segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

O Teatro gaúcho pede passagem


Marcelo Spalding

O verão de Porto Alegre é quente, muito quente, um calor abafado que nos joga em cima de um sofá, debaixo de um ventilador ou nos expulsa para o litoral. Mas há 10 anos um grupo de atores, entre eles o meio global Zé Victor Castiel, criou o Porto Verão Alegre, uma espécie de festival que é mais do que festival pela enorme abrangência, variedade e duração.

Durante dois meses, os meses quentes de janeiro e fevereiro, diversos teatros de Porto Alegre recebem diariamente belas montagens gaúchas a preços razoáveis, recrutando um público que não estava acostumado a frequentar teatro e movimentando todo o sistema cênico da capital. Para alguns, é a única oportunidade de encenar suas peças, e só isso já seria um mérito importante do festival, mas aos poucos se percebe que não, que o maior mérito é dar fôlego para que as produções locais não apenas surjam como cresçam, amadureçam e atravessem as estreitas fronteiras do Rio Grande do Sul. E é sobre alguns destes espetáculos que vou escrever, com a certeza de que em algum momento eles estarão na sua cidade, no seu Estado, e desejando com sinceridade que você os assista e descubra que há, nos palcos, vida inteligente fora do eixo Rio-SP.

Bailei na Curva é o caso mais bem-sucedido, pelo menos entre os espetáculos ainda em cartaz. Escrito por Júlio Conte há 26 anos, conta a história do Golpe Militar a partir do ponto de vista de crianças porto-alegrenses, abordando de frente um problema político e social importante sem se tornar em nenhum momento pesado ou superficial, arrancando da platéia gargalhadas e, ao final, a levando às lágrimas, numa raríssima bem-sucedida combinação de comédia e drama.

Por conta do sucesso da montagem, a atriz Patsy Cecato, casada com Júlio Conte e uma das atrizes da primeira montagem de Bailei..., é hoje sócia de uma das produtoras mais ativas da Capital, a Cômica Produtora, responsável por outros tantos espetáculos na programação do Porto Verão Alegre, como Se meu ponto G falasse e Manual Prático da Mulher Moderna. Mas aqui quero indicar outra montagem, Hotel Rosa-Flor, um texto simples, clássico (com início, meio e fim em ordem direta), que poderia ter sido transformado em conto, romance ou cinema, mas virou teatro dirigido por Júlio Conte. Apostando em cenário e figurino completos e grande elenco, a peça nos remete ao ambiente das produções cinematográficas sem abrir mão de um roteiro complexo, avesso a maniqueísmos ou estereótipos. Ano passado, por exemplo, Larissa Maciel atuou em Hotel Rosa-Flor, de onde decerto foi revelada para ser a Maysa da minissérie global.

Outro que começa a ganhar as telas do centro do país é Roberto Birindelli, ator e diretor do monólogo Il Primo Mirácolo. Neste espetáculo, Birindelli interpreta 21 personagens sem recursos de cenografia, figurino ou iluminação, desdobrando-se com versatilidade entre soldado e Rei Mago, anjo e estrela cadente, Jesus, Maria, José e Deus. O espetáculo, há 16 anos em cartaz, foi idealizado como projeto de graduação no Curso de Artes Dramáticas ― Interpretação Teatral da UFRGS, "sendo fruto de uma pesquisa centrada na presença cênica do performer e na relação ator-espectador, baseada em alguns princípios básicos da Antropologia Teatral", segundo consta no site do ator. O público, aliás, disposto ao redor de um quadrado onde a cena ocorre, é mais do que espectador, sendo chamado a participar cantarolando, respondendo, questionando e, talvez mais do que isso, emoldurando a cena, pois como as luzes estão acesas e as pessoas dispostas em quadrado, pode-se ver a reação dos outros espectadores, suas caretas, risadas e surpresas.

O texto de Il Primo Mirácolo é do italiano Dario Fo, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1997. Curiosamente, há outro monólogo de sucesso na capital gaúcha, também em cartaz há mais de 15 anos, cujo texto é adaptado de Dario Fo. Trata-se de Pois é, Vizinha..., de Deborah Finocchiaro. Com mais de 500 apresentações e 200 mil espectadores, o espetáculo conta, através de muitos risos, a trágica história de uma dona-de-casa trancada em casa pelo marido no dia em que ela se depara com uma vizinha do prédio em frente e desabafa. O monólogo tornou Deborah uma figura conhecida entre os porto-alegrenses, e este respaldo permitiu que a atriz apostasse em trabalhos mais autorais, como Sobre Anjos e Grilos ― O universo de Mario Quintana e o recém-lançado Histórias de um Canto do Mundo ― Memórias de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul. Além disso, investiu na direção e está em cartaz com O Urso, uma inspirada montagem do texto de Tchekhov em que a multiplicação da protagonista em três atrizes, representando os três estados de espírito distintos da viúva, permite numa interseção de ações, falas e gestos que serve de contraponto cênico interessantíssimo para um texto tão cotidiano.

