quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Fatal: o livro e o filme


Marcelo Spalding

Começam as listas e especiais de final de ano, e desde já digo que o filme Fatal precisa estar nessas listas. E pelo nada que entendo do Oscar, estará entre os indicados em 2009.

Fatal consegue ser um bom filme mesmo para quem leu O animal agonizante, antológica novela de Philip Roth em que foi baseado. Publicada em 2001, a obra conta a história de um professor universitário com mais de sessenta anos que costuma sair com suas alunas até apaixonar-se irremediavelmente por uma delas. E é a partir desse mote aparentemente banal que Roth constrói uma ficção de extrema qualidade técnica e densidade psicológica, nos levando a refletir não apenas sobre a idade, mas sobre morte e vida, e não apenas sobre o corpo, mas sobre amor e sexo. E sobre as relações entre corpo, sexo, vida e morte.

"Por mais que você saiba, por mais que você pense, por mais que você planeje, projete e conspire, você não é superior ao sexo. O sexo é um jogo muito arriscado. Um homem não teria dois terços dos problemas que tem se não se metesse em aventuras para conseguir foder. É o sexo que perturba nossas vidas naturalmente ordenadas."

Kepesh, o professor, é também o narrador da novela, e este dado é fundamental: primeiro porque permite que a novela seja repletas de idas e vindas no tempo, intrusões do narrador com definições sobre mulheres, sobre os EUA ou sobre sexo, imprecisões e exageros próprios da subjetividade. Depois porque este narrador em primeira pessoa nos faz lembrar que a história é uma versão do professor, é a sua história, e Consuela é a sua musa, e a beleza de Consuela é a que ele nos narra. Uma beleza, aliás, como das poucas que li:

"A tez é clara, a boca é curva, embora os lábios sejam cheios, e a testa é arredondada, uma testa polida, lisa, com uma elegância de Brancusi. (...) O cabelo é negro, bem negro, lustroso, um pouco grosso. E ela é grande. Um mulherão grande. A blusa de seda está desabotoada até o terceiro botão, de modo que dá para ver que ela tem seios poderosos, lindos. Imediatamente você vê a fenda entre eles. E você vê que ela sabe."

Mas a beleza não está apenas nas palavras de quem conta, pode estar também nos olhos de quem vê. E Isabel Coixet, a diretora do filme, conseguiu captar em suas lentes não apenas a beleza de Consuela e a angústia cínica, egoísta e apaixonada de Kepesh como também a complexidade das relações humanas, tão bem sintetizadas no livro.

Claro que o filme, para ser fiel à essência da novela, não é igual à novela. Primeiro, não pode ser narrado em primeira pessoa, embora com bastante freqüência o espectador ouça os pensamentos e veja em close a expressão do professor. Depois, Consuela não pode ser apenas uma imagem construída pelo leitor em sua imaginação, no filme seria preciso dar a ela olhos, voz, seios. E a escolha recaiu sobre a bela Penélope Cruz. Não tão bela como a Consuela que imaginei na leitura, diga-se de passagem. Nem tão bela nem tão cubana nem tão altiva. Mas Penélope, com uma atuação segura, convence no papel de musa e nas cenas finais mostra por que deixou de ser um rostinho bonito em Hollywood, sem perder a beleza e a graça do rosto e dos olhos.

A maior diferença entre o filme e o livro, porém, é o enfoque. Se perguntarem do que se trata o livro para alguém que o tenha lido recentemente, é possível que ele responda: sobre a libertinagem norte-americana e suas conseqüências, sobre a agonia do homem diante da sedução da mulher, sobre o egoísmo da sociedade contemporânea, sobre a importância de romper preconceitos e gozar cada momento da vida, sobre a nossa submissão ao sexo. E todas essas respostas serão pertinentes, mas irão variar muito de acordo com as preocupações e prioridades do leitor. Agora, se fizerem pergunta para alguém que tenha acabado de assistir ao filme, essa pessoa necessariamente dirá que a adaptação fala sobre a velhice. Poderá acrescentar à velhice outros temas, mas a questão da idade, da proximidade da morte é muito importante, tanto que o filme cria um final para o livro (ainda que a frase final da versão cinematográfica seja enigmática e suficientemente aberta para causar no espectador efeito semelhante àquele sentido pelo leitor).

