quinta-feira, 17 de julho de 2008

Você já foi infiel?


Marcelo Spalding

Você alguma vez já foi infiel ao seu namorado, marido, companheiro? O que é infidelidade? Você perdoaria uma traição? Tem amigos, amigas ou parentes que traem? E como convive com eles? Isso que parece conversa de mesa de bar, papo de programas vespertinos da nossa gloriosa TV aberta ou fofoca de vizinhas à janela tornou-se objeto de pesquisa da antropóloga Mirian Goldenberg, e daí virou artigos, crônicas, dissertação, tese, livros.

Infiel (Record, 2006, 368 págs.), o mais recente deles, é também uma espécie de síntese do trabalho e das pesquisas de Mirian, tornando-se uma leitura fácil e agradável para quem vive uma das pontas de um triângulo amoroso (ou simplesmente gosta de ser voyeur dos problemas alheios). A autora, apesar de ser Doutora em Antropolgia Social e professora da UFRJ, com dezenas de orientações de pesquisas nas áreas de gênero, desvio, corpo, sexualidade e novas conjugalidades na cultura brasileira, tem um estilo de escrita leve, quase coloquial, e não por acaso tornou-se figurinha carimbada em revistas de informação como Isto É e Época.

Em Infiel, já nas primeiras linhas Mirian revela-se fã de Simone de Beauvoir, afirmando que "seus livros, principalmente O Segundo Sexo, foram decisivos para que me tornasse a mulher que sou e uma pesquisadora das relações de gênero". Simone, dessa forma, está na epígrafe, na introdução e na conclusão da obra, mas não como a militante feminista famosa nos anos 60, e sim como uma mulher cheia de contradições e paixões, dividida entre um amor necessário, Sartre, e um amor contingente, Nelson Algren. Essa mulher, ícone ferido, ícone exposto a partir da publicação das Cartas a Nelson Algren, serve de mote para a antropóloga debater a questão da fidelidade, chegando a se perguntar: "Será que o amor e o problema da fidelidade são capazes de tornar até mesmo uma mulher como Simone de Beauvoir 'meio idiotizada'"?

No capítulo seguinte, a acadêmica entra em ação, revelando dados de uma pesquisa de Elza Borquó que afirma haver 11,3 mulheres não-casadas para cada homem não-casado na faixa dos 30 a 34 anos e 30 mulheres não-casadas para cada homem não-casado na faixa dos 50 a 54 anos, o que seria uma das hipóteses para a maior incidência da infidelidade masculina. Incidência, diga-se de passagem, que é alta.

Segundo pesquisa de Mirian com 1279 homens e mulheres das camadas médias urbanas do Rio de Janeiro, 60% dos homens e 47% das mulheres afirmaram já terem sido infiéis. As razões para a infidelidade mais apontadas pelas mulheres foram falta de amor, insatisfação, crise ou problemas do relacionamento, enquanto os homens acrescentaram a esses motivos a natureza masculina, instinto, oportunidade, atração, desejo. Mais do que isso, segundo dados do IBGE de 1996, 71% dos pedidos de separação feitos por mulheres foram motivados por traição masculina. A infidelidade seria tão recorrente no Brasil que existe um site chamado Meu Álibi só para forjar álibis como convites de eventos ou reservas em hotéis.

"O fato interessante é que, apesar de o ciúme e de a infidelidade serem apontados como os principais problemas vividos nos relacionamentos amorosos, homens e mulheres pesquisados exigem sinceridade, lealdade e franqueza absoluta em seus relacionamentos, o que pode ser visto como um dos paradoxos presentes nos seus discursos. Ao mesmo tempo que reinvindicam privacidade, espaço, independência e autonomia, entre outros ideais de liberdade e individualidade, os pesquisados ressaltam valores que podem ser classificados como simbióticos-românticos de sinceridade absoluta, cumplicidade, interdependência e complementaridade".

Para melhorar a assimilação dos resultados de sua pesquisa ― e tornar o livro mais comercial, evidentemente ―, a antropóloga mescla artigos acadêmicos, onde aparecem os dados estatísticos, citações e reflexões sobre o tema, com matérias publicadas na mídia com ou a partir dela e uma história narrada em ritmo de ficção de uma mulher, Mônica, estudo de caso que costura o livro.