Cotidiano também é a marca do texto de Luis Fernando Verissimo, levado ao palco por Zé Victor Castiel, que interpreta o próprio escritor em O marido do Dr. Pompeu. Na peça, o universo de encontros, cantadas, coincidências, jantares, mentiras, equívocos, gemidos, farsas e decepções de Verissimo é transformado numa interessante história, muito bem costurada e interpretada por João França e Fernanda Carvalho Leite.

Fernanda que, ao lado da também talentosíssima Ingra Liberatto, também protagoniza Inimigas Íntimas, peça em que duas mulheres de meia idade, amigas de infância e adolescência, se reencontram depois de anos e marcam um jantar. O interessante da peça é que a partir desse conflito tão universal, atemporal e explorado pela literatura, pelo teatro ou pela televisão, Fernanda e Ingra conseguem fazer o público rir de suas próprias idiossincrasias, de seus próprios caprichos, e refletir sobre suas próprias amizades e suas próprias invejas.

São sete espetáculos, sete grupos distintos e sete histórias de sucesso do teatro local que começam a aparecer com frequência também nos palcos do centro do país. Porque não é fácil, e disso sabemos todos nós, fazer teatro sem estar na televisão, sem o plim-plim diário tornando o rostinho bonito mais e mais conhecido. Mas aqui em Porto Alegre tem se conseguido fazer, e se falo com orgulho dessa produção do meu Estado não é por bairrismo, mas porque tenho certeza que colunistas de outros estados do país poderiam fazer o mesmo, traçando assim um belo panorama do Teatro profissional brasileiro. Com T maiúsculo.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 19/1/2009.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

E a Turma da Mônica cresceu


Marcelo Spalding

Quando em 1959 o jornalista policial Mauricio de Sousa ofereceu aos seus redatores uma tira em quadrinhos sobre um cãozinho e seu dono, Bidu e Franjinha, não imaginava o sucesso que sua turma de personagens alcançaria no Brasil. Dos anos sessenta pra cá, pelo menos três ou quatro gerações conhecem os gibis, tirinhas, filmes e brinquedos com a marca da Mônica. E isso não é pouca coisa! Num tempo de avalanche norte-americana, de Mickey, Pateta e Pato Donald a todo vapor, a Mônica resistiu, e depois resistiu aos Jaspions e Power Rangers, ao Chaves, ao Shrek, firmando-se como a única referência cultural brasileira para crianças.

Claro que os adultos que um dia leram a Turma da Mônica, e por vezes se alfabetizaram lendo a Turma da Mônica, guardam carinho e saudade pelos personagens. Quem já não se identificou com Cascão, Mônica, Cebolinha, Magali, Franjinha, Chico Bento? Quem já não chamou algum cachorro de Floquinho por causa dos pelos, algum menino de Cascão pela falta de banho, alguma menina de Mônica pelo vestido vermelho, ou pelos dentões, ou pela brabeza? Quem não lembra da Magali ao comer melancia, do Cebolinha ao falar elado, da Rosinha ao ver alguém de tranças? Prova de que a maior qualidade de Mauricio de Sousa é a de criar tipos, personagens simples, carismáticos, transpostos do dia a dia das famílias brasileiras e reproduzindo, de certa forma, seus valores e preocupações.

Mas não quero aqui voltar aos quadrinhos de minha infância, nem antecipar as comemorações de 50 anos da primeira publicação da Turma. A novidade do momento é a Turma da Mônica Jovem. Na nova série, "eles cresceram", como anuncia a capa, mas não tanto quanto a idade da criação, e sim uns 10, 12 anos, o suficiente para atingir a idade de um grupo de leitores que continuou lendo quadrinhos. Sim, de uma geração para cá as crianças não substituem necessariamente quadrinhos por livros, muitas seguem na leitura de quadrinhos e prova disso são as edições de luxo dos quadrinhos de heróis e a onda de publicações japonesas que chegam por aqui. E é essa a geração que convenceu Mauricio de Sousa a entrar em novo mercado, mexer nas consagradas figuras de Mônica, Cebolinha, Magali e Cascão.

Confesso que não achei o número 1 para comentar nesta resenha, até porque segundo comunicado do próprio Mauricio, publicado no número 2, "a editora teve de religar a impressora várias vezes para atender à demanda explosiva, e de uma previsão que ia pelos 50, 60 mil exemplares, saltamos para mais de 200 mil". Mas o número 2 de certa forma continua uma história iniciada no primeiro, retoma a apresentação das quatro personagens principais e nos dá uma boa noção do projeto.

