segunda-feira, 20 de abril de 2009

Lançamento de meu novo livro

A atração da FestiPoa Literária no próximo dia 23 de abril (quinta-feira) é um lançamento literário que vale por dois: a partir das 19h, os escritores Laís Chaffe e Marcelo Spalding autografam o livro dois-em-um Minicontos e muito menos (Casa Verde, 120p, R$ 20,00), ilustrado por Alexandre Oliveira. Na mesma noite, será aberta a exposição homônima de ilustrações criadas por Alexandre, Bier e Guilherme Moojen a partir de textos do livro. A promoção é da Casa Verde e do Jornal Vaia, com apoio da Cerveja Coruja, que oferece um copo de 300ml de Coruja, ceveja viva, para quem adquirir o livro. Auracebio Pereira (PrintMaker Design de Comunicação) assina o design gráfico e as duas capas; a revisão é de Luis Augusto Junges Lopes, da Press Revisão. Tudo isso acontece n'A Toca da Coruja, que fica na Lima e Silva, 1255, esquina Olavo Bilac, Cidade Baixa.

Minicontos e muito menos reúne micronarrativas escritas por Laís e Marcelo desde 2005, quando a dupla da Casa Verde passou a se dedicar às pequenas histórias. Como sugere o título, o livro inclui outras formas breves que não se enquadrariam em uma definição rigorosa de conto, algumas delas próximas da crônica e da poesia. Será o quinto volume da Série Lilliput da editora, pela qual já foram publicadas as coletâneas de minicontos Contos de bolso (2005), Contos de bolsa (2006), Contos de algibeira (2007) e Contos comprimidos (2008), as três primeiras organizadas por Laís e a mais recente por Fernando Neubarth.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Foi apenas um sonho

O que aconteceria se aquela história de amor continuasse depois do primeiro beijo, do primeiro encontro, do casamento? Seriam Romeu e Julieta tão felizes não fosse o fim trágico? Terá durado para sempre o amor do príncipe e da Cinderela? E teria o cinematográfico romance de Jack Dawson e Rose DeWitt Bukater sobrevivido em terra não fosse o desastre do Titanic?

“Foi apenas um sonho”, mais recente longa de Sam Mendes, de certa forma nos remete a essa velha questão geral com o caso específico de Jack e Rose, casal interpretado por Leonardo DiCaprio e Kate Winslet que levou milhões de espectadores ao cinema em 1997 com o épico Titanic. Claro que no novo longa, o primeiro em que os dois contracenam depois de Titanic, DiCaprio não é Jack e nem Kate é Rose. DiCaprio é Frank Wheller, um pai de família cheio de planos e sonhos que aos poucos vai se amoldando à vida de pequeno burguês norte-americano. E Kate é April Wheller, esposa de Frank e mãe de duas filhas, uma mulher de meia idade inconformada com a roitina tediosa e monótona.

Mas ao escolher o casal, e não Leonardo e Angelina Jolie, ou Kate e Brad Pitt, por exemplo, Sam Mendes nos remete ao idílio juvenil da década passada e aos tantos romances adocicados de Hollywood (uma outra versão poderia trazer Tom Hanks e Meg Ryan, se eles estiverem dispostos a mudar a imagem de par perfeito). Por que como já diz o título na tradução para o português, foi (não é mais) apenas (no sentido de só) um sonho. Nada mais.

O começo do filme já é incomum: enquanto voltam de uma fracassada peça encenada por April, o casal discute fortemente na beira da estrada, e Frank, o marido, quase chega a bater na mulher. Só depois da forte discussão surge o nome do filme e ele começa de fato: nada de trilhas musicais, voos com a câmera, passeios de carro. É uma espécie de recado ao espectador: se você estava esperando uma continuação melosa de Titanic, esqueça. Aqui é vida real.

E a versão de vida real de Sam Mendes é sempre muito ácida, realista ao extremo e até com certo extremismo (vide Beleza Americana, seu filme de maior sucesso). Aqui não bastam as conquistas materiais que fizeram a cabeça da geração pós-guerra norte-americana (o filme se passa nos anos 50), e nem bastam dois filhos lindos e saudáveis. É preciso mais, é preciso algo além de uma rotina entediante, preestabelecida, é preciso romper com o status quo. E eis a grande questão.

