terça-feira, 30 de junho de 2009

A arte da ficção de David Lodge

Era uma vez a musa inspiradora, uma entidade abstrata capaz de produzir páginas e páginas de poemas, histórias, cartas. A musa é uma personificação da inspiração, um estado de espírito considerado fundamental para a criação artística no Romantismo que sobreviveu ao movimento e atravessou séculos.

Edgar Allan Poe, em “Filosofia da Composição”, talvez tenha sido o primeiro poeta a revelar sem pudor os bastidores da sua criação literária: “nunca tive a menor dificuldade de relembrar os passos progressivos de qualquer de minhas composições”, afirma. Criador do primeiro detetive lógico da literatura, Auguste Dupin, Poe representa o surgimento de uma Era racional e matemática que se opunha à estética romântica então em voga, o que nos faz compreender o belo ensaio e também suspeitar que muitas das suas afirmativas sobre a composição do poema “O Corvo” sejam, também, ficção.

Fato é que a partir de Poe a criação literária passou a ser tratada como construção capaz inclusive de ser ensinada e aprendida. No século XX, popularizaram-se oficinas de criação literária nos Estados Unidos, e, no Brasil, elas desembarcaram com força há pelo menos 25 anos, quando surgiu a primeira Oficina de Criação Literária da PUCRS, ministrada por Luiz Antonio de Assis Brasil. Não surpreende, portanto, que aos poucos se tenha acesso a tão profícua bibliografia sobre o tema, especialmente em língua inglesa, e é motivo de comemoração quando uma dessas obras é traduzida.

Este é o caso de A arte da ficção (L&PM, 2009, 246 p.), de David Lodge, romancista e crítico inglês. Originalmente publicado como colunas semanais no jornal The Independent on Sunday, o livro traz cinqüenta artigos sobre o romance, sempre partindo do trecho de uma ou mais obras e comentando sua construção. Lodge, segundo suas próprias palavras no Prefácio, tinha a pretensão de fazer um livro para “pessoas que preferem ter contato com a crítica literária em doses homeopáticas, um livro que não tem a pretensão de ter a última palavra em nenhum dos tópicos que abrange, mas que vai, espero, aguçar o entendimento e o proveito que os leitores tiram da prosa de ficção e sugerir novas possibilidades de leitura – quem sabe até de escrita – dessa que é a mais variada e a mais proveitosa de todas as formas literárias”. A preocupação de Lodge não é, portanto, ensinar a arte da ficção, e sim apresentá-la a leitores de romance.

Dessa forma, embora a divisão da obra dê a sensação de que teremos dicas de criação literária, pois abordam aspectos como “O autor intrometido”, “Nomes”, “Ambientação”, “Clima”, “Manipulação temporal”, em muitos capítulos temos mesmo teoria em doses homeopáticas, como em “Intertextualidade”, “Realismo mágico”, “Polifonia”, e em outros pequenas aulas sobre o romance, como em “Romance experimental”, “Romance cômico”, “Ideias”.

Essa mescla de teoria com leitura e técnicas literárias, aliás, é que deve colocar o livro na lista básica de muitos cursos de Letras e na estante de muitos amantes de literatura, pois Lodge consegue ser claro nas suas definições e trazer temas complexos para o leigo sem abusar do academicismo nem se tornar superficial. Evidentemente aquele aspirante a escritor que espera encontrar receitas de bolo para seu novo romance talvez terminará a leitura desapontado, porque Lodge evita fórmulas, ele pretende mais apresentar a arte da ficção do que transmiti-la. Embora seja exatamente nessa exposição que podemos captar técnicas fundamentais para a criação literária:

“Uma das marcas mais comuns de um ficcionista inexperiente ou desleixado”, dirá Lodge no capítulo sobre o “Ponto de Vista”, “é o tratamento inconsciente dispensado ao ponto de vista. Uma história – digamos, a história de John, que está saindo de casa para ir morar na universidade, contada sob a perspectiva de John: John faz as malas, dá uma última olhada no quarto, despede-se dos pais – e, de repente, por duas ou três frases, podemos ler o que sua mãe estava achando daquilo tudo, só porque o autor julgou que seria interessante acrescentar a informação naquele ponto da história; e a partir daí a narrativa retoma o ponto de vista de John. Claro, não há regras nem leis determinando que um romance não possa mudar de ponto de vista quando o autor bem entender; mas se essa decisão não for tomada de acordo com algum plano ou princípio estético, o envolvimento do leitor, o processo em que o sentido do texto se produz, será perturbado”.