Quase, quase contei o final do filme, mas não o fiz. Não o fiz porque o desfecho do filme, assim como do livro, é o que torna a história tão interessante, um final absolutamente verossímil, suficiente e necessário. Lembra um pouco, nesse sentido, As horas e Crash (dois oscarizados, aliás). E se não posso ir adiante no debate sobre o filme sob pena de revelar o final, volto ao título para encerrar estes comentários e não dizer que não fiz alguma crítica. Péssimo título, o da versão em português. Fatal poderia ser título de um filme de suspense, de um filme pornô, de um filme policial, não de um filme cujo livro se chama O animal agonizante. Se é para mudar o título do livro, que fosse um título melhor. Mas é claro que a culpa, aí, não é da diretora: em inglês o filme se chama Elegy. Elegia, dicionarizado pelo Michaelis como "poema pequeno, consagrado ao luto ou à tristeza".

O filme é, de fato, uma elegia. Assim como o livro. Assim como a vida.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 27/11/2008.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Qual o melhor narrador de uma história bandida?


Marcelo Spalding

Noutro artigo aqui neste site já comentei a passagem da literatura policial brasileira para a literatura bandida. Não sei, confesso, se é algo nosso ou se reflete uma tendência mundial; interessa é que há algum tempo os romances policiais são narrados e/ou protagonizados por bandidos (assim como alguns dos filmes de maior sucesso do cinema nacional contemporâneo, ainda que, neste caso, o policial seja meio polícia, meio bandido).

Sob este aspecto é que gostaria de comentar O matador (Companhia das Letras, 2008, 200 págs.), romance publicado por Patrícia Melo em 1995 e que agora ganha nova ― e enxuta ― edição pela Companhia de Bolso. Para quem ainda não leu, o romance conta a história de um vendedor de carros usados que de repente entra no mundo do crime. Envolve-se com polícia e bandidos, mulheres e clientes, drogas e armas. Usa drogas, armas e mulheres assim como policiais, clientes e bandidos o usam. Uma temática que se tornaria versão for export de nossa violência urbana, e, não por acaso ― mas não só por isso ―, o romance de Patrícia já foi traduzido para países como Alemanha, Holanda, Inglaterra, França, Itália e Espanha.

Não é, decerto, o primeiro romance a trazer a introspecção ― e, por que não, as razões ― do bandido para a cena. O bandido já está aí pelo menos desde Rubem Fonseca. Lembro do comedido, delicado e impactante Subúrbio, de Fernando Bonasi, publicado um ano antes, em 1994. Mas O matador também não é um desses seguidores da onda Cidade de Deus, pois foi escrito antes do romance de Paulo Lins e muito antes do filme.

Do ponto de vista que nos interessa neste texto, porém, O matador pode servir quase de paradigma para quem quer escrever uma "história bandida", ou seja, uma história protagonizada por um bandido ou qualquer outro tipo de personagem que esteja à margem da sociedade. Jamais esse tipo social publicará suas histórias, e nem há registros na literatura de que o tenham feito antes: primeiro porque não têm suficiente escolaridade para criar um texto complexo como é o romance, depois porque mesmo que inventem uma forma e escrevam um longo e profundo texto, não terão espaço nas editoras, que logo dirão que aquilo não é literatura. Por outro lado, muito interessa a pessoas como eu, que só conhecem a violência pelo que vêem na imprensa e na literatura (e como não acredito na imprensa, resta a literatura), a vida desse tipo social, a vida de pessoas que estão à margem da sociedade, pedintes, mendigos, bandidos, pais de família, crianças. E é aí que entram os escritores de ficção.

O escritor que se arriscar a fazer um texto protagonizado por um bandido, então, precisará inventar o narrador bandido, suas razões, sua forma de agir, seu léxico, sua organização sintática, de forma que se acredite ser aquele texto um depoimento daquele sujeito, e não um olhar "de cima", alheio, por vezes enojado. E é nesse ponto que Patrícia Melo melhor acerta a mão.

