quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

O melhor da década na literatura brasileira: prosa

Marcelo Spalding

Todo final de ano são feitos aqueles balanços sobre o que houve de melhor e pior em cada área. Em literatura, este tipo de lista é sempre problemática, pois muito dificilmente alguém conseguiu ler parte significativa da produção daquele ano, e acaba se repetindo os vencedores de prêmios ou os preferidos da mídia.

Este ano, porém, tem uma particularidade: fecha também uma década, a década dos zeros (2000 a 2009). Virá algum purista me dizer que a década só fecha em 2010, mas não é verdade, porque apesar de não ter existido o ano 0, existiu o ano 2000, então de 2000 para 2009 são 10 anos, uma década.

Arrisco, então, uma lista com os dez livros mais interessantes, para mim, dessa década. Lista restrita à prosa e sujeita a todo tipo de acréscimos, e o leitor fique à vontade para postar nos comentários seu preferido da década.

Dois Irmãos, de Milton Hatoum, 2000

Quando um livro consegue se tornar leitura obrigatória de vestibulares do Norte ao Sul, literalmente, em menos de 10 anos, ele merece atenção. E é o caso de Dois Irmãos, belíssimo romance do manauara Milton Hatoum sobre a relação de dois irmãos tão diferentes entre si, Hakim e Omar, narrada a partir de Nael, filho da empregada da casa com um dos dois irmãos. Ainda na década, Hatoum lançaria o ótimo Cinzas do Norte (2005), também Prêmio Jabuti, mas eu sigo preferindo a força narrativa de Dois Irmãos.

Coração aos Pulos, de Carlos Herculano Lopes, 2001

A obra do mineiro Carlos Herculano Lopes reúne 39 contos que tratam de temas como suicídio, morte, relações familiares distorcidas e conflito de identidade, permitindo-se alguns finais felizes e boa dose de surrealismo. Mesclando contos longos e curtos (o conto que dá título ao livro tem seis páginas), predominam os mínis, de cem, cento e cinqüenta palavras, quando muito, o que marca uma forte tendência da contística da década.

O pintor de retratos, Luiz Antonio de Assis Brasil, 2001

Este é o primeiro livro da nova fase desse grande romancista gaúcho. Segundo conta o próprio Assis, na viragem do milênio ele escrevia seu décimo quinto romance quando, a certa altura, achou que estava se repetindo e apagou tudo o que tinha escrito. Conta o mestre que então abriu em sua biblioteca um livro de El Cid e deu-se conta de que dizer mais em menos espaço era a solução técnica que procurava. “Na Idade Média se fazia assim, a Bíblia é escrita assim”, ele diz. E desta forma escreveu Pintor de Retratos, lançado em 2001, A margem imóvel do rio, de 2003, premiado com o Jabuti e o Portugal Telecom, e Música perdida, de 2006.

Arquitetura do Arco-Íris, Cíntia Moscovich, 2004

Cíntia Moscovich, a ótima contista gaúcha, tem três livros de contos e uma dissertação sobre o conto: O Reino das Cebolas, sua estreia em 1996, antes de estudar o conto; Anotações durante o incêncio, publicado em 2000, durante seu mestrado sobre o conto; e Arquitetura do Arco-Íris, publicado em 2004, que de alguma forma sintetiza toda a leitura e o estudo da escritora sobre o gênero. Em contos de feitio clássico, reafirma toda a potencialidade do gênero e projeta a autora como das melhores da década no Brasil.

Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século, organizado por Marcelino Freire, 2004

A obra traz cem histórias inéditas com até cinqüenta letras, sem contar o título e a pontuação. Feita como paródia a ótima antologia Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século, organizada por Ítalo Moriconi, leva a estética minimalista ao limite e marca definitivamente o surgimento e a afirmação do gênero miniconto no Brasil (muito popular na internet). Claro que há ótimas realizações como péssimas tentativas, mas a proposta em si é extremamente produtiva e já virou moda em oficinas de criação literária Brasil afora.

A milésima segunda noite, de Fausto Wolff, 2005

A mistura de gêneros é, sem dúvidas, uma das principais características da contemporaneidade, e nessa década poucos a levaram ao ponto de Fausto Wolff neste livro. Fausto intercala narrativas (com tempos, personagens, narradores e onisciências diversos) com pensamentos, trechos de livros seus, artigos opinativos, breves e geniais biografias, breves e geniais ensaios, resenhas, verbetes, poemas em prosa... Politicamente incorreto como poucos escritores contemporâneos têm coragem de ser, Fausto questiona a política de Israel, os movimentos feminista e homossexual, ironiza a grande mídia e seu jornalismo subserviente, não poupa palavras para definir Bush, FHC, os banqueiros e políticos em geral. Talvez este livro, se não tivesse Noll publicado um antes, devesse carregar o epíteto de “um painel minimalista da criação”. Estaria se definindo melhor do que todas as tentativas do próprio livro de o fazer.

Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves, 2006

Na década dos mini e microcontos, da mistura de gêneros, da rapidez e fragmentação, nada como uma saga anacrônica, com quase 1000 páginas, para contar a história da escravidão no Brasil. Pois essa foi a ambição da mineira Ana Maria Gonçalves em Um defeito de cor, romance que narra a história de Kehinde desde seu nascimento em Savalu, reino de Daomé, em 1810, até a morte em Salvador, Bahia, já liberta mas com as marcas da escravidão. Millôr Fernandes, em coluna na Folha de São Paulo em setembro de 2006, coloca Um defeito de cor entre um dos livros mais importantes, entre os 10 melhores que leu “em nossa bela língua eslava”.

Os Vendilhões do Templo, de Moacyr Scliar, 2006

Política, religião e mulher não se discute: ainda bem que Scliar nunca deve ter ouvido esta frase. Em Vendilhões do Templo, as personagens não apenas discutem como suas vidas são movidas pela política, pela religião ou pelas mulheres. Quando não o são é porque a personagem deixou-se levar pela ganância, pelas moedas sujas que Cristo já condenara no episódio do vendilhão do templo. Romance em três partes, leva o leitor de volta a Era Cristã, depois a uma fictícia redução indígena no Sul do Brasil, no ano de 1635, e finalmente ao ano de 1997 nessa mesma redução, hoje cidade (fictícia) de São Nicolau do Oeste. Em meio a isso tudo, três histórias de fôlego e questionamentos importantes sobre feridas ainda abertas como a mercantilização até mesmo das ideologias ou a falta de sentido e de respostas para a vida da classe média.

Adeus contos de fadas, de Leonardo Brasiliense, 2006

A literatura infanto-juvenil atravessa a década com uma vitalidade impressionante, e Adeus contos de fadas é apenas um exemplo de livros feitos para adolescentes que podem – e devem – ser lidos por toda a família. Reunião de setenta e duas histórias com mais ou menos cem palavras (às vezes bem menos do que isso), surpreende pela explosão possível a partir de verdadeiras pérolas, pequenas e valiosíssimas. Depois do premiado livro, Leonardo, que já escrevia e publicava desde o século passado, lançou nacionalmente um livro de contos e deve estrear em breve pela Companhia das Letras. Promete ser um nome forte já da próxima década.

Leite derramado, de Chico Buarque, 2009

Chico Buarque é artista que o tempo valorizará como poucos. Músico, compositor e dramaturgo, ao se lançar na literatura produziu belos romances como Budapeste (2003) e o mais recente Leite derramado. Aqui Chico faz uma volta pela história brasileira dos últimos cem anos a partir de um personagem à beira da morte, tal qual Brás Cubas, de Machado. Nestes cem anos estão a ascensão e queda de certa burguesia carioca, a ditadura militar e sua violência, o surgimento do tráfico de drogas e a desestruturação das famílias. Chico, porém, ao deslocar seu narrador faz com que os temas sejam vistos apenas de soslaio, e ao invés de um romance político-ideológico utiliza a ideia de romance-estrelar, muito própria desta década, aliás, com as histórias sendo contadas alternadamente, sem linearidade definida. Chico seria, hoje, meu candidato brasileiro a um Nobel.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Literatura para quê?

Marcelo Spalding

Eis uma questão recorrente em salas de aula, mesas de bar: afinal de contas, literatura para quê? Respostas prontas temos várias: ler é viajar, ler é conhecer a si mesmo, ler é trilegal, ler é tudo. Mas raros são os textos sérios sobre o tema, textos que abordem de frente a diminuição do tempo de leitura, do gosto pelos livros, especialmente os literários, do desinteresse social por uma instituição milenar como a literatura. Por isso indico a leitura do livro de Antoine Compagnon “Literatura para quê?” (Editora UFMG, 2009), resultado de uma conferência do autor no Collège de France.

Logo num primeiro momento percebemos que essa problemática não é própria do Brasil e sua educação deficiente: Compagnon fala do “berço da civilização” para um público de letrados franceses que um dia estudaram ou conheceram Barthes, Lévi-Strauss, etc. E diz:

“Hoje, mesmo se cada outono vê a publicação de centenas de primeiros romances, pode-se ter o sentimento de uma indiferença crescente pela literatura ou mesmo de um ódio à literatura, considerada como uma intimidação e um fator de ‘fratura social’. (...) Toda menção ao poder da literatura era julgada obscena, pois entendia-se que a literatura não servia para nada e que somente o domínio dela contava. Mas em nossa época de latência em que o progressismo como confiança no futuro não está mais na ordem do dia, o evolucionismo sobre o qual a literatura repousou durante todo um século pode ter chegado a seu termo.”

Preciso nos diagnósticos, o autor não consegue, porém, responder de forma convincente sua própria indagação, embora aponte alguns “para quês” fundamentais. Lembra uma frase de Sartre, por exemplo, que dizia: “mesmo que não haja livro que tenha impedido uma criança de morrer, seu poder nos faz escapar das forças de alienação ou de opressão”. “Contrapoder”, dirá Compagnon, “[a literatura] revela toda a extensão de seu poder quando é perseguida. Por conseguinte, o enfraquecimento da literatura no espaço público europeu no final do século XX poderia estar ligado ao triunfo da democracia: lia-se mais na Europa, e não somente no Leste, antes da queda do muro de Berlim”.

O deleite, é claro, também aparece como um motivo importante para a existência da literatura, mas Compagnon ressalta que “a recusa de qualquer outro poder da literatura além da recreação pode ter motivado o conceito degradado da leitura como simples prazer lúdico que se difundiu na escola do fim do século”. Adiante, o autor arrisca que “a literatura deve ser lida e estudada porque oferece um meio de preservar e transmitir a experiência dos outros, aqueles que estão distantes de nós no espaço e no tempo, ou que diferem de nós por suas condições de vida”.

A evolução tecnológica e o surgimento de outras mídias para a ficção, como o cinema, não passam desapercebidos pelo autor, que afirma, entretanto, que “a literatura inicia superiormente às finesses da língua e às delicadezas do diálogo”, para concluir sua fala, adiante, dizendo ser a literatura não a única, mas mais atenta que a imagem e mais eficaz que o documento, o que é suficiente para garantir seu valor perene. “Ela é A vida: modo de usar, segundo um título impecável de Georges Perec.”

Até aqui me ative ao precioso texto de Compagnon, que não poderia mesmo ser definitivo, mas expõe uma ferida aberta e nos permite, também, pensar sobre ela. Afinal, literatura para quê? Agora me proponho a arriscar algumas respostas.

Primeiro, não sou daqueles que acham que a literatura torna o homem ou a humanidade melhores. Meu pai deve ter lido meia dúzia de livros em toda sua vida e é uma pessoa boníssima, enquanto pessoas de ética duvidosa têm estantes abarrotadas de clássicos (lidos ou não), e por vezes se jactam em citá-los (Fausto e O Príncipe, não por acaso, entre eles).

Segundo, não acho que seja impossível vivermos sem literatura. Uma vez uma professora comentou, na faculdade, que era impossível vivermos sem poesia. Contestei, dizendo que muitas pessoas jamais abriram um livro de poemas, e ela me respondeu que na sociedade moderna muitas vezes as músicas, com suas letras, suprem esse papel. Bela resposta, me convenceu. Assim também nenhuma pessoa pode viver sem narrativas, mas pode viver sem ler romances, pois as narrativas estão no cinema, no teatro, nas telenovelas, nos quadrinhos.

