segunda-feira, 21 de setembro de 2009

O gato diz adeus


Marcelo Spalding

O romance contemporâneo, a grosso modo, tem duas vertentes fundamentais: a conteudista e a formalista. À primeira pertencem aqueles romances nos quais a história contada é o mais importante, com enredos claros e bem elaborados, enquanto que, na segunda, o mais importante é a forma com que se conta, não havendo necessariamente um enredo ou uma "historinha" que leve o leitor adiante. Os grandes romances, porém, são aqueles que encontram um ponto de equilíbrio entre forma e conteúdo, como Dois Irmãos, de Milton Hatoum. Porque, quando a balança pende demais para um lado ou outro, temos o risco de um romance despretensioso, em que a história carrega um texto fraco, ou de um romance estéril, feito para um restrito público de intelectuais preocupados estritamente com as questões técnicas.
Leite derramado, mais recente romance de Chico Buarque, é um bom exemplo de um tipo de literatura que beira o experimentalismo, construindo o romance não em formato linear, mas como uma teia em que os fatos aos poucos vão se ligando e formando o enredo por trás do narrado, sem cair na esterilidade do puramente estético. Há, ali, conflitos e personagens que aos poucos vão surgindo e revelam ao leitor mais atento questões sociais muito além dos problemas particulares do protagonista. Mas não tente resumir a história do romance ou explicar sua temática de forma apressada, pois cada capítulo, cada frase e cada palavra foram construídos dentro de uma lógica maior, cerebral, formal.
Também é assim o quarto livro de Michel Laub, O gato diz adeus (Companhia das Letras, 2009, 80 págs.). Romance conciso, "recupera, com um tom que varia entre a frieza, a ironia e o ódio, a trajetória de dois casamentos ― um que termina, outro que tenta começar ― e suas consequências ― a paternidade, o abandono, os sentimentos de perda e culpa", segundo definição da orelha do próprio livro. Mas não espere encontrar este enredo de forma simples, clara e sequencial no livro, pois a narrativa alterna a voz de quatro personagens: Sérgio, um voyeur, escritor e professor universitário; Márcia, uma atriz casada com Sérgio que depois o deixará para ficar com Roberto; o próprio Roberto, também professor universitário que se verá envolvido na trama de Sérgio; e Andreia, apresentada inicialmente como leitora do livro, estudante de Letras e aluna de Sérgio, mas que se revelerá uma personagem fundamental para o romance.
Como temos quatro narradores distintos, em O gato diz adeus não há um enredo definitivo, uma história com claro começo, meio e fim, ainda que dispersos na forma de teia, como em Leite derramado. Temos, isso sim, quatro versões de uma história, quatro pontos de vista por vezes contraditórios e sempre incompletos. O risco, como bem aponta resenha de Daniel Benevides publicada na Bravo!, é que O gato diz adeus sofra do "mal de Montano, aquela 'doença' diagnosticada pelo espanhol Vila-Matas, cujo sintoma é certa palidez das emoções e a insistente rendição ao exercício estritamente literário".
Para começar, as personagens da própria narrativa são escritores, professores universitários, estudantes, o tipo de leitor a que se destina um romance experimental como o de Laub. Nesse sentido, logo o romance se revela também metalinguístico, pois ficamos sabendo que Sérgio, após seu livro de estreia ― "que teve meia dúzia de resenhas, e foi traduzido para meia dúzia de países, e esgotou a primeira edição em meia dúzia de anos" ―, publicou um romance contando sua história chamado, adivinhe, "O gato diz adeus".
O livro que lemos, então, torna-se personagem da própria história, mas ao livro supostamente escrito por Sérgio, composto pelas partes narradas por ele, soma-se também as intervenções de Roberto, de Márcia e de Andreia, intervenções essas que depois saberemos serem de tempos completamente distintos, numa clara opção pela técnica polifônica em detrimento da verossimilhança dos fatos. Como podemos estar lendo as intervenções de Márcia e Andreia ao mesmo tempo, como se tivessem sido escritas no mesmo momento?, se pergunta o leitor ao final do romance.
Não será essa, é claro, a única pergunta que o leitor irá fazer ao final do livro. Ocorre que o conflito principal, relacionado à paternidade da filha de Márcia, não receberá um desfecho, permanecendo em suspenso e emaranhado nas muitas versões que temos (diferentemente de Dois Irmãos, que narra a tentativa de Nael descobrir seu pai até o momento em que ele desiste da busca, terminando aí o romance, em O gato diz adeus a interrupção é da obra, não da personagem). Dessa forma, sequer a tragédia anunciada nos primeiros capítulos se concretiza para o leitor, à medida que os acontecimentos trágicos estão num tempo fora da história e seus efeitos já parecem sacramentados e, até, perdoados pela única que poderia perdoá-los.
Mas não parece que Michel Laub esteja mesmo preocupado em responder esse tipo de questão tão banal aos leitores. Enredar, surpreender, sugerir, jogar com o leitor parecem preocupações mais condizentes a um escritor que usa como protagonista outro escritor, a um livro que é também parte do próprio livro, a um romance que no final revela obras que o influenciaram.
Ao fim e ao cabo, o que fica do livro são belas imagens e algumas belas passagens que revelam a qualidade do autor por trás do jogo formal, como esta em que uma das narradoras, Andreia, sintetiza com maestria um irônico casamento "feliz", oposto ao narrado por Sérgio e Márcia:
"Eu me pergunto o que ele deixou de fora do livro. Fico imaginando se o casamento era apenas aquelas brigas. Se em algum momento os dois não baixavam a guarda. Duvido que isso não acontecesse, que eles não fossem vez que outra ao cinema ou visitar um amigo, que não andassem de carro pela cidade comentando as vitrines das lojas e as pessoas na calçada, que também não fossem capazes de ficar em casa à noite ocupados cada um com suas coisas, ele no escritório, ela cozinhando, e quando os dois estavam bem ela vinha até ele perguntar alguma coisa sobre o tempero da comida, e depois os dois jantavam e ele dizia algo engraçado e ela contava alguma história e os dois terminavam e ouviam um pouco de música e ficavam até tarde conversando no sofá que os dois tinham escolhido e iam para a cama quando a vizinhança e a cidade inteira já estava em silêncio".