Como já foi dito, cada capítulo, ou artigo, começa com o trecho de um ou mais romances, todos de língua inglesa, naturalmente, uma opção justificável num professor e crítico inglês. Não há, entretanto, como nós brasileiros não sentirmos falta de Machado de Assis ou Guimarães Rosa em capítulos como “O narrador não-confiável” ou “Ponto de Vista”, pelo menos que fossem citados seus nomes como o são García Márquez em “Realismo Mágico”, Baudelaire em “Simbolismo” ou Ítalo Calvino em “Surrealismo”. Sem contar uma grande omissão que permeia o romance, Dom Quixote, por muitos considerados o primeiro romance da literatura mundial (o esquecimento chega a ponto de no capítulo sobre “Metaficção” o autor dizer que “o avô de todos os romances metaficcionais é Tristam Shandy, cujos diálogos entre o narrador e os leitores imaginários são apenas um dos inúmeros recursos que Sterne usou para realçar a lacuna existente entre a vida e a arte, que o realismo tradicional tenta ocultar”).

Nesse sentido, fiquei com vontade de ler uma versão brasileira de “A arte da ficção” escrita por alguém como Milton Hatoum, alguém que citasse obras brasileiras e explorasse mais alguns aspectos estéticos próprios da literatura brasileira como a oralidade, o regionalismo e a violência urbana. Porque o romance, embora seja um gênero notoriamente europeu, ganhou o mundo e se transformou em cada continente por onde passou, da América de Garcia Márquez à África de Mia Couto, e esta talvez seja a principal explicação para seu sucesso.

Confesso, porém, que também não acredito que um livro desses, no Brasil, pudesse se restringir ao romance. Ocorre que essa procura crescente por oficinas de criação literária tem se dado muito em função da prosa curta, ou seja, conto e crônica. E nesse sentido também sentimos falta, no livro, de capítulos sobre “concisão”, “intensidade” e “subtexto”, por exemplo, três conceitos chaves do conto moderno.

Tais limitações da obra de Lodge, antes de diminuir o mérito de seu esforço de compilação e tentativa de popularização do fazer literário, apenas reforçam o quão complexa e universal é a literatura, uma arte milenar que não se permite apreender ou revelar por completo. E sem dúvidas sua principal missão é cumprida: depois de ler um livro como A arte da ficção você nunca mais será o mesmo leitor.

