quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Qual o melhor narrador de uma história bandida?


Marcelo Spalding

Noutro artigo aqui neste site já comentei a passagem da literatura policial brasileira para a literatura bandida. Não sei, confesso, se é algo nosso ou se reflete uma tendência mundial; interessa é que há algum tempo os romances policiais são narrados e/ou protagonizados por bandidos (assim como alguns dos filmes de maior sucesso do cinema nacional contemporâneo, ainda que, neste caso, o policial seja meio polícia, meio bandido).

Sob este aspecto é que gostaria de comentar O matador (Companhia das Letras, 2008, 200 págs.), romance publicado por Patrícia Melo em 1995 e que agora ganha nova ― e enxuta ― edição pela Companhia de Bolso. Para quem ainda não leu, o romance conta a história de um vendedor de carros usados que de repente entra no mundo do crime. Envolve-se com polícia e bandidos, mulheres e clientes, drogas e armas. Usa drogas, armas e mulheres assim como policiais, clientes e bandidos o usam. Uma temática que se tornaria versão for export de nossa violência urbana, e, não por acaso ― mas não só por isso ―, o romance de Patrícia já foi traduzido para países como Alemanha, Holanda, Inglaterra, França, Itália e Espanha.

Não é, decerto, o primeiro romance a trazer a introspecção ― e, por que não, as razões ― do bandido para a cena. O bandido já está aí pelo menos desde Rubem Fonseca. Lembro do comedido, delicado e impactante Subúrbio, de Fernando Bonasi, publicado um ano antes, em 1994. Mas O matador também não é um desses seguidores da onda Cidade de Deus, pois foi escrito antes do romance de Paulo Lins e muito antes do filme.

Do ponto de vista que nos interessa neste texto, porém, O matador pode servir quase de paradigma para quem quer escrever uma "história bandida", ou seja, uma história protagonizada por um bandido ou qualquer outro tipo de personagem que esteja à margem da sociedade. Jamais esse tipo social publicará suas histórias, e nem há registros na literatura de que o tenham feito antes: primeiro porque não têm suficiente escolaridade para criar um texto complexo como é o romance, depois porque mesmo que inventem uma forma e escrevam um longo e profundo texto, não terão espaço nas editoras, que logo dirão que aquilo não é literatura. Por outro lado, muito interessa a pessoas como eu, que só conhecem a violência pelo que vêem na imprensa e na literatura (e como não acredito na imprensa, resta a literatura), a vida desse tipo social, a vida de pessoas que estão à margem da sociedade, pedintes, mendigos, bandidos, pais de família, crianças. E é aí que entram os escritores de ficção.

O escritor que se arriscar a fazer um texto protagonizado por um bandido, então, precisará inventar o narrador bandido, suas razões, sua forma de agir, seu léxico, sua organização sintática, de forma que se acredite ser aquele texto um depoimento daquele sujeito, e não um olhar "de cima", alheio, por vezes enojado. E é nesse ponto que Patrícia Melo melhor acerta a mão.

Ao optar pelo narrador em primeira pessoa, a autora liberta-se das normas rígidas e abre um universo de possibilidades técnicas, como a eliminação da necessidade de diálogos, com o próprio narrador reproduzindo os diálogos em seu discurso, e a possibilidade de pequenos fluxos de consciência, fundamentais para a humanização d'O matador.

"Os dias, meu Deus, os dias pareciam estar pregados com parafusos, não passavam. Sentia uma tristeza danada, eu deveria ter fugido para outro lugar, toda vez que vou ao campo tenho vontade de me matar. O céu pode estar azul e as quaresmeiras carregadas de flores, nada muda meu estado de espírito. As vacas, o olhar das vacas, me deixam triste. Eu poderia ter ido para a praia, as ondas, as mulheres, o mar é melhor. O campo é uma mentira. Você olha pela janela e toda aquela bondade de mão beijada, humanos oferecendo broas de milho para estranhos, não sei, não acredito. O homem não é bom."

Outra libertação importante para a autora ao escolher esta técnica do narrador-protagonista é o uso de termos próprios daquela realidade, como gírias e, especialmente, palavrões. Pode ser que a literatura, hoje, esteja quase saturando o palavrão, como nosso cinema já fez nos anos 80, mas num tipo de discurso como o de O matador o palavrão bem colocado dá verossimilhança e densidade para o texto.