Para ir além



Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 21/9/2009.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Patroazinha

Marcelo Spalding

Poucas alegrias eu guardo daquela casa na Bela Vista, às vezes é melhor nem lembrar. Gente desalmada, sem respeito, sem religião. Me chamavam de preto e me chamavam pra tudo, carregar compras, limpar piscina, cortar grama, atender telefone. O que eu menos fazia era dirigir, não sei por que me obrigavam a usar uniforme e quepe. O patrão não parava em casa, a patroa, desconfiada, tava sempre nervosa pelos cantos ou passando uma temporada na casa das primas e até a Rose nos últimos tempos vinha roubando coisas na despensa. Casa dos infernos. Só quem prestava mesmo era a patroazinha. Ah, a patroazinha... Eu vi aquela menina crescer, sabe? Quando cheguei na casa, era uma criança redonda e rosada, sempre em volta da mãe, quieta. Com o tempo foi perdendo peso e vergonha, alisou os cabelos, fez bronzeamento artificial, começou a ir todo dia pra malhação. Nunca sorriu pra mim, mas me olhava nos olhos pra agradecer quando eu a levava na escola, no clube, no shopping, nas amigas. Às vezes acho que fui mais pai dela do que da minha pequena, era eu quem a acordava de manhã, servia café e pão, levava na escola, buscava, trazia amigos, a chamava para o lanche da tarde, o jantar. Era eu quem ia e vinha na madrugada das festas, e talvez por isso fui o primeiro a perceber como a menina crescia, como as curvas cresciam, as pernas, os braços, os lábios. Mas nunca pensei que tanto, nunca pensei... até aquele dia.

Estava esperando a patroazinha descer há meia hora quando o patrão me ligou dizendo que o carro tinha quebrado e eu precisava ir o quanto antes buscá-lo no trabalho. Falei da festa da filha em Ipanema, mas ele mandou que eu fosse antes, fosse depois, mas fosse rápido. Gente sem respeito, desligou o telefone na minha cara. Olhei de novo o relógio e calculei que com o trânsito desse horário levaria pelo menos uma hora pra pegar o patrão no Iguatemi, voltar na Bela Vista e levar a patroazinha em Ipanema. Mas era o jeito. Peguei meu quepe e subi as escadas de dois em dois degraus para avisar a menina.

