei esse nome para definir o tipo de jornalismo que faço nos livros, foram alguns alunos que assim passaram a chamá-lo em seus TCCs sobre os meus livros. Dizem eles que se trata de um gênero onde o jornalista é, ao mesmo tempo, repórter e protagonista da reportagem, e isso não existia antes. Coloquei esse título no meu site e parece que pegou".
Outra discussão que seus livros suscitam é a velha questão do que seja literatura. Pergunto se isso o preocupa de alguma forma, e Ortiz responde que todo texto belo, do ponto de vista estético, é literatura. "Quanto a linguagem em si", sintetiza Ortiz, "gosto de definir assim: a) Jornalismo: você informa; b) Romance: você sugere; c) Poesia: você insinua".
Pergunto, então, se não seria tentador "apimentar" os relatos de viagem com episódios ficcionais, fazendo algo mais próximo do jornalismo literário à Capote. Ortiz responde que não quer misturar as coisas e revela seu próximo projeto: "Acho que criei algo novo no jornalismo, o tal Jornalismo de Aventura, então que ele fique assim como está: puro. Mas estou criando uma nova coleção, que se chamará Expedições Urbanas. Serão crônicas sobre lugares interessantes em cidades interessantes. Como cronista, vou apimentar meus relatos, puxando para um texto mais literário. O primeiro livro será sobre Havana".

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 14/11/2009.