quinta-feira, 28 de maio de 2009

Entrevista publicada no ClicRBS

Marcelo Spalding publicou seu primeiro livros aos 16 anos uma obra que, nas palavras dele, "naturalmente se tornou um livro infanto-juvenil porque era a idade que eu tinha na época". Hoje, 12 anos depois, Spalding é professor da Oficina de Criação Literária da Uniritter, ex-integrante da direção da Associação Gaúcha de Escritores e um autor com livros que transitam do infanto-juvenil ao adulto, caso de sua obra Crianças do Asfalto. livro que transforma em contos os resultados de pesquisas sobre crianças de rua. É também sócio da Editora Casa Verde, pela qual publicou recentemente Minicontos e muito menos, escrito em parceria com Lais Chaffe no sistema livro-dois-em-um: de um lado o livro é de um, do outro, pelo avesso, é o livro do outro.

Mundo Livro — Algo que me chamou a atenção ao selecionar os nomes para esta matéria foi o grande número de autores da tua faixa etária que estão de alguma forma ligados à universidade. Carol Bensimon é mestre em Literatura Brasileira, cursa o doutorado na Sorbonne. Diego Grando é mestre em escrita criativa pela PUCRS e também cursa doutorado na França. Telma Scherer é mestre em Literatura Comparada, e tu mesmo é mestre em Literatura Brasileira. A nova geração literária está mais ligada à academia?
Marcelo Spalding
— Acho que uma das explicações para isso
a questão da oportunidade. O acesso à universidade hoje é mais fácil e as universidades de modo geral estão muito mais abertas a propostas que envolvam criação literária. A universidade hoje aceita mais facilmente propostas que antes eram rejeitas pelo apego a uma certa rigidez de normas. E creio que, do ponto de vista do escritor, há uma necessidade de especialização, de uma independência maior para fazer sua própria reflexão, que vem desse aperfeiçoamento.

Mundo Livro - Como se deu tua aproximação do universo literário? Consegues apontar um momento em que tiveste o estalo de que escritor era um ofício que querias seguir?
Marcelo — A própria Zero Hora tem parte nisso. Eu tinha 11 anos e participei de um concurso,o Jornalista por um Dia, e tive um texto publicado. Mais tarde participei de novo e outra vez fui selecionado, e depois de ganhar duas vezes eu vi que talvez ser jornalista fosse um caminho para mim, e fui fazer e me formei em jornalismo. Mas é aquilo, jornalista até escreve, mas não necessariamente é um profissional que reflete sobre a palavra. Por isso fui fazer um mestrado em literatura - e eu queria dar aulas, também, e percebi que, se quisesse das aulas, talvez fosse melhor fazer letras na graduação também.

Mundo Livro — A mim me parece que és de uma geração que não tem um rótulo ou bandeira sob o qual se unir ou ser enquadrado, mas na qual o diálogo ainda assim se estabelece. É mais confortável poder lidar apenas com a literatura sem pensar em termos de um "movimento literário"?
Marcelo —
A rotulação ainda existe.
Acho que se associa muito os integrantes de uma geração que não é homogênea. Fico muito brabo quando juntam tudo e dizem que a "nova geração" faz uma literatura que une niilismo com sexo e drogas. Até há escritores que fazem isso, mas infelizmente se tenta reduzir isso de forma homogênea. Talvez haja uma onda de autores mais novos que esteja mais liberta disso, disposta a fazer um texto realmente novo. Acima de qualquer rótulo temático está a questão estética. As preocupações temáticas também não podem ser reduzidas, há provocações em outros temas. Esta geração não pode esconder a diversidade que existe - diversidade social inclusive.

Mundo Livro — Os novos autores também parecem ter uma autonomia maior em termos de buscar espaços - juntam-se em cooperativas, fundam seus próprios projetos, em último caso publicam na internet. Seria uma turma mais disposta a fazer as coisas acontecerem?
Marcelo —
Vi o Airton Ortiz (escritor e jornalista especializado em livros de viagens e aventuras ao redor do mundo) dizer certa vez que o escritor hoje tem de saber escrever e se divulgar. Eu acho isso horrível, para mim escritor escreve e pronto, mas não sou ingênuo de saber que se um escritor não tiver um mínimo de envolvimento com a divulgação de seu livro a coisa simplesmente não acontece. Há muita gente escrevendo, poucos espaços de divulgação e é claro que o leitor vai ler a obra de quem for divulgado primeiro ou melhor. O fator internet é também importante nisso também. Hoje a gente escreve e consegue um público de leitores, e isso incentiva que se continue escrevendo. Claro, há um momento em que a publicação impressa continua a ser almejadas, mas normalmente ela chega em um momento curioso. Eu, por exemplo, posso dizer que tenho mais leitores na Internet do que fora dela (Marcelo mantém, entre outros, oblog O Spalding)

Mundo Livro — E com quem dentre os escritores em atividade acreditas que tua obra estabelece algum diálogo, seja em temas, seja na forma?
Marcelo —
Não tenho muito contato com o trabalho da
Geração mais nova. Eu diria que autores que foram importantes para mim e com quem acho que divido alguns interesses seriam o Assis Brasil, a Cintia Moscovich.

Mundo Livro — Há uns vinte anos, eram levantadas muitas críticas sobre a validade de uma oficina. Isso hoje parece uma discussão que ficou para trás, dado que a maioria dos atuais autores passou por uma.
Marcelo —
Eu mesmo ministro oficinas literárias na Uniritter faz uns dois anos. Acho que se chegou à conclusão de que é bobagem dizer que oficina vai dar fórmulas para os autores, ou que vai padronizar os textos. Por isso não nos tornamos homogêneos. Fiz cinco anos de oficina com o mesmo autor, o Charles. A própria Cíntia que estudou muitos com o Assis Brasil, não tem nada a ver com o estilo dele.

Postado por Carlos André Moreira às 06h10
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