Terceiro, não acredito que a literatura ajude alguém a “vencer na vida”. Não por culpa da literatura, mas porque “vencer na vida”, hoje, significa ter mais dinheiro ou mais poder ou mais respeito, e a literatura por si só não torna ninguém mais rico ou poderoso ou influente. Não por acaso policiais ganham muito mais que professores, e aspirantes a modelos são muito mais valorizada$ que escritores. Sem falar nos jogadores de futebol...

Ou seja, parte desse questionamento de literatura para quê tem a ver também com questionamentos mais amplos que devemos fazer sobre a vida. Viver para quê?, pergunto eu. Se for para acumular riquezas e porres e cargos, a literatura não serve para nada mesmo. Não se iluda. Agora se vivemos para conhecer, ampliar os horizontes, descobrir o outro e nós mesmos, explorar aquela enorme fatia do cérebro inexplorada pela maioria dos homens, a literatura é, sim, fundamental. Se valorizamos a liberdade e a diversidade, a literatura é, sim, fundamental. Se queremos indivíduos críticos e ativos socialmente, a literatura é, sim, fundamental.

Não só a literatura, claro. E está aí, aliás, uma grande confusão: a literatura perdeu muito espaço de 100 anos para cá, de 50 anos para cá, porque seu espaço era exagerado, superestimado. A literatura havia se institucionalizado de tal forma que se confundiu com a arte em si, mas a arte abriga o cinema, a música, o teatro, a ilustração, a pintura, a escultura e, inclusive, a literatura. Nem mais nem menos importante: a literatura é a arte da palavra.

Aliás, talvez responder para que literatura seja olhar com atenção essa definição: a literatura é a arte da palavra. Ou seja, enquanto existir arte ou enquanto existir palavra, fatalmente haverá alguém fazendo literatura e alguém buscando literatura.

Outra resposta mais afinada com nossa sociedade materialista seria a de que a literatura é uma “vantagem competitiva” porque um leitor de literatura sempre será um leitor melhor, mais preparado para as leituras técnicas, os concursos, os contratos... Mas deixo esse tipo de argumentação para os leitores de Maquiavel.

sábado, 14 de novembro de 2009

A arte de narrar a História


Marcelo Spalding

Escritores contam histórias, inventam histórias. Mas não só. Airton Ortiz, por exemplo, é um jornalista e escritor que viaja pelo mundo em busca da História com "H" maiúsculo para transformá-la em histórias de gentes e lugares distintos, distantes, por vezes esquecidos. Sua série Viagens Radicais já percorreu Egito, Himalaia, Índia, Everest, Kilimanjaro, Amazônia, Tibete, Alasca, o mundo Maia. E agora chega ao palco da guerra mais simbólica do século XX, a guerra que plantou a semente do pacifismo numa nação sempre belicosa e manchou de sangue a bandeira norte-americana.
Vietnã Pós-Guerra: uma aventura no sudeste asiático (Record, 2009, 266 págs.) começa quase como um diário de bordo, relatando desde o embarque de Ortiz (o autor-narrador-personagem) com seu amigo e fotógrafo Ferreira (que o acompanhará pela aventura) em Porto Alegre até a parada em Amsterdã, a chegada na Tailândia, depois a ida para Laos e, finalmente, a viagem ao Vietnã, quando a história toma novo rumo.
A partir daqui o livro é muito mais do que uma aventura, um relato de viagem, é uma contundente lição de história e humanismo. Ortiz, mais do que procurar no país o exótico de uma cultura outra ou deixar-se maravilhar pelas muitas belezas naturais, ao longo da viagem conhece o palco das mais importantes batalhas da Guerra do Vietnã (ou Guerra Americana, como chamam os vietnamitas) e apresenta ao leitor passagens da milenar (e guerreira) história daquele povo, suas divisões e unificações, a influência/invasão francesa, a influência/invasão comunista, a influência/invasão chinesa.
Com um apanhado amplo, ajuda-nos a compreender como a guerra pôde ser vencida, o que estava em jogo, de que forma a luta influenciou na história mundial e, de quebra, nos leva a questionar que civilização é essa que mata, tortura, destrói o outro e sua cultura em prol de interesses políticos e econômicos.
"Antes de sair do parque, no final do dia, fomos conhecer o pagode de um só pilar, um dos símbolos de Hanói, construído em 1049 pelo imperador Ly Thaí Tong. Em 1954, um dos últimos atos de vandalismo dos franceses, ao abandonarem a colônia, foi destruir o prédio de madeira construído em volta de um único pilar de pedra. Livres dos franceses, os vietnamitas o reconstruíram a partir do material original."
Não espere, porém, uma leitura difícil. O maior mérito do livro, que pode ser encarado por outros como sua fraqueza, é a leveza da abordagem, pois não esqueçamos que se trata do relato de um viajante inserido num contexto de "aventura". Em meio a retomadas históricas temos cenas do prosaico cotidiano local, jantares em restaurantes típicos, diálogos com outros brasileiros que passam por lá. A pretensão de Ortiz, afinal, não é fazer um livro de História, e sim contar histórias a partir da História, e daí o humanismo do texto, que olha para as pessoas ao longo do trajeto, repara na menina descalça que os conduz no topo de uma montanha, no argentino que há anos joga futebol no país, no jovem que oferece até mesmo sua moto para ganhar algum dólar.
Ao jornalista e viajante soma-se ao longo do texto o escritor, capaz de condensar em cenas como essa toda uma trajetória:
"Durante a viagem tínhamos visto muitas fotos mostrando os horrores das batalhas, mas nada se igualava às cenas das pessoas fugindo com os corpos em chamas, outras sendo assassinadas enquanto pediam misericórdia deitadas no chão. Muitas, inclusive crianças, umas sem pernas, outras sem braços, algumas com as entranhas de fora, afogadas em sangue, tinham as feições retorcidas pelo horror ― os olhos pareciam querer saltar do rosto. Os corpos mutilados, espalhados pela aldeia, provavam que haviam sido torturados, por certo para confessarem onde estavam os vietcongues. Ao fundo do cenário, as casas queimavam. Em primeiro plano, soldados bem nutridos. Com pesadas botas e grossas roupas de guerra a proteger seus corpos, manuseavam armas de última geração. Orgulho da tecnologia industrial da América, eram capazes de matar dezenas de seres humanos em poucas rajadas. Impossível não chorar."
Já em outros trechos é o olhar crítico do jornalista que aparece ao analisar a situação do país pós-guerra, de uma geração que parece não ter vivido no palco de tantas atrocidades:
"Simpático e prestativo, Chung representava o padrão do jovem vietnamita nascido após a guerra, cuja única ideologia era ganhar dinheiro. Se durante anos infindáveis o Vietnã esteve dividido entre Norte e Sul, entre comunistas e capitalistas, entre cristãos e budistas, agora estava dividido entre os jovens empreendedores, ávidos por ganhar dinheiro, e os velhos, saudosistas da antiga utopia."
E aos poucos esse narrador-viajante, tão caro a Walter Benjamin, nos envolve com suas experiências e converte-se em personagem da própria história.
O jornalismo de aventura
A peculiaridade estética das obras de Ortiz renderam-lhe o mérito de criador de um novo gênero, o "Jornalismo de Aventura". Conversando com o autor, ele explica como surgiu esse termo e por que o adotou: "Não fui eu que criei esse nome para definir o tipo de jornalismo que faço nos livros, foram alguns alunos que assim passaram a chamá-lo em seus TCCs sobre os meus livros. Dizem eles que se trata de um gênero onde o jornalista é, ao mesmo tempo, repórter e protagonista da reportagem, e isso não existia antes. Coloquei esse título no meu site e parece que pegou".
Outra discussão que seus livros suscitam é a velha questão do que seja literatura. Pergunto se isso o preocupa de alguma forma, e Ortiz responde que todo texto belo, do ponto de vista estético, é literatura. "Quanto a linguagem em si", sintetiza Ortiz, "gosto de definir assim: a) Jornalismo: você informa; b) Romance: você sugere; c) Poesia: você insinua".
Pergunto, então, se não seria tentador "apimentar" os relatos de viagem com episódios ficcionais, fazendo algo mais próximo do jornalismo literário à Capote. Ortiz responde que não quer misturar as coisas e revela seu próximo projeto: "Acho que criei algo novo no jornalismo, o tal Jornalismo de Aventura, então que ele fique assim como está: puro. Mas estou criando uma nova coleção, que se chamará Expedições Urbanas. Serão crônicas sobre lugares interessantes em cidades interessantes. Como cronista, vou apimentar meus relatos, puxando para um texto mais literário. O primeiro livro será sobre Havana".

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 14/11/2009.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Rio 2016 pelo fim do complexo de vira-latas


Marcelo Spalding

Em 1958, há meio século, Nelson Rodrigues publicou aquela que se tornou sua mais célebre crônica: "Meu personagem da semana: o escrete"*, na qual cunhou o termo "complexo de vira-latas", até hoje utilizado para ilustrar a "a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo", nas palavras de Nelson. A crônica se referia ao escrete canarinho que embarcava para a Copa do Mundo de 1958. Dizia Nelson:

"Eis a verdade, amigos: ― desde 50 que o nosso futebol tem pudor de acreditar em si mesmo. A derrota frente aos uruguaios na última batalha ainda faz sofrer, na cara e na alma, qualquer brasileiro. Foi uma humilhação nacional que nada, absolutamente nada, pode curar. (...) E, hoje, se negamos o escrete de 58, não tenhamos dúvida: ― é ainda a frustração de 50 que funciona".

O final dessa história todo mundo conhece: com Didi, Zagallo, Mazzolla, Garrincha e Pelé o Brasil se consagrou campeão vencendo a Suécia, os donos da casa, por 5 a 2, depois de sair perdendo. Um título inesquecível que abriu caminho para a seleção mais vitoriosa do mundo, hoje com cinco Copas, e projetou aquele que se tornaria o maior jogador de futebol de todos os tempos: Pelé.

Dois de outubro de 2009, meio século depois da célebre crônica de Nelson Rodrigues e do grande título brasileiro, aconteceu de novo. E Pelé estava lá. E Pelé chorou como criança, como aos 17 anos chorara em Estocolmo, sob os olhos emocionados de autoridades do mundo todo: o Brasil vencia uma disputa mundial e o Rio de Janeiro era escolhido sede dos Jogos Olímpicos de 2016.

No Rio, a euforia foi geral, pois o apoio da população era enorme. Mas aqui e ali começaram a se ouvir muxoxos, críticas, ironias: como um país com tantos problemas de saúde, educação, segurança pode se dar ao luxo de sediar um evento deste porte? Quanto ganharão os políticos e as empreiteiras? O que se poderia fazer com os bilhões que serão investidos até 2016?

Nenhuma dessas perguntas escapa a nenhum brasileiro, nem a Nuzman, o herói dessa conquista, nem a Pelé, o emblema do Brasil esportivo, nem a Lula, o fiador deste novo país que se abre para o mundo. E por isso mesmo me parece incrível que mais de 60 autoridades olímpicas dos mais variados continentes, na hora de apertar o botão e escolher entre Madrid e sua riqueza, Madrid e sua estabilidade, Madrid e sua tradição ou o Rio de Janeiro e seus problemas, o Rio e sua incerteza, o Rio e sua inexperiência tenham escolhido o Rio. Foi o mundo que escolheu o Rio, foi o mundo que apostou no Brasil de uma forma que poucos brasileiros teriam apostado. Porque nós ainda temos complexo de vira-latas.

"Eu vos digo: ― o problema do escrete não é mais de futebol, nem de técnica, nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo. O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas e que tem futebol para dar e vender, lá na Suécia."

Quantos brasileiros, podendo escolher entre Chicago, Tóquio, Madrid e Rio de Janeiro escolheriam o Rio de Janeiro? Digamos que ganhasse um concurso e pudesse escolher uma dessas cidades para passar uma semana, quantos escolheriam o Rio, mesmo não conhecendo a Cidade Maravilhosa? Quantos brasileiros não passam as férias nos mais distantes litorais do mundo, gastando fortunas, e não conhecem o Rio? Será apenas por medo? Não, é pelo complexo de vira-latas.

