segunda-feira, 10 de agosto de 2009

As tentações do novo livro de Mayra



Marcelo Spalding

Quando uma adolescente estreia na literatura com um romance em primeira pessoa, é quase inevitável que a história seja autobiográfica e a narradora uma espécie de alter ego da autora. Ainda mais se a história é moderninha, descolada, cheia de sexo, drogas e rock'n'roll. O que não quer dizer, diga-se logo, que essa estreia será frustrada, e a autora, ruim. Fugalaça, de Mayra Dias Gomes, publicado em 2007, mostra que é possível uma adolescente narrar suas "peripécias" com um ritmo capaz de prender o leitor e ideias suficientes para superar eventuais clichês e pieguices. Na época, Mayra disse que Fugalaça era um "vômito literário", e comentei em resenha sobre o livro que o "vômito" era uma tentativa desesperada de compreender-se pelo resgate da memória, de ser aceita pela exposição, de reparar conflitos e dilemas insuperáveis pela aparente lógica proporcionada pelo papel.

Agora, dois anos depois, apenas dois anos depois, Mayra publica um novo romance, e novamente pela Record (decerto satisfeita com as vendas do primeiro), e novamente em primeira pessoa, e novamente com uma narradora mulher em busca de identidade. Mas, pasmem, ela resistiu à tentação: Mil e uma noites de silêncio (Record, 2009, 308 págs.) não é um novo Fugalaça.

Tentações, aliás, não faltaram nem para a protagonista nem para quem se aventura a comentar o livro. Comecemos pelas tentações para quem se aventura a comentá-lo:

A primeira tentação seria ler o segundo livro sob o mesmo prisma do primeiro, uma história autobiográfica, um alter ego de uma narradora jovem demais para imaginar histórias. E seria um olhar absolutamente preconceituoso e injusto com o novo romance de Mayra, que apresenta personagens densos, revela uma trama intrincada e se constrói a partir de uma imaginação privilegiada.

Outra tentação seria relacionar sua história com a literatura produzida pela "nova geração", uma geração de sexo, drogas e internet. E realmente encontraremos nessas mil e uma noites a droga, muitas drogas, ainda mais se entendermos álcool e remédios como drogas, mas dessa vez a droga não move as ações da protagonista e ela não terminará num leito de hospital depois de tentar o suicídio: Mayra soube superar esse perfil já estereotipado de menina rica e aborda o delicado tema do abandono em tempos de relações familiares fragilizadas.

Terceira tentação: ler o livro em paralelo com As mil e uma noites, e Clara seria uma nova Sherezade tentando sobreviver à depressão, aos abandonos, enquanto a degola do sultão seria sua própria apatia, capaz de fazê-la, por vezes, desejar a morte. Leitura possível, mas o título parece mais um jogo de palavras do que um sinal de intertextualidade, não há sequer a menção de que mil e uma noites separam o começo da narrativa do fim (e bem poderiam sê-lo).

Verdade que talvez todas essas leituras fossem válidas, mas se ficarmos apenas com uma delas será reduzir demais a obra: Mil e uma noites de silêncio é um romance que afirma Mayra como escritora, tirando-a do romance-diário, e deve mexer com uma geração carente tanto de afeto quanto de boas histórias que a represente.

Os dois temas predominantes da obra, tratados sem superficialidade e sem falsas soluções, são temas que parecem incomodar demais as novas gerações: a solidão e a identidade. Clara é uma menina abandonada pela mãe, adotada ainda bebê e que perde a mãe adotiva para o câncer pouco depois de ser deixada pelo noivo em pleno altar. Quando se vê sozinha, cheia de lembranças, saudades e pudores, perde as forças e se deixa levar por profunda apatia e resignação. A partir daí, questiona sua própria identidade e, por conseguinte, sua própria noção de realidade.
"Carente de afeto, eu me agarrava às verdades absolutas com as quais eu havia convivido até então. De qualquer forma, mesmo com esta repentina noção de realidade, ainda acreditava nas mesmas coisas."
A realidade, para Clara, não é o mundo de medos e saudades de sua cabeça, um mundo que não a permite viver a vida lá fora, se envolver. Mas também não parece ser a vida a dois que ela aos poucos constrói com um namoradinho, Lukas. Quando vai para o interior atrás de uma amiga, conhece a face da prostituição, das drogas, da miséria, e por vezes acredita finalmente ter encontrado o "mundo real". Mas não, também não é essa a realidade. Nem será quando finalmente procurar por sua mãe natural, pois descobrirá que também a vida familiar e "bem-sucedida" de uma família como aquela pode ser uma grande mentira.

