quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Fatal: o livro e o filme


Marcelo Spalding

Começam as listas e especiais de final de ano, e desde já digo que o filme Fatal precisa estar nessas listas. E pelo nada que entendo do Oscar, estará entre os indicados em 2009.

Fatal consegue ser um bom filme mesmo para quem leu O animal agonizante, antológica novela de Philip Roth em que foi baseado. Publicada em 2001, a obra conta a história de um professor universitário com mais de sessenta anos que costuma sair com suas alunas até apaixonar-se irremediavelmente por uma delas. E é a partir desse mote aparentemente banal que Roth constrói uma ficção de extrema qualidade técnica e densidade psicológica, nos levando a refletir não apenas sobre a idade, mas sobre morte e vida, e não apenas sobre o corpo, mas sobre amor e sexo. E sobre as relações entre corpo, sexo, vida e morte.

"Por mais que você saiba, por mais que você pense, por mais que você planeje, projete e conspire, você não é superior ao sexo. O sexo é um jogo muito arriscado. Um homem não teria dois terços dos problemas que tem se não se metesse em aventuras para conseguir foder. É o sexo que perturba nossas vidas naturalmente ordenadas."

Kepesh, o professor, é também o narrador da novela, e este dado é fundamental: primeiro porque permite que a novela seja repletas de idas e vindas no tempo, intrusões do narrador com definições sobre mulheres, sobre os EUA ou sobre sexo, imprecisões e exageros próprios da subjetividade. Depois porque este narrador em primeira pessoa nos faz lembrar que a história é uma versão do professor, é a sua história, e Consuela é a sua musa, e a beleza de Consuela é a que ele nos narra. Uma beleza, aliás, como das poucas que li:

"A tez é clara, a boca é curva, embora os lábios sejam cheios, e a testa é arredondada, uma testa polida, lisa, com uma elegância de Brancusi. (...) O cabelo é negro, bem negro, lustroso, um pouco grosso. E ela é grande. Um mulherão grande. A blusa de seda está desabotoada até o terceiro botão, de modo que dá para ver que ela tem seios poderosos, lindos. Imediatamente você vê a fenda entre eles. E você vê que ela sabe."

Mas a beleza não está apenas nas palavras de quem conta, pode estar também nos olhos de quem vê. E Isabel Coixet, a diretora do filme, conseguiu captar em suas lentes não apenas a beleza de Consuela e a angústia cínica, egoísta e apaixonada de Kepesh como também a complexidade das relações humanas, tão bem sintetizadas no livro.

Claro que o filme, para ser fiel à essência da novela, não é igual à novela. Primeiro, não pode ser narrado em primeira pessoa, embora com bastante freqüência o espectador ouça os pensamentos e veja em close a expressão do professor. Depois, Consuela não pode ser apenas uma imagem construída pelo leitor em sua imaginação, no filme seria preciso dar a ela olhos, voz, seios. E a escolha recaiu sobre a bela Penélope Cruz. Não tão bela como a Consuela que imaginei na leitura, diga-se de passagem. Nem tão bela nem tão cubana nem tão altiva. Mas Penélope, com uma atuação segura, convence no papel de musa e nas cenas finais mostra por que deixou de ser um rostinho bonito em Hollywood, sem perder a beleza e a graça do rosto e dos olhos.

A maior diferença entre o filme e o livro, porém, é o enfoque. Se perguntarem do que se trata o livro para alguém que o tenha lido recentemente, é possível que ele responda: sobre a libertinagem norte-americana e suas conseqüências, sobre a agonia do homem diante da sedução da mulher, sobre o egoísmo da sociedade contemporânea, sobre a importância de romper preconceitos e gozar cada momento da vida, sobre a nossa submissão ao sexo. E todas essas respostas serão pertinentes, mas irão variar muito de acordo com as preocupações e prioridades do leitor. Agora, se fizerem pergunta para alguém que tenha acabado de assistir ao filme, essa pessoa necessariamente dirá que a adaptação fala sobre a velhice. Poderá acrescentar à velhice outros temas, mas a questão da idade, da proximidade da morte é muito importante, tanto que o filme cria um final para o livro (ainda que a frase final da versão cinematográfica seja enigmática e suficientemente aberta para causar no espectador efeito semelhante àquele sentido pelo leitor).

Quase, quase contei o final do filme, mas não o fiz. Não o fiz porque o desfecho do filme, assim como do livro, é o que torna a história tão interessante, um final absolutamente verossímil, suficiente e necessário. Lembra um pouco, nesse sentido, As horas e Crash (dois oscarizados, aliás). E se não posso ir adiante no debate sobre o filme sob pena de revelar o final, volto ao título para encerrar estes comentários e não dizer que não fiz alguma crítica. Péssimo título, o da versão em português. Fatal poderia ser título de um filme de suspense, de um filme pornô, de um filme policial, não de um filme cujo livro se chama O animal agonizante. Se é para mudar o título do livro, que fosse um título melhor. Mas é claro que a culpa, aí, não é da diretora: em inglês o filme se chama Elegy. Elegia, dicionarizado pelo Michaelis como "poema pequeno, consagrado ao luto ou à tristeza".

O filme é, de fato, uma elegia. Assim como o livro. Assim como a vida.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 27/11/2008.

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