terça-feira, 30 de junho de 2009

A arte da ficção de David Lodge

Era uma vez a musa inspiradora, uma entidade abstrata capaz de produzir páginas e páginas de poemas, histórias, cartas. A musa é uma personificação da inspiração, um estado de espírito considerado fundamental para a criação artística no Romantismo que sobreviveu ao movimento e atravessou séculos.

Edgar Allan Poe, em “Filosofia da Composição”, talvez tenha sido o primeiro poeta a revelar sem pudor os bastidores da sua criação literária: “nunca tive a menor dificuldade de relembrar os passos progressivos de qualquer de minhas composições”, afirma. Criador do primeiro detetive lógico da literatura, Auguste Dupin, Poe representa o surgimento de uma Era racional e matemática que se opunha à estética romântica então em voga, o que nos faz compreender o belo ensaio e também suspeitar que muitas das suas afirmativas sobre a composição do poema “O Corvo” sejam, também, ficção.

Fato é que a partir de Poe a criação literária passou a ser tratada como construção capaz inclusive de ser ensinada e aprendida. No século XX, popularizaram-se oficinas de criação literária nos Estados Unidos, e, no Brasil, elas desembarcaram com força há pelo menos 25 anos, quando surgiu a primeira Oficina de Criação Literária da PUCRS, ministrada por Luiz Antonio de Assis Brasil. Não surpreende, portanto, que aos poucos se tenha acesso a tão profícua bibliografia sobre o tema, especialmente em língua inglesa, e é motivo de comemoração quando uma dessas obras é traduzida.

Este é o caso de A arte da ficção (L&PM, 2009, 246 p.), de David Lodge, romancista e crítico inglês. Originalmente publicado como colunas semanais no jornal The Independent on Sunday, o livro traz cinqüenta artigos sobre o romance, sempre partindo do trecho de uma ou mais obras e comentando sua construção. Lodge, segundo suas próprias palavras no Prefácio, tinha a pretensão de fazer um livro para “pessoas que preferem ter contato com a crítica literária em doses homeopáticas, um livro que não tem a pretensão de ter a última palavra em nenhum dos tópicos que abrange, mas que vai, espero, aguçar o entendimento e o proveito que os leitores tiram da prosa de ficção e sugerir novas possibilidades de leitura – quem sabe até de escrita – dessa que é a mais variada e a mais proveitosa de todas as formas literárias”. A preocupação de Lodge não é, portanto, ensinar a arte da ficção, e sim apresentá-la a leitores de romance.

Dessa forma, embora a divisão da obra dê a sensação de que teremos dicas de criação literária, pois abordam aspectos como “O autor intrometido”, “Nomes”, “Ambientação”, “Clima”, “Manipulação temporal”, em muitos capítulos temos mesmo teoria em doses homeopáticas, como em “Intertextualidade”, “Realismo mágico”, “Polifonia”, e em outros pequenas aulas sobre o romance, como em “Romance experimental”, “Romance cômico”, “Ideias”.

Essa mescla de teoria com leitura e técnicas literárias, aliás, é que deve colocar o livro na lista básica de muitos cursos de Letras e na estante de muitos amantes de literatura, pois Lodge consegue ser claro nas suas definições e trazer temas complexos para o leigo sem abusar do academicismo nem se tornar superficial. Evidentemente aquele aspirante a escritor que espera encontrar receitas de bolo para seu novo romance talvez terminará a leitura desapontado, porque Lodge evita fórmulas, ele pretende mais apresentar a arte da ficção do que transmiti-la. Embora seja exatamente nessa exposição que podemos captar técnicas fundamentais para a criação literária:

“Uma das marcas mais comuns de um ficcionista inexperiente ou desleixado”, dirá Lodge no capítulo sobre o “Ponto de Vista”, “é o tratamento inconsciente dispensado ao ponto de vista. Uma história – digamos, a história de John, que está saindo de casa para ir morar na universidade, contada sob a perspectiva de John: John faz as malas, dá uma última olhada no quarto, despede-se dos pais – e, de repente, por duas ou três frases, podemos ler o que sua mãe estava achando daquilo tudo, só porque o autor julgou que seria interessante acrescentar a informação naquele ponto da história; e a partir daí a narrativa retoma o ponto de vista de John. Claro, não há regras nem leis determinando que um romance não possa mudar de ponto de vista quando o autor bem entender; mas se essa decisão não for tomada de acordo com algum plano ou princípio estético, o envolvimento do leitor, o processo em que o sentido do texto se produz, será perturbado”.

Como já foi dito, cada capítulo, ou artigo, começa com o trecho de um ou mais romances, todos de língua inglesa, naturalmente, uma opção justificável num professor e crítico inglês. Não há, entretanto, como nós brasileiros não sentirmos falta de Machado de Assis ou Guimarães Rosa em capítulos como “O narrador não-confiável” ou “Ponto de Vista”, pelo menos que fossem citados seus nomes como o são García Márquez em “Realismo Mágico”, Baudelaire em “Simbolismo” ou Ítalo Calvino em “Surrealismo”. Sem contar uma grande omissão que permeia o romance, Dom Quixote, por muitos considerados o primeiro romance da literatura mundial (o esquecimento chega a ponto de no capítulo sobre “Metaficção” o autor dizer que “o avô de todos os romances metaficcionais é Tristam Shandy, cujos diálogos entre o narrador e os leitores imaginários são apenas um dos inúmeros recursos que Sterne usou para realçar a lacuna existente entre a vida e a arte, que o realismo tradicional tenta ocultar”).

Nesse sentido, fiquei com vontade de ler uma versão brasileira de “A arte da ficção” escrita por alguém como Milton Hatoum, alguém que citasse obras brasileiras e explorasse mais alguns aspectos estéticos próprios da literatura brasileira como a oralidade, o regionalismo e a violência urbana. Porque o romance, embora seja um gênero notoriamente europeu, ganhou o mundo e se transformou em cada continente por onde passou, da América de Garcia Márquez à África de Mia Couto, e esta talvez seja a principal explicação para seu sucesso.

Confesso, porém, que também não acredito que um livro desses, no Brasil, pudesse se restringir ao romance. Ocorre que essa procura crescente por oficinas de criação literária tem se dado muito em função da prosa curta, ou seja, conto e crônica. E nesse sentido também sentimos falta, no livro, de capítulos sobre “concisão”, “intensidade” e “subtexto”, por exemplo, três conceitos chaves do conto moderno.

Tais limitações da obra de Lodge, antes de diminuir o mérito de seu esforço de compilação e tentativa de popularização do fazer literário, apenas reforçam o quão complexa e universal é a literatura, uma arte milenar que não se permite apreender ou revelar por completo. E sem dúvidas sua principal missão é cumprida: depois de ler um livro como A arte da ficção você nunca mais será o mesmo leitor.

Marcelo Spalding

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