"Ei, Gabriela, eu achei que você era uma garota mais moderna. Qual o problema, é a palavra foder? Tudo bem. Vamos mudar. Copular, você gosta de copular? Copular parece coisa de cavalo, você não acha? Meter. Meter é bom. Vamos, diga, eu quero ouvir da sua boca. Gabriela olhando para o chão. Já sei, você prefere transar. Vamos transar. Sabe o que eu acho da palavra transar? Coisa de veado. Meia foda. Fodinha de merda. Você sabe, esses caras que não gostam de foder, é isso, eles dizem transar, eles sobem em cima de você, despejam a porra deles e vão embora, eu não acho que isso seja foder, você acha, Gabriela?"

(Duvido algum resenhista de jornal reproduzir esse trecho em suas páginas, mais uma vantagem da internet...)

Nesse ponto, acho que vale trazer a comparação com Cidade de Deus, outro romance protagonizado por bandidos, mas em que o narrador é em terceira pessoa, o que quase compromete o livro. Em artigo publicado na internet comparo com vagar o discurso utilizado pelo narrador (norma culta, léxico amplo, ortografia correta) e o discurso utilizado para representar a fala das personagens (norma coloquial, léxico reduzido, erros de ortografia). Vejamos um pequeno trecho:

"Ao verem os corpos boiando, perguntaram a Miúdo o que estava acontecendo.
― Veio fazer pedido, veio fazer pedido? Não tem pedido, não! Não tem pedido, não! Tá de ferro aí? Tá de ferro aí? ― perguntou Miúdo.
― Tamo, mas vinhemos numa de paz.
― Paz é o caralho, rapá! Me dá os ferro aí! Me dá os ferro aí!
Os dois entreolharam-se, colocaram a mão direita na parte de trás da cintura, olhavam firme nos olhos de Miúdo, que ao escutar o engatilhar de uma das armas passou fogo nos dois e berrou para Camundongo Russo: ― Joga lá no rio, joga lá no rio!

(...)

A chuva tomou novo impulso, seus pingos ricocheteavam nos telhados como rajada de metralhadora. A água lavou as manchas de sangue na beira do rio, apagou as velas em torno do corpo de César Veneno.
― Mas não tem portância se tudo que vem do céu é sagrado! ― disse sua mãe depois de rezar um terço e desistir de manter as velas acesas."

Note que, quando o travessão inaugura o discurso das personagens, a linguagem culta do narrador dá lugar a uma tentativa de representação da linguagem falada, mas uma linguagem repleta de "erros" morfológicos e sintáticos: "tamo" no lugar de estamos, ainda que se possa considerar uma variação de "tá", já corrente mesmo na escrita; "vinhemos", no lugar de viemos; "me dá", numa já conhecida variação sintática do falar do brasileiro; "rapá", em vez de rapaz; "portância", numa corruptela do vocábulo "importância". Por outro lado, o narrador usa termos como "ricocheteavam", palavra não apenas rara na oralidade como impensável na boca de uma de suas personagens, e construções morfológicas e gramaticais como a de "entreolharam-se", além de "está" e "para" ao invés de "tá" e "prá".

Aqui não vem ao caso a teoria que usamos para fundamentar que esse tipo de divisão, na verdade, desqualifica as personagens e, por extensão, esse grupo social. É uma redução do peso das personagens na obra e, conseqüentemente, no mundo real, o que ajuda a distanciar o leitor daquele contexto social, criando um fosso entre o lar confortável do que lê e as favelas perigosas dos que falam.

No artigo também aproveitamos para ver como grandes obras resolveram esta dificuldade de representar personagens que não são representados pela norma culta da língua. Aluísio Azevedo, por exemplo, em O Cortiço opta pelo narrador em terceira pessoa e também recheia o romance com diálogos, mas as falas são transcritas com tamanha correção gramatical e sintática que por vezes parecem superficiais, como quando brigam João Romão e a mulher e ele diz: "E o que você tem com isso? Mude-me ou não, não lhe tenho de dar satisfações! Meta-se lá com a sua vida!". Difícil imaginar que num contexto social como aquele, numa situação tensa como a do casal o pobre João Romão usaria a forma proclítica e o pronome "lhe".

Machado de Assis e Clarice Lispector já fogem dessa armadilha, ele mudando o narrador de Quincas Borba para um narrador em terceira pessoa (imaginem Rubião narrando o romance...), ela utilizando a metaficção para contar a história de Macabéa no exemplar A hora da estrela. Outra é a solução de Graciliano Ramos, que também se utiliza da terceira pessoa em Vidas Secas mas mantém seu campo semântico dentro do contexto das personagens. Como elas dialogam pouco, não precisa representar tais diálogos com outra linguagem senão a que ele usa na narração.