Algumas gerações cresceram ouvindo falar que o Brasil era o país do futuro, enfrentaram a ditadura e sua violência, sua corrupção, depois acreditaram num novo país, na reconstrução, e deram de cara com um Collor, com a inflação num galopar sem fim e com o confisco. E dessa forma transmitiram, não sem razão, o complexo de vira-latas aos seus filhos. Voltemos a Nelson: "Gostaríamos talvez de acreditar na seleção. Mas o que nos trava é o seguinte: ― o pânico de uma nova e irremediável desilusão". Voltemos aos dias de hoje: gostaríamos de acreditar no Brasil, mas o que nos trava é o pânico de uma nova e irremediável desilusão.

Só que assim como em 58 o Brasil levou o título, e de virada, e fora de casa, e contra os mandantes, é chegada a hora de nossa geração esquecer esse complexo de vira-latas e fazer este país dar certo, aproveitar essa onda de oportunidades e transformar o Brasil numa nação que simbolize diversidade, vigor, desenvolvimento, esporte, cultura. Nada me irrita mais do que um jovem brasileiro formado e pós-graduado tentando emprego de garçom ou pedreiro na Europa ou nos Estados Unidos. Que complexo de vira-latas!

Sim, nós temos e teremos problemas na saúde, na educação, na segurança. Esses bilhões talvez ajudassem a minimizar esses problemas agora, construindo prisões ou hospitais. Mas há anos e anos, há séculos são construídas escolas, prisões, hospitais, e já era hora de percebermos que isso não é o suficiente. É preciso mais, é preciso uma força maior que impulsione cada cidadão a crescer pessoal e profissionalmente, estudar, empreender, aprender, cuidar dos filhos, pregar a paz, acreditar. Como Pelé, que mudou nosso futebol e pode ter sido decisivo para mudar nosso esporte como um todo. É preciso, afinal, que abandonemos o complexo de vira-latas: problemas todas as nações têm e terão, o que não podemos é nos eximir da tarefa de ajudar a resolvê-los em vez de torcermos o nariz para um recado tão contundente do mundo para nós, o recado de que eles acreditam no Brasil e em cada brasileiro.

Para terminar, volto a Nelson: "Só imagino uma coisa: ― se o Brasil vence na Suécia, se volta campeão do mundo! Ah, a fé que escondemos, a fé que negamos, rebentaria todas as comportas e 60 milhões de brasileiros iam acabar no hospício".

Nota do Editor
A crônica publicada em O berro impresso das manchetes com o título "Meu personagem da semana: o escrete" foi incluída no livro As cem melhores crônicas brasileiras com o título "Complexo de vira-latas".

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 14/10/2009.

sábado, 3 de outubro de 2009

Pelo fim do complexo de Vira-Latas

Em 1958, há meio século, Nelson Rodrigues publicou aquela que se tornou sua mais célebre crônica: “Complexo de Vira-Latas”. O termo, cunhado por ele e até hoje utilizado, significa “a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo”. O que pouca gente sabe é que a crônica se referia ao escrete canarinho que embarcava para a Copa do Mundo de 1958. Dizia Nelson:

“Eis a verdade, amigos: - desde 50 que o nosso futebol tem pudor de acreditar em si mesmo. A derrota frente aos uruguaios na última batalha ainda faz sofrer, na cara e na alma, qualquer brasileiro. Foi uma humilhação nacional que nada, absolutamente nada, pode curar. (...) E, hoje, se negamos o escrete de 58, não tenhamos dúvida: - é ainda a frustração de 50 que funciona”.

O final dessa história todo mundo conhece: com Didi, Zagallo, Mazzolla, Garrincha e Pelé o Brasil se consagrou campeão vencendo a Suécia, os donos da casa, por 5 a 2, depois de sair perdendo. Um título inesquecível que abriu caminho para a seleção mais vitoriosa do mundo, hoje com cinco Copas, e projetou aquele que se tornaria o maior jogador de futebol de todos os tempos: Pelé.

Dois de outubro de 2009, meio século depois da célebre crônica de Nelson Rodrigues e do grande título brasileiro. Aconteceu de novo. E Pelé estava lá. E Pelé chorou como criança, como aos 17 anos chorara em Estocolmo, sob os olhos emocionados de autoridades do mundo todo: o Brasil vencia uma disputa mundial e o Rio de Janeiro era escolhido sede dos Jogos Olímpicos de 2016.

No Rio, a euforia foi geral, pois o apoio da população era enorme. Mas aqui e ali começaram a se ouvir muxoxos, críticas, ironias: como um país com tantos problemas de saúde, educação, segurança pode se dar ao luxo de sediar um evento deste porte? Quanto ganharão os políticos e as empreiteiras? O que se poderia fazer com os bilhões que serão investidos até 2016?

Nenhuma dessas perguntas escapa a nenhum brasileiro, nem a Nuzmann, o heroi dessa conquista, nem a Pelé, o emblema do Brasil esportivo, nem a Lula, o fiador desse novo país que se abre ao mundo. E por isso mesmo me parece incrível que mais de 60 autoridades olímpicas dos mais variados continentes, na hora de apertar o botão e escolher entre Madrid e sua riqueza, Madrid e sua estabilidade, Madrid e sua tradição ou o Rio de Janeiro e seus problemas, o Rio e sua incerteza, o Rio e sua inexperiência tenham escolhido o Rio. Foi o mundo quem escolheu o Rio, foi o mundo quem apostou no Brasil de uma forma que poucos brasileiros teriam apostado. Porque nós ainda temos complexo de vira-latas.

“Eu vos digo: - o problema do escrete não é mais de futebol, nem de técnica, nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo. O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas e que tem futebol para dar e vender, lá na Suécia.”

Quantos brasileiros, podendo escolher entre Chicago, Tóquio, Madrid e Rio de Janeiro escolheriam o Rio de Janeiro? Digamos que ganhasse um concurso e pudesse escolher uma dessas cidades para passar uma semana, quantos escolheriam o Rio, mesmo não conhecendo a cidade maravilhosa? Quantos brasileiros não passam as férias nos mais distantes litorais do mundo, gastando fortunas, e não conhecem o Rio? Será apenas Por medo? Não, é pelo complexo de vira-latas.

Algumas gerações cresceram ouvindo falar que o Brasil era o país do futuro, enfrentaram a ditadura e sua violência, sua corrupção, depois acreditaram num novo país, na reconstrução, e deram de cara com um Collor, com a inflação galopante sem fim, o confisco. E dessa forma transmitiram, não sem razão, o complexo de vira-latas aos seus filhos. Voltemos a Nelson: “Gostaríamos talvez de acreditar na seleção. Mas o que nos trava é o seguinte: - o pânico de uma nova e irremediável desilusão”. Voltemos aos dias de hoje: gostaríamos de acreditar no Brasil, mas o que nos trava é o pânico de uma nova e irremediável desilusão.

Só que assim como em 58 o Brasil levou o título, e de virada, e fora de casa, e contra os mandantes, é chegada a hora de nossa geração esquecer esse complexo de vira-latas e fazer esse país dar certo, aproveitar essa onda de oportunidades e transformar o Brasil numa nação que simbolize diversidade, vigor, desenvolvimento, esporte, cultura. Nada me irrita mais do que um jovem brasileiro formado e pós-graduado tentando emprego de garçom ou pedreiro na Europa ou nos Estados Unidos. Que complexo de vira-latas!

Sim, nós temos e teremos problemas na saúde, na educação, na segurança. Esses bilhões talvez ajudassem a minimizar esses problemas agora, construindo prisões ou hospitais. Mas há anos e anos, há séculos tem se construído escolas, prisões, hospitais, e já era hora de percebermos que isso não é o suficiente. É preciso mais, é preciso uma força maior que impulsione cada cidadão a crescer pessoal e profissionalmente, estudar, empreender, aprender, cuidar dos filhos, pregar a paz, acreditar. Como Pelé, que mudou nosso futebol e pode ter sido decisivo para mudar nosso esporte como um todo. É preciso, afinal, que abandonemos o complexo de vira-latas: problemas todas as nações têm e terão, o que não podemos é nos eximir da tarefa de ajudar a resolvê-los ao invés de torcermos o nariz para um recado tão contundente do mundo para nós, o recado de que eles acreditam no Brasil e em cada brasileiro.

Para terminar, volto a Nelson: “Só imagino uma coisa: - se o Brasil vence na Suécia, se volta campeão do mundo! Ah, a fé que escondemos, a fé que negamos, rebentaria todas as comportas e 60 milhões de brasileiros iam acabar no hospício”.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

O gato diz adeus


Marcelo Spalding

O romance contemporâneo, a grosso modo, tem duas vertentes fundamentais: a conteudista e a formalista. À primeira pertencem aqueles romances nos quais a história contada é o mais importante, com enredos claros e bem elaborados, enquanto que, na segunda, o mais importante é a forma com que se conta, não havendo necessariamente um enredo ou uma "historinha" que leve o leitor adiante. Os grandes romances, porém, são aqueles que encontram um ponto de equilíbrio entre forma e conteúdo, como Dois Irmãos, de Milton Hatoum. Porque, quando a balança pende demais para um lado ou outro, temos o risco de um romance despretensioso, em que a história carrega um texto fraco, ou de um romance estéril, feito para um restrito público de intelectuais preocupados estritamente com as questões técnicas.
Leite derramado, mais recente romance de Chico Buarque, é um bom exemplo de um tipo de literatura que beira o experimentalismo, construindo o romance não em formato linear, mas como uma teia em que os fatos aos poucos vão se ligando e formando o enredo por trás do narrado, sem cair na esterilidade do puramente estético. Há, ali, conflitos e personagens que aos poucos vão surgindo e revelam ao leitor mais atento questões sociais muito além dos problemas particulares do protagonista. Mas não tente resumir a história do romance ou explicar sua temática de forma apressada, pois cada capítulo, cada frase e cada palavra foram construídos dentro de uma lógica maior, cerebral, formal.
Também é assim o quarto livro de Michel Laub, O gato diz adeus (Companhia das Letras, 2009, 80 págs.). Romance conciso, "recupera, com um tom que varia entre a frieza, a ironia e o ódio, a trajetória de dois casamentos ― um que termina, outro que tenta começar ― e suas consequências ― a paternidade, o abandono, os sentimentos de perda e culpa", segundo definição da orelha do próprio livro. Mas não espere encontrar este enredo de forma simples, clara e sequencial no livro, pois a narrativa alterna a voz de quatro personagens: Sérgio, um voyeur, escritor e professor universitário; Márcia, uma atriz casada com Sérgio que depois o deixará para ficar com Roberto; o próprio Roberto, também professor universitário que se verá envolvido na trama de Sérgio; e Andreia, apresentada inicialmente como leitora do livro, estudante de Letras e aluna de Sérgio, mas que se revelerá uma personagem fundamental para o romance.
Como temos quatro narradores distintos, em O gato diz adeus não há um enredo definitivo, uma história com claro começo, meio e fim, ainda que dispersos na forma de teia, como em Leite derramado. Temos, isso sim, quatro versões de uma história, quatro pontos de vista por vezes contraditórios e sempre incompletos. O risco, como bem aponta resenha de Daniel Benevides publicada na Bravo!, é que O gato diz adeus sofra do "mal de Montano, aquela 'doença' diagnosticada pelo espanhol Vila-Matas, cujo sintoma é certa palidez das emoções e a insistente rendição ao exercício estritamente literário".
Para começar, as personagens da própria narrativa são escritores, professores universitários, estudantes, o tipo de leitor a que se destina um romance experimental como o de Laub. Nesse sentido, logo o romance se revela também metalinguístico, pois ficamos sabendo que Sérgio, após seu livro de estreia ― "que teve meia dúzia de resenhas, e foi traduzido para meia dúzia de países, e esgotou a primeira edição em meia dúzia de anos" ―, publicou um romance contando sua história chamado, adivinhe, "O gato diz adeus".
O livro que lemos, então, torna-se personagem da própria história, mas ao livro supostamente escrito por Sérgio, composto pelas partes narradas por ele, soma-se também as intervenções de Roberto, de Márcia e de Andreia, intervenções essas que depois saberemos serem de tempos completamente distintos, numa clara opção pela técnica polifônica em detrimento da verossimilhança dos fatos. Como podemos estar lendo as intervenções de Márcia e Andreia ao mesmo tempo, como se tivessem sido escritas no mesmo momento?, se pergunta o leitor ao final do romance.
Não será essa, é claro, a única pergunta que o leitor irá fazer ao final do livro. Ocorre que o conflito principal, relacionado à paternidade da filha de Márcia, não receberá um desfecho, permanecendo em suspenso e emaranhado nas muitas versões que temos (diferentemente de Dois Irmãos, que narra a tentativa de Nael descobrir seu pai até o momento em que ele desiste da busca, terminando aí o romance, em O gato diz adeus a interrupção é da obra, não da personagem). Dessa forma, sequer a tragédia anunciada nos primeiros capítulos se concretiza para o leitor, à medida que os acontecimentos trágicos estão num tempo fora da história e seus efeitos já parecem sacramentados e, até, perdoados pela única que poderia perdoá-los.
Mas não parece que Michel Laub esteja mesmo preocupado em responder esse tipo de questão tão banal aos leitores. Enredar, surpreender, sugerir, jogar com o leitor parecem preocupações mais condizentes a um escritor que usa como protagonista outro escritor, a um livro que é também parte do próprio livro, a um romance que no final revela obras que o influenciaram.
Ao fim e ao cabo, o que fica do livro são belas imagens e algumas belas passagens que revelam a qualidade do autor por trás do jogo formal, como esta em que uma das narradoras, Andreia, sintetiza com maestria um irônico casamento "feliz", oposto ao narrado por Sérgio e Márcia:
"Eu me pergunto o que ele deixou de fora do livro. Fico imaginando se o casamento era apenas aquelas brigas. Se em algum momento os dois não baixavam a guarda. Duvido que isso não acontecesse, que eles não fossem vez que outra ao cinema ou visitar um amigo, que não andassem de carro pela cidade comentando as vitrines das lojas e as pessoas na calçada, que também não fossem capazes de ficar em casa à noite ocupados cada um com suas coisas, ele no escritório, ela cozinhando, e quando os dois estavam bem ela vinha até ele perguntar alguma coisa sobre o tempero da comida, e depois os dois jantavam e ele dizia algo engraçado e ela contava alguma história e os dois terminavam e ouviam um pouco de música e ficavam até tarde conversando no sofá que os dois tinham escolhido e iam para a cama quando a vizinhança e a cidade inteira já estava em silêncio".