Há anos eu não entrava em seu quarto, só a chamava da porta e ela gritava já vou, dez minutos, espera, não enche. Mas dessa vez a porta estava aberta. Quase aberta. E não tinha barulho de música, de rádio nem de televisão. Fui mais pai dela do que o próprio pai, sempre ocupado, e talvez por isso eu tenha ficado tão apreensivo com aquele silêncio, e mais ainda quando da fresta da porta vi a patroazinha vendada, presa pelos dois pulsos na cabeceira da cama e nua, nua e quieta, nua e séria, nua e de mamilos firmes. Quase liguei pra polícia, mas logo percebi que ela não estava sozinha, chamava por alguém, sussurrava, implorava. Então ele apareceu, aquele que há dois meses eu buscava pra estudar com a menina, aquele que nunca me cumprimentou nem agradeceu. Moreno, forte e baixo, se aproximou da patroazinha com firmeza, beijou os lábios crescidos com desejo e deslizou as mãos nas curvas e nos prazeres dela. Deus me perdoe, devia ter ido embora, mas fiquei tão excitado e surpreso que não consegui mais desviar os olhos, fechar a porta, deixar a casa amaldiçoada pelo pecado. Vi o rapaz acariciar as partes da patroazinha com força, senti o cheiro de suor da menina, ouvi ele perguntar se ela tava pronta pra surpresa, se queria morrer de prazer naquela noite, na cama de lençol rosa, no quarto de ursinhos espalhados. Ela apertou as coxas com desejo, molhou a ponta dos lábios língua, talvez soubesse o que viria, decerto conhecia o outro, um rapaz mais alto, menos forte e de barba rala. Já se aproximou da minha menina abrindo a braguilha, tocou no seu rosto e pude perceber como ela ficou confusa e excitada com aquela terceira mão em seu corpo. Procurou os dedos estranhos com a boca, chupou-os, mordeu-os, e mais teria feito não fosse a pressa do rapaz, que reservava algo mais para a fome insaciável da patroazinha. Quatro mãos a exploravam e ela gemia sem remorso, dois estranhos a possuíam e ela rebolava sem medo, três gozos se misturavam e ela pedia mais, mais, insaciável. Desamarram as mãos e antes de a colocarem de quatro, tiraram a venda dos olhos.

Por um segundo achei que tivesse me visto, noutro foi como se a patroazinha voltasse a ser a menina redonda e rosada, de costas não tinha mudado tanto. Beijaram suas coxas, suas nádegas, e o diabo me tentando a participar daquela sem vergonhice, eu que não tinha coragem de acabar com aquilo, de fazer algum barulho, fechar a porta, eu que só experimentava nudez de mulher no escuro, a dois. Me imaginei como o mais alto e de barba rala, eu, o preto sempre pronto a ajudar, a esconder, a satisfazer os desejos de uma insaciável garota de pêlos escuros e gemido alto.

Naquele dia acabei não buscando o patrão no Iguatemi. Desci, tirei o quepe, sentei no sofá da sala e esperei outros trinta minutos até a patroazinha descer. Veio acompanhada apenas do mais baixo e forte, cabelo molhado, vestido de alcinha, quem sabe nua por baixo. Pegou o quepe, me entregou e sem me olhar nos olhos pediu para eu me apressar, estava muito atrasada. Foi meu último dia naquela casa da Bela Vista. Na manhã seguinte, o patrão me demitiu, furioso por eu não ter atendido o celular. E ainda estranhou quando eu insisti, pelo amor de Deus, para ficar pelo menos mais trinta dias. Ele jamais entenderia que eu não podia ter ido embora sem nunca ter visto minha menina sorrir. Não depois daquilo.

Como será a literatura na internet?

Marcelo Spalding

Há algum tempo ando às voltas com um novo tema, a literatura digital. Ou eletrônica. Ou on-line. Porque não podemos negar que a internet é o símbolo das novas tecnologias de comunicação, que já transformaram a música, o cinema, a televisão e, de certo, transformarão também a literatura.

Nessa linha, muitos já discutem o fim do livro como suporte, discussão que acho acessória (particularmente acho que os livros terão vida muito mais longa do que esses e-books baseados na versão em PDF dos livros, pois tais versões são como filmar uma peça de teatro e dizer que isso é cinema! Nada disso, o teatro sobreviveu ao cinema exatamente porque o cinema é outra coisa, com outras possibilidades e desafios). O que me intriga, então, é pensar de que forma a literatura será veiculada na internet, de que forma a literatura irá explorar as ferramentas das novas tecnologias para criar obras instigantes, originais, multimídias, interativas e, ainda assim, obras literárias, e não games ou clipes.

Vale lembrar que embora hoje literatura seja sinônimo de livro, nem sempre foi o livro o suporte da literatura. Ou alguém acha que as tragédias gregas não são literárias porque, em vez de impressas, eram encenadas? Ou que os contos de fadas não são literários porque, ao invés de escritos, eram transmitidos oralmente? Claro que não. O livro é apenas um meio de se transmitir literatura, assim como o LP, o K7, o CD ou o MP3 são meios/mídias diferentes para a mesma arte: música.

