quinta-feira, 28 de maio de 2009

Entrevista publicada no ClicRBS

Marcelo Spalding publicou seu primeiro livros aos 16 anos uma obra que, nas palavras dele, "naturalmente se tornou um livro infanto-juvenil porque era a idade que eu tinha na época". Hoje, 12 anos depois, Spalding é professor da Oficina de Criação Literária da Uniritter, ex-integrante da direção da Associação Gaúcha de Escritores e um autor com livros que transitam do infanto-juvenil ao adulto, caso de sua obra Crianças do Asfalto. livro que transforma em contos os resultados de pesquisas sobre crianças de rua. É também sócio da Editora Casa Verde, pela qual publicou recentemente Minicontos e muito menos, escrito em parceria com Lais Chaffe no sistema livro-dois-em-um: de um lado o livro é de um, do outro, pelo avesso, é o livro do outro.

Mundo Livro — Algo que me chamou a atenção ao selecionar os nomes para esta matéria foi o grande número de autores da tua faixa etária que estão de alguma forma ligados à universidade. Carol Bensimon é mestre em Literatura Brasileira, cursa o doutorado na Sorbonne. Diego Grando é mestre em escrita criativa pela PUCRS e também cursa doutorado na França. Telma Scherer é mestre em Literatura Comparada, e tu mesmo é mestre em Literatura Brasileira. A nova geração literária está mais ligada à academia?
Marcelo Spalding
— Acho que uma das explicações para isso
a questão da oportunidade. O acesso à universidade hoje é mais fácil e as universidades de modo geral estão muito mais abertas a propostas que envolvam criação literária. A universidade hoje aceita mais facilmente propostas que antes eram rejeitas pelo apego a uma certa rigidez de normas. E creio que, do ponto de vista do escritor, há uma necessidade de especialização, de uma independência maior para fazer sua própria reflexão, que vem desse aperfeiçoamento.

Mundo Livro - Como se deu tua aproximação do universo literário? Consegues apontar um momento em que tiveste o estalo de que escritor era um ofício que querias seguir?
Marcelo — A própria Zero Hora tem parte nisso. Eu tinha 11 anos e participei de um concurso,o Jornalista por um Dia, e tive um texto publicado. Mais tarde participei de novo e outra vez fui selecionado, e depois de ganhar duas vezes eu vi que talvez ser jornalista fosse um caminho para mim, e fui fazer e me formei em jornalismo. Mas é aquilo, jornalista até escreve, mas não necessariamente é um profissional que reflete sobre a palavra. Por isso fui fazer um mestrado em literatura - e eu queria dar aulas, também, e percebi que, se quisesse das aulas, talvez fosse melhor fazer letras na graduação também.

Mundo Livro — A mim me parece que és de uma geração que não tem um rótulo ou bandeira sob o qual se unir ou ser enquadrado, mas na qual o diálogo ainda assim se estabelece. É mais confortável poder lidar apenas com a literatura sem pensar em termos de um "movimento literário"?
Marcelo —
A rotulação ainda existe.
Acho que se associa muito os integrantes de uma geração que não é homogênea. Fico muito brabo quando juntam tudo e dizem que a "nova geração" faz uma literatura que une niilismo com sexo e drogas. Até há escritores que fazem isso, mas infelizmente se tenta reduzir isso de forma homogênea. Talvez haja uma onda de autores mais novos que esteja mais liberta disso, disposta a fazer um texto realmente novo. Acima de qualquer rótulo temático está a questão estética. As preocupações temáticas também não podem ser reduzidas, há provocações em outros temas. Esta geração não pode esconder a diversidade que existe - diversidade social inclusive.