Para ir além



Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 21/9/2009.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Patroazinha

Marcelo Spalding

Poucas alegrias eu guardo daquela casa na Bela Vista, às vezes é melhor nem lembrar. Gente desalmada, sem respeito, sem religião. Me chamavam de preto e me chamavam pra tudo, carregar compras, limpar piscina, cortar grama, atender telefone. O que eu menos fazia era dirigir, não sei por que me obrigavam a usar uniforme e quepe. O patrão não parava em casa, a patroa, desconfiada, tava sempre nervosa pelos cantos ou passando uma temporada na casa das primas e até a Rose nos últimos tempos vinha roubando coisas na despensa. Casa dos infernos. Só quem prestava mesmo era a patroazinha. Ah, a patroazinha... Eu vi aquela menina crescer, sabe? Quando cheguei na casa, era uma criança redonda e rosada, sempre em volta da mãe, quieta. Com o tempo foi perdendo peso e vergonha, alisou os cabelos, fez bronzeamento artificial, começou a ir todo dia pra malhação. Nunca sorriu pra mim, mas me olhava nos olhos pra agradecer quando eu a levava na escola, no clube, no shopping, nas amigas. Às vezes acho que fui mais pai dela do que da minha pequena, era eu quem a acordava de manhã, servia café e pão, levava na escola, buscava, trazia amigos, a chamava para o lanche da tarde, o jantar. Era eu quem ia e vinha na madrugada das festas, e talvez por isso fui o primeiro a perceber como a menina crescia, como as curvas cresciam, as pernas, os braços, os lábios. Mas nunca pensei que tanto, nunca pensei... até aquele dia.

Estava esperando a patroazinha descer há meia hora quando o patrão me ligou dizendo que o carro tinha quebrado e eu precisava ir o quanto antes buscá-lo no trabalho. Falei da festa da filha em Ipanema, mas ele mandou que eu fosse antes, fosse depois, mas fosse rápido. Gente sem respeito, desligou o telefone na minha cara. Olhei de novo o relógio e calculei que com o trânsito desse horário levaria pelo menos uma hora pra pegar o patrão no Iguatemi, voltar na Bela Vista e levar a patroazinha em Ipanema. Mas era o jeito. Peguei meu quepe e subi as escadas de dois em dois degraus para avisar a menina.

Há anos eu não entrava em seu quarto, só a chamava da porta e ela gritava já vou, dez minutos, espera, não enche. Mas dessa vez a porta estava aberta. Quase aberta. E não tinha barulho de música, de rádio nem de televisão. Fui mais pai dela do que o próprio pai, sempre ocupado, e talvez por isso eu tenha ficado tão apreensivo com aquele silêncio, e mais ainda quando da fresta da porta vi a patroazinha vendada, presa pelos dois pulsos na cabeceira da cama e nua, nua e quieta, nua e séria, nua e de mamilos firmes. Quase liguei pra polícia, mas logo percebi que ela não estava sozinha, chamava por alguém, sussurrava, implorava. Então ele apareceu, aquele que há dois meses eu buscava pra estudar com a menina, aquele que nunca me cumprimentou nem agradeceu. Moreno, forte e baixo, se aproximou da patroazinha com firmeza, beijou os lábios crescidos com desejo e deslizou as mãos nas curvas e nos prazeres dela. Deus me perdoe, devia ter ido embora, mas fiquei tão excitado e surpreso que não consegui mais desviar os olhos, fechar a porta, deixar a casa amaldiçoada pelo pecado. Vi o rapaz acariciar as partes da patroazinha com força, senti o cheiro de suor da menina, ouvi ele perguntar se ela tava pronta pra surpresa, se queria morrer de prazer naquela noite, na cama de lençol rosa, no quarto de ursinhos espalhados. Ela apertou as coxas com desejo, molhou a ponta dos lábios língua, talvez soubesse o que viria, decerto conhecia o outro, um rapaz mais alto, menos forte e de barba rala. Já se aproximou da minha menina abrindo a braguilha, tocou no seu rosto e pude perceber como ela ficou confusa e excitada com aquela terceira mão em seu corpo. Procurou os dedos estranhos com a boca, chupou-os, mordeu-os, e mais teria feito não fosse a pressa do rapaz, que reservava algo mais para a fome insaciável da patroazinha. Quatro mãos a exploravam e ela gemia sem remorso, dois estranhos a possuíam e ela rebolava sem medo, três gozos se misturavam e ela pedia mais, mais, insaciável. Desamarram as mãos e antes de a colocarem de quatro, tiraram a venda dos olhos.

Por um segundo achei que tivesse me visto, noutro foi como se a patroazinha voltasse a ser a menina redonda e rosada, de costas não tinha mudado tanto. Beijaram suas coxas, suas nádegas, e o diabo me tentando a participar daquela sem vergonhice, eu que não tinha coragem de acabar com aquilo, de fazer algum barulho, fechar a porta, eu que só experimentava nudez de mulher no escuro, a dois. Me imaginei como o mais alto e de barba rala, eu, o preto sempre pronto a ajudar, a esconder, a satisfazer os desejos de uma insaciável garota de pêlos escuros e gemido alto.

Naquele dia acabei não buscando o patrão no Iguatemi. Desci, tirei o quepe, sentei no sofá da sala e esperei outros trinta minutos até a patroazinha descer. Veio acompanhada apenas do mais baixo e forte, cabelo molhado, vestido de alcinha, quem sabe nua por baixo. Pegou o quepe, me entregou e sem me olhar nos olhos pediu para eu me apressar, estava muito atrasada. Foi meu último dia naquela casa da Bela Vista. Na manhã seguinte, o patrão me demitiu, furioso por eu não ter atendido o celular. E ainda estranhou quando eu insisti, pelo amor de Deus, para ficar pelo menos mais trinta dias. Ele jamais entenderia que eu não podia ter ido embora sem nunca ter visto minha menina sorrir. Não depois daquilo.

Como será a literatura na internet?

Marcelo Spalding

Há algum tempo ando às voltas com um novo tema, a literatura digital. Ou eletrônica. Ou on-line. Porque não podemos negar que a internet é o símbolo das novas tecnologias de comunicação, que já transformaram a música, o cinema, a televisão e, de certo, transformarão também a literatura.

Nessa linha, muitos já discutem o fim do livro como suporte, discussão que acho acessória (particularmente acho que os livros terão vida muito mais longa do que esses e-books baseados na versão em PDF dos livros, pois tais versões são como filmar uma peça de teatro e dizer que isso é cinema! Nada disso, o teatro sobreviveu ao cinema exatamente porque o cinema é outra coisa, com outras possibilidades e desafios). O que me intriga, então, é pensar de que forma a literatura será veiculada na internet, de que forma a literatura irá explorar as ferramentas das novas tecnologias para criar obras instigantes, originais, multimídias, interativas e, ainda assim, obras literárias, e não games ou clipes.

Vale lembrar que embora hoje literatura seja sinônimo de livro, nem sempre foi o livro o suporte da literatura. Ou alguém acha que as tragédias gregas não são literárias porque, em vez de impressas, eram encenadas? Ou que os contos de fadas não são literários porque, ao invés de escritos, eram transmitidos oralmente? Claro que não. O livro é apenas um meio de se transmitir literatura, assim como o LP, o K7, o CD ou o MP3 são meios/mídias diferentes para a mesma arte: música.

Ocorre que, na literatura, essas mudanças na forma costumam ser acompanhadas de profundas mudanças estéticas. O romance, por exemplo, é um gênero relativamente recente, associado à modernidade (Dom Quixote é de 1605), e seu apogeu em relação a outras formas, como a epopéia ou as tragédias, tem muito a ver com a invenção da imprensa e a facilidade de impressão de livros. Assim como Edgar Allan Poe, espécie de inventor do conto moderno, associa a short story à popularização das revistas e jornais.

Claro que isso demora anos, décadas, gerações. É preciso que as gerações nascidas sob a égide da nova tecnologia cresçam, produzam suas próprias ficções nesse suporte e com suas particularidades, depois cheguem nas academias, na mídia e passem a valorizar este tipo de produção. Mas é tarefa das cabeças pensantes do nosso tempo perceber a pertinência dessa reflexão, a potencialidade criativa que as novas tecnologias oferecem e incentivar essa criação. Foi com esse intuito, aliás, que promovi aqui no RS o I Prêmio Gaúcho de Arte Eletrônica. Foram três categorias, Artes Visuais, Cartum e Literatura, e acho que os trabalhos mais interessantes acabaram mesmo sendo na área de literatura.

CiberPoesia, da ilustradora Ana Gruszynski e do escritor Sérgio Capparelli, no concurso ficou com o Prêmio Especial por ser um projeto absolutamente a frente de seu tempo. Utilizando o Flash, o site traz diversos poemas visuais e ciberpoemas interativos que demonstram a riqueza de possibilidades da nova ferramenta: o leitor não apenas lê, ele também cria através da interação, vê os movimentos das ilustrações integrados ao poema e ao final observa o resultado da criação. Um projeto como esse só poderia surgir de um escritor acostumado com a literatura infantil, um gênero que há tempos não se restringe ao texto, e, por esse motivo, deixou de ser um trabalho único, autoral, para se tornar um trabalho de equipe (raros são os escritores que também são ilustradores, e poucos são os ilustradores que acumulam a função de designer gráfico dos livros).

Outro trabalho que chamou minha atenção foi a novela Desfocado, de Mauro Paz. Mauro contou que havia escrito essa novela e, na hora de publicar, decidiu aproveitar seu conhecimento em Flash para criar uma novela multimídia e interativa. Dessa forma, o leitor encontra um menu com hiperlinks para cada capítulo e, à medida que for avançando na leitura da história, irá se deparar com cartas manuscritas, chocolates que vão perdendo seus pedaços à medida que a leitura avança e assim por diante. Para quem tem uma conexão razoavelmente rápida, é divertimento na certa. Com boa literatura por trás.