Os Wheller, na história, têm em torno de 30 anos de idade e foram jovens cheios de sonhos, se consideravam especiais, e por isso um casal também especial, avante de seu tempo, diferente dos pequenos burgueses do subúrbio de Connecticut. Acreditavam estar ali apenas para se estabilizar, mas esse tempo parecia durar demais, e começaram as brigas, discussões fortes, quase as vias de fato. Até que April tem uma bela ideia: juntar as economias, vender casa e carro e mudarem-se para Paris, onde ela trabalharia como secretária e Frank teria tempo para pensar o que realmente gostaria de fazer.

Evidentemente vizinhos e colegas de trabalho acham a ideia estapafúrdia, infantil. Só quem se anima é o filho de um casal de amigos, diagnosticado como louco e paciente de clínicas psiquiátricas (talvez o mais lúcido dos personagens, de uma lucidez e espontaneidade tais que o tornam anti-social, agressivo e inoportuno). Mas o projeto anima o casal, anima até mesmo as crianças, e eles voltam a se sentir diferentes daquela classe média, mediana, medíocre. Até que April descobre estar novamente grávida. E Frank recebe uma proposta de promoção na sua empresa.

Paremos aqui, não é intenção contar o filme todo e muito menos o final. Mau final, aliás. Se tivesse de resumir o filme para o Twitter, diria que é um bom filme com um mau final. O objetivo aqui é refletir sobre os conflitos que o filme traz, especialmente essa necessidade – e impossibilidade – que temos de romper com o status quo.

Verdade que nos dias atuais, e o filme se passa nos anos 50 mas poderia ser transposto sem dificuldade para os anos 2000, ainda menos gente do que nos anos 50 estão preocupados em enfrentar o status quo, e tantos nem sabem o que é isso, vivendo sob o signo da alienação. Mesmo assim muitos dos que procuraram o filme se identificam com a sensação do casal, a estranha sensação de ter tudo... e não ser nada. Quanto se luta para ter uma casa quitada, um carro do ano, um pátio para molhar a grama, filhos saudáveis. E por que parece que ainda falta alguma coisa? O que falta? Paris? E será que também em Paris não se sente isso tudo?

Já que falamos em cinema, e em Paris, lembro de Antes do pôr-do-sol, de 2004, continuação de Antes do amanhecer (1995), em que o protagonista também tem família e filho, mas ao encontrar uma antiga paixão questiona toda sua vida até ali, o que fez com os sonhos de sua juventude e o que se tornou. Com poucas certezas e uma sensação insaciável de que precisa aproveitar mais a vida, optará no final pela aventura. Mas aí o filme termina e poderíamos nos perguntar se também Jesse e Celine não acabariam como os Wheller.

Quem arrisca uma solução extrema e corajosa por causa dessa angústia da meia-idade é a personagem protagonizada por Julianne Moore em As Horas (2002). Nela todo esse desencanto com a vida, ainda que tudo esteja aparentemente no lugar, casa, família, filho de aniversário, motiva uma fuga que só no final da história saberemos o que causa (a tristeza e posterior suicídio do filho quando adulto, interpretado por Ed Harris).

Em todas as histórias, porém, nessas e em tantas outras, de Beleza Americana a Lost in Translation, o mal que assola é o mesmo: a sensação de incompletude. Um mal moderno, de uma geração que não luta em guerras, não passa fome, conquistou alguma independência mas se vê submetida a empregos medíocres, vizinhanças alienadas, relacionamentos fugazes. Ou, simplesmente, é o vazio existencial que vem chegando no seu limite, convertendo-se num novo mal do século.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Ideia acordou sem acento

Hoje acordei sem idéia. Tudo bem, ideia acordou sem acento. E esqueceram de avisar o Word, que acentuou ideia sem eu pedir! Bem, não vai ser fácil, mas esta será minha primeira crônica sob a égide da nova reforma ortográfica. Não vai ser nem um pouco fácil, afinal nunca passei por uma reforma antes, desde que aprendi a ler e escrever ideia tem acento... Mas seria bem mais difícil se eu fosse português. Ah, de facto seria.