Ao optar pelo narrador em primeira pessoa, a autora liberta-se das normas rígidas e abre um universo de possibilidades técnicas, como a eliminação da necessidade de diálogos, com o próprio narrador reproduzindo os diálogos em seu discurso, e a possibilidade de pequenos fluxos de consciência, fundamentais para a humanização d'O matador.

"Os dias, meu Deus, os dias pareciam estar pregados com parafusos, não passavam. Sentia uma tristeza danada, eu deveria ter fugido para outro lugar, toda vez que vou ao campo tenho vontade de me matar. O céu pode estar azul e as quaresmeiras carregadas de flores, nada muda meu estado de espírito. As vacas, o olhar das vacas, me deixam triste. Eu poderia ter ido para a praia, as ondas, as mulheres, o mar é melhor. O campo é uma mentira. Você olha pela janela e toda aquela bondade de mão beijada, humanos oferecendo broas de milho para estranhos, não sei, não acredito. O homem não é bom."

Outra libertação importante para a autora ao escolher esta técnica do narrador-protagonista é o uso de termos próprios daquela realidade, como gírias e, especialmente, palavrões. Pode ser que a literatura, hoje, esteja quase saturando o palavrão, como nosso cinema já fez nos anos 80, mas num tipo de discurso como o de O matador o palavrão bem colocado dá verossimilhança e densidade para o texto.

"Ei, Gabriela, eu achei que você era uma garota mais moderna. Qual o problema, é a palavra foder? Tudo bem. Vamos mudar. Copular, você gosta de copular? Copular parece coisa de cavalo, você não acha? Meter. Meter é bom. Vamos, diga, eu quero ouvir da sua boca. Gabriela olhando para o chão. Já sei, você prefere transar. Vamos transar. Sabe o que eu acho da palavra transar? Coisa de veado. Meia foda. Fodinha de merda. Você sabe, esses caras que não gostam de foder, é isso, eles dizem transar, eles sobem em cima de você, despejam a porra deles e vão embora, eu não acho que isso seja foder, você acha, Gabriela?"

(Duvido algum resenhista de jornal reproduzir esse trecho em suas páginas, mais uma vantagem da internet...)

Nesse ponto, acho que vale trazer a comparação com Cidade de Deus, outro romance protagonizado por bandidos, mas em que o narrador é em terceira pessoa, o que quase compromete o livro. Em artigo publicado na internet comparo com vagar o discurso utilizado pelo narrador (norma culta, léxico amplo, ortografia correta) e o discurso utilizado para representar a fala das personagens (norma coloquial, léxico reduzido, erros de ortografia). Vejamos um pequeno trecho:

"Ao verem os corpos boiando, perguntaram a Miúdo o que estava acontecendo.
― Veio fazer pedido, veio fazer pedido? Não tem pedido, não! Não tem pedido, não! Tá de ferro aí? Tá de ferro aí? ― perguntou Miúdo.
― Tamo, mas vinhemos numa de paz.
― Paz é o caralho, rapá! Me dá os ferro aí! Me dá os ferro aí!
Os dois entreolharam-se, colocaram a mão direita na parte de trás da cintura, olhavam firme nos olhos de Miúdo, que ao escutar o engatilhar de uma das armas passou fogo nos dois e berrou para Camundongo Russo: ― Joga lá no rio, joga lá no rio!

(...)

A chuva tomou novo impulso, seus pingos ricocheteavam nos telhados como rajada de metralhadora. A água lavou as manchas de sangue na beira do rio, apagou as velas em torno do corpo de César Veneno.
― Mas não tem portância se tudo que vem do céu é sagrado! ― disse sua mãe depois de rezar um terço e desistir de manter as velas acesas."

Note que, quando o travessão inaugura o discurso das personagens, a linguagem culta do narrador dá lugar a uma tentativa de representação da linguagem falada, mas uma linguagem repleta de "erros" morfológicos e sintáticos: "tamo" no lugar de estamos, ainda que se possa considerar uma variação de "tá", já corrente mesmo na escrita; "vinhemos", no lugar de viemos; "me dá", numa já conhecida variação sintática do falar do brasileiro; "rapá", em vez de rapaz; "portância", numa corruptela do vocábulo "importância". Por outro lado, o narrador usa termos como "ricocheteavam", palavra não apenas rara na oralidade como impensável na boca de uma de suas personagens, e construções morfológicas e gramaticais como a de "entreolharam-se", além de "está" e "para" ao invés de "tá" e "prá".