Mauro concorria na categoria Literatura, onde os dois mais votados ― a votação foi feita por artistas cadastrados no portal que organizou o Prêmio ― foram o blog de Rubem Penz, Rufar dos Tambores, e o e-book de Ana Mello, Finais Felizes, que levou o troféu. Olhando de fora, poderia dizer que o trabalho de Ana Mello é uma espécie de exemplo da transição entre a cultura livresca e a cultura digital. Apesar de o texto ser publicado em formato de livro (PDF), a paginação é feita com o efeito flip, há todo um cuidado de acabamento (capa, diagramação) e o gênero escolhido é um gênero perfeito para a internet: o miniconto. Já o blog de Rubem representa todos os blogs literários inscritos para o prêmio, e foram diversos, o que também evidencia que há muito a literatura tem buscado seu espaço no mundo digital e os blogs, por se tratarem de ferramentas fáceis de usar e gratuitas, se tornaram a porta de entrada preferida.

Claro que a abrangência do concurso é pequena para o universo da internet, nosso Estado é apenas um entre os vinte e poucos do país e nosso país é um entre as centenas do mundo, mas com ele parece que consegui mostrar aos mais céticos que é possível, sim, fazer boa literatura para a internet. E, mais ainda, que é possível ser original e criativo no uso das ferramentas dessas novas tecnologias para a produção de literatura.

Evidentemente, voltarei ao tema em outras tantas colunas, provocando leitores e, acima de tudo, escritores a pensar diferente. Por enquanto, convido vocês a me enviarem links de outras obras literárias publicadas na internet para, aos poucos, criarmos uma biblioteca paralela somente com bons exemplos de literatura on-line. Somente assim, acabem as árvores, os papéis ou os livros, a literatura permanecerá mais viva do que nunca.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

As tentações do novo livro de Mayra



Marcelo Spalding

Quando uma adolescente estreia na literatura com um romance em primeira pessoa, é quase inevitável que a história seja autobiográfica e a narradora uma espécie de alter ego da autora. Ainda mais se a história é moderninha, descolada, cheia de sexo, drogas e rock'n'roll. O que não quer dizer, diga-se logo, que essa estreia será frustrada, e a autora, ruim. Fugalaça, de Mayra Dias Gomes, publicado em 2007, mostra que é possível uma adolescente narrar suas "peripécias" com um ritmo capaz de prender o leitor e ideias suficientes para superar eventuais clichês e pieguices. Na época, Mayra disse que Fugalaça era um "vômito literário", e comentei em resenha sobre o livro que o "vômito" era uma tentativa desesperada de compreender-se pelo resgate da memória, de ser aceita pela exposição, de reparar conflitos e dilemas insuperáveis pela aparente lógica proporcionada pelo papel.

Agora, dois anos depois, apenas dois anos depois, Mayra publica um novo romance, e novamente pela Record (decerto satisfeita com as vendas do primeiro), e novamente em primeira pessoa, e novamente com uma narradora mulher em busca de identidade. Mas, pasmem, ela resistiu à tentação: Mil e uma noites de silêncio (Record, 2009, 308 págs.) não é um novo Fugalaça.

Tentações, aliás, não faltaram nem para a protagonista nem para quem se aventura a comentar o livro. Comecemos pelas tentações para quem se aventura a comentá-lo:

A primeira tentação seria ler o segundo livro sob o mesmo prisma do primeiro, uma história autobiográfica, um alter ego de uma narradora jovem demais para imaginar histórias. E seria um olhar absolutamente preconceituoso e injusto com o novo romance de Mayra, que apresenta personagens densos, revela uma trama intrincada e se constrói a partir de uma imaginação privilegiada.

Outra tentação seria relacionar sua história com a literatura produzida pela "nova geração", uma geração de sexo, drogas e internet. E realmente encontraremos nessas mil e uma noites a droga, muitas drogas, ainda mais se entendermos álcool e remédios como drogas, mas dessa vez a droga não move as ações da protagonista e ela não terminará num leito de hospital depois de tentar o suicídio: Mayra soube superar esse perfil já estereotipado de menina rica e aborda o delicado tema do abandono em tempos de relações familiares fragilizadas.

Terceira tentação: ler o livro em paralelo com As mil e uma noites, e Clara seria uma nova Sherezade tentando sobreviver à depressão, aos abandonos, enquanto a degola do sultão seria sua própria apatia, capaz de fazê-la, por vezes, desejar a morte. Leitura possível, mas o título parece mais um jogo de palavras do que um sinal de intertextualidade, não há sequer a menção de que mil e uma noites separam o começo da narrativa do fim (e bem poderiam sê-lo).

Verdade que talvez todas essas leituras fossem válidas, mas se ficarmos apenas com uma delas será reduzir demais a obra: Mil e uma noites de silêncio é um romance que afirma Mayra como escritora, tirando-a do romance-diário, e deve mexer com uma geração carente tanto de afeto quanto de boas histórias que a represente.

Os dois temas predominantes da obra, tratados sem superficialidade e sem falsas soluções, são temas que parecem incomodar demais as novas gerações: a solidão e a identidade. Clara é uma menina abandonada pela mãe, adotada ainda bebê e que perde a mãe adotiva para o câncer pouco depois de ser deixada pelo noivo em pleno altar. Quando se vê sozinha, cheia de lembranças, saudades e pudores, perde as forças e se deixa levar por profunda apatia e resignação. A partir daí, questiona sua própria identidade e, por conseguinte, sua própria noção de realidade.
"Carente de afeto, eu me agarrava às verdades absolutas com as quais eu havia convivido até então. De qualquer forma, mesmo com esta repentina noção de realidade, ainda acreditava nas mesmas coisas."
A realidade, para Clara, não é o mundo de medos e saudades de sua cabeça, um mundo que não a permite viver a vida lá fora, se envolver. Mas também não parece ser a vida a dois que ela aos poucos constrói com um namoradinho, Lukas. Quando vai para o interior atrás de uma amiga, conhece a face da prostituição, das drogas, da miséria, e por vezes acredita finalmente ter encontrado o "mundo real". Mas não, também não é essa a realidade. Nem será quando finalmente procurar por sua mãe natural, pois descobrirá que também a vida familiar e "bem-sucedida" de uma família como aquela pode ser uma grande mentira.

No meio disso, as drogas (bebidas, remédios, entorpecentes) surgem mais como consequência do que como causa. As pessoas ao redor de Clara fumam, bebem, injetam, algumas de forma absurda, outras tentando conciliar a droga com seu cotidiano.
"Sozinha na mesa, eu analisava os convidados. Estava impressionada com a presença incessante da droga em minha vida. Mesmo que eu não fizesse uso de substância ilícitas, elas sempre encontravam uma maneira de afetar o ambiente em que eu vivia. O mundo inteiro parecia estar drogado."
Clara, porém, diferentemente da protagonista de Fugalaça, irá se manter longe das drogas, o que pode soar como careta para alguns leitores "descolados" mas condiz mais com a atitude de uma menina inteligente em busca de raízes, de respostas, e não de um prazer hedonista e fugaz.
Por fim, é de se saudar que Mayra Dias Gomes tenha resistido à tentação de se repetir numa provável continuação de Fugalaça e de se esperar que prossiga aperfeiçoando a técnica para dar vazão ao turbilhão de emoções e imagens que dela brotam. Imaginação e ritmo a menina tem de sobra.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 10/8/2009.

sábado, 8 de agosto de 2009

Literatura e interatividade: os ciberpoemas


Marcelo Spalding

Muito se tem falado sobre o fim do livro, e, por conseguinte, no fim da literatura. Mas tenho me dedicado a estudar o contrário: de que forma a literatura estará presente em outra mídia, no caso, a internet. Alguns teóricos da literatura, como Douwe Fokkema e Elrud Ibsch, em Conhecimento e Compromisso, chegam a admitir que a produção eletrônica de poesia e ficção não é impossível e "possa até levar a novos gêneros interativos", apesar de entenderem que "as novas mídias prejudicam o papel dos livros e outras formas impressas". Não por acaso os autores utilizam o termo "interativo", pois a interatividade tornou-se símbolo das possibilidades digitais já nos anos 80 e ganhou força com a evolução da World Wide Web nos anos 90.

Mas o que seria a interatividade? O que seria interativo? O computador, por sua "arquitetura sui generis", e tudo o que nele for publicado? Nesse caso, poderíamos considerar um livro publicado em PDF, digamos Dom Casmurro, de Machado de Assis, como interativo?

Diversos autores abordaram a questão da interatividade, não sem antes problematizá-la. Marco Silva, em Sala de aula interativa, busca recuperar a origem do termo, distingui-lo do termo "interação", usado na psicologia e ciências sociais, por exemplo, e apontar as duas críticas principais a que o termo esteve sujeito desde sua aparição, a polissemia e a banalização. Já Alex Primo escreve seu Interação mediada por computador "a partir de uma insatisfação com as teorias e conceitos de 'interatividade'", preferindo abordar a questão de outro modo e retomando o termo interação para distinguir entre interação mútua e reativa. Aqui iremos utilizar o termo "interatividade", ainda que ciente de sua polissemia e banalização crescentes, por ser um termo familiar nos estudos literários para se referir à interação mediada por computador em obras digitais.

Alguns romances clássicos da literatura universal podem ter antecipado a chamada multilinearidade da era digital, mas estão, naturalmente, amarrados ao seu suporte, o milenar papel. O Jogo da Amarelinha, talvez ainda o mais notável, é um romance escrito por Cortázar em 1963, e é considerado a principal obra do autor. A professora Marta Hoppe Navarro afirma que vários títulos de suas obras acentuam a tendência lúdica do notável escritor argentino, e define Rayuela ― seu título no original ― como uma obra que "revolucionou a literatura latino-americana com um romance para ser lido em saltos, de um capítulo a outro, como se fosse o jogo da amarelinha que lhe dá o título".

São algumas experiências contemporâneas de literatura on-line, porém, que têm chamado a atenção e atraído para si o termo "interativo". Uma dessas experiências é o conjunto de ciberpoemas dos gaúchos Ana Cláudia Gruszynski e Sérgio Capparelli publicados no site Ciber&Poemas. O site foi desenvolvido no ano 2000 e utiliza a linguagem Flash, software profissional que cria animações para a Web. No site há duas seções de poesias, uma com 12 poesias visuais, em que o usuário pode simplesmente ver e deixar um comentário no mural de recados, e outra com 10 ciberpoemas, em que o usuário é chamado a compor o poema arrastando ou clicando em elementos visuais dispostos na tela.

Em artigo sobre o desenvolvimento dos ciberpoemas, os autores explicam que o trabalho foi dividido em três fases. Primeiramente, "foram criados 28 poemas visuais, convergindo tecnica e esteticamente texto escrito com imagens do design, da pintura e outros tipos de desenho". Na segunda fase, oito poemas visuais foram escolhidos para serem retrabalhados hipertextualmente por diferentes profissionais, e na terceira fase foi feita uma parceria com o estúdio W3haus para o desenvolvimento do site e o planejamento de mais alguns ciberpoemas.

No referido artigo, os autores mencionam alguns ciberpoemas, como "Zigue-Zague" ― chamado pelos autores de uma "narrativa interativa", pois há uma tela em que há opções dispostas em links para o usuário escolher a sequência ― e "Chá", este último destacado no design do site como "super interativo". Segundo os autores, "as possibilidades do hipertexto na ciberpoesia vão muito além da convergência de diferentes linguagens. Elas abrem também uma janela para a interatividade, isto é, a participação do navegador no poema", e o ciberpoema "Chá" mostraria algumas dessas possibilidades, estabelecendo uma "zona de diálogo com o leitor que, se quiser apreender o poema, deverá agir e reagir e a cada ação/reação recriar um poema novo".

Vamos nos deter um pouco nesse ciberpoema, em que o usuário vê na tela do computador uma xícara de chá vazia, um bule, um saquinho de chá e três imagens (um selo com um casal de beijando, estrelas e corações), que podem ser arrastadas para dentro da xícara. Quando o usuário estiver satisfeito, clica em "Pronto", e se tiver esquecido de colocar água ou de colocar o saquinho, será avisado para fazê-lo. Depois, a colherinha move-se na tela, mexe o chá e "então tem-se surpresas inesperadas, como as sonoridades dos ingredientes para o chá ou do bule de cujo bico vertem letras". A escrita do poema está na fumaça que sai da xícara, e realmente, dependendo dos três elementos que escolhemos colocar na xícara, essa fumaça tem formas, cores, movimentos e sons diversos. O texto, porém, curiosamente permanece o mesmo: "Deixe a infusão/ o tempo necessário/ até que os nossos aromas/ e os nossos sabores/ se misturem".