Marcelo Spalding

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Agora eu era cronista


Marcelo Spalding

Nariz de cera é o nome dado ao preâmbulo de determinado texto ou discurso, preâmbulo este normalmente criativo, literário, que tem o objetivo de fisgar o leitor para o que vem a seguir. Neste texto, por exemplo, tudo que escrevi até agora é nariz de cera para falar do livro Agora eu era (Record, 2008, 192 págs.), estreia da jornalista gaúcha Claudia Laitano em brochura.
Claudia é jornalista especializada em Economia da Cultura, editora da área cultural do maior diário porto-alegrense, a Zero Hora, e desde 2004 publica crônicas semanais no jornal num espaço que divide com nomes como Luis Fernando Verissimo e Martha Medeiros (revelada, aliás, pelo próprio jornal). Agora eu era reúne 61 dessas crônicas sob a costura do título inspirado em Chico, "uma expressão absurda na fala cotidiana, ainda que perfeitamente lógica no discurso da fantasia infantil, 'agora eu era' condensa um sentido de transitoriedade que lembra um pouco a metáfora do rio. Quando a brincadeira começa, 'agora' já não existe mais e 'eu' já é um novo personagem".
O resultado é uma boa leitura de férias ou fim de semana, para se folhear embalado numa rede ou deitado num parque, com textos curtos, tiradas inteligentes e abordagens leves. E leitura que deve ser feita acompanhada de um lápis, pois haverá frases e metáforas que você não quererá deixar escapar, como esta: "o clichê, vocês sabem, é o chuchu do idioma: é feio, não diz a que veio e sempre pode ser substituído por algo mais saboroso".
E olha que fugir do clichê e do estereótipo, em crônica, não é nada fácil (que o diga sua colega Martha Medeiros). Mas Claudia consegue, ao associar a Barbie à Hermione do Harry Potter, e esta à Helena de Tróia. Ou ao comentar o abuso do uso de antidepressivos entre os jovens a partir do filme 9 canções, em que Lisa, a protagonista, toma remédios contra a depressão:
"Sou do tempo em que a gente curava baixo-astral enfiando a cabeça no travesseiro e chorando. Não recomendo o método a ninguém, mas uma vantagem ele tem: encarar a dor de frente, sem medo de desmoronar, nos ensina que somos mais fortes do que imaginamos."
São poucas, aliás, as crônicas em que Claudia revela de frente seu posicionamento, apresenta armas, argumentos. Em geral a autora se revela excelente leitora, dona de um texto maduro, alguém com sensibilidade para falar de si sem deixar de olhar para os lados, para citar livros, filmes e discos respeitáveis, para fazer metáforas como a do clichê com o chuchu, mas que, como cronista, parece ser mais o que os leitores esperam de si.
Nesse sentido, Claudia muitas vezes escreve com uma coloquialidade ensaiada, evitando excesso de erudição e alternando temas leves como "a crise dos enta" com temas mais sérios, como o aborto, nunca se aprofundando demais nas questões e, muito menos, expondo seus argumentos com convicção. A estratégia aqui é outra: apostar num enorme nariz de cera para no final nos levar ao tema em questão e à opinião da autora, já no último ou penúltimo parágrafo. O bom é que os textos assim ficam leves, como devem ser naquele espaço de jornal, mas o grande problema é que sentimos falta do debate, dos argumentos, da autora que se ensaia mas não se liberta no próprio texto. Muitas vezes, inclusive, se começa a ler um texto sobre um assunto e se termina em outro completamente diferente, como em "Leitores (e eleitores)", em que Claudia começa falando do livro O último leitor, de Ricardo Piglia, e termina lembrando que "amanhã é dia de eleição", dia em que "errar talvez seja inevitável. Mas quem se informa erra menos. A política é torta, mas a gente sabe bem que poderia ser outra coisa".
Como assim? Primeiro, qual a relação com o livro de Piglia? Segundo, e talvez mais importante, quem disse que a política é torta, que poderia ser diferente? Diferente como? Para quem? Por que errar talvez seja inevitável? Os candidatos são ruins? Como acertar, e o que é acertar? Claro que estas questões ficam sem resposta, porque o texto acaba aí, dando a impressão de que as últimas frases encerram verdades óbvias que não precisam de debate. Mas será que não mesmo?
Não é uma questão de conteúdo, a autora tem todo o direito de ser de um ou outro lado político (ou de nenhum lado), a favor ou contra o aborto (tema de "Temporão"), a favor ou contra o uso de histórias infantis homossexuais em escolas (tema de "Autoridades Polonesas"), a questão é que o nariz de cera por vezes se torna maior que o tema de fundo e o debate, simplesmente, não existe.
Talvez seja uma estratégia para lidar com aquele espaço do jornal, para manter o tom leve e coloquial, mas confesso que o livro deixa uma sensação de reticências. Eu sentaria com prazer numa mesa com a autora e ouviria horas suas opiniões acerca desses temas cruciais, pois se percebe que ela tem muito a dizer. Suas crônicas, porém, não conseguem transmitir essa profundidade, muito por causa do espaço a que estão confinadas no jornal, um pouco pelo tipo de tratamento necessário numa mídia de massa.
Por isso espero que não pare por aí, que depois dessa estreia com a coleção de crônicas surja um texto feito especialmente para livro, talvez uma novela, quiçá crônicas mesmo, mas textos que revelem um pouco mais da Claudia Laitano que Agora eu era apenas sugere.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 12/6/2009.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Resenha de "A Cauda Longa"

Marcelo Spalding

Há um livro muito interessante circulando pelo meio empresarial e acadêmico (aliás, meios cada vez mais misturados) chamado “A Cauda Longa”, de Chris Anderson. No livro, lançado no Brasil pela Editora Campus, o editor da revista Wired amplia um conceito cunhado por ele, o de Cauda Longa, e debate seus efeitos na economia, administração e cultura.