Primeiro, é preciso lembrar que a intenção da reforma é mais política e econômica do que lingüística. Embora não elimine de todo as diferenças ortográficas nem pretenda interferir nas culturais, a reforma ortográfica unifica a ortografia oficial do português, única língua importante com duas ortografias oficiais distintas, e por este motivo tem sido chamado de Acordo e não de Reforma. Não deixa de ser reforma, é claro. Mas com olhos mais voltados aos contratos internacionais que, quando redigidos em português, precisavam de duas versões, ao mercado de livros, que se via obrigado a fazer edição especial para além-mar, ou ao continente africano e suas potencialidades político-econômicas do que às reformas que cotidianamente se faz na língua.

Por exemplo: para para pensar. Agora não tem mais acento no "pára", então fica assim mesmo: para para pensar. Talvez essa falta de acento nos faça tropeçar na frase, e aí eu escreveria, como falo, "para pra pensar" e não "para para pensar", o que pode acarretar que daqui a uns cinquenta anos a preposição para vire definitivamente pra, a fim de diferenciar-se do outro para. Mas agora, pelo menos, qualquer texto em norma culta escrito em Porto, Lisboa, Luanda, Maputo ou Rio de Janeiro terá essa forma: para para pensar.

Claro que a reforma, ou acordo, traz consigo enorme polêmica. Para alguns a mudança é desnecessária, dispendiosa, coisa de partido de esquerda quando chega ao poder. Para outros, é tímida demais, deveria começar eliminando os hífens e, quem sabe, depois os acentos todos. Particularmente acho que o grande problema é que a mudança nos faz perceber como o tempo está passando e como precisamos mudar, nos atualizar. Mudar não só o acento da ideia como também as próprias ideias...

Porque mudar o dicionário é como mudar a posição solar, a divisão dos países, a cor da bandeira: desde que nascemos ideia é idéia e, de uma hora para outra, não é mais. E por que não é mais? Pelo mesmo motivo que um dia fora. Esse tipo de mudança numa instituição forte como a ortografia nos faz perceber, portanto, como também nossa língua é fruto de construções, construções que com o tempo se perdem e por isso passamos a tomar as palavras por códigos arbitrários. Mas observe, por exemplo, a palavra discar: daqui a cinco gerações continuarão usando discar com o sentido de telefonar, mas poucos lembrarão que, um dia, os telefones tinham um disco e para se falar com alguém era preciso discar... Outra palavra, para ficar nas afetadas pela reforma: mandachuva. Não tem mais hífen, porque ninguém mais lembra porque se uniu, um dia, "manda" e "chuva" para designar alguém mandão. Ninguém lembra, nem eu, mas alguma razão há de existir.

No frigir dos ovos, tenha a palavra "linguística" trema ou não as pessoas continuarão tendo dificuldades para lidar com as regras de acentuação ou com a confusa conjugação dos nossos verbos, palavras em inglês e, agora, em chinês continuarão tomando conta dos dicionários e homogeneizando as línguas e culturas como um todo e, pior ainda, as pessoas continuarão escrevendo pouco, muito pouco. Com ou sem acento, com ou sem hífen.

Para nós, que saímos da escola quando Plutão ainda era um planeta, evidentemente que adaptar-se à mudança será uma epopeia: teremos de desautomatizar a colocação dos acentos e do trema, comprar dicionários novos, mudar o corretor ortográfico do computador. Ou não, porque assim como nos anos setenta uma parcela da população manteve-se conservadora e insistindo no pôrto ou no cafézinho, é possível que muitos se neguem a adquirir novos hábitos e insistam a escrever como aprenderam na escola.

Mas no final das contas, fique tranquilo, tudo continuará como antes. As assembleias europeias continuarão protecionistas, confusas e poderosas. As mulheres seguirão nuas em pelo nas esquinas das cidades. Grupos antissemitas continuarão existindo, e também grupos antirreligiosos. A Coreia do Norte continuará antipática à Coreia do Sul. Delinquentes continuarão fazendo sequestros relâmpagos. Voos heróicos continuarão matando inocentes sob o aplauso de uma plateia patética diante da televisão. Pseudointelectuais continuarão dizendo que leem poetas neossimbolista, romances neorrealistas. E eu continuarei não gostando de pera nem de geleia nem de tramoia nem de feiura.

Marcelo Spalding