É visível, em poemas como "Chá", o potencial criativo das ferramentas e mídias criadas a partir da nova tecnologia, mas parece fundamental questionarmos em que medida a interatividade de "Chá" é tão distinta daquela proposta por Cortázar há 45 anos atrás com seu Jogo da Amarelinha. Tanto em um quanto em outro o texto escrito permanecerá o mesmo independente das ações do leitor, sendo que em Cortázar ainda há uma possibilidade de quebrar a linearidade, enquanto em "Chá" o texto se apresentará em movimento mas como uma sequência linear. Afora isso, em ambos os textos a participação do leitor é incentivada mas dirigida, pois o leitor não poderá, por exemplo, criar um poema sem colocar o saquinho ou a água em "Chá", assim como não compreenderá a história de Cortázar se não seguir a numeração já previamente planejada pelo autor. Sem falar que tampouco poderá, o leitor, acrescentar novos elementos não previstos anteriormente, como outras imagens na xícara ou novos capítulos no Jogo da Amarelinha.

Dessa forma, poderíamos questionar em que medida essa interatividade propagada pelo site transforma, de fato, o leitor de um ciberpoema em um leitor participativo, em uma espécie de co-autor de um poema como "Chá". Mas num artigo como este talvez o mais importante não seja definir se "Chá" é ou não um exemplo da "literatura interativa" preconizada por Douwe Fokkema e Elrud Ibsch, e sim perceber que há um movimento importante por parte de escritores contemporâneos em utilizar as novas ferramentas de comunicação para ampliar a participação do leitor, obrigando os estudos de literatura a revisitar conceitos sobre autoria e recepção surgidos exatamente entre os teóricos da literatura.

Se por um lado os ciberpoemas aqui visitados exageram ao se definirem como "super interativos" apenas pelos cliques, sons e movimentos, por outro lado, podemos ver um poema como "Chá" em linha com o sonho de Mallarmé ou os romances de Cortázar e Calvino, exemplares das tentativas criativas de trazer o leitor para dentro da criação e buscando, se não transformá-lo num co-autor da obra, pelo menos alterar sobremaneira seu tipo de participação.

Do Jogo da Amarelinha ao jogo do "Chá", a tecnologia evoluiu a passos largos e apresenta aos autores contemporâneos novas ferramentas, novas mídias com potenciais e possibilidades que precisam ser exploradas e conhecidas com o tempo. O clicar e arrastar das imagens é ainda um passo pequeno, tímido, como ainda pequena seria a composição de versos a partir de uma análise combinatória dos elementos dispostos na xícara. Demonstram, porém, que a literatura é mais do que o objeto livro e atravessará, sim, séculos e gerações através de gêneros interativos, gêneros multimídia e/ou gêneros hipertextuais.

Nesse sentido, para terminar, não poderíamos deixar de citar duas frases emblemáticas que nos relembram a infinitude não do livro, não do homem, mas da literatura. A primeira, de Calvino: "no universo infinito da literatura sempre se abrem outros caminhos a explorar, novíssimos ou bem antigos, estilos e formas que podem mudar nossa imagem do mundo". A derradeira, de Borges: "talvez me enganem a velhice e o temor, mas suspeito que a espécie humana ― a única ― está por extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta".

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 8/8/2009.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Aranhas e missangas na Moçambique de Mia Couto


Marcelo Spalding

Mia Couto não é o melhor escritor africano de língua portuguesa, nem o mais político, nem o mais original, mas talvez seja o mais clássico, o mais requintado, o mais festejado deles. Autor de obra sólida, personalidade literária, postura europeia e temática contemporânea, é nome pronto para ganhar o Prêmio Camões, destinado a escritores de língua portuguesa (e não me surpreenderia se chegasse ao Nobel).
Muito já foi dito e escrito sobre Mia Couto no Brasil, e mesmo aqui no Digestivo. O melhor é a entrevista concedida a Elisa Andrade Buzzo, mas tem também uma singela resenha que escrevi sobre seu romance O outro pé da sereia, publicado em 2006. Entretanto, como a produção de Mia é vasta, e como por vezes demora um pouco para desembarcar no Brasil, muito se tem ainda para ler de e se escrever sobre Mia Couto.
O fio das missangas
(Companhia das Letras, 2009, 146 págs.) é um desses livros que demoraram para atravessar o oceano e ser editado por uma editora brasileira. Publicado pela Editora Caminho em 2003, traz 29 contos curtos entrelaçados tal qual miçangas (não por acaso o título). Mas dessa obra não se pode dizer o que sempre se diz de obras de escritores africanos, que busca ou marca identidades, que denuncia desigualdades e opressões, que transmite pelas palavras a cultura tão diferente do povo africano. Não, dessa vez a Moçambique de Mia Couto é representada por histórias contemporâneas, familiares, conflitos que bem poderiam se passar em cidades do Brasil, de Portugal ou da França.
Sem abrir mão da linguagem que o consagrou (chamada pelos editores de "poética", mas que bem poderia ser definida como "deslizante" ou "deliciosa") e de algumas referências a termos moçambicanos, Mia produz contos quase crônicas, partindo de singelos episódios diários, familiares, para temas e conflitos universais como o afeto, o desgosto, a compaixão, a cumplicidade.
Em "O cesto", uma mulher aguarda com certa ansiedade e pressa a morte do marido, que agoniza no hospital, até que ele morre e a viúva nos revela, em sua narrativa, que "ao contrário de um alívio, me acontece o desabar do relâmpago sem chão onde tombar. Em lugar do queixo altivo, do passo estudado, eu me desalinho em pranto. Regresso a casa, passo desgrenhado, em solitário cortejo pela rua fúnebre. (...) Amanhã, tenho que me lembrar para não preparar o cesto da visita".
Noutro conto, "Na tal noite", um narrador em terceira pessoa conta a visita anual de Sidónio Vidas, um episódico esposo, que na noite de Natal chega cada vez mais rico e com cada vez menos presentes para os dois filhos. Conversam, ele vai embora cedo e logo chega o vizinho, senhor Alves, ao que a mãe lembra os filhos, como o fizera na chegada de Sidónio: "já sabem: ao sinal combinado, vocês desaparecem das vistas!".
A cumplicidade está presente também em "Mana Celulina, a esferográvida", conto que sugere um incesto, narrado pelo homem que assiste sua irmã, a "completamente grávida" Celulina, chorar enquanto o pai ameaça determinado rapaz, acusando-o da desonra. No final, "ninguém notou o piscar de olhos que ela me dirigiu, em cúmplice ternura".
Nesse rol de temas familiares tem espaço para o futebol, em "A carta de Ronaldinho" e "O mendigo Sexta-Feira jogando no Mundial"; para a depressão, em "O rio das Quatro Luzes"; para a questão racial, em "O novo padre"; e até para a poesia, em "O menino que escrevia versos".
Mas dois contos merecem especial atenção, um pela atualidade do tema proposto e outro pela originalidade da forma com que propõe um tema antigo.
"O dono do cão do homem" inicia assim: "conto-vos como fui traído não pela minha amada, mas pelo meu cão". A história começa com a narrativa de um singelo passeio: "Aos fins da tarde, eu o levava a passear. Isto é: ele me arrastava na trela. Bonifácio é que escolhia os atalhos, as paragens, a velocidade. E houve vezes que, para não dar inconveniências, eu me rebaixei a ponto de lhe recolher o fedorente cocó". Mas a pergunta seguinte desencadeia a inversão de papéis ― e valores ― proposta pelo conto: "Prestei tal deferência a meus próprios filhos?". Mais do que isso, o narrador dirá: "Quando me notavam era por acidente ou por acréscimo. Eu, humildemente eu, na outra extremidade da trela. Eu, o atrelado, de simples raça humana, sem prova de pureza. O meu cão, senhor e dono, estava acima dos verbos animais".
O final do conto não vem ao caso, é uma espécie de inversão física dos papéis entre o cão e o homem, mas a própria abordagem de tema tão cotidiano e tão pertinente já vale a referência. E não temos aqui clichês pró ou contra os cães, o narrador reconhece a conquista de espaço dos animais, os admira, mas talvez com lucidez exagerada percebe nessa conquista uma perda de espaço dos humanos. E quem já não se sentiu assim passeando com um belo exemplar canino por um parque?
Já "A infinita fiadeira" retoma o feitio de fábula para contar a história de uma aranha que se recusava a ser como as outras: "Não faço teia por instinto", dizia, "faço por arte". Os pais, naturalmente, ficaram muito desiludidos e foram falar com o Deus dos bichos para que tomasse uma solução, e "num golpe divino, a aranha foi convertida em pessoa". O fecho da fábula merece ser transcrito na íntegra:
"Quando ela, já transfigurada, se apresentou no mundo dos humanos logo lhe exigiram a imediata identificação. Quem era, o que fazia?

― Faço arte.
― Arte?

E os humanos se entreolharam, intrigados. Desconheciam o que fosse arte. Em que consistia? Até que um mais-velho, se lembrou. Que houvera um tempo, em tempos de que já se perdera memória, em que alguns se ocupavam de tais improdutivos afazeres. Felizmente, isso tinha acabado, e os poucos que teimavam em criar esses pouco rentáveis produtos ― chamados de obras de arte ― tinham sido geneticamente transmutados em bichos. Não se lembrava bem em que bichos. Aranhas, ao que parece."
E assim saúdo que Mia Couto seja uma espécie de ranha, não mais luso-africana, moçambicana ou da língua portuguesa, mas uma aranha de voz universal. Até porque temos cada vez menos cérebros talentosos teimando em criar esses pouco rentáveis produtos.

Para ir além



Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 28/7/2009.

domingo, 26 de julho de 2009

O blog da Petrobrás

Se alguma empresa ainda tem dúvidas sobre a validade de ter um blog paralelo ao site oficial, não pode deixar de conhecer o blog Fatos e Dados (http://www.blogspetrobras.com.br/fatosedados/), da maior empresa do Brasil, a Petrobrás.

O blog surgiu como uma inteligente resposta da empresa à polêmica instalação da CPI da Petrobrás. O objetivo inicial era publicar as perguntas enviadas pelos jornalistas, com as respostas na íntegra, o que deixou muitos jornalistas de cabelos em pé. Com o tempo o blog passou a publicar informações de interesse público, como esclarecimentos a respeito de patrocínios culturais, além de matérias que saem sobre a empresa no Brasil e no exterior e informações institucionais como o "Quadro dos investimentos em publicidade".

Baseado em tecnologia do WordPress, o blog tem um layout limpo, de fácil navegação, um canal de transmissões ao vivo e espaço para comentários, o que torna a experiência ainda mais interessante. Há mais de 30 comentários para os últimos 3 posts do blog, e os acessos já superaram a marca de 1 milhão.

Sem dúvidas é um belo exemplo de como utilizar uma tecnologia gratuita sem abrir mão do site nem ser reduntante, agregando valor à marca (no caso o foco é na transparência), e apostando na interatividade da web para estreitar as relações com investidores e público em geral, tirando um pouco a importância dos formadores de opinião.

terça-feira, 30 de junho de 2009

A arte da ficção de David Lodge

Era uma vez a musa inspiradora, uma entidade abstrata capaz de produzir páginas e páginas de poemas, histórias, cartas. A musa é uma personificação da inspiração, um estado de espírito considerado fundamental para a criação artística no Romantismo que sobreviveu ao movimento e atravessou séculos.

Edgar Allan Poe, em “Filosofia da Composição”, talvez tenha sido o primeiro poeta a revelar sem pudor os bastidores da sua criação literária: “nunca tive a menor dificuldade de relembrar os passos progressivos de qualquer de minhas composições”, afirma. Criador do primeiro detetive lógico da literatura, Auguste Dupin, Poe representa o surgimento de uma Era racional e matemática que se opunha à estética romântica então em voga, o que nos faz compreender o belo ensaio e também suspeitar que muitas das suas afirmativas sobre a composição do poema “O Corvo” sejam, também, ficção.

