quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Literatura de auto e baixo-ajudas


Marcelo Spalding

Moda é moda, e às vezes pega. Se olharmos para a produção literária de uns dez anos pra cá, talvez um pouco antes, não poderemos deixar de perceber a forte presença dos livros de auto-ajuda e das antologias de autores contemporâneos. Mais do que histórias do Afeganistão e de cachorro, livro de auto-ajuda foi o que fez mais sucesso entre os leitores, e antologia de autores contemporâneos o que fez mais sucesso entre os escritores (que, por sinal, não consideram auto-ajuda literatura).

Pois partiu desse segundo grupo, naturalmente, o que talvez seja a primeira antologia de baixo-ajuda, um livro com 35 segredos para chegar a lugar nenhum (Bertrand Brasil, 2007, 168 págs.). Organizado por Ivana Arruda Leite, o livro traz figurinhas carimbadas dessas antologias, como Marcelino Freire e Cíntia Moscovich, e, como sempre acontece com antologias desse feitio, tem resultado bastante desigual.

Acontece que houve um tempo em que antologia (e é como antologia que o livro está na catalogação) era uma reunião de contos já publicados escolhidos por determinado organizador, normalmente um professor (tipo o Bosi). Uma organização do cânone, digamos assim. Hoje, no dito mundo pós-moderno, a onda são antologias em que um escritor da nova geração razoavelmente reconhecido pela mídia convida colegas de FLIPs e que tais para enviar textos inéditos sobre determinado tema. Assim surgiram, por exemplo, Manuscritos de computador ou Os cem menores contos brasileiros do século. O mérito desse tipo de trabalho é que o leitor tem acesso a algumas dezenas de autores contemporâneos de diversos lugares do país. O problema é que aos poucos tudo fica muito parecido e o estilo, que talvez seja o que mantém a literatura como uma arte eminentemente individual, se perde.

Mas voltemos aos segredos. Há de tudo na antologia, desde como ganhar um Jabuti até como matar cupins, passando por dicas de sedução e/ou sexo (para homens, mulheres e gays), dicas para sorrir no retrato de família e dicas de como escrever um cartão-postal. O tom quase predominante é de ironia, uma ironia às vezes fina, noutras cáustica, raramente de protesto e por vezes ironizando o próprio protesto. E a própria literatura, claro.

Em "Como ganhar um Jabuti", Andréa del Fuego pinta um retrato sarcástico e assustadoramente real do métier literário, sugerindo, entre outras coisas, que autores inéditos devam ir a lançamentos toda semana, autores com até três livros publicados devem ir a saraus na casa de escritores, e para quem passou dos seis livros o melhor é ficar em casa para valorizar a presença.

Cíntia Moscovich, em "Como procurar trezentos espetos de picanha desaparecidos", aposta no conto para narrar a história de um irmão casado perdido na noite da cidade, um irmão que pesa o equivalente a 300 espetos de picanha, ou 150 quilos. História de arrancar riso solto dos leitores, casados ou não, possivelmente é baseada em fatos reais, pois são reais e eu conheço a gata Cida, o poodle Pipoca e o marido que trabalha noutra sala da casa, descritos no texto.

O marido, aliás, também se faz presente na antologia com uma dica extremamente curiosa: "como fazer sexo (seguro) na fila do banco". Talvez o conflito seja melhor que o desfecho, mas a história em si é outra que capta um instante do nosso cotidiano para dele fazer literatura de baixo-ajuda mas alta qualidade.

Entre os que mesmo num livro com uma banana amarela brilhosa na capa optaram por um tom crítico, destacam-se o quase agressivo "Use sempre camisinha", de André Sant'Anna, e o irônico "Como a classe média deve tratar os ricos do Brasil", de Antonia Pellegrino. Porque, de acordo com o texto, "andando com os ricos talvez você não enriqueça, mas andando com pobres a pobreza é certa".

Já a organizadora Ivana Arruda Leite escolheu dar a dica de "como transar com o marido da sua melhor amiga sem pôr em risco a amizade entre vocês". O tema estilo Cláudia, a revista pra segurar marido (porque a Nova é pra conquistar marido), funcionou nas mãos de Ivana, que ganha o leitor já nas primeiras frases, mas inexplicavelmente a autora optou por um texto de menos de duas páginas e a história acaba exatamente onde devia começar, suprimindo uma cena que poderia nos fazer rir, uma personagem que poderia nos lembrar do marido de nossa amiga, um diálogo que imitaríamos sem querer.

Noves-fora, das 35 dicas confesso que pretendo aproveitar pelo menos umas três (e não revelarei quais). Mas também confesso que a antologia ajudou a confundir ainda mais o que entendo por auto-ajuda. Primeiro porque há uma mistura proposital da estética dos livros do mundo empresarial, dos livros esotéricos, dos livros psicografados, dos livros de depoimento etc, e depois porque comecei a perceber como a auto-ajuda está imbricada na literatura contemporânea. Não sei se isso é bom ou ruim nem se o movimento parte dos escritores ou dos leitores, mas não pude deixar de lembrar de Divã, da Martha Medeiros, de A vida sexual da mulher feia, da Claudia Tajes, de Por que sou gorda, mamãe?, da Cíntia Moscovich, e mesmo de alguma Clarice ou Caio Fernando Abreu, porque por vezes o leitor não busca uma história, busca um discurso, um jeito de encarar a vida, encarar os conflitos, os dias intermináveis, opressores, tediosos.

Para terminar, não poderia deixar de saudar a criatividade e o traço de Nelson de Oliveira, que ocupa dez páginas com o impagável "Como publicar cartuns protagonizados por você sabe quem sem ter a cabeça decepada na manhã seguinte". Em nota inicial o autor lembra o episódio das charges de Maomé e então começa a dar, em formato de cartum, dicas muito bem-humoradas para desenhar e esconder o profeta (que na história "veste capote da Zoomp, cinto da Kipling, chapéu da Rosa Chá, cueca da Triton, óculos da Arezzo e piercing no testículo direito da M. Officer"). Aliás, eis uma das dicas que aproveitei: preciso ler mais cartuns.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 14/2/2008.