Aqui não vem ao caso a teoria que usamos para fundamentar que esse tipo de divisão, na verdade, desqualifica as personagens e, por extensão, esse grupo social. É uma redução do peso das personagens na obra e, conseqüentemente, no mundo real, o que ajuda a distanciar o leitor daquele contexto social, criando um fosso entre o lar confortável do que lê e as favelas perigosas dos que falam.

No artigo também aproveitamos para ver como grandes obras resolveram esta dificuldade de representar personagens que não são representados pela norma culta da língua. Aluísio Azevedo, por exemplo, em O Cortiço opta pelo narrador em terceira pessoa e também recheia o romance com diálogos, mas as falas são transcritas com tamanha correção gramatical e sintática que por vezes parecem superficiais, como quando brigam João Romão e a mulher e ele diz: "E o que você tem com isso? Mude-me ou não, não lhe tenho de dar satisfações! Meta-se lá com a sua vida!". Difícil imaginar que num contexto social como aquele, numa situação tensa como a do casal o pobre João Romão usaria a forma proclítica e o pronome "lhe".

Machado de Assis e Clarice Lispector já fogem dessa armadilha, ele mudando o narrador de Quincas Borba para um narrador em terceira pessoa (imaginem Rubião narrando o romance...), ela utilizando a metaficção para contar a história de Macabéa no exemplar A hora da estrela. Outra é a solução de Graciliano Ramos, que também se utiliza da terceira pessoa em Vidas Secas mas mantém seu campo semântico dentro do contexto das personagens. Como elas dialogam pouco, não precisa representar tais diálogos com outra linguagem senão a que ele usa na narração.

Claro que a solução genial para esta contradição foi a consagrada por Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas, em que ele recria a personagem e, com ela, seu discurso, tornando culta uma norma da língua marginalizada. Caminho semelhante ao escolhido por Rubem Fonseca para o já célebre conto "Feliz Ano Novo", em que toda a história é narrada pelo líder do grupo que invadirá uma casa rica na noite de réveillon, assaltando, matando e estuprando. E, decerto, fonte importante para Patrícia Melo compor seu matador.

Para terminar, lanço uma outra contradição originada a partir da escolha do narrador em primeira pessoa num texto de literatura bandida: o final. Se o narrador não é um Brás Cubas e está contando sua história, não está morto. Mas se é um bandido e não está morto, terá se safado? E a redenção, esperada e desejada pelo leitor? Num conto, que é curto, os bandidos, assassinos e estupradores podem se sair bem e jactarem-se de suas maldades (que o diga Trevisan), mas é raro um romance não seguir adiante e representar também as conseqüências de uma vida bandida. Não vou, é claro, contar o final escolhido por Melo, só digo que me lembrou um pouco o final de Pessach: A Travessia, de Cony. Um final aberto no texto, mas que se fecha logo ali, na página que não foi escrita exatamente porque o narrador precisa estar vivo para escrever.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 30/10/2008.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Livros, brinquedos, bichos de estimação e imagens


Marcelo Spalding

Recém-passou o Dia das Crianças, aquele dia em que algumas crianças ganham mais um brinquedinho, prévia do que virá no Natal. E eu gostaria muito de saber se as crianças ganharam muitos livros, se pediram mais do que ganharam, se lerão os que ganharam. Não é nostalgia; eu, quando criança, ganhava bonecos do Comandos em Ação e ficava muito brabo se me viessem com meia, cueca ou livro. Aliás, teve um ano que me deram um gato, um gato peludo e pidão. Peludo, pidão e traiçoeiro, nunca chegava perto de mim e quando um dia devo ter insistido, me lanhou com profundidade suficiente para eu nunca mais confiar em gatos.

