quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Cartas a um jovem escritor


Marcelo Spalding

O título é bom, ótimo, mas não é meu nem da minha coluna, e sim de um interessante livro escrito por Mario Vargas Llosa, Cartas a um jovem escritor (Elsevier, 2006, 188 págs.). A obra faz parte de uma coleção que vai desde Cartas a um jovem chef até Cartas a um jovem herdeiro, passando por um livro com cartas a jovens políticos escrito por Fernando Henrique Cardoso. Mas esqueçamos o caráter comercial da coleção, que não prejudica o ensaio de Llosa e talvez até explique alguns comentários superficiais.

Já nas primeiras páginas, o romancista pergunta: por que dedicaria seu tempo a algo tão efêmero e quimérico ― a criação de realidades fictícias ― aquele que está intimamente satisfeito com a realidade real, com a vida que leva? "A ficção", dirá então Llosa, "é uma mentira que encobre uma verdade profunda, é a vida que não foi, a que os homens e mulheres de determinada época quiseram levar e não levaram, precisando, por isso, inventá-la".

Adiante, o peruano irá lembrar a frase de Flaubert de que a escrita é uma bela vocação que nos absorve a tal ponto que não escrevemos para viver, e sim vivemos para escrever, para logo a seguir afirmar que "o escritor se alimenta de si mesmo", ponderando, porém, que "embora o ponto de partida da invenção de um romancista seja o que ele viveu, esse não é, nem pode ser, o ponto de chegada".

Particularmente, como jovem escritor e, mais ainda, com a mínima autoridade de professor de oficina de criação literária de uma universidade aqui de Porto Alegre, digo que o livro já vale por esses dois capítulos iniciais. Não que as considerações de Llosa sejam novas, mas ele começa as cartas com a pergunta mais sensível àqueles que escrevem: por que escrever? Escreve-se por vocação, escreve-se por vaidade, escreve-se por ganância? Para que escrever, criar realidades em vez de vivê-las, pôr mais um livro no mercado e batalhar insanamente para que outros o leiam?

Lançadas as perguntas, Vargas Llosa não as responde, prefere dar conselhos mais técnicos e objetivos, focando-se sempre na construção do romance, o que não é comum, pois normalmente as poéticas contemporâneas são feitas para o conto. Ao longo das doze cartas, abordará o estilo, o narrador, o espaço, o tempo, os níveis de realidade, as guinadas, o subtexto, a verossimilhança e outros conceitos teóricos que todo escritor, mesmo que rejeite a academia, deveria conhecer, pois nada mais são do que suas ferramentas de trabalho.

Sempre citando exemplos, de Joyce a Monterrosso, nos mostra como cada elemento formal interfere sobremaneira no "poder de persuasão" de um texto, tornando-o mais ou menos inesquecível. Não se pode separar forma e conteúdo, insistirá o romancista, e se romances como Dom Quixote e Moby Dick são bons é graças à eficácia de sua forma, pois a maneira como se conta e o que se conta, nesses romances, formam uma unidade indestrutível.

Como o leitor já deve ter percebido, Vargas Llosa se concentrará no texto, na concepção de romance como arquitetura, esquema narrativo, chegando a afirmar que nenhum romancista obteve sucesso fulminante, todos foram frutos de anos de disciplina e perseverança. E nesse sentido é interessante notar como a concepção de literatura, e, por conseguinte, do papel do escritor, mudou ao longo de cem anos.

Entre 1903 e 1908, Rainer Maria Rilke, considerado o melhor poeta de língua alemã do século XX, trocou cartas com um jovem que pedia juízo sobre sua obra e essas cartas hoje estão publicadas em Cartas a um jovem poeta (livro que não é mencionado em nenhum momento por Vargas Llosa mas que provavelmente serviu de inspiração para os organizadores da coleção Cartas a um jovem...). Em suas cartas, Rilke começa dizendo-se impedido de comentar a obra alheia, mas sugere que falta personalidade ao poeta, chegando a perguntar se ele TEM mesmo que escrever. A partir daí, passa a dar muitos conselhos para o jovem Kappus, todos eles relacionados à vida do rapaz, insistindo que ele deve viver mais, aprender com a tristeza, ler menos crítica literária. Não há uma carta sequer dedicada às questões formais, como em Vargas Llosa.

Mais do que opção estética de um e outro, esse fato demonstra como a literatura transformou-se ao longo de um século, apagando muito da influência do romantismo e recebendo muita influência da sociedade industrial, da cultura de massa, da tecnologia crescente. Já não se fala em inspiração, muito menos em musa-inspiradora, mas em trabalho, muito trabalho, disciplina, atenção. Mais do que criador, o escritor contemporâneo deve ser um construtor, um arquiteto capaz de aliar sensibilidade artística e estruturação quase matemática.

