quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Patroazinha

Marcelo Spalding

Poucas alegrias eu guardo daquela casa na Bela Vista, às vezes é melhor nem lembrar. Gente desalmada, sem respeito, sem religião. Me chamavam de preto e me chamavam pra tudo, carregar compras, limpar piscina, cortar grama, atender telefone. O que eu menos fazia era dirigir, não sei por que me obrigavam a usar uniforme e quepe. O patrão não parava em casa, a patroa, desconfiada, tava sempre nervosa pelos cantos ou passando uma temporada na casa das primas e até a Rose nos últimos tempos vinha roubando coisas na despensa. Casa dos infernos. Só quem prestava mesmo era a patroazinha. Ah, a patroazinha... Eu vi aquela menina crescer, sabe? Quando cheguei na casa, era uma criança redonda e rosada, sempre em volta da mãe, quieta. Com o tempo foi perdendo peso e vergonha, alisou os cabelos, fez bronzeamento artificial, começou a ir todo dia pra malhação. Nunca sorriu pra mim, mas me olhava nos olhos pra agradecer quando eu a levava na escola, no clube, no shopping, nas amigas. Às vezes acho que fui mais pai dela do que da minha pequena, era eu quem a acordava de manhã, servia café e pão, levava na escola, buscava, trazia amigos, a chamava para o lanche da tarde, o jantar. Era eu quem ia e vinha na madrugada das festas, e talvez por isso fui o primeiro a perceber como a menina crescia, como as curvas cresciam, as pernas, os braços, os lábios. Mas nunca pensei que tanto, nunca pensei... até aquele dia.

Estava esperando a patroazinha descer há meia hora quando o patrão me ligou dizendo que o carro tinha quebrado e eu precisava ir o quanto antes buscá-lo no trabalho. Falei da festa da filha em Ipanema, mas ele mandou que eu fosse antes, fosse depois, mas fosse rápido. Gente sem respeito, desligou o telefone na minha cara. Olhei de novo o relógio e calculei que com o trânsito desse horário levaria pelo menos uma hora pra pegar o patrão no Iguatemi, voltar na Bela Vista e levar a patroazinha em Ipanema. Mas era o jeito. Peguei meu quepe e subi as escadas de dois em dois degraus para avisar a menina.

Há anos eu não entrava em seu quarto, só a chamava da porta e ela gritava já vou, dez minutos, espera, não enche. Mas dessa vez a porta estava aberta. Quase aberta. E não tinha barulho de música, de rádio nem de televisão. Fui mais pai dela do que o próprio pai, sempre ocupado, e talvez por isso eu tenha ficado tão apreensivo com aquele silêncio, e mais ainda quando da fresta da porta vi a patroazinha vendada, presa pelos dois pulsos na cabeceira da cama e nua, nua e quieta, nua e séria, nua e de mamilos firmes. Quase liguei pra polícia, mas logo percebi que ela não estava sozinha, chamava por alguém, sussurrava, implorava. Então ele apareceu, aquele que há dois meses eu buscava pra estudar com a menina, aquele que nunca me cumprimentou nem agradeceu. Moreno, forte e baixo, se aproximou da patroazinha com firmeza, beijou os lábios crescidos com desejo e deslizou as mãos nas curvas e nos prazeres dela. Deus me perdoe, devia ter ido embora, mas fiquei tão excitado e surpreso que não consegui mais desviar os olhos, fechar a porta, deixar a casa amaldiçoada pelo pecado. Vi o rapaz acariciar as partes da patroazinha com força, senti o cheiro de suor da menina, ouvi ele perguntar se ela tava pronta pra surpresa, se queria morrer de prazer naquela noite, na cama de lençol rosa, no quarto de ursinhos espalhados. Ela apertou as coxas com desejo, molhou a ponta dos lábios língua, talvez soubesse o que viria, decerto conhecia o outro, um rapaz mais alto, menos forte e de barba rala. Já se aproximou da minha menina abrindo a braguilha, tocou no seu rosto e pude perceber como ela ficou confusa e excitada com aquela terceira mão em seu corpo. Procurou os dedos estranhos com a boca, chupou-os, mordeu-os, e mais teria feito não fosse a pressa do rapaz, que reservava algo mais para a fome insaciável da patroazinha. Quatro mãos a exploravam e ela gemia sem remorso, dois estranhos a possuíam e ela rebolava sem medo, três gozos se misturavam e ela pedia mais, mais, insaciável. Desamarram as mãos e antes de a colocarem de quatro, tiraram a venda dos olhos.

Por um segundo achei que tivesse me visto, noutro foi como se a patroazinha voltasse a ser a menina redonda e rosada, de costas não tinha mudado tanto. Beijaram suas coxas, suas nádegas, e o diabo me tentando a participar daquela sem vergonhice, eu que não tinha coragem de acabar com aquilo, de fazer algum barulho, fechar a porta, eu que só experimentava nudez de mulher no escuro, a dois. Me imaginei como o mais alto e de barba rala, eu, o preto sempre pronto a ajudar, a esconder, a satisfazer os desejos de uma insaciável garota de pêlos escuros e gemido alto.

Naquele dia acabei não buscando o patrão no Iguatemi. Desci, tirei o quepe, sentei no sofá da sala e esperei outros trinta minutos até a patroazinha descer. Veio acompanhada apenas do mais baixo e forte, cabelo molhado, vestido de alcinha, quem sabe nua por baixo. Pegou o quepe, me entregou e sem me olhar nos olhos pediu para eu me apressar, estava muito atrasada. Foi meu último dia naquela casa da Bela Vista. Na manhã seguinte, o patrão me demitiu, furioso por eu não ter atendido o celular. E ainda estranhou quando eu insisti, pelo amor de Deus, para ficar pelo menos mais trinta dias. Ele jamais entenderia que eu não podia ter ido embora sem nunca ter visto minha menina sorrir. Não depois daquilo.

Um comentário:

  1. Muito bom Marcelo, dosou com habilidade a curiosidade do leitor.
    Abraço da Ana Mello.

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