Mundo Livro — Os novos autores também parecem ter uma autonomia maior em termos de buscar espaços - juntam-se em cooperativas, fundam seus próprios projetos, em último caso publicam na internet. Seria uma turma mais disposta a fazer as coisas acontecerem?
Marcelo —
Vi o Airton Ortiz (escritor e jornalista especializado em livros de viagens e aventuras ao redor do mundo) dizer certa vez que o escritor hoje tem de saber escrever e se divulgar. Eu acho isso horrível, para mim escritor escreve e pronto, mas não sou ingênuo de saber que se um escritor não tiver um mínimo de envolvimento com a divulgação de seu livro a coisa simplesmente não acontece. Há muita gente escrevendo, poucos espaços de divulgação e é claro que o leitor vai ler a obra de quem for divulgado primeiro ou melhor. O fator internet é também importante nisso também. Hoje a gente escreve e consegue um público de leitores, e isso incentiva que se continue escrevendo. Claro, há um momento em que a publicação impressa continua a ser almejadas, mas normalmente ela chega em um momento curioso. Eu, por exemplo, posso dizer que tenho mais leitores na Internet do que fora dela (Marcelo mantém, entre outros, oblog O Spalding)

Mundo Livro — E com quem dentre os escritores em atividade acreditas que tua obra estabelece algum diálogo, seja em temas, seja na forma?
Marcelo —
Não tenho muito contato com o trabalho da
Geração mais nova. Eu diria que autores que foram importantes para mim e com quem acho que divido alguns interesses seriam o Assis Brasil, a Cintia Moscovich.

Mundo Livro — Há uns vinte anos, eram levantadas muitas críticas sobre a validade de uma oficina. Isso hoje parece uma discussão que ficou para trás, dado que a maioria dos atuais autores passou por uma.
Marcelo —
Eu mesmo ministro oficinas literárias na Uniritter faz uns dois anos. Acho que se chegou à conclusão de que é bobagem dizer que oficina vai dar fórmulas para os autores, ou que vai padronizar os textos. Por isso não nos tornamos homogêneos. Fiz cinco anos de oficina com o mesmo autor, o Charles. A própria Cíntia que estudou muitos com o Assis Brasil, não tem nada a ver com o estilo dele.

Postado por Carlos André Moreira às 06h10
Clique aqui para ver no original

quinta-feira, 21 de maio de 2009

A Cauda Longa



Um livro obrigatório para profissionais da internet e empreendedores em geral. Chris Anderson, editor da revista Wired, amplia um conceito cunhado por ele, o de Cauda Longa, e debate seus efeitos na economia, administração e cultura.

Basicamente, a cauda longa é o que no Brasil conhecemos por "base da pirâmide", os 80% que costumavam representar apenas 20% das vendas e por isso eram relegados pela indústria e comércio tradicionais. Agora, com as novas tecnologias de comunicação, distribuição e comércio, diversas empresas apostam exatamente nesses consumidores (Google, eBay, iTunes) e provam como pode ser lucrativo olharmos para a cauda da curva (ou a base da pirâmide), e não apenas para sua ponta, ampliando as ofertas e criando verdadeiros nichos.



Para ilustrar, o primeiro exemplo de Anderson é o de músicas baixadas pela Rhapsody (serviço pago de download de músicas). Claro que há os hits, há músicas com 180.000 baixas e há em torno de 2 mil músicas com mais de 20 mil baixas. Mas há outras 25.000 músicas com pelo menos mil downloads (o que, no conjunto, é mais lucrativo que os hits). E, mais do que isso, há 95.000 músicas com mais de 100 downloads e todas as 800.000 músicas no site tiverem pelo menos um download.

Essa análise pode ser feita em sites, por exemplo. Há na internet, segundo Anderson, mais de 1 bilhão de sites. Há, sem dúvidas, os mais acessados, mas provavelmente todos esses milhões de sites tiveram pelo menos um acesso no mês passado, o que significa que na Era da diversidade o importante é fazer um bom trabalho que, assim, haverá público.

Como o livro é extenso e interessante, publicaremos aos poucos alguns textos baseado em cada um dos 14 capítulos. É assunto para um mês inteiro, mas se você leu o livro sabe que vale pelo ano todo.

domingo, 17 de maio de 2009

Como é difícil mudar o que o Google diz a respeito de alguém

Você já experimenou colocar seu nome no Google? Faça isso e surpreenda-se. Com alguma sorte, você irá se identificar com os resultados, o currículo Lattes, um concurso realizado, talvez um blog. Agora, se você não gostar nada dos resultados, cuidado: é muito difícil mudar o que o Google diz a respeito de alguém.