Basicamente, a cauda longa é o que no Brasil conhecemos por "base da pirâmide", os 80% que costumavam representar apenas 20% das vendas e por isso eram relegados pela indústria e comércio tradicionais. Agora, com as novas tecnologias de comunicação, distribuição e comércio, diversas empresas apostam exatamente nesses consumidores (Google, eBay, iTunes) e provam como pode ser lucrativo olharmos para a cauda da curva (ou a base da pirâmide), e não apenas para sua ponta, ampliando as ofertas e criando verdadeiros nichos.

Para ilustrar, o primeiro exemplo de Anderson é o de músicas baixadas pela Rhapsody (serviço pago de download de músicas). Claro que há os hits, há músicas com 180.000 baixas e há em torno de 2 mil músicas com mais de 20 mil baixas. Mas há outras 25.000 músicas com pelo menos mil downloads (o que, no conjunto, é mais lucrativo que os hits). E, mais do que isso, há 95.000 músicas com mais de 100 downloads e todas as 800.000 músicas no site tiverem pelo menos um download.

O primeiro capítulo talvez seja o que mais interessa para nós, artistas: debate como a tecnologia está convertendo o mercado cultural de massa em milhões de nichos. Segundo as observações de Chris Anderson, se a indústria do entretenimento no século XX baseava-se em hits, a do século XXI se concentrará com a mesma intensidade em nichos.

"Os consumidores estão mergulhando de cabeça nos catálogos, para vasculhar a longa lista de títulos disponíveis, muito além do que é oferecido na Blockbuster Video e na Tower Records. E quanto mais descobrem, mais gostam da novidade. À medida que se afastam dos caminhos conhecidos, concluem aos poucos que suas preferências não são tão convencionais quanto supunham (ou foram induzidos a acreditar pelo marketing, pela cultura de hits ou simplesmente pela falta de alternativas."

Recuando um pouco no livro, pois a Introdução é quase uma parte desse primeiro capítulo, o autor apresenta números que demonstram essa queda do mundo dos hits: "quase todos os cinqüenta álbuns musicais mais vendidos de todos os tempos foram gravados nas décadas de 1970 e 1980 e nenhum deles é dos últimos cinco anos".

Talvez isso valha também para o cinema, certamente vale para a televisão, não por acaso hoje não temos ícones da indústria cultural como foram Madonna e Michael Jackson nos anos 80 (por aqui, Xuxa e Roberto Carlos, talvez Sílvio Santos), e as celebridades revezam-se com velocidade espantosa nas capas das revistas.

O que há no lugar disso? O nicho, ou seja, o surgimento de milhares de grupos com interesses mais específicos. Na música, por exemplo, há os que curtem o tradicionalismo clássico, os que preferem o tradicionalismo moderno, os que ouvem sertanejo, os que ouvem Caetano, os que ficaram nos anos dourados do rock'n'roll, os fãs de música gospel e por aí vai. Você dirá que antes já havia essa multiplicidade de gostos, claro, mas hoje, como nunca e muito por causa da internet, TUDO está disponível e ao alcance de alguns cliques, alimentando e fomentando esses grupos.

Assim, a velha máxima que "20% dos produtos respondem por 80% das vendas, e geralmente 100% dos lucros", está em xeque. Hoje todos encontram público, em maior ou menos quantidade, mas encontra.

Nosso portal, o Artistas Gaúchos, não deixa de ser um bom exemplo disso. Temos mais de 750 artistas cadastrados, dos mais variados estilos, das mais variadas artes, unidos apenas pelo fato de terem nascido ou trabalharem no Rio Grande do Sul. Claro que há os artistas mais procurados (na última contagem, Leia Cassol, na foto ao lado, era a que mais gerava acessos ao AG), mas os dados de acesso demonstram que praticamente todos os artistas tiveram pelo menos um acesso nos últimos meses, e seria praticamente impossível separarmos os 20% mais acessados dos demais, pois eles representariam menos da metade dos acessos.

Mais do que isso, o conceito de cauda longa diminui um pouco a velha angústia que temos em relação aos hits nacionais e internacionais, sempre nas capas dos jornais, nas vitrines das lojas, com os teatros lotados e os cofres cheios. Muitos, é claro, de qualidade duvidosa, porque como bem aponta Anderson, estar no topo da curva não é sinal de qualidade, e sim de penetração comercial, o que muitas vezes requer uma homogeneização do produto.