Lembrei desse bichano e do Dia das Crianças porque acabei de ler Cida, a Gata Maravilha (Record, 2008, 96 págs.), do meu amigo Luiz Paulo Faccioli. E digo já que é meu amigo para não exigirem de mim crítica isenta: li o livro como se lê o livro de um amigo, saboreando, e não anotando com caneta vermelha os pontos a criticar ou louvar. Luiz Paulo Faccioli, o LP, sempre foi um ótimo leitor e, acima de tudo, teve uma ótima professora para a arte da escrita: sua esposa, Cíntia Moscovich. Publicou o primeiro livro, Elepê, em 2000, e o segundo, o romance Estudo das teclas pretas, pela Record, em 2004. No meio disso tornou-se presidente da Associação Gaúcha de Escritores e fundou a Casa Verde. Cida... é a primeira experiência na literatura infantil, e acho que só aceitou porque o assunto do livro são gatos: LP é juiz Allbreed e instrutor pela The International Cat Association (TICA), além de um apaixonado pelos bichanos.

A história conta como a gata Cida apareceu na vida do narrador (aqui vale misturar autor e narrador, porque, quem conhece, parece que está vendo o LP contar a história de sua gata), a chegada na casa, sua primeira gravidez e o ciúme que sentiu ao ter de dividir a casa com Pipoca, um belo e barulhento cachorrinho. Leve sem ser infantil (sic), já nas primeiras páginas encontraremos termos como "prole" ou "ronronava". E não apenas isso: LP aposta num texto razoavelmente extenso e que ocupa graficamente quase todo o livro, cabendo às ilustrações de André Neves pequenas aparições em meio ao texto.

Cito este fato porque os livros infantis contemporâneos, quase na totalidade, investem muito na ilustração e têm textos bastante curtos, cuidadosamente distribuídos nas páginas de forma a não prejudicar as cores e imagens do projeto gráfico. Não que isso seja um problema, mas dão a impressão de que é a única forma de se contar uma história para crianças. E é por isso que surpreende positivamente um livro como o de LP apostar em ilustrações em preto e priorizar o texto. Ainda mais lançado por uma editora como a Record, que não fez essa opção para investir menos, e sim por questões de estética.

O resultado é um texto que será lido e apreciado por amantes de bichos de todas as idades, ainda que uma ou outra criança possa fazer cara feia se ganhá-lo de presente. Não é um brinquedo, é um livro, um livro que conta uma história sem versos, sem rimas, sem concessões.

"Desde que Cida chegou, arranjou também um jeito de participar do meu café-da-manhã. Ela sobe na mesa quando me escuta lidando na cozinha e fica lá à minha espera. Tenho de lhe pedir licença para ocupar o meu lugar cativo, aquele que eu já ocupava muito antes de Cida chegar. Ela se afasta um pouco, miando um miado de contrariedade ― Cida vive contrariada. Aí fica me olhando, imóvel, sentada nas patas traseiras. Parece uma estátua que às vezes pisca os olhos muito lentamente, sempre morta de sono ou preguiça. Quando vê o iogurte, põe a pontinha da língua pra fora, como se estivesse com água na boca. Ela adora iogurte. Mas tem de ser um desses com sabor de fruta. E não é de todas as frutas que ela gosta não. Abacaxi, por exemplo, nem pensar. Em compensação, é louca por mamão."

Agora eu poderia comentar a semelhança entre os bichos de estimação e as crianças de hoje, tão mimados e tão necessários (acho que por isso se entendem tão bem), e pensar se Cida não poderia ser lido como uma crítica a essa postura indulgente dos pais, à medida que a história de LP terminará com a gata contrariada pela presença de Pipoca. Mas não, deixo isso para os que não são amigos do autor e para as professoras que precisam lidar com essas crianças mimadas. Volto à questão da ilustração.

Há aqueles que acham que o texto deve ser suficiente, independente da ilustração, seja ele para crianças ou adultos. Citam o clássico Sítio do Pica-Pau Amarelo, lido com entusiasmo pelas crianças, apesar de sua extensão. Ou o próprio Harry Potter, febre de nem-tão-crianças-assim há alguns anos. Para estes, o desenvolvimento gráfico dos livros é tamanho que muitos textos ruins são publicados e bem recebidos por causa da ilustração, numa inversão de valores inadmissível. Quando confrontados com o fato de vivermos uma era da imagem, lembram que os livros "para adultos" não são ilustrados e continuam circulando. Aliás, os próprios livros para adolescentes têm bem menos ilustrações.