Ocorre que, na literatura, essas mudanças na forma costumam ser acompanhadas de profundas mudanças estéticas. O romance, por exemplo, é um gênero relativamente recente, associado à modernidade (Dom Quixote é de 1605), e seu apogeu em relação a outras formas, como a epopéia ou as tragédias, tem muito a ver com a invenção da imprensa e a facilidade de impressão de livros. Assim como Edgar Allan Poe, espécie de inventor do conto moderno, associa a short story à popularização das revistas e jornais.

Claro que isso demora anos, décadas, gerações. É preciso que as gerações nascidas sob a égide da nova tecnologia cresçam, produzam suas próprias ficções nesse suporte e com suas particularidades, depois cheguem nas academias, na mídia e passem a valorizar este tipo de produção. Mas é tarefa das cabeças pensantes do nosso tempo perceber a pertinência dessa reflexão, a potencialidade criativa que as novas tecnologias oferecem e incentivar essa criação. Foi com esse intuito, aliás, que promovi aqui no RS o I Prêmio Gaúcho de Arte Eletrônica. Foram três categorias, Artes Visuais, Cartum e Literatura, e acho que os trabalhos mais interessantes acabaram mesmo sendo na área de literatura.

CiberPoesia, da ilustradora Ana Gruszynski e do escritor Sérgio Capparelli, no concurso ficou com o Prêmio Especial por ser um projeto absolutamente a frente de seu tempo. Utilizando o Flash, o site traz diversos poemas visuais e ciberpoemas interativos que demonstram a riqueza de possibilidades da nova ferramenta: o leitor não apenas lê, ele também cria através da interação, vê os movimentos das ilustrações integrados ao poema e ao final observa o resultado da criação. Um projeto como esse só poderia surgir de um escritor acostumado com a literatura infantil, um gênero que há tempos não se restringe ao texto, e, por esse motivo, deixou de ser um trabalho único, autoral, para se tornar um trabalho de equipe (raros são os escritores que também são ilustradores, e poucos são os ilustradores que acumulam a função de designer gráfico dos livros).

Outro trabalho que chamou minha atenção foi a novela Desfocado, de Mauro Paz. Mauro contou que havia escrito essa novela e, na hora de publicar, decidiu aproveitar seu conhecimento em Flash para criar uma novela multimídia e interativa. Dessa forma, o leitor encontra um menu com hiperlinks para cada capítulo e, à medida que for avançando na leitura da história, irá se deparar com cartas manuscritas, chocolates que vão perdendo seus pedaços à medida que a leitura avança e assim por diante. Para quem tem uma conexão razoavelmente rápida, é divertimento na certa. Com boa literatura por trás.

Mauro concorria na categoria Literatura, onde os dois mais votados ― a votação foi feita por artistas cadastrados no portal que organizou o Prêmio ― foram o blog de Rubem Penz, Rufar dos Tambores, e o e-book de Ana Mello, Finais Felizes, que levou o troféu. Olhando de fora, poderia dizer que o trabalho de Ana Mello é uma espécie de exemplo da transição entre a cultura livresca e a cultura digital. Apesar de o texto ser publicado em formato de livro (PDF), a paginação é feita com o efeito flip, há todo um cuidado de acabamento (capa, diagramação) e o gênero escolhido é um gênero perfeito para a internet: o miniconto. Já o blog de Rubem representa todos os blogs literários inscritos para o prêmio, e foram diversos, o que também evidencia que há muito a literatura tem buscado seu espaço no mundo digital e os blogs, por se tratarem de ferramentas fáceis de usar e gratuitas, se tornaram a porta de entrada preferida.

Claro que a abrangência do concurso é pequena para o universo da internet, nosso Estado é apenas um entre os vinte e poucos do país e nosso país é um entre as centenas do mundo, mas com ele parece que consegui mostrar aos mais céticos que é possível, sim, fazer boa literatura para a internet. E, mais ainda, que é possível ser original e criativo no uso das ferramentas dessas novas tecnologias para a produção de literatura.

Evidentemente, voltarei ao tema em outras tantas colunas, provocando leitores e, acima de tudo, escritores a pensar diferente. Por enquanto, convido vocês a me enviarem links de outras obras literárias publicadas na internet para, aos poucos, criarmos uma biblioteca paralela somente com bons exemplos de literatura on-line. Somente assim, acabem as árvores, os papéis ou os livros, a literatura permanecerá mais viva do que nunca.