As matérias são publicadas em revistas e jornais, como Isto É, Época, Uma ou Folha de S. Paulo. Repetem-se muito, como não poderia deixar de ser, e em alguns momentos tratam de temas que não têm a ver com a fidelidade, questão central do livro. Parece, num primeiro olhar, que estão ali mais para reforçar a autoridade da antropóloga do que para contribuir com o estudo, pois melhor seria lermos as palavras de Mirian do que dos jornalistas.

Vozes, aliás, o livro tem muitas, tal qual um romance polifônico: trechos das entrevistas feitas por Mirian, depoimentos de homens e mulheres, recortes de outros artigos e pesquisas acadêmicos, reflexões da própria autora. Uma delas, porém, costura toda a história, talvez por ser a mais singular, talvez porque é pela particularização que se atrai um leitor acostumado às narrativas: a voz e a história de Mônica.

Mônica é uma jornalista bem-sucedida que teve uma infância difícil, viu o pai agredir a mãe, agredir aos filhos e saiu de casa ainda adolescente, depois do suicídio da mãe. Nunca casou, talvez pela personalidade independente, talvez pelo trauma de infância, mas também nunca lhe faltaram homens de todos os tipos, bonitos, feios, ricos, pobres, solteiros, casados. Mas o que lhe faz procurar Mirian, e provavelmente o que faz Mirian publicar sua história no livro, é que Mônica está dividida entre um companheiro de anos, que lhe dá uma vida segura mas pacata, e um amante explosivo e agressivo, na cama e fora dela. O medo de Mônica é repetir o padrão da mãe, e diz para Mirian que acredita que haja outra solução que não o suicídio, apesar de não conseguir parar de pensar e desejar o tal amante.

Sobre este aspecto, parece que faltou no livro uma distinção entre infidelidade e distúrbios psíquicos, pois o que fica claro na leitura da obra é que a infidelidade por si só não é, de forma alguma, um desvio de conduta social, um desvio de caráter, mas a história de Mônica e seu amante possessivo deixam claro que a infidelidade pode, sim, desencadear ou revelar distúrbios de personalidade. O que daria outro livro e exigiria o trabalho de outros profissionais.

Deste, para encerrar, podemos alertar que o leitor não terá, ao final das trezentas e poucas páginas, a resposta para as questões de mesa de bar: o que é infidelidade?, por que os homens traem mais?, por que alguns traem e outros não? O que irá acontecer é que o leitor perceberá como a questão da fidelidade está arraigada à cultura e às crenças sociais e individuais, obrigando-nos a refletir não sobre nossas próprias e eventuais traições, mas sobre nossas escolhas, nossos valores, nossas crenças e nossas neuroses.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 17/7/2008.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

O inventário da dor de Lya Luft


Marcelo Spalding

Luft é nome extremamente conhecido e respeitado aqui no Sul. Antigamente por causa do grande gramático e professor Celso Pedro Luft; hoje muito mais por causa da carreira literária daquela que foi sua esposa e herdou seu sobrenome: Lya Luft. Lya iniciou na literatura como tradutora de inglês e alemão de grandes clássicos como Virginia Woolf e Rainer Maria Rilke e, aos 41 anos, em 1980, publicou seu primeiro romance, As parceiras. Até os anos 2000 manteve uma carreira regular, como a de tantos outros bons nomes da nossa literatura contemporânea: algum espaço na mídia, algum estudo acadêmico, grande admiração dos seus pares. Mas com Perdas e Ganhos, publicado em 2003, Lya alcançou o raríssimo posto de autora de best-sellers e tornou-se uma das mais festejadas escritoras da literatura brasileira. Para ilustrar, naquele ano passou a vender mais que Paulo Coelho.

O sucesso repentino, apesar da carreira sólida, trouxe tudo o que se sabe que trará um sucesso repentino: superexposição na mídia, mudança de rumo da sua obra, narizes torcidos. Seus pares já não achavam tão cult citar Lya, e os críticos acusavam-na de ter feito um livro de auto-ajuda, ainda que insistisse em chamá-lo de ficção. Com o tempo, Lya trocou de telefone, de e-mail, tornou-se mais reservada, virou capa de revista semanal, trocou o jornal local, Zero Hora, pela revista que a brindara com capa, procurou evitar holofotes, lançou novos títulos pela Record, livros de crônicas, poesia e até um infantil. Mas precisaria de cinco anos para que voltasse à ficção.