Imagine, por exemplo, que Paulo Maluf consiga convencer o partido dele a lançá-lo candidato a presidente em 2010 e faça um acordo com as grandes redes de TV, rádio e jornal para apoiá-lo. Ainda assim terá um obstáculo enorme pela frente: o Google. Experimente colocar "Paulo Maluf" no Google e você verá que já na terceira citação o nome dele está associado a corrupção com um título nada agradável: "Mapa da corrupção: Paulo Maluf". Depois vem uma versão escrachada da Desciclopédia (uma bobagem que pegou, como muitas bobagens pegam na internet) e um comentário de um post associando-o com a Ditadura Militar (interessante que esse post está numa entrevista da Veja São Paulo com Maluf, mas a entrevista não é destaque no Google, o comentário sim...). Em seguida vem uma matéria novamente associando seu nome à corrupção, outra lembrando que ele é o candidato que responde a mais processos do Brasil e até uma relacionando seu nome a bebidas. Isso só entre os 10 primeiros resultados!

Se serve de consolo a Maluf, Bill Gates, muito mais rico, famoso e respondendo a beeeeem menos processos, também é alvo das "fofocas do Google". O terceiro site que retorna se buscarmos seu nome tem no título "Bill Gates é o Anticristo. Ele é a própria besta do Apocalipse...". E até a busca por Jesus Cristo retornará, também no terceiro item, uma página com o título "Jesus Cristo nunca Existiu".

Empresas de renome e forte, forte não, ENORME investimento em marketing também sofrem com os resultados googleanos. O Mc Donald's, por exemplo, apesar de se esforçar para criar boas referências com mais de um site próprio no Brasil (mcdonalds.com.br, mcentrega.com.br...), já na primeira página do Google vê os fantasmas da maledicência com resultados como "As coisas da McDonald's: hambúrgueres são feitos de ..." e o headline do verbete da Desciclopedia: "McDonald's é uma rede de fast-food que vende comida envenenada para criancinhas, o que naturalmente fez com que se tornasse a mais popular rede de fast-food".

No caso da busca por Nike, o quarto site sugerido pelo Google é o "Boycott Nike Home Page", que afirma na headline: "Nike factories continue to abuse its workers and violate their labor rights". Esse site, apesar de estar em inglês, aparece antes mesmo de um blog criado pela Nike Brasil, o nikecorre.com.br, certamente já criado com o objetivo de figurar nos primeiros da lista do Google e empurrar para baixo sites com referências negativas.

Para finalizar, um exemplo brasileiro, a Casas Bahia, uma das maiores anunciantes do país. Os cinco primeiros itens são favoráveis, e todos claramente institucionais, criados pela própria empresa: o site, canal do YouTube e verbete da Wikipedia. Mas logo a seguir vem um site sobre "Chato das Casas Bahia", uma notícia dizendo que a empresa demitiu seu garoto propaganda por ele participar de uma passeata gay e, o pior de todos para a empresa, um post de fórum chamado "Quer pagar quanto ??? AS CASAS BAHIA SE FERROU!!!!!", que conta de um advogado que teria ido numa loja e pago R$ 1,00 por um eletrodoméstico, alegdando que aquilo é o que ele podia pagar, e como a propaganda dizia "Quer pagar quando? aqui vc paga o quanto vc pode!", ele levou o produto. Isso tudo, claro, nos primeiros 10 sites da busca!

Enfim, a internet aos poucos é mesmo um espelho do mundo, e o Google seu reflexo mais preciso. O que as pessoas falam se torna tão importante quanto o que as empresas se esforçam por dizer, e as instituições aos poucos vão aprendendo a conviver com essas lendas, maledicências, reclamações tornadas públicas, muitas vezes autênticas mas muitas vezes criadas por agências de propagandas preteridas ou ações de marketing dos concorrentes (sim, há isso também...).