No meio disso, as drogas (bebidas, remédios, entorpecentes) surgem mais como consequência do que como causa. As pessoas ao redor de Clara fumam, bebem, injetam, algumas de forma absurda, outras tentando conciliar a droga com seu cotidiano.
"Sozinha na mesa, eu analisava os convidados. Estava impressionada com a presença incessante da droga em minha vida. Mesmo que eu não fizesse uso de substância ilícitas, elas sempre encontravam uma maneira de afetar o ambiente em que eu vivia. O mundo inteiro parecia estar drogado."
Clara, porém, diferentemente da protagonista de Fugalaça, irá se manter longe das drogas, o que pode soar como careta para alguns leitores "descolados" mas condiz mais com a atitude de uma menina inteligente em busca de raízes, de respostas, e não de um prazer hedonista e fugaz.
Por fim, é de se saudar que Mayra Dias Gomes tenha resistido à tentação de se repetir numa provável continuação de Fugalaça e de se esperar que prossiga aperfeiçoando a técnica para dar vazão ao turbilhão de emoções e imagens que dela brotam. Imaginação e ritmo a menina tem de sobra.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 10/8/2009.

sábado, 8 de agosto de 2009

Literatura e interatividade: os ciberpoemas


Marcelo Spalding

Muito se tem falado sobre o fim do livro, e, por conseguinte, no fim da literatura. Mas tenho me dedicado a estudar o contrário: de que forma a literatura estará presente em outra mídia, no caso, a internet. Alguns teóricos da literatura, como Douwe Fokkema e Elrud Ibsch, em Conhecimento e Compromisso, chegam a admitir que a produção eletrônica de poesia e ficção não é impossível e "possa até levar a novos gêneros interativos", apesar de entenderem que "as novas mídias prejudicam o papel dos livros e outras formas impressas". Não por acaso os autores utilizam o termo "interativo", pois a interatividade tornou-se símbolo das possibilidades digitais já nos anos 80 e ganhou força com a evolução da World Wide Web nos anos 90.

Mas o que seria a interatividade? O que seria interativo? O computador, por sua "arquitetura sui generis", e tudo o que nele for publicado? Nesse caso, poderíamos considerar um livro publicado em PDF, digamos Dom Casmurro, de Machado de Assis, como interativo?

Diversos autores abordaram a questão da interatividade, não sem antes problematizá-la. Marco Silva, em Sala de aula interativa, busca recuperar a origem do termo, distingui-lo do termo "interação", usado na psicologia e ciências sociais, por exemplo, e apontar as duas críticas principais a que o termo esteve sujeito desde sua aparição, a polissemia e a banalização. Já Alex Primo escreve seu Interação mediada por computador "a partir de uma insatisfação com as teorias e conceitos de 'interatividade'", preferindo abordar a questão de outro modo e retomando o termo interação para distinguir entre interação mútua e reativa. Aqui iremos utilizar o termo "interatividade", ainda que ciente de sua polissemia e banalização crescentes, por ser um termo familiar nos estudos literários para se referir à interação mediada por computador em obras digitais.

Alguns romances clássicos da literatura universal podem ter antecipado a chamada multilinearidade da era digital, mas estão, naturalmente, amarrados ao seu suporte, o milenar papel. O Jogo da Amarelinha, talvez ainda o mais notável, é um romance escrito por Cortázar em 1963, e é considerado a principal obra do autor. A professora Marta Hoppe Navarro afirma que vários títulos de suas obras acentuam a tendência lúdica do notável escritor argentino, e define Rayuela ― seu título no original ― como uma obra que "revolucionou a literatura latino-americana com um romance para ser lido em saltos, de um capítulo a outro, como se fosse o jogo da amarelinha que lhe dá o título".

São algumas experiências contemporâneas de literatura on-line, porém, que têm chamado a atenção e atraído para si o termo "interativo". Uma dessas experiências é o conjunto de ciberpoemas dos gaúchos Ana Cláudia Gruszynski e Sérgio Capparelli publicados no site Ciber&Poemas. O site foi desenvolvido no ano 2000 e utiliza a linguagem Flash, software profissional que cria animações para a Web. No site há duas seções de poesias, uma com 12 poesias visuais, em que o usuário pode simplesmente ver e deixar um comentário no mural de recados, e outra com 10 ciberpoemas, em que o usuário é chamado a compor o poema arrastando ou clicando em elementos visuais dispostos na tela.

Em artigo sobre o desenvolvimento dos ciberpoemas, os autores explicam que o trabalho foi dividido em três fases. Primeiramente, "foram criados 28 poemas visuais, convergindo tecnica e esteticamente texto escrito com imagens do design, da pintura e outros tipos de desenho". Na segunda fase, oito poemas visuais foram escolhidos para serem retrabalhados hipertextualmente por diferentes profissionais, e na terceira fase foi feita uma parceria com o estúdio W3haus para o desenvolvimento do site e o planejamento de mais alguns ciberpoemas.