Não que o estilo não seja importante, pelo contrário. Vargas Llosa dedicará um capítulo inteiro ao tema, onde afirma que "não é possível ser um romancista sem ter um estilo coerente e necessário, e visto que você deseja tê-lo, busque e encontre o seu estilo lendo bastante, mas (...) procure fugir das reproduções mecânicas dos padrões e ritmos da escrita de terceiros, pois se você não for capaz de desenvolver um estilo pessoal, aquele que mais convém ao que você pretende contar, suas histórias dificilmente conseguirão se embeber do poder de persuasão que as fará viver". Mas esse estilo não nasce de uma hora para outra, é uma conquista. E precisa ser lapidado.

Por essas e outras reflexões, nada como levar para as férias esse livrinho de Vargas Llosa. Talvez muitos cheguem ao final constrangidos pelo que até então tenham escrito, mas também isso é parte do amadurecimento profissional de um escritor, inevitável àqueles que desejam ir além de leitores-amigos e blogs engraçadinhos.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 31/1/2008.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Em tempos de China, falemos de Cuba


Marcelo Spalding

Você já ouviu falar de O lado frio do travesseiro (Mundo Editorial, 2006, 296 págs.)? Vamos lá, esforce-se: não leu nada no Estadão, na Folha, n'O Globo? Possivelmente não, e talvez não seja por acaso: O lado frio do travesseiro, romance da espanhola Belén Gopegui, ousa, numa só tacada, questionar o papel da mídia, acusar os Estados Unidos de manter organizações golpistas e assassinas e ainda saudar a permanência do Estado socialista de Cuba, o que não impediu que se tornasse best-seller na Espanha.

Lançado em 2004, o romance vendeu incríveis 18.000 exemplares em apenas dois meses, permanecendo várias semanas na lista dos mais vendidos e provocando debates nas principais cidades espanholas, sempre avalizados pelos meios de comunicação que, segundo a irônica apresentação de Iroel Sánchez, "cometeram o erro de entrevistar, ainda que apenas com perguntas maniqueístas, quem não aceita curvar-se ao discurso dominante".

Mas não pense que a autora saúda Fidel Castro ou Che, louva as conquistas da revolução, o analfabetismo zero, a saúde pública: a grande ousadia de Belén é simplesmente lembrar de Cuba, da pequenina ilha, do seu regime e dos sonhos que ainda agarram-se em suas margens. Em tempos de China pseudo-comunista, de uma China exemplar para o capitalismo e atemorizadora para o grande Tio Sam, a autora assume o papel da personagem mártir Laura Bahia e permite dizer, por exemplo, que Cuba é "a possibilidade de um lugar não submetido à lógica dos benefícios, que sempre traz atrelada a lógica da beneficiência".

A ponta desse iceberg é uma trama simples, entre romântica e policial, em que uma agente secreta da segurança do Estado de Cuba e um agente internacional norte-americano são escolhidos para intermediar determinada operação, supostamente para ajudar a derrubar o regime de Castro, já que os norte-americanos não sabem que Laura, a agente cubana, trabalha para o Estado de Cuba. Em meio aos encontros secretos, apaixonam-se e vivem tórridas noites de amor antes do final surpreendente, trágico, frio:

"Não foi o orgasmo em sua intensidade nem em sua certeza, escafandro de mergulhador, bola de neve arremessada que num momento explode, e os flocos, muito lentamente, se dispersam. Foi logo depois. (...) Laura observava a pele muito branca de Hull, e não queria se mexer. Foi então que começaram a compreender que precisavam um do outro; que se passassem muitos dias sem se ver, os corpos, soltos, perdidos, ficariam à deriva."

Não trata-se, exatamente, de uma história original, tampouco surpreende o arranjo político e todas as suas artimanhas, mesmo reveladas de forma tão cruel, ainda que verossímil. O leitor sabe desde o início que Laura foi morta, mas o leitor precisará entender o porquê, em nome do quê, e sem dúvidas o leitor que não perceber os intertextos políticos da trama fechará o romance sem entender o que representava para Laura aquela operação, aquela ilha, aquela idéia.