Fato é que a partir de Poe a criação literária passou a ser tratada como construção capaz inclusive de ser ensinada e aprendida. No século XX, popularizaram-se oficinas de criação literária nos Estados Unidos, e, no Brasil, elas desembarcaram com força há pelo menos 25 anos, quando surgiu a primeira Oficina de Criação Literária da PUCRS, ministrada por Luiz Antonio de Assis Brasil. Não surpreende, portanto, que aos poucos se tenha acesso a tão profícua bibliografia sobre o tema, especialmente em língua inglesa, e é motivo de comemoração quando uma dessas obras é traduzida.

Este é o caso de A arte da ficção (L&PM, 2009, 246 p.), de David Lodge, romancista e crítico inglês. Originalmente publicado como colunas semanais no jornal The Independent on Sunday, o livro traz cinqüenta artigos sobre o romance, sempre partindo do trecho de uma ou mais obras e comentando sua construção. Lodge, segundo suas próprias palavras no Prefácio, tinha a pretensão de fazer um livro para “pessoas que preferem ter contato com a crítica literária em doses homeopáticas, um livro que não tem a pretensão de ter a última palavra em nenhum dos tópicos que abrange, mas que vai, espero, aguçar o entendimento e o proveito que os leitores tiram da prosa de ficção e sugerir novas possibilidades de leitura – quem sabe até de escrita – dessa que é a mais variada e a mais proveitosa de todas as formas literárias”. A preocupação de Lodge não é, portanto, ensinar a arte da ficção, e sim apresentá-la a leitores de romance.

Dessa forma, embora a divisão da obra dê a sensação de que teremos dicas de criação literária, pois abordam aspectos como “O autor intrometido”, “Nomes”, “Ambientação”, “Clima”, “Manipulação temporal”, em muitos capítulos temos mesmo teoria em doses homeopáticas, como em “Intertextualidade”, “Realismo mágico”, “Polifonia”, e em outros pequenas aulas sobre o romance, como em “Romance experimental”, “Romance cômico”, “Ideias”.

Essa mescla de teoria com leitura e técnicas literárias, aliás, é que deve colocar o livro na lista básica de muitos cursos de Letras e na estante de muitos amantes de literatura, pois Lodge consegue ser claro nas suas definições e trazer temas complexos para o leigo sem abusar do academicismo nem se tornar superficial. Evidentemente aquele aspirante a escritor que espera encontrar receitas de bolo para seu novo romance talvez terminará a leitura desapontado, porque Lodge evita fórmulas, ele pretende mais apresentar a arte da ficção do que transmiti-la. Embora seja exatamente nessa exposição que podemos captar técnicas fundamentais para a criação literária:

“Uma das marcas mais comuns de um ficcionista inexperiente ou desleixado”, dirá Lodge no capítulo sobre o “Ponto de Vista”, “é o tratamento inconsciente dispensado ao ponto de vista. Uma história – digamos, a história de John, que está saindo de casa para ir morar na universidade, contada sob a perspectiva de John: John faz as malas, dá uma última olhada no quarto, despede-se dos pais – e, de repente, por duas ou três frases, podemos ler o que sua mãe estava achando daquilo tudo, só porque o autor julgou que seria interessante acrescentar a informação naquele ponto da história; e a partir daí a narrativa retoma o ponto de vista de John. Claro, não há regras nem leis determinando que um romance não possa mudar de ponto de vista quando o autor bem entender; mas se essa decisão não for tomada de acordo com algum plano ou princípio estético, o envolvimento do leitor, o processo em que o sentido do texto se produz, será perturbado”.

Como já foi dito, cada capítulo, ou artigo, começa com o trecho de um ou mais romances, todos de língua inglesa, naturalmente, uma opção justificável num professor e crítico inglês. Não há, entretanto, como nós brasileiros não sentirmos falta de Machado de Assis ou Guimarães Rosa em capítulos como “O narrador não-confiável” ou “Ponto de Vista”, pelo menos que fossem citados seus nomes como o são García Márquez em “Realismo Mágico”, Baudelaire em “Simbolismo” ou Ítalo Calvino em “Surrealismo”. Sem contar uma grande omissão que permeia o romance, Dom Quixote, por muitos considerados o primeiro romance da literatura mundial (o esquecimento chega a ponto de no capítulo sobre “Metaficção” o autor dizer que “o avô de todos os romances metaficcionais é Tristam Shandy, cujos diálogos entre o narrador e os leitores imaginários são apenas um dos inúmeros recursos que Sterne usou para realçar a lacuna existente entre a vida e a arte, que o realismo tradicional tenta ocultar”).

Nesse sentido, fiquei com vontade de ler uma versão brasileira de “A arte da ficção” escrita por alguém como Milton Hatoum, alguém que citasse obras brasileiras e explorasse mais alguns aspectos estéticos próprios da literatura brasileira como a oralidade, o regionalismo e a violência urbana. Porque o romance, embora seja um gênero notoriamente europeu, ganhou o mundo e se transformou em cada continente por onde passou, da América de Garcia Márquez à África de Mia Couto, e esta talvez seja a principal explicação para seu sucesso.

Confesso, porém, que também não acredito que um livro desses, no Brasil, pudesse se restringir ao romance. Ocorre que essa procura crescente por oficinas de criação literária tem se dado muito em função da prosa curta, ou seja, conto e crônica. E nesse sentido também sentimos falta, no livro, de capítulos sobre “concisão”, “intensidade” e “subtexto”, por exemplo, três conceitos chaves do conto moderno.

Tais limitações da obra de Lodge, antes de diminuir o mérito de seu esforço de compilação e tentativa de popularização do fazer literário, apenas reforçam o quão complexa e universal é a literatura, uma arte milenar que não se permite apreender ou revelar por completo. E sem dúvidas sua principal missão é cumprida: depois de ler um livro como A arte da ficção você nunca mais será o mesmo leitor.

Marcelo Spalding

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Agora eu era cronista


Marcelo Spalding

Nariz de cera é o nome dado ao preâmbulo de determinado texto ou discurso, preâmbulo este normalmente criativo, literário, que tem o objetivo de fisgar o leitor para o que vem a seguir. Neste texto, por exemplo, tudo que escrevi até agora é nariz de cera para falar do livro Agora eu era (Record, 2008, 192 págs.), estreia da jornalista gaúcha Claudia Laitano em brochura.
Claudia é jornalista especializada em Economia da Cultura, editora da área cultural do maior diário porto-alegrense, a Zero Hora, e desde 2004 publica crônicas semanais no jornal num espaço que divide com nomes como Luis Fernando Verissimo e Martha Medeiros (revelada, aliás, pelo próprio jornal). Agora eu era reúne 61 dessas crônicas sob a costura do título inspirado em Chico, "uma expressão absurda na fala cotidiana, ainda que perfeitamente lógica no discurso da fantasia infantil, 'agora eu era' condensa um sentido de transitoriedade que lembra um pouco a metáfora do rio. Quando a brincadeira começa, 'agora' já não existe mais e 'eu' já é um novo personagem".
O resultado é uma boa leitura de férias ou fim de semana, para se folhear embalado numa rede ou deitado num parque, com textos curtos, tiradas inteligentes e abordagens leves. E leitura que deve ser feita acompanhada de um lápis, pois haverá frases e metáforas que você não quererá deixar escapar, como esta: "o clichê, vocês sabem, é o chuchu do idioma: é feio, não diz a que veio e sempre pode ser substituído por algo mais saboroso".
E olha que fugir do clichê e do estereótipo, em crônica, não é nada fácil (que o diga sua colega Martha Medeiros). Mas Claudia consegue, ao associar a Barbie à Hermione do Harry Potter, e esta à Helena de Tróia. Ou ao comentar o abuso do uso de antidepressivos entre os jovens a partir do filme 9 canções, em que Lisa, a protagonista, toma remédios contra a depressão:
"Sou do tempo em que a gente curava baixo-astral enfiando a cabeça no travesseiro e chorando. Não recomendo o método a ninguém, mas uma vantagem ele tem: encarar a dor de frente, sem medo de desmoronar, nos ensina que somos mais fortes do que imaginamos."
São poucas, aliás, as crônicas em que Claudia revela de frente seu posicionamento, apresenta armas, argumentos. Em geral a autora se revela excelente leitora, dona de um texto maduro, alguém com sensibilidade para falar de si sem deixar de olhar para os lados, para citar livros, filmes e discos respeitáveis, para fazer metáforas como a do clichê com o chuchu, mas que, como cronista, parece ser mais o que os leitores esperam de si.
Nesse sentido, Claudia muitas vezes escreve com uma coloquialidade ensaiada, evitando excesso de erudição e alternando temas leves como "a crise dos enta" com temas mais sérios, como o aborto, nunca se aprofundando demais nas questões e, muito menos, expondo seus argumentos com convicção. A estratégia aqui é outra: apostar num enorme nariz de cera para no final nos levar ao tema em questão e à opinião da autora, já no último ou penúltimo parágrafo. O bom é que os textos assim ficam leves, como devem ser naquele espaço de jornal, mas o grande problema é que sentimos falta do debate, dos argumentos, da autora que se ensaia mas não se liberta no próprio texto. Muitas vezes, inclusive, se começa a ler um texto sobre um assunto e se termina em outro completamente diferente, como em "Leitores (e eleitores)", em que Claudia começa falando do livro O último leitor, de Ricardo Piglia, e termina lembrando que "amanhã é dia de eleição", dia em que "errar talvez seja inevitável. Mas quem se informa erra menos. A política é torta, mas a gente sabe bem que poderia ser outra coisa".
Como assim? Primeiro, qual a relação com o livro de Piglia? Segundo, e talvez mais importante, quem disse que a política é torta, que poderia ser diferente? Diferente como? Para quem? Por que errar talvez seja inevitável? Os candidatos são ruins? Como acertar, e o que é acertar? Claro que estas questões ficam sem resposta, porque o texto acaba aí, dando a impressão de que as últimas frases encerram verdades óbvias que não precisam de debate. Mas será que não mesmo?
Não é uma questão de conteúdo, a autora tem todo o direito de ser de um ou outro lado político (ou de nenhum lado), a favor ou contra o aborto (tema de "Temporão"), a favor ou contra o uso de histórias infantis homossexuais em escolas (tema de "Autoridades Polonesas"), a questão é que o nariz de cera por vezes se torna maior que o tema de fundo e o debate, simplesmente, não existe.
Talvez seja uma estratégia para lidar com aquele espaço do jornal, para manter o tom leve e coloquial, mas confesso que o livro deixa uma sensação de reticências. Eu sentaria com prazer numa mesa com a autora e ouviria horas suas opiniões acerca desses temas cruciais, pois se percebe que ela tem muito a dizer. Suas crônicas, porém, não conseguem transmitir essa profundidade, muito por causa do espaço a que estão confinadas no jornal, um pouco pelo tipo de tratamento necessário numa mídia de massa.
Por isso espero que não pare por aí, que depois dessa estreia com a coleção de crônicas surja um texto feito especialmente para livro, talvez uma novela, quiçá crônicas mesmo, mas textos que revelem um pouco mais da Claudia Laitano que Agora eu era apenas sugere.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 12/6/2009.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Resenha de "A Cauda Longa"

Marcelo Spalding

Há um livro muito interessante circulando pelo meio empresarial e acadêmico (aliás, meios cada vez mais misturados) chamado “A Cauda Longa”, de Chris Anderson. No livro, lançado no Brasil pela Editora Campus, o editor da revista Wired amplia um conceito cunhado por ele, o de Cauda Longa, e debate seus efeitos na economia, administração e cultura.

Basicamente, a cauda longa é o que no Brasil conhecemos por "base da pirâmide", os 80% que costumavam representar apenas 20% das vendas e por isso eram relegados pela indústria e comércio tradicionais. Agora, com as novas tecnologias de comunicação, distribuição e comércio, diversas empresas apostam exatamente nesses consumidores (Google, eBay, iTunes) e provam como pode ser lucrativo olharmos para a cauda da curva (ou a base da pirâmide), e não apenas para sua ponta, ampliando as ofertas e criando verdadeiros nichos.