Esse retorno, aguardado e festejado, chega em 2008 com o volume de contos O silêncio dos amantes (Record, 2008, 160 págs.). Amplamente propagandeado aqui em Porto Alegre, tornou-se presente preferido (para quem ainda compra livros de presente) no Dia das Mães e no Dia dos Namorados, mas deve ter deixado muitos filhos, mães, maridos, esposas e namorados surpresos: não parece a mesma autora, decididamente não é o mesmo texto.

Por todo o sucesso dos livros anteriores, naturalmente abre-se o volume de contos à espera da Lya otimista de Perdas e Ganhos, de Pensar é transgredir, de suas colunas, da Lya conselheira, da Lya avó, da senhora de cabelos entre loiros e grisalhos a cantar o prazer da idade, da sabedoria, da leitura. E o que temos é exatamente o oposto: uma Lya soturna, pessimista, criando e matando personagens num ritmo trevisânico.

Amantes, em O silêncio dos amantes, há poucos, e os que existem não vivem bem, odeiam-se calados, cometem violências, vingam-se. Há muitos pais e filhos, há muitos filhos que morrem, alguns que se suicidam. Há velhos, muitos velhos, em geral dependentes, descritos para que deles tenhamos asco, e para tanto não são poupados detalhes escatológicos de uma avó numa clínica. E há, sobretudo, seres imaginários como aqueles amigos de infância que algumas crianças cultivam, seres que acompanham as personagens na vida adulta, na velhice, doces fantasmas a compartilhar segredos.

O resultado é um livro pesado, difícil de se chegar ao final, um livro que como tantos outros desde Rubem Fonseca coloca a violência nua e crua diante do leitor mas não tem nem o ritmo estético próprio desse gênero nem a ousadia existencial da Clarice de A hora da estrela. Resta a dor, apenas a dor, a dor do tempo que passa e envelhece os amantes, embrutece os justos, maltrata as gentes.

Exemplo do tom do livro é o próprio conto que dá título ao volume, "O silêncio dos amantes". Nele, a narradora, entre ressentida e resignada ― como em geral o são as mulheres dos contos ― lembra como conheceu Valentim, aquele que agora dorme ao seu lado, o acaso do primeiro encontro e narra com uma ênfase assustadora a tragédia pela qual havia passado seu agora marido:

"(...) Um assaltante arrancou [a grávida] de dentro do carro e a derrubou no chão. Pegou rapidamente bolsa, relógio e celular da moça caída na calçada, e entrou no carro. As sacolas de compra ficaram no chão, ao lado dela. Quando já estava arrancando, sem explicação, sem motivo a não ser a alucinação da droga ou a maldade mais primitiva, inclinou-se um pouco para fora, e disparou. Duas vezes, na barriga volumosa. O bebê explodiu junto com as entranhas da mãe. Naquela hora, mataram também a Valentim. (...)"

Note que a grávida não é apenas morta, ela tem suas "entranhas explodidas", e ficam o leitor, a narradora e Valentim sem explicação alguma para a brutalidade da cena, a brutalidade da narrativa. Mais do que isso, na seqüência do conto a narradora conquista o homem mas passa a conviver com o fantasma da grávida que rondaria pela casa "com olhos melancólicos e desesperados", num sinal evidente que não há espaço sequer para uma transcendentalidade; a tragédia urbana e humana marcariam em definitivo a existência daquela mulher, daquele bebê, daquela narradora. Que conclui, não por acaso, com a singela frase: "a dor faz parte".

Não é casual que este conto seja o último do livro, que esta frase seja a última do conto, conto e livro que surpreenderão a muitas leitoras, de certo afastarão outras tantas, e talvez seja exatamente essa a intenção de Lya Luft. Ou a de resgatar uma identidade como escritora, ficcionista e contista "respeitada", ainda que para isso tenha que apavorar leitores acostumados a frases como "Porque o amor, do jeito que pode ser, é o caminho da liberdade e da grandeza ― é a nossa única possibilidade de salvação" ("Um tema tão delicado", em Pensar é transgredir).

Se melhor ou pior, não cabe a um reles resenhista afirmar. O que talvez mereça reparo é que um escritor precisa ser honesto com seu público mesmo sendo ele formado por leitoras da Veja. Nesse sentido, não precisava a edição trazer o atraente e romântico título "O silêncio dos amantes" e muito menos a comercial chamada "da autora de Perdas e Ganhos". É outro livro, é quase outra autora. Uma que deve ser guardada bem longe de Paulo Coelho e bem perto de Dalton Trevisan.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 10/7/2008.