Para os consumidores, pelo sim, pelo não o melhor é desconfiar sempre. E para os empreendedores resta o lema dos escoteiros: sempre alerta.

sábado, 16 de maio de 2009

Blog

Está no ar o blog da Oficina de Criação Literária Uniritter, instituída em 2007 com o objetivo de fomentar a criação literária entre a comunidade em geral, e não apenas entre os alunos da Universidade.

Ministrada por mim, a oficina tem aulas multimídias, realizadas no laboratório de informática, onde os aspectos teóricos da criação são apresentados de forma dinâmica e interativa.

Esse blog foi elaborado a pedido dos alunos para publicar os melhores trabalhos produzidos na Oficina. Para muitos é a primeira experiência na aventura da publicação, mas de certo para vários deles não será a única, como comprova o talento dos textos aqui expostos.

Confira: http://oficinauniritter.blogspot.com/

terça-feira, 12 de maio de 2009

Um Twitter só para escritores

Vou confessar uma coisa: morro de inveja do IMDB, o enorme catálogo online com informações sobre todos os filmes possíveis e impossíveis. O funcionamento é simples e o cruzamento de dados, completo: acessando Tom Hanks você pode clicar em Philadelphia e lá vai lembrar que Denzel Washington estava no elenco, e lá vai saber que um ano antes, em 1992, Denzel esteve em Malcolm X, junto com Angela Bassett que não me lembra filme algum mas é muito bonita.

Bem, agora imagine um grande catálogo de livros, com todos os títulos do mundo, organizados por título, autor, sinopse, ano de publicação, língua original, traduções... O sistema já teria até nome: Biblioteca de Babel, em homenagem a Borges. E ele sim teria informação sobre todos os livros, acessando Stern chegaríamos em Machado e dele em Eça de Queirós e de Eça em Saramago e as teias que formam qualquer arte ficariam ali, escancaradas para o deleite dos leitores e aprendizes.

Outro sistema que invejo um pouco, menos que o IMDB mas o bastante para querer tempo e dinheiro para inventá-lo, é o MySpace, que nada mais é que um twitter para músicos... Imagine um twitter para escritores, um MyBooks? Mas nele não poderiam estar só os chatos que usam a internet como gaveta e abarrotam nossa grande rede, era preciso que os grandes escritores vivos aderissem ao MyBooks, ao Twitter da literatura, e lá postassem as novidades do seu trabalho, avisassem quando estivessem palestrando em nossa cidade, e por aí vai.

Como sonhar não custa, já fico imaginando quem eu seguiria, quais os 10 escritores vivos que eu não deixaria de seguir. Vejamos:

Jose Saramago: não é só para posar de intelectual que começo pelo Nobel, mestre de nossa língua e ofício, dono de obra vasta e complexa, reconhecido pelo mundo, amado pelos brasileiros e renegado em Portugal. Saramago coloca qualquer leitor no seu lugar lembrando-nos o quão difícil é fazer boa literatura e mesmo acompanhar boa literatura. Por isso tenho uma meta de ler um Saramago por ano, por isso e também para ler Saramago ainda por muito tempo, e até agora Evangelho Segundo Jesus Cristo é o que mais me marcou.

Gonçalo M. Tavares: já que estamos na terrinha, este poeta, contista, romancista e obstinado escritor merece ser seguido. O mais recente romance que li dele, Jerusalém, além de super premiado está em lugar de destaque na minha estante. Sem contar a belíssima série de minihistórias de seu O Bairro, como O Senhor Valéry e O Senhor Henri. Um caso raro de escritor que une inventividade com densidade.

Jonathan Safran Foer: confesso que só li um romance dele, Extremamente Alto & Incrivelmente Perto, mas quem escreveu algo tão magnífico merece ser seguido, ainda que provavelmente jamais faça algo parecido. A não ser que arriscasse uma continuação, com o pequeno Oskar já não tão pequeno mas ainda encantador, complexo, provocante. Devo a este romance do norte-americano Foer um outro olhar sobre o 11 de setembro. E sobre a dificuldade de lidar com temas contemporâneos na ficção.