No referido artigo, os autores mencionam alguns ciberpoemas, como "Zigue-Zague" ― chamado pelos autores de uma "narrativa interativa", pois há uma tela em que há opções dispostas em links para o usuário escolher a sequência ― e "Chá", este último destacado no design do site como "super interativo". Segundo os autores, "as possibilidades do hipertexto na ciberpoesia vão muito além da convergência de diferentes linguagens. Elas abrem também uma janela para a interatividade, isto é, a participação do navegador no poema", e o ciberpoema "Chá" mostraria algumas dessas possibilidades, estabelecendo uma "zona de diálogo com o leitor que, se quiser apreender o poema, deverá agir e reagir e a cada ação/reação recriar um poema novo".

Vamos nos deter um pouco nesse ciberpoema, em que o usuário vê na tela do computador uma xícara de chá vazia, um bule, um saquinho de chá e três imagens (um selo com um casal de beijando, estrelas e corações), que podem ser arrastadas para dentro da xícara. Quando o usuário estiver satisfeito, clica em "Pronto", e se tiver esquecido de colocar água ou de colocar o saquinho, será avisado para fazê-lo. Depois, a colherinha move-se na tela, mexe o chá e "então tem-se surpresas inesperadas, como as sonoridades dos ingredientes para o chá ou do bule de cujo bico vertem letras". A escrita do poema está na fumaça que sai da xícara, e realmente, dependendo dos três elementos que escolhemos colocar na xícara, essa fumaça tem formas, cores, movimentos e sons diversos. O texto, porém, curiosamente permanece o mesmo: "Deixe a infusão/ o tempo necessário/ até que os nossos aromas/ e os nossos sabores/ se misturem".

É visível, em poemas como "Chá", o potencial criativo das ferramentas e mídias criadas a partir da nova tecnologia, mas parece fundamental questionarmos em que medida a interatividade de "Chá" é tão distinta daquela proposta por Cortázar há 45 anos atrás com seu Jogo da Amarelinha. Tanto em um quanto em outro o texto escrito permanecerá o mesmo independente das ações do leitor, sendo que em Cortázar ainda há uma possibilidade de quebrar a linearidade, enquanto em "Chá" o texto se apresentará em movimento mas como uma sequência linear. Afora isso, em ambos os textos a participação do leitor é incentivada mas dirigida, pois o leitor não poderá, por exemplo, criar um poema sem colocar o saquinho ou a água em "Chá", assim como não compreenderá a história de Cortázar se não seguir a numeração já previamente planejada pelo autor. Sem falar que tampouco poderá, o leitor, acrescentar novos elementos não previstos anteriormente, como outras imagens na xícara ou novos capítulos no Jogo da Amarelinha.

Dessa forma, poderíamos questionar em que medida essa interatividade propagada pelo site transforma, de fato, o leitor de um ciberpoema em um leitor participativo, em uma espécie de co-autor de um poema como "Chá". Mas num artigo como este talvez o mais importante não seja definir se "Chá" é ou não um exemplo da "literatura interativa" preconizada por Douwe Fokkema e Elrud Ibsch, e sim perceber que há um movimento importante por parte de escritores contemporâneos em utilizar as novas ferramentas de comunicação para ampliar a participação do leitor, obrigando os estudos de literatura a revisitar conceitos sobre autoria e recepção surgidos exatamente entre os teóricos da literatura.

Se por um lado os ciberpoemas aqui visitados exageram ao se definirem como "super interativos" apenas pelos cliques, sons e movimentos, por outro lado, podemos ver um poema como "Chá" em linha com o sonho de Mallarmé ou os romances de Cortázar e Calvino, exemplares das tentativas criativas de trazer o leitor para dentro da criação e buscando, se não transformá-lo num co-autor da obra, pelo menos alterar sobremaneira seu tipo de participação.

Do Jogo da Amarelinha ao jogo do "Chá", a tecnologia evoluiu a passos largos e apresenta aos autores contemporâneos novas ferramentas, novas mídias com potenciais e possibilidades que precisam ser exploradas e conhecidas com o tempo. O clicar e arrastar das imagens é ainda um passo pequeno, tímido, como ainda pequena seria a composição de versos a partir de uma análise combinatória dos elementos dispostos na xícara. Demonstram, porém, que a literatura é mais do que o objeto livro e atravessará, sim, séculos e gerações através de gêneros interativos, gêneros multimídia e/ou gêneros hipertextuais.

Nesse sentido, para terminar, não poderíamos deixar de citar duas frases emblemáticas que nos relembram a infinitude não do livro, não do homem, mas da literatura. A primeira, de Calvino: "no universo infinito da literatura sempre se abrem outros caminhos a explorar, novíssimos ou bem antigos, estilos e formas que podem mudar nossa imagem do mundo". A derradeira, de Borges: "talvez me enganem a velhice e o temor, mas suspeito que a espécie humana ― a única ― está por extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta".

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 8/8/2009.