Por outro lado, há muitos escritores e ilustradores que vêem o casamento entre texto e imagem como fundamental para despertar o interesse pela leitura e, mais que isso, trabalhar a imagem e a capacidade cognitiva da criança. Já dos anos 80, estudiosos como a pesquisadora Carmen Regina Alberton defendem esta relação: "desenhos e cores dão alegria aos livros infantis, compartilhando responsabilidades com o texto; a palavra se vê, assim, aclarada, enriquecida, ornamentada pela imagem". Para estes, a ilustração deveria também ser mais presente em livros "para adultos", e tanto que, quando são feitas "edições de luxo", há muitas ilustradas ou de visual mais arrojado.

Particularmente, me parece que um livro como Cida, a Gata Maravilha mostra que sempre haverá espaço para o bom texto, independente do apelo gráfico. O que não desmerece, evidentemente, a evolução das ilustrações na literatura infantil e na literatura como um todo. Aliás, hoje em dia talvez tenhamos mais ilustradores profissionais, que vivem apenas disso, do que escritores profissionais, e por uma razão simples: ilustradores ganham cachê pelo trabalho, além de uma parte dos direitos autorais.

Antes de significar uma inversão de valores, como querem alguns, esta mudança está em sintonia com a perda de importância da palavra e a valorização cada vez maior da imagem, como bem aponta Ítalo Calvino em seu Seis propostas para o próximo milênio:

"Vivemos sob uma chuva ininterrupta de imagens; os media todo-poderosos não fazem outra coisa senão transformar o mundo em imagens multiplicando numa fantasmagoria de jogos de espelhos ― imagens que em grande parte são destituídas da necessidade interna que deveria caracterizar toda imagem, como forma e como significado, como força de impor-se à atenção, como riqueza de significados possíveis. Grande parte dessa nuvem de imagens se dissolve imediatamente como os sonhos que não deixam traços na memória; o que não se dissolve é uma sensação de estranheza e mal-estar."

E, antes de me deixar abatido, tal constatação me alivia, porque explica aquela minha obsessão por Comandos em Ação. Em detrimento dos livros.

Para ir além
Nota do Editor
Leia também "Estudo das Teclas Pretas, de Luiz Faccioli".

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 16/10/2008.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Literatura é coisa para jovem?


Marcelo Spalding

Permitam-me um pouco de biografismo: 2008 me tem sido um bom ano literário. Finalmente consegui uma editora que editará meus livros e investirá no meu trabalho, consegui criar um formato de palestra que deu certo e com ela já fui do Rio de Janeiro à Ijuí, cidade a 450 km de Porto Alegre. E foi justamente o tema proposto por essa cidade que provocou este artigo: literatura é coisa para jovem?

A questão parece retórica, mas quem circula por escolas sabe que o interesse pela leitura decresce ao longo dos anos escolares, apesar do esforço das instituições para que os alunos se interessem por literatura: quando se pergunta numa turma de Eduação Infantil quem gosta de ler, todos levantam a mão rapidamente; no Ensino Fundamental, metade levanta a mão com certa timidez; no Ensino Médio, é raro alguém se manifestar. Partindo do pressuposto de que a literatura é, como qualquer arte, "coisa" para qualquer idade, qualquer classe social e qualquer lugar, porque é algo que nos ajuda a compreender o mundo e a nós mesmos, somos obrigados a nos perguntar os motivos desse desinteresse. E nesse ponto algumas perguntas se impõem:

1. A literatura é valorizada na mídia, na publicidade?
Em outras palavras: quantas vezes num filme juvenil aparece um personagem leitor? Qual o espaço que a literatura ocupa nas publicações para jovens, desde a revista Recreio até a Capricho? Quando um personagem de Malhação manifestou interesse por literatura, pela escrita? Este parece o ponto central para compreendermos por que a sociedade como um todo não percebe valor na leitura, e isso responde um pouco também a questão 2.