José Luandino Vieira: este escritor angolano é um belo exemplar da literatura africana em língua portuguesa, já tão rica. Contista e romancista de mão cheia, foi preso na terrível prisão salazarista de Tarrafal (espécie de Guantânamo de Salazar), devido ao sucesso de seu volume de contos Luuanda. De tom subversivo, vide “A estório do ovo e da galinha”, mistura elementos da cultura africana no léxico e nas temáticas, o que o tornou representante legítimo dos angolanos mesmo sendo branco e nascido em Portugal. Em 2006 ainda se notabilizou por ser o primeiro escritor a recusar o Prêmio Camões, mais importante da língua portuguesa. Ah, e seria importante seguir ele no Twitter dos escritores porque está publicando uma trilogia depois de muito tempo afastado da literatura, e quero notícias dos volumes.

Milton Hatoum: outro clássico, clássico no estilo e pela fama que conquistou. Professor universitário, romancista de mão cheia e com livro de contos quentinho na praça, Hatoum merece e precisa ser seguido por qualquer leitor brasileiro sob pena de perdermos o que há de mais canônico em nossa literatura contemporânea. Nem que seja para criticar o estilo rebuscado e a overdose das paisagens manauaras. Com Dois Irmãos e três jabutis, Hatoum hoje é quem está mais perto de um dia, quem sabe, trazer um Nobel de Literatura para o Brasil.

Ana Maria Gonçalves: li um romance só dessa mineira, mas um romance de mais de 1000 páginas! Um defeito de cor merece ser lido e lembrado tanto pela abordagem de tema tão delicado na nossa história quanto, sobretudo, pela composição narrativa capaz de nos guiar ao longo das centenas de páginas. É uma impressionante epopeia que não ganhou prêmios, e quem precisa deles?, mas me deixou com vontade de ler mais Ana Maria Gonçalves. Aliás, por que ainda é tão difícil para as mulheres ganhar um importante prêmio literário?

Fernando Bonasi: este paulista escreveu o que talvez seja a melhor novela do chamado neo-neorealismo brasileiro, este estilo que coloca a favela, o subúrbio, em primeiro plano. Subúrbio, de 1994, abriu caminho para Cidade de Deus e as dezenas de contos à Marcelino Freire que temos por aí. Além disso, Bonasi é autor de um dos melhores livros de minicontos que eu conheço, Passaporte. Beleza de histórias, beleza de conjunto.

Ferréz: é possível que ele não estivesse nesse Twitter de escritores, pois na Wikipedia ainda não está. Mas Ferréz, um híbrido de Virgulino Ferreira (Ferre) e Zumbi dos Palmares (Z) e uma homenagem a heróis populares brasileiros, é um escritor que merece ser seguido porque toca em outro tom nessa orquestra quase uníssona que é nossa literatura brasileira. Nascido no subúrbio paulista e ligado ao movimento hip hop, tem conseguido espaço entre os doutos da literatura e já figura em revistas, editoras, programas de TV e universidades, espaços sempre tão seletivos. Com aparente autenticidade, que falta para tantos narradores “marginais” ou “suburbanos”.

Cristóvão Tezza: que me perdoem Trevisan, Cony, Scliar, Assis Brasil, mas tenho optado por escritores da geração formada por eles. Com exceção, talvez, dos estrangeiros Saramago e Luandino. De Curitiba, então, quero seguir o Cristóvão Tezza, romancista capaz de inventar e reinventar narradores, produzindo uma ficção de fôlego (eta palavrinha da moda) e interesse. O melhor que li, até agora, foi “O Fantasma da Infância”, mas iria segui-lo porque sei que vem muito mais por aí.