Talvez fosse útil ou aconselhável, nesse ponto, que o leitor conhecesse um pouco sobre a história recente de Cuba, especialmente depois da queda da URSS, que seria a financiadora do projeto de Fidel. A pequena ilha, de 11 milhões de habitantes, entrou em grande crise para se estabilizar razoavelmente, em meados da década de 90, a partir de acordos comerciais e certa abertura política, apoiando-se principalmente na ascensão política da China. Dessa forma, os Estados Unidos voltam a olhar para a ilha ― quando sobra tempo, ocupados que estão com o Oriente Médio ― e chega aos noticiários informações de espionagens e execuções sumárias por parte de Fidel, amplamente repudiadas pela grande imprensa, que as classificou como afronta aos Direitos Humanos. E Belén, aliás, não se furta a inserir esse episódio no romance.

Verdade que a literatura contemporânea ou não é muito afeita a romances desse feitio, debruçados na história, ou os transforma em best-sellers pasteurizados como os intermináveis Cabuls, mas houve um tempo, no começo do século XX, especialmente, que os romances debruçavam-se nos fatos reais com naturalidade e seus escritores eram verdadeiros atores do jogo social. No Brasil, Monteiro Lobato talvez seja o exemplo mais célebre, mas Viana Moog com Um rio imita o reno é o caso mais singular: tratando do espinhoso tema do racismo germânico, foi publicado em 1939, no calor da hora, da dramática hora em que uma guerra está ocorrendo. É ao mesmo tempo uma peça de ficção, uma reflexão e uma obra de arte, um romance que enfrenta os riscos de discutir o mundo tal como este se apresenta.

Naturalmente, uma análise da obra, ainda que breve e rasteira, não poderia deixar de abordar os aspectos estéticos, as opções da autora para contar a história de uma e não de outra forma, mas comentar sua escolha é, de certa forma, antecipar seu final, um final de epílogos seqüentes. Talvez O lado frio do travesseiro ficasse mais potente se narrado como Pessach, de Cony (olha outro exemplo de romance debruçado na realidade político-social do seu tempo), em primeira pessoa, ou a partir de um narrador em terceira como o proposto no começo da obra. A mescla de ambas as soluções talvez apenas enrede ainda mais uma trama já complexa e não se justifica nem pela tal polifonia, pois vemos em ambos os momentos a autora, sua ideologia e suas bandeiras. O que muda é que, quando narrando a partir das cartas de Laura, Belén permite-se maior lirismo, talvez excessivo, enquanto o "escritor espanhol classe média" que conta a história da heroína a pedido de um amigo e colega dela é bem mais concreto e atento às conspirações políticas.

Muitos acusariam, e acusarão, O lado frio do travesseiro de panfletário, mesmo com a escrita habilidosa e a trama fluente de Belén. Muitos achariam graça, e acharão, do romantismo ingênuo de Laura Bahia. Muitos desdenhariam a obra, e desdenharam, por considerar o tema fora de moda, inadequado. Ou assunto para páginas de jornais e revistas, não para livros, muito menos para romances literários. Mas talvez seja exatamente pela ideologia, pela ingenuidade romântica e pelo anacronismo do debate que faz-se um romance e não uma grande reportagem ou um vídeo pro YouTube. Mas a idéia de resgatar o romance enquanto meio de comunicação social, enquanto instrumento de luta na arena política, fortalece o texto de Belén e o torna, no mínimo, instigante. Foge do pensamento único ao mesmo tempo em que se apóia no que há de mais clássico no romance europeu e no cinema hollywoodiano, a intriga, o amor, a traição, o crime. Contraditório tal qual sua protagonista, tal qual a ilha, tal qual o homem e seus sistemas políticos. Sejam quais forem.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 17/1/2008.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Literatura policial ou literatura bandida?



Marcelo Spalding

Grande clichê: a vida imita a arte. Maior ainda: mentira, é a arte que imita a vida. Seja por um motivo ou outro, nunca se viu tanto tiro e tanta morte na literatura brasileira, tiros à queima roupa, mortes sádicas, estupros covardes. Não estou esquecendo Rubem Fonseca, nem poderia, mas se antes podíamos apontar quem fazia "literatura policial" no Brasil, agora fatalmente esqueceremos muitos.

Luís Dill, gaúcho, jornalista e escritor profícuo, com mais de dezena de livros publicados, acaba de inserir-se nesse hall com Tocata e Fuga (Bertrand Brasil, 2007, 128 págs.). Não que estréie nesse tipo de estética, seu Lâmina Cega, publicado aqui na província e até agora sem repercussão nacional (logo terá, tenho certeza), já trazia a violência para o centro da cena, uma violência sem causas aparentes, sem remorsos, sem penas. E narrada de forma habilidosa, vertiginosa, cinematográfica, por alguém que domina as técnicas narrativas da prosa breve.

