quinta-feira, 16 de abril de 2009

Foi apenas um sonho

O que aconteceria se aquela história de amor continuasse depois do primeiro beijo, do primeiro encontro, do casamento? Seriam Romeu e Julieta tão felizes não fosse o fim trágico? Terá durado para sempre o amor do príncipe e da Cinderela? E teria o cinematográfico romance de Jack Dawson e Rose DeWitt Bukater sobrevivido em terra não fosse o desastre do Titanic?

“Foi apenas um sonho”, mais recente longa de Sam Mendes, de certa forma nos remete a essa velha questão geral com o caso específico de Jack e Rose, casal interpretado por Leonardo DiCaprio e Kate Winslet que levou milhões de espectadores ao cinema em 1997 com o épico Titanic. Claro que no novo longa, o primeiro em que os dois contracenam depois de Titanic, DiCaprio não é Jack e nem Kate é Rose. DiCaprio é Frank Wheller, um pai de família cheio de planos e sonhos que aos poucos vai se amoldando à vida de pequeno burguês norte-americano. E Kate é April Wheller, esposa de Frank e mãe de duas filhas, uma mulher de meia idade inconformada com a roitina tediosa e monótona.

Mas ao escolher o casal, e não Leonardo e Angelina Jolie, ou Kate e Brad Pitt, por exemplo, Sam Mendes nos remete ao idílio juvenil da década passada e aos tantos romances adocicados de Hollywood (uma outra versão poderia trazer Tom Hanks e Meg Ryan, se eles estiverem dispostos a mudar a imagem de par perfeito). Por que como já diz o título na tradução para o português, foi (não é mais) apenas (no sentido de só) um sonho. Nada mais.

O começo do filme já é incomum: enquanto voltam de uma fracassada peça encenada por April, o casal discute fortemente na beira da estrada, e Frank, o marido, quase chega a bater na mulher. Só depois da forte discussão surge o nome do filme e ele começa de fato: nada de trilhas musicais, voos com a câmera, passeios de carro. É uma espécie de recado ao espectador: se você estava esperando uma continuação melosa de Titanic, esqueça. Aqui é vida real.

E a versão de vida real de Sam Mendes é sempre muito ácida, realista ao extremo e até com certo extremismo (vide Beleza Americana, seu filme de maior sucesso). Aqui não bastam as conquistas materiais que fizeram a cabeça da geração pós-guerra norte-americana (o filme se passa nos anos 50), e nem bastam dois filhos lindos e saudáveis. É preciso mais, é preciso algo além de uma rotina entediante, preestabelecida, é preciso romper com o status quo. E eis a grande questão.

Os Wheller, na história, têm em torno de 30 anos de idade e foram jovens cheios de sonhos, se consideravam especiais, e por isso um casal também especial, avante de seu tempo, diferente dos pequenos burgueses do subúrbio de Connecticut. Acreditavam estar ali apenas para se estabilizar, mas esse tempo parecia durar demais, e começaram as brigas, discussões fortes, quase as vias de fato. Até que April tem uma bela ideia: juntar as economias, vender casa e carro e mudarem-se para Paris, onde ela trabalharia como secretária e Frank teria tempo para pensar o que realmente gostaria de fazer.

Evidentemente vizinhos e colegas de trabalho acham a ideia estapafúrdia, infantil. Só quem se anima é o filho de um casal de amigos, diagnosticado como louco e paciente de clínicas psiquiátricas (talvez o mais lúcido dos personagens, de uma lucidez e espontaneidade tais que o tornam anti-social, agressivo e inoportuno). Mas o projeto anima o casal, anima até mesmo as crianças, e eles voltam a se sentir diferentes daquela classe média, mediana, medíocre. Até que April descobre estar novamente grávida. E Frank recebe uma proposta de promoção na sua empresa.

Paremos aqui, não é intenção contar o filme todo e muito menos o final. Mau final, aliás. Se tivesse de resumir o filme para o Twitter, diria que é um bom filme com um mau final. O objetivo aqui é refletir sobre os conflitos que o filme traz, especialmente essa necessidade – e impossibilidade – que temos de romper com o status quo.

Verdade que nos dias atuais, e o filme se passa nos anos 50 mas poderia ser transposto sem dificuldade para os anos 2000, ainda menos gente do que nos anos 50 estão preocupados em enfrentar o status quo, e tantos nem sabem o que é isso, vivendo sob o signo da alienação. Mesmo assim muitos dos que procuraram o filme se identificam com a sensação do casal, a estranha sensação de ter tudo... e não ser nada. Quanto se luta para ter uma casa quitada, um carro do ano, um pátio para molhar a grama, filhos saudáveis. E por que parece que ainda falta alguma coisa? O que falta? Paris? E será que também em Paris não se sente isso tudo?

Já que falamos em cinema, e em Paris, lembro de Antes do pôr-do-sol, de 2004, continuação de Antes do amanhecer (1995), em que o protagonista também tem família e filho, mas ao encontrar uma antiga paixão questiona toda sua vida até ali, o que fez com os sonhos de sua juventude e o que se tornou. Com poucas certezas e uma sensação insaciável de que precisa aproveitar mais a vida, optará no final pela aventura. Mas aí o filme termina e poderíamos nos perguntar se também Jesse e Celine não acabariam como os Wheller.

Quem arrisca uma solução extrema e corajosa por causa dessa angústia da meia-idade é a personagem protagonizada por Julianne Moore em As Horas (2002). Nela todo esse desencanto com a vida, ainda que tudo esteja aparentemente no lugar, casa, família, filho de aniversário, motiva uma fuga que só no final da história saberemos o que causa (a tristeza e posterior suicídio do filho quando adulto, interpretado por Ed Harris).

Em todas as histórias, porém, nessas e em tantas outras, de Beleza Americana a Lost in Translation, o mal que assola é o mesmo: a sensação de incompletude. Um mal moderno, de uma geração que não luta em guerras, não passa fome, conquistou alguma independência mas se vê submetida a empregos medíocres, vizinhanças alienadas, relacionamentos fugazes. Ou, simplesmente, é o vazio existencial que vem chegando no seu limite, convertendo-se num novo mal do século.

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