Cíntia Moscovich: pra não dizer que não falei dos meus pagos, a Cíntia merece ser seguida por tudo o que escreveu e ainda irá escrever. O melhor miniconto de todos já escritos, para mim, é dela: “Uma vida inteira pela frente. O tiro veio por trás”. E sua produção contística já corre mundo pelo estilo clássico, eloqüente, cuidadoso. Mestre em literatura com dissertação sobre a teoria do conto de Poe a Piglia, tem verdadeiras obras primas como “A grande e invisível África” e “A gramática dos erros”.

Bem, que me perdoem Philip Roth, Antonio Baricco, Chico Buarque e tantos outros que ficaram de fora, listas são listas. Mas e você, quais 10 escritores seguiria nesse improvável MyBooks, o Twitter da literatura?

domingo, 3 de maio de 2009

O conto como labirinto em Milton Hatoum


Marcelo Spalding

Edgar Allan Poe, o grande nome do conto, para muitos o inventor do conto moderno, dizia que o conto deve ser desvendado tal qual um labirinto, do centro para a saída, do fim para o começo. Ou seja, não basta a primeira leitura, mais preocupada com o enredo, é preciso uma segunda leitura para que se perceba as sutilezas, as entrelinhas, as pistas que o bom contista foi deixando ao longo do texto para culminar naquele desfecho necessário e suficiente. Poe dizia muito mais; por exemplo, que o conto não deveria se preocupar em narrar uma sequência de episódios impressionantes ou sugerir uma tese, e sim em causar um efeito. E que sua leitura não poderia ser interrompida, o que exigia extensão reduzida: "se alguma obra literária é longa demais para ser lida de uma assentada, devemos resignar-nos a dispensar o efeito imensamente importante que se deriva da unidade de impressão, pois, se se requerem duas assentadas, os negócios do mundo interferem e tudo o que se pareça com totalidade é imediatamente destruído".
Tais considerações sobre o conto se tornaram ponto de partida para diversos contistas fazerem ficção e teoria, do compatriota Ernest Hemingway ao argentino Julio Cortázar, este o que talvez melhor tenha seguido os passos do mestre (sem esquecer Borges, que tornou a metáfora do labirinto marca de sua contística). E assim o autor de "O gato preto" e "O barril de amontillado" tornou-se um divisor de águas na história do conto, que agora pedia uma estética própria e um leitor aguçado.
Os contos de Milton Hatoum em A cidade ilhada (Companhia das Letras, 2009, 128 págs.), primeiro livro de histórias curtas do premiado romancista amazonense, são dessa linhagem. Trabalhando com temas aparentemente comuns e tendo como cenário sua velha Manaus de rios e turistas estrangeiros, Hatoum constrói contos repletos de silêncios e sutilezas, exigindo um leitor atento e participativo e retribuindo com conflitos profundos e universais. "Varandas da Eva", o primeiro conto do volume, já é um bom exemplo. A história narra a lembrança de um episódio ocorrido na infância do narrador: quando visitou, pela primeira vez, o bordel Varandas da Eva, e lá passou uma noite, sua primeira, com uma bela e enigmática mulher. Voltou ao local no dia seguinte, e em outros, e outros, e nunca mais encontrou-a, até que muito tempo depois encontraria um grande amigo seu, também dos tempos de meninice, e descobre que aquela mulher era sua mãe.
Uma leitura apressada terminaria aí, e temos uma história interessante mas um tanto prosaica: para penetrar na genialidade de um Hatoum é preciso ir além, mergulhar no rio de silêncios, ler de novo e perceber o amigo do narrador como o menino pobre que ganhou as roupas para visitar o bordel e se emocionou ao experimentá-las, para chacota dos demais; a hesitação do menino no dia da tão esperada visita, e seu posterior sumiço; o carinho e o mistério da mulher para com o narrador. Só na segunda leitura percebemos que cada frase, cada cena, cada comentário tem uma função no texto e ajuda a construir aquele desfecho, e é nessa leitura que entenderemos ser esta não a história de um menino em busca da primeira mulher, mas de um menino tornando-se homem e perdendo, com isso, muito da antiga ingenuidade, muito da ilusão.