Em geral, minha principal curiosidade era como adaptar aquelas crianças tão politicamente incorretas para os dias de hoje. Uma coisa é um cartunista em busca de espaço criando suas personagens, outra é um megaempresário de sucesso pensando num novo nicho de mercado em um tempo de consciência ecológica, pacificista, nutricional, social e assim por diante. Tinha certeza que a Magali não seria uma adolescente obesa, apesar de existirem tantas. Que o Cebolinha não falaria elado e nem arrumaria briga com os vizinhos, apesar de tantos o fazerem. Que o Cascão não continuaria fugindo da água, nem fedendo. E, principalmente, que a Mônica não bateria mais nos amigos com ou sem coelho, fosse ou não dentuça. O que, convenhamos, tiraria toda a graça da história.

Mas a solução encontrada pela equipe de Mauricio de Sousa foi engenhosa e pode se tornar bastante produtiva. A Mônica ainda é a líder da turma, um tanto nervosa, mas cresceu, ganhou corpo, altura e o Sansão fica guardado na cama do quarto. A Magali segue esfomeada, mas se cuida, busca uma alimentação saudável e tem um corpão. O Cebolinha foi numa fonoaudióloga e só fala elado quando está nervoso (grande sacada!). Virou namorado da Mônica. E do Cascão foi ampliado o lado moderno, de skatista, das gírias, e mesmo que não goste, agora toma banho sem dramas. Em suma, numa linguagem teórica pode-se dizer que os personagens se tornaram menos planos e mais esféricos, menos simples e mais complexos, sem perderem a essência construída ao longo de 50 anos.

A estética dos gibis, como se tem comentado muito, é mangá, o estilo anime japonês que saltou dos quadrinhos para os desenhos de televisão até quase a exaustão. Mais alinhado ao público jovem, traz ilustrações grandes (algumas de página inteira), cenários mais elaborados, impressão em preto e branco e mais de uma centena de páginas. Esteticamente a adaptação não foi traumática, pelo contrário, atualizou a linguagem simples da Turma da Mônica para uma geração muito acostumada a imagens. A dúvida é se esse alinhamento com o mangá irá provocar também uma mudança de conteúdo.

Se tomarmos como exemplo o número 2, que tenho em mãos, o conteúdo das histórias mudou muito mais do que as personagens, num claro rompimento entre uma e outra geração. As primeiras histórias da Turma da Mônica Jovem nos levam para um mundo de fantasia, com unicórnios, monstrengos, dragões e feiticeiras que precisam ser destruídos. Para combatê-los a Mônica se torna arqueira; o Cebolinha vira guerreiro; a Magali, feiticeira; e o Cascão, ladino (numa clara referência aos RPGs). Os quatro são transportados para outra dimensão e lá precisam resgatar cinco chaves, lutando contra monstros tão feios e perigosos quanto fáceis de serem vencidos.

Para nós, acostumados aos conflitos realistas e cotidianos dos gibis, essa "harrypotterização" da Mônica desagrada, quase ofende. Pode ser que seja apenas um começo, que em breve vejamos a Turma com conflitos de adolescentes, sem pirotecnias e sem apelar para a batida luta entre Bem e Mal, para clichês como fuga em montanha russa, para cenas de lutinha que lembram os desenhos japoneses exaustivamente repetidos na televisão.

E isso não porque a Turma de antes era melhor que a de agora ou porque os adolescentes precisam de algumas lições. Não! Apenas porque um grupo de personagens que sobreviveu a Mickey, Pateta, Pato Donald, Jaspion, Power Rangers, Chaves, Shrek não pode levar surra do Pokémon, não pode se transformar sob o risco de perder a essência que o trouxe até os anos 2000.

Nesse sentido me preocupa um trecho da já citada carta de Mauricio de Sousa na edição nº 2: "vai ser um bom trabalho, com ramificações pra todo lado, desde publicações especiais com a turminha, licenciamento, desenhos animados, a turma da escola, no celular, na música, em shows, como produto de exportação...". Está bem, não sejamos ingênuos, é claro que a Turma da Mônica só sobreviveu a Walt Disney pela visão comercial de Mauricio, mas será mesmo preciso pensar nesse passo importante, nesse novo momento como um novo produto? Será preciso mencionar licenciamentos e porcarias para celular, que certamente farão as crianças obrigarem os pais a gastar? Não haverá bandeiras mais dignas do tamanho da Turma da Mônica, como incentivo a leitura, valorização do nacional, conscientização de problemas sociais que não aparecem na televisão? Espero que sim, espero que aos poucos a turma seja menos Quarteto Fantástico, menos Harry Potter e mais Shrek, Toy Story, Madagascar, bons exemplos de "produtos" para criança capazes de entreter, fazer pensar e ainda divertir os pais que estão acompanhando os filhos.

Porque os leitores cresceram, é verdade. Mas nem todos ficaram altos, bonitos, fortes, atraentes e felizes.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 2/1/2009.