Isso não significa que na outra ponta da curva, onde estamos nós, reside a alta qualidade artística. Nada disso: nos nichos há o melhor e o pior em termos de qualidade, até porque cada público terá o seu conceito de qualidade. Mas não podemos negar que um amante da música clássica, por exemplo, vê muito mais qualidade num disco da Anabel Alzaibar do que num da Ivete Sangalo, e para um apreciador do nativismo é muito melhor o Joca Martins do que o Caetano Veloso. Isso é cauda longa.

Naturalmente se fizermos outro recorte, veremos que o próprio mercado gaúcho criou seus hits, como Moacyr Scliar, Engenheiros do Hawai, Tangos e Tragédias, e não é por acaso que poucos desses hits gaúchos estejam cadastrados no portal: para ser um hit não basta ser um hit, é preciso comportar-se como um. Mas também é evidente que os figurões não conseguem mais abarcar fatia tão grande do mercado, e aos poucos a força do conjunto que se torna mais importante que uma ou outra celebridade.

O efeito de tudo isso? Para Anderson, e espero que ele tenha razão, não é um maior entredevoramento entre os artistas, e sim uma maior procura pela arte. Quando alguém encontra um nicho de música ou literatura que realmente goste, com a qual se identifique, e não seja apenas fruto de um modismo midiático, ele tende a consumir mais, ser mais fiel, freqüentar mais shows ou lançamentos. Aliás, nosso robusto mercado de música tradicionalista que o diga.

No final das contas, a cauda longa somos nós, e já é hora de pararmos de brigar com ou invejar os hits e qualificarmos nosso trabalho, melhorar nosso profissionalismo, forçando a cauda da curva para cima e criando, com isso, nosso próprio público, nossos próprios hits.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Caras e bocas e um bolo abatumado



Marcelo Spalding

Há anos que uma novela não conseguia me prender por mais de trinta minutos na frente da TV. E não foram poucas as tentativas: os tentáculos são longos e em qualquer jantar na casa da mãe ou da sogra, em qualquer festinha familiar lá está ela, plim-plim, com os choros e gritos de sempre.


Mas Caras & Bocas me pareceu diferente. Não porque a pintura seria o mote, mas porque de certa forma me cativaram os personagens, especialmente as crianças, e um bom personagem faz toda a diferença. Não estou falando do choramingo da mocinha Dafne (Flávia Alessandra), nem das maldades calculadas de Judith (Deborah Evelyn), mas ao redor do nhemnhemnhém havia a graça cáustica de Bianca (Isabelle Drummond) em contraponto ao desajeitado Felipe (Miguel Rômulo), um judeu (vivido por Sidnei Sampaio), uma menina cega (Danieli Haloten), famílias de negros e um macaco. Ou seja, todos os ingredientes para que se abordasse o preconceito racial, étnico, com os deficientes, os pobres, os velhos, de forma leve mas inteligente.


Infelizmente, porém, os ingredientes são muito melhores do que o bolo. Ou as tintas muito melhores que o quadro. A novela repete velhas fórmulas surradas e esgotadas, um maniqueísmo estúpido que associa bondade à burrice e maldade à esperteza, insiste em gracinhas repetitivas e não avança nas questões centrais. Pelo contrário, reforça estereótipos e preconceitos.


Vejamos alguns casos:


Benjamin, o judeu ortodoxo, dono de joalheria, é confrontado com as mil maravilhas do "nosso" mundo, inclusive uma estonteante mulher de cabelos vermelhos e pra lá de oferecida. Sua mãe, sentindo a tentação, arranja uma noiva ortodoxa e puritana, mas igualmente bela e loura e de olhos azuis. Benjamin fica balançado, e não se sabe o que vai acontecer. Mas importa? Já estão ali todos os estereótipos, o judeu é o careta (e rico), a mãe é a superprotetora, a noiva é uma ariana boba e a outra, esperta e sensual. Aposto que, se o público pudesse escolher, mataria a mãe.


Bianca, a princesa da novela, filha da rainha-protagonista, ganha a cena quando aparece com o inseparável Felipe, filho dos empregados da casa. Pobreza, para ela, é a treva. E repete o bordão a todo momento, com graça e ensaiada hipocrisia. Claro que de tanto repetir e vindo de uma atriz tão talentosa (ex-Emília), a ironia fica evidente, mas não há ninguém na história para dizer a ela o contrário, nem o amigo pobre jamais a deixou por isso. Parece que não há riscos em se odiar pobres e pobreza, apenas vantagens, o que está, vamos combinar, muito longe da realidade.