Claro que a solução genial para esta contradição foi a consagrada por Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas, em que ele recria a personagem e, com ela, seu discurso, tornando culta uma norma da língua marginalizada. Caminho semelhante ao escolhido por Rubem Fonseca para o já célebre conto "Feliz Ano Novo", em que toda a história é narrada pelo líder do grupo que invadirá uma casa rica na noite de réveillon, assaltando, matando e estuprando. E, decerto, fonte importante para Patrícia Melo compor seu matador.

Para terminar, lanço uma outra contradição originada a partir da escolha do narrador em primeira pessoa num texto de literatura bandida: o final. Se o narrador não é um Brás Cubas e está contando sua história, não está morto. Mas se é um bandido e não está morto, terá se safado? E a redenção, esperada e desejada pelo leitor? Num conto, que é curto, os bandidos, assassinos e estupradores podem se sair bem e jactarem-se de suas maldades (que o diga Trevisan), mas é raro um romance não seguir adiante e representar também as conseqüências de uma vida bandida. Não vou, é claro, contar o final escolhido por Melo, só digo que me lembrou um pouco o final de Pessach: A Travessia, de Cony. Um final aberto no texto, mas que se fecha logo ali, na página que não foi escrita exatamente porque o narrador precisa estar vivo para escrever.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 30/10/2008.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Livros, brinquedos, bichos de estimação e imagens


Marcelo Spalding

Recém-passou o Dia das Crianças, aquele dia em que algumas crianças ganham mais um brinquedinho, prévia do que virá no Natal. E eu gostaria muito de saber se as crianças ganharam muitos livros, se pediram mais do que ganharam, se lerão os que ganharam. Não é nostalgia; eu, quando criança, ganhava bonecos do Comandos em Ação e ficava muito brabo se me viessem com meia, cueca ou livro. Aliás, teve um ano que me deram um gato, um gato peludo e pidão. Peludo, pidão e traiçoeiro, nunca chegava perto de mim e quando um dia devo ter insistido, me lanhou com profundidade suficiente para eu nunca mais confiar em gatos.

Lembrei desse bichano e do Dia das Crianças porque acabei de ler Cida, a Gata Maravilha (Record, 2008, 96 págs.), do meu amigo Luiz Paulo Faccioli. E digo já que é meu amigo para não exigirem de mim crítica isenta: li o livro como se lê o livro de um amigo, saboreando, e não anotando com caneta vermelha os pontos a criticar ou louvar. Luiz Paulo Faccioli, o LP, sempre foi um ótimo leitor e, acima de tudo, teve uma ótima professora para a arte da escrita: sua esposa, Cíntia Moscovich. Publicou o primeiro livro, Elepê, em 2000, e o segundo, o romance Estudo das teclas pretas, pela Record, em 2004. No meio disso tornou-se presidente da Associação Gaúcha de Escritores e fundou a Casa Verde. Cida... é a primeira experiência na literatura infantil, e acho que só aceitou porque o assunto do livro são gatos: LP é juiz Allbreed e instrutor pela The International Cat Association (TICA), além de um apaixonado pelos bichanos.

A história conta como a gata Cida apareceu na vida do narrador (aqui vale misturar autor e narrador, porque, quem conhece, parece que está vendo o LP contar a história de sua gata), a chegada na casa, sua primeira gravidez e o ciúme que sentiu ao ter de dividir a casa com Pipoca, um belo e barulhento cachorrinho. Leve sem ser infantil (sic), já nas primeiras páginas encontraremos termos como "prole" ou "ronronava". E não apenas isso: LP aposta num texto razoavelmente extenso e que ocupa graficamente quase todo o livro, cabendo às ilustrações de André Neves pequenas aparições em meio ao texto.

Cito este fato porque os livros infantis contemporâneos, quase na totalidade, investem muito na ilustração e têm textos bastante curtos, cuidadosamente distribuídos nas páginas de forma a não prejudicar as cores e imagens do projeto gráfico. Não que isso seja um problema, mas dão a impressão de que é a única forma de se contar uma história para crianças. E é por isso que surpreende positivamente um livro como o de LP apostar em ilustrações em preto e priorizar o texto. Ainda mais lançado por uma editora como a Record, que não fez essa opção para investir menos, e sim por questões de estética.