Para ilustrar, o primeiro exemplo de Anderson é o de músicas baixadas pela Rhapsody (serviço pago de download de músicas). Claro que há os hits, há músicas com 180.000 baixas e há em torno de 2 mil músicas com mais de 20 mil baixas. Mas há outras 25.000 músicas com pelo menos mil downloads (o que, no conjunto, é mais lucrativo que os hits). E, mais do que isso, há 95.000 músicas com mais de 100 downloads e todas as 800.000 músicas no site tiverem pelo menos um download.

O primeiro capítulo talvez seja o que mais interessa para nós, artistas: debate como a tecnologia está convertendo o mercado cultural de massa em milhões de nichos. Segundo as observações de Chris Anderson, se a indústria do entretenimento no século XX baseava-se em hits, a do século XXI se concentrará com a mesma intensidade em nichos.

"Os consumidores estão mergulhando de cabeça nos catálogos, para vasculhar a longa lista de títulos disponíveis, muito além do que é oferecido na Blockbuster Video e na Tower Records. E quanto mais descobrem, mais gostam da novidade. À medida que se afastam dos caminhos conhecidos, concluem aos poucos que suas preferências não são tão convencionais quanto supunham (ou foram induzidos a acreditar pelo marketing, pela cultura de hits ou simplesmente pela falta de alternativas."

Recuando um pouco no livro, pois a Introdução é quase uma parte desse primeiro capítulo, o autor apresenta números que demonstram essa queda do mundo dos hits: "quase todos os cinqüenta álbuns musicais mais vendidos de todos os tempos foram gravados nas décadas de 1970 e 1980 e nenhum deles é dos últimos cinco anos".

Talvez isso valha também para o cinema, certamente vale para a televisão, não por acaso hoje não temos ícones da indústria cultural como foram Madonna e Michael Jackson nos anos 80 (por aqui, Xuxa e Roberto Carlos, talvez Sílvio Santos), e as celebridades revezam-se com velocidade espantosa nas capas das revistas.

O que há no lugar disso? O nicho, ou seja, o surgimento de milhares de grupos com interesses mais específicos. Na música, por exemplo, há os que curtem o tradicionalismo clássico, os que preferem o tradicionalismo moderno, os que ouvem sertanejo, os que ouvem Caetano, os que ficaram nos anos dourados do rock'n'roll, os fãs de música gospel e por aí vai. Você dirá que antes já havia essa multiplicidade de gostos, claro, mas hoje, como nunca e muito por causa da internet, TUDO está disponível e ao alcance de alguns cliques, alimentando e fomentando esses grupos.

Assim, a velha máxima que "20% dos produtos respondem por 80% das vendas, e geralmente 100% dos lucros", está em xeque. Hoje todos encontram público, em maior ou menos quantidade, mas encontra.

Nosso portal, o Artistas Gaúchos, não deixa de ser um bom exemplo disso. Temos mais de 750 artistas cadastrados, dos mais variados estilos, das mais variadas artes, unidos apenas pelo fato de terem nascido ou trabalharem no Rio Grande do Sul. Claro que há os artistas mais procurados (na última contagem, Leia Cassol, na foto ao lado, era a que mais gerava acessos ao AG), mas os dados de acesso demonstram que praticamente todos os artistas tiveram pelo menos um acesso nos últimos meses, e seria praticamente impossível separarmos os 20% mais acessados dos demais, pois eles representariam menos da metade dos acessos.

Mais do que isso, o conceito de cauda longa diminui um pouco a velha angústia que temos em relação aos hits nacionais e internacionais, sempre nas capas dos jornais, nas vitrines das lojas, com os teatros lotados e os cofres cheios. Muitos, é claro, de qualidade duvidosa, porque como bem aponta Anderson, estar no topo da curva não é sinal de qualidade, e sim de penetração comercial, o que muitas vezes requer uma homogeneização do produto.

Isso não significa que na outra ponta da curva, onde estamos nós, reside a alta qualidade artística. Nada disso: nos nichos há o melhor e o pior em termos de qualidade, até porque cada público terá o seu conceito de qualidade. Mas não podemos negar que um amante da música clássica, por exemplo, vê muito mais qualidade num disco da Anabel Alzaibar do que num da Ivete Sangalo, e para um apreciador do nativismo é muito melhor o Joca Martins do que o Caetano Veloso. Isso é cauda longa.

Naturalmente se fizermos outro recorte, veremos que o próprio mercado gaúcho criou seus hits, como Moacyr Scliar, Engenheiros do Hawai, Tangos e Tragédias, e não é por acaso que poucos desses hits gaúchos estejam cadastrados no portal: para ser um hit não basta ser um hit, é preciso comportar-se como um. Mas também é evidente que os figurões não conseguem mais abarcar fatia tão grande do mercado, e aos poucos a força do conjunto que se torna mais importante que uma ou outra celebridade.

O efeito de tudo isso? Para Anderson, e espero que ele tenha razão, não é um maior entredevoramento entre os artistas, e sim uma maior procura pela arte. Quando alguém encontra um nicho de música ou literatura que realmente goste, com a qual se identifique, e não seja apenas fruto de um modismo midiático, ele tende a consumir mais, ser mais fiel, freqüentar mais shows ou lançamentos. Aliás, nosso robusto mercado de música tradicionalista que o diga.

No final das contas, a cauda longa somos nós, e já é hora de pararmos de brigar com ou invejar os hits e qualificarmos nosso trabalho, melhorar nosso profissionalismo, forçando a cauda da curva para cima e criando, com isso, nosso próprio público, nossos próprios hits.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Caras e bocas e um bolo abatumado



Marcelo Spalding

Há anos que uma novela não conseguia me prender por mais de trinta minutos na frente da TV. E não foram poucas as tentativas: os tentáculos são longos e em qualquer jantar na casa da mãe ou da sogra, em qualquer festinha familiar lá está ela, plim-plim, com os choros e gritos de sempre.


Mas Caras & Bocas me pareceu diferente. Não porque a pintura seria o mote, mas porque de certa forma me cativaram os personagens, especialmente as crianças, e um bom personagem faz toda a diferença. Não estou falando do choramingo da mocinha Dafne (Flávia Alessandra), nem das maldades calculadas de Judith (Deborah Evelyn), mas ao redor do nhemnhemnhém havia a graça cáustica de Bianca (Isabelle Drummond) em contraponto ao desajeitado Felipe (Miguel Rômulo), um judeu (vivido por Sidnei Sampaio), uma menina cega (Danieli Haloten), famílias de negros e um macaco. Ou seja, todos os ingredientes para que se abordasse o preconceito racial, étnico, com os deficientes, os pobres, os velhos, de forma leve mas inteligente.


Infelizmente, porém, os ingredientes são muito melhores do que o bolo. Ou as tintas muito melhores que o quadro. A novela repete velhas fórmulas surradas e esgotadas, um maniqueísmo estúpido que associa bondade à burrice e maldade à esperteza, insiste em gracinhas repetitivas e não avança nas questões centrais. Pelo contrário, reforça estereótipos e preconceitos.


Vejamos alguns casos:


Benjamin, o judeu ortodoxo, dono de joalheria, é confrontado com as mil maravilhas do "nosso" mundo, inclusive uma estonteante mulher de cabelos vermelhos e pra lá de oferecida. Sua mãe, sentindo a tentação, arranja uma noiva ortodoxa e puritana, mas igualmente bela e loura e de olhos azuis. Benjamin fica balançado, e não se sabe o que vai acontecer. Mas importa? Já estão ali todos os estereótipos, o judeu é o careta (e rico), a mãe é a superprotetora, a noiva é uma ariana boba e a outra, esperta e sensual. Aposto que, se o público pudesse escolher, mataria a mãe.


Bianca, a princesa da novela, filha da rainha-protagonista, ganha a cena quando aparece com o inseparável Felipe, filho dos empregados da casa. Pobreza, para ela, é a treva. E repete o bordão a todo momento, com graça e ensaiada hipocrisia. Claro que de tanto repetir e vindo de uma atriz tão talentosa (ex-Emília), a ironia fica evidente, mas não há ninguém na história para dizer a ela o contrário, nem o amigo pobre jamais a deixou por isso. Parece que não há riscos em se odiar pobres e pobreza, apenas vantagens, o que está, vamos combinar, muito longe da realidade.


No núcleo pobre, aliás (não sei quem inventou essa história de núcleo nas novelas, é todo mundo rico ou pobre, ainda que pobre seja modo de falar), há outro romance interessante, do garçom Anselmo (Wagner Santisteban) com a menina cega Anita. Anselmo, com medo que Anita o rejeite, finge ser um milionário, e em diversos diálogos com a dona da pensão onde mora é humilhado não porque deveria falar a verdade e superar as barreiras, mas porque não tem condições de sustentar uma moça cega. Como assim? Quer dizer que um rapaz honesto não pode namorar uma cega apenas porque é garçom??? Provavelmente acabarão juntos, para a catarse popular, mas fico imaginando os milhares de jovens garçons, cobradores de ônibus ou lixeiros vendo a novela e pensando em seus sonhos de progredir, ter uma família, uma casa.


Ada (vivida por Amanda Azevedo), é a criança do "núcleo pobre", não por acaso negra. Uma graça de menina, desenvolta e de olhar vivo. Filha de pais trabalhadores, sonha ser dançarina e está sendo treinada pela dona da pensão, que nas horas vagas a faz ir com Anita, a cega, até a frente do restaurante ajudá-la a vender rosas. Claro que sem os pais dela saberem, afinal de contas a menina é bonitinha mas é negra, e bem pode ficar de pé vendendo rosas mesmo que em casa tenha comida, calor e afeto dos pais.


Na verdade, no bairro tem outra criança, o quase adolescente Espeto (David Lucas), sósia do Harry Potter, filho de Denis (Marcos Pasquim) e amigo do macaco. Aqui fica evidente o tipo de valores transmitidos por novelas como essa: o pai, pintor fracassado, um dia descobriu um macaco que pinta e alguém que se apaixonou pelas obras, prometendo fama e dinheiro. Com a ajuda do filho, fazem de tudo para que o macaco não seja descoberto e continue pintando. A pose do galã é de quem tem peso na consciência, mas sempre incentivado pelo filho (e criança pode tudo, não é mesmo?), mantém o plano e sabe-se onde vai dar. Também não importa: o fim justifica os meios.


E nem as mulheres, público sempre fiel das telenovelas, estão a salvo: quando não são bonitas, estão fadadas ao fracasso - Ísis (Carina Porto) -, e quando o são, devem arrumar um marido que traga mais vantagens possíveis. Aliás, é isso que faz a protagonista o tempo todo, arrumar alguém para casar a fim de herdar ações e dinheiro, e também Simone (Ingrid Guimarães), a amiga, e Milena (Sheron Menezes), a filha da empregada.


Aliás, no último capítulo que assisti antes de escrever este texto, Milena foi vítima de mais uma armadilha da malvada caricata Judith, que fez todos acreditarem que a menina roubara um anel. O dono do restaurante, sem pestanejar, chamou a menina e revistou sua bolsa. Claro que encontrou a peça lá, e todos, inclusive os garçons, acreditaram imediatamente na versão do roubo. Afinal, ela é negra, fica mais fácil associar o roubo a uma negra. E mesmo que a sinopse afirme ser ela "bonita e íntegra" e ter "orgulho de ser quem é, de seus princípios e valores", caiu facilzinho na lábia do riquinho malvado Nicholas, seu pseudonamorado, não por acaso branco (não sei por que nunca apareceu sendo cortejada por alguém mais próximo a ela, mesmo sendo realmente bonita, como se homens "comuns" não a interessassem, apenas filinhos de papai).


Enfim, é interessante observar como é difícil mudar uma visão de mundo construída há tanto tempo e com tanto cuidado pela plim-plim, onde o que impera é o consumo e as relações sociais nada mais são do que convenções e interesses de um lado, paixões descabidas e eternas de outro. Num mundo assim, os personagens são todos planos, sempre bons ou maus, sempre a favor ou contra a rainha, e a rainha é sempre linda e rica e loura. Até porque o resto, é a treva! E o que interessa, mesmo, é o horário comercial.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 2/6/2009.