No núcleo pobre, aliás (não sei quem inventou essa história de núcleo nas novelas, é todo mundo rico ou pobre, ainda que pobre seja modo de falar), há outro romance interessante, do garçom Anselmo (Wagner Santisteban) com a menina cega Anita. Anselmo, com medo que Anita o rejeite, finge ser um milionário, e em diversos diálogos com a dona da pensão onde mora é humilhado não porque deveria falar a verdade e superar as barreiras, mas porque não tem condições de sustentar uma moça cega. Como assim? Quer dizer que um rapaz honesto não pode namorar uma cega apenas porque é garçom??? Provavelmente acabarão juntos, para a catarse popular, mas fico imaginando os milhares de jovens garçons, cobradores de ônibus ou lixeiros vendo a novela e pensando em seus sonhos de progredir, ter uma família, uma casa.


Ada (vivida por Amanda Azevedo), é a criança do "núcleo pobre", não por acaso negra. Uma graça de menina, desenvolta e de olhar vivo. Filha de pais trabalhadores, sonha ser dançarina e está sendo treinada pela dona da pensão, que nas horas vagas a faz ir com Anita, a cega, até a frente do restaurante ajudá-la a vender rosas. Claro que sem os pais dela saberem, afinal de contas a menina é bonitinha mas é negra, e bem pode ficar de pé vendendo rosas mesmo que em casa tenha comida, calor e afeto dos pais.


Na verdade, no bairro tem outra criança, o quase adolescente Espeto (David Lucas), sósia do Harry Potter, filho de Denis (Marcos Pasquim) e amigo do macaco. Aqui fica evidente o tipo de valores transmitidos por novelas como essa: o pai, pintor fracassado, um dia descobriu um macaco que pinta e alguém que se apaixonou pelas obras, prometendo fama e dinheiro. Com a ajuda do filho, fazem de tudo para que o macaco não seja descoberto e continue pintando. A pose do galã é de quem tem peso na consciência, mas sempre incentivado pelo filho (e criança pode tudo, não é mesmo?), mantém o plano e sabe-se onde vai dar. Também não importa: o fim justifica os meios.


E nem as mulheres, público sempre fiel das telenovelas, estão a salvo: quando não são bonitas, estão fadadas ao fracasso - Ísis (Carina Porto) -, e quando o são, devem arrumar um marido que traga mais vantagens possíveis. Aliás, é isso que faz a protagonista o tempo todo, arrumar alguém para casar a fim de herdar ações e dinheiro, e também Simone (Ingrid Guimarães), a amiga, e Milena (Sheron Menezes), a filha da empregada.


Aliás, no último capítulo que assisti antes de escrever este texto, Milena foi vítima de mais uma armadilha da malvada caricata Judith, que fez todos acreditarem que a menina roubara um anel. O dono do restaurante, sem pestanejar, chamou a menina e revistou sua bolsa. Claro que encontrou a peça lá, e todos, inclusive os garçons, acreditaram imediatamente na versão do roubo. Afinal, ela é negra, fica mais fácil associar o roubo a uma negra. E mesmo que a sinopse afirme ser ela "bonita e íntegra" e ter "orgulho de ser quem é, de seus princípios e valores", caiu facilzinho na lábia do riquinho malvado Nicholas, seu pseudonamorado, não por acaso branco (não sei por que nunca apareceu sendo cortejada por alguém mais próximo a ela, mesmo sendo realmente bonita, como se homens "comuns" não a interessassem, apenas filinhos de papai).


Enfim, é interessante observar como é difícil mudar uma visão de mundo construída há tanto tempo e com tanto cuidado pela plim-plim, onde o que impera é o consumo e as relações sociais nada mais são do que convenções e interesses de um lado, paixões descabidas e eternas de outro. Num mundo assim, os personagens são todos planos, sempre bons ou maus, sempre a favor ou contra a rainha, e a rainha é sempre linda e rica e loura. Até porque o resto, é a treva! E o que interessa, mesmo, é o horário comercial.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 2/6/2009.