"Anos depois, num fim de tarde, eu acabara de sair de uma vara cível, e passava pela avenida Sete de Setembro. Divagava. E já não era jovem. A gente sente isso quando as complicações se somam, as respostas se esquivam das perguntas. Coisas ruins insinuavam-se, escondidas atrás da porta. As gandaias, os gozos de não ter fim, aquele arrojo dissipador, tudo vai se esvaindo. E a aspereza de cada ato da vida surge como um cacto, ou planta sem perfume. Alguém que olha para trás e toma um susto: a juventude passou."
Esta característica do "conto moderno", à Poe, de contar uma história enquanto esconde a outra, mais profunda e realmente importante, pois é a capaz de causar efeito no leitor, foi bem sintetizada por Ricardo Piglia em "Teses sobre o conto". "O conto clássico", define Piglia, "narra em primeiro plano a história 1 (história aparente) e constrói em segundo plano a história 2 (história oculta)".
Voltando ao livro de Hatoum, as memórias de menino são recorrentes, e outro texto fantástico protagonizado por um menino, provavelmente o mesmo de "Varandas da Eva", embora isso não fique claro e nem seja necessário, é "Uma estrangeira da nossa rua". Aqui a história aparente conta o amor platônico de um menino por uma vizinha ruiva, filha de estrangeiros que jamais deixavam a casa, embora fossem afáveis com todos na rua. A história oculta, porém, revela mais, revela o fosso social que se cria entre comunidades muito próximas, revela a dificuldade de relacionamento entre culturas diferentes, revela o medo e até a soberba daqueles que julgavam trazer o progresso. O conto, aliás, lembra muito um conto de Cortazar, "Final do jogo", em que também uma narradora menina conta a história de um amor impossível, que surge pela juventude e ingenuidade dos amantes e não se concretiza pelas complicadas e definitivas regras sociais.
Há nessa cidade ilhada, ainda, espaço para crimes ("A casa ilhada"), fascínios ("Um oriental na vastidão"), sonhos ("Dançarinos na última noite") e até espaço para outras cidades, como "Bárbara no Inverno", que conta a história de um casal de exilados políticos em Paris, ou "Encontros na península", interessantíssimo conto-ensaio que dialoga com a obra de Machado de Assis.
Vale um trecho de "Encontros na península", em que um jovem brasileiro morando em Barcelona é procurado por uma mulher para aprender português do Brasil com o intuito de ler Machado de Assis e refutar a afirmação de seu amante português de que ele fora infinitamente inferior a Eça de Queirós.
"Não, mas é louco por Eça de Queirós. Ele disse que Machado foi pérfido ao criticar cruelmente dois romances do escritor português. Não sei se isso é verdade; sei que Soares não se conforma com essas críticas, e até ficou exaltado quando perguntou: por que a dor física e a miséria são menos aflitivas que a dor moral? Ele não se cansa de afirmar que Eça é muito superior a Machado, que é o maior escritor brasileiro. Por isso eu quis ler no original o rival de Eça. Coisas de amantes."
Inevitável a comparação desta estreia de Hatoum no conto com os três romances premiados, especialmente os mais recentes Dois Irmãos e Cinzas do Norte. O próprio autor parece incentivar essa comparação ao voltar ao mesmo espaço e tempo de seus romances, e mesmo ao utilizar tipos sociais semelhantes, como o Tio Ran e esse narrador menino que tanto lembra Nael. Mas esse tipo de comparação, especialmente quando se acaba desvalorizando os contos para enaltecer os romances, lembra aqueles que comparam o Chico Buarque compositor com o romancista, ou o Machado poeta com o contista: agem como se possível fosse comparar um livro com um filme, ou um sapato com uma calça.
No conto, já diria Poe e bem sabe Hatoum, leitor experiente e professor atento, a narrativa é apenas um labirinto bem armado para prender o leitor no seu centro, acreditando em sua capacidade de reencontrar a saída.

Nota do Editor
Leia também Entrevista com Milton Hatoum.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 3/5/2009.