Pois de cara o leitor perceberá em Tocata e Fuga a mão do grande autor, possivelmente sinta medo já no primeiro conto, apague a luz e coloque o livro sobre a mesa ou no chão, vire-se e revire-se na cama, perturbado, e volte a acender a luz para ler pelo menos mais quatro, cinco histórias. Aos poucos perceberá que as onze histórias se cruzam, as personagens estão em uma e outra, ora bandidos ora vítimas, sempre armados, sempre prontos para morrer, o que os diferencia de nós, vítimas amedrontadas de tanta violência.

"Pra ter medo de branco, o cara tem que ser muito feio, mal-encarado, de preferência com olho vazado, o queixo faltando um pedaço ou pelo menos uma cicatriz na testa. Mulher idiota. Consegue ficar com o sorriso diante do Rossi .38 SPL, modelo 726, inox, cano duas polegadas, seis tiros. Tira o cinto e desce, vagabunda! Nada."

Morrerá a violinista que dirigia o Alfa Romeo dessa cena, a primeira do livro, como uma a uma morrerão as vítimas que cruzarem os caminhos dos bandidos do livro. E nesse sentido lembro de Cidade de Deus, o romance, e dos contos mais fortes de Trevisan. O livro, entretanto, não se pretende inserir na tradição neo-realista da literatura brasileira, e já na página de rosto traz o sugestivo epíteto "contos policiais". Mas o leitor segue folheando as páginas, conto a conto, e percebe logo que a polícia não faz parte daquele universo, a narrativa é sempre dos bandidos, dos assassinos, dos ladrões, as personagens são as prostitutas, os traficantes, os viciados, e quando a polícia surge em cena é para agir como bandido, torturar até a morte um transeunte mulato. Não há lei, não há justiça, tampouco polícia em Tocata e Fuga, como não havia em Cidade de Deus ou em Trevisan.

Por isso, também por isso, talvez fosse mais adequado percebermos a presença de uma "literatura bandida" no Brasil. Uma literatura de dar medo, daquelas que se a menina de dezesseis anos lê, nunca mais passeia sozinha de noite nem fala com estranhos em carrões. Uma literatura que, acima de tudo, é reflexo da sociedade relatada nos jornais, dos crimes hediondos e banais, e inclusive dos estereótipos. Em Tocata e Fuga, por exemplo, os criminosos são via de regra da periferia, pobres, e cedo descobriram que o crime compensa, para o azar dos que andam de Alfa Romeu ou BMW: "Fazer o quê? Pior seria sujar as mãos com graxa, passar o dia batendo com um carimbo em cima de montanhas de papel, contar o dinheiro dos outros, servir drinques, arrumar dentes, pintar meios-fios, descascar batatas, vender enciclopédias", dirá o matador de aluguel. Maniqueísmo perigoso, talvez usado com ironia pela mão habilidosa de Dill, mas que fará os fãs do Capitão Nascimento gritarem cada vez mais forte "viva a pena de morte", "paredão pros bandidos", "ponham fogo nas favelas". A síntese dessa estética em geral e da ficção adulta de Dill em particular talvez seja um miniconto do próprio autor, publicado em Contos de Bolso, texto que considero o menor conto do mundo (pois há de se contar o título):

"Aventura"
Nasceu.

Sim, porque diante de gente como as aqui representadas, viver é mais do que dificultoso, como dissera o jagunço de Rosa, viver é perigoso, pode ser cruel, pode ser muito pior do que a morte à bala, rápida, pode ser muito pior do que a falta de pão e carne, solucionável. É aventurar-se.

Vivos fossem, Sherlock Holmes e Dr. Watson provavelmente reprovariam a nova estética da "literatura policial". Em "Um caso de identidade" já dissera Watson: "os casos que aparecem nos jornais são, em regra, bastante grosseiros e baixos. Temos nas reportagens policiais o realismo estendido aos seus limites extremos e o resultado, é preciso confessar, não é fascinador, nem artístico", ao que completou Holmes: "deve-se usar certa seleção e discrição para se produzir efeitos realísticos".

Se tal recomendação é ou não válida ainda hoje, em tempos de Fantástico e Tropa de Elite, há de se pensar. Os acertos de Tocata e Fuga são também seus erros, a aposta na violência urbana crua, a falta de transcendência, a despreocupação com o jogo social que provoca tal cenário. Literatura para determinado nicho de leitor, ainda bem que literatura bem feita, feita por mãos habilidosas que certamente ainda nos brindarão.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 3/1/2008.