O resultado é um texto que será lido e apreciado por amantes de bichos de todas as idades, ainda que uma ou outra criança possa fazer cara feia se ganhá-lo de presente. Não é um brinquedo, é um livro, um livro que conta uma história sem versos, sem rimas, sem concessões.

"Desde que Cida chegou, arranjou também um jeito de participar do meu café-da-manhã. Ela sobe na mesa quando me escuta lidando na cozinha e fica lá à minha espera. Tenho de lhe pedir licença para ocupar o meu lugar cativo, aquele que eu já ocupava muito antes de Cida chegar. Ela se afasta um pouco, miando um miado de contrariedade ― Cida vive contrariada. Aí fica me olhando, imóvel, sentada nas patas traseiras. Parece uma estátua que às vezes pisca os olhos muito lentamente, sempre morta de sono ou preguiça. Quando vê o iogurte, põe a pontinha da língua pra fora, como se estivesse com água na boca. Ela adora iogurte. Mas tem de ser um desses com sabor de fruta. E não é de todas as frutas que ela gosta não. Abacaxi, por exemplo, nem pensar. Em compensação, é louca por mamão."

Agora eu poderia comentar a semelhança entre os bichos de estimação e as crianças de hoje, tão mimados e tão necessários (acho que por isso se entendem tão bem), e pensar se Cida não poderia ser lido como uma crítica a essa postura indulgente dos pais, à medida que a história de LP terminará com a gata contrariada pela presença de Pipoca. Mas não, deixo isso para os que não são amigos do autor e para as professoras que precisam lidar com essas crianças mimadas. Volto à questão da ilustração.

Há aqueles que acham que o texto deve ser suficiente, independente da ilustração, seja ele para crianças ou adultos. Citam o clássico Sítio do Pica-Pau Amarelo, lido com entusiasmo pelas crianças, apesar de sua extensão. Ou o próprio Harry Potter, febre de nem-tão-crianças-assim há alguns anos. Para estes, o desenvolvimento gráfico dos livros é tamanho que muitos textos ruins são publicados e bem recebidos por causa da ilustração, numa inversão de valores inadmissível. Quando confrontados com o fato de vivermos uma era da imagem, lembram que os livros "para adultos" não são ilustrados e continuam circulando. Aliás, os próprios livros para adolescentes têm bem menos ilustrações.

Por outro lado, há muitos escritores e ilustradores que vêem o casamento entre texto e imagem como fundamental para despertar o interesse pela leitura e, mais que isso, trabalhar a imagem e a capacidade cognitiva da criança. Já dos anos 80, estudiosos como a pesquisadora Carmen Regina Alberton defendem esta relação: "desenhos e cores dão alegria aos livros infantis, compartilhando responsabilidades com o texto; a palavra se vê, assim, aclarada, enriquecida, ornamentada pela imagem". Para estes, a ilustração deveria também ser mais presente em livros "para adultos", e tanto que, quando são feitas "edições de luxo", há muitas ilustradas ou de visual mais arrojado.

Particularmente, me parece que um livro como Cida, a Gata Maravilha mostra que sempre haverá espaço para o bom texto, independente do apelo gráfico. O que não desmerece, evidentemente, a evolução das ilustrações na literatura infantil e na literatura como um todo. Aliás, hoje em dia talvez tenhamos mais ilustradores profissionais, que vivem apenas disso, do que escritores profissionais, e por uma razão simples: ilustradores ganham cachê pelo trabalho, além de uma parte dos direitos autorais.

Antes de significar uma inversão de valores, como querem alguns, esta mudança está em sintonia com a perda de importância da palavra e a valorização cada vez maior da imagem, como bem aponta Ítalo Calvino em seu Seis propostas para o próximo milênio:

"Vivemos sob uma chuva ininterrupta de imagens; os media todo-poderosos não fazem outra coisa senão transformar o mundo em imagens multiplicando numa fantasmagoria de jogos de espelhos ― imagens que em grande parte são destituídas da necessidade interna que deveria caracterizar toda imagem, como forma e como significado, como força de impor-se à atenção, como riqueza de significados possíveis. Grande parte dessa nuvem de imagens se dissolve imediatamente como os sonhos que não deixam traços na memória; o que não se dissolve é uma sensação de estranheza e mal-estar."

E, antes de me deixar abatido, tal constatação me alivia, porque explica aquela minha obsessão por Comandos em Ação. Em detrimento dos livros.

Para ir além
Nota do Editor
Leia também "Estudo das Teclas Pretas, de Luiz Faccioli".

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 16/10/2008.