2. A literatura é presente em casa? E na escola? A criança vê o pai ou o professor com um livro debaixo do braço?
Não sejamos ingênuos: o problema da leitura pode começar na escola, mas prossegue ou se intensifica ao longo da vida. E hoje são poucos os leitores de fato: aqueles que, por puro prazer, entram numa livraria e compram livros. Isso não ocorre apenas com os pais, que têm lá suas ocupações e compromissos, mas também com os professores, soterrados por cargas horárias elevadíssimas e salários que não permitem a compra de, digamos, um bom livro por mês. Assim, a criança e o adolescente não têm o exemplo, a referência, e ainda que isso não signifique necessariamente um afastamento da leitura, pode desmotivar aqueles jovens propensos a ler. Jovens, aliás, logo estigmatizados como nerds ou algo do gênero.

3. Também não será verdade que há uma parcela de leitores entre nossos alunos?
Como esboçado acima, não podemos negar que há algumas crianças e adolescentes propensos a ler, mais interessados na literatura, nas artes. É natural, aliás, que numa turma de 40 alunos uns 10 identifiquem-se mais com a matemática, outros com as ciências, outros com as humanas, incluída aí a literatura. É uma ilusão o professor pensar que toda sua classe irá reagir bem à Hora do Conto ou a um trabalho de literatura. Talvez seja o caso de valorizar aqueles que lêem a fim de que os demais percebam valor nisso. E aí vem a questão seguinte.

Que tipo de livros esses alunos procuram? E que tipo de livros nós gostaríamos que eles procurassem e por quê?
Já foi dito que necessariamente haverá, numa classe de 40 alunos, uns 20% que gostam de ler, têm prazer em pegar um bom livro ou uma boa revista. O problema é quando o que eles consideram bom não é do gosto do professor, seja por um motivo ou outro. Exemplos temos vários, desde o menino fissurado por história em quadrinhos, que conhece todos os heróis e lê os gibis do pai para conhecer a história do gênero, até a menina ingênua encantada com Pollyanna ou agora fã de Meg Cabot. Passando, é claro, por alguns que descobrem que a literatura não precisa ser politicamente correta e procuram nela sexo ou violência, para pavor do professor, ainda que talvez seja este seu gênero preferido.

É nesse sentido que entra também o já batido debate sobre a leitura dos clássicos em sala de aula. Se percebemos uma perda de interesse pela leitura ao longo dos anos, não podemos negar que ela está relacionada à obrigatoriedade: quanto mais avançam na escola, mais os alunos são obrigados a determinadas leituras e, por não estarem de acordo com seus gostos e hábitos pessoais, rejeitam-nas. Mas, como sabemos, eles são obrigados a ler tais títulos, e isso os leva a rejeitar a leitura como um todo, não preservando sequer aquele eventual gosto por gibis ou contos de fadas ou histórias policiais.

Também é verdade que a escola e o professor não podem se omitir diante da indústria cultural. São eles, e talvez só eles, que um dia falarão sobre Homero, Machado de Assis, Luís de Camões, Gustave Flaubert, Edgar Allan Poe, ou mesmo Pablo Picasso, Wolfgang Mozart, Aleijadinho. É a escola a responsável por apresentar ao adolescente toda uma história cultural que forjou nossa civilização, mesmo que depois o aluno renegue esse aprendizado e torne-se um Homer Simpson diante da tevê.

Difícil dilema, que, para mim, só se resolve com equilíbrio e adequação. Mas não vou me furtar de uma idéia de solução, ou de intermediação: um olhar mais atento para a literatura contemporânea.

Porque entre o clássico Flaubert e a popular Meg Cabot temos o contemporâneo, o Milton Hatoum, o Chico Buarque, a Jane Tutikian, a Ana Maria Machado, o Luis Fernando Verissimo, o Renato Russo, o Vinicius de Moraes. Antes de ensinarmos a história da literatura, apresentarmos os clássicos, é preciso mostrar por que a literatura nos ajuda a compreender o mundo e a nós mesmos, tornando-se um prazer solitário e permanente. Isso não será feito com um texto de cem anos atrás que representa outra época, outro mundo, e sim com algo próximo a eles e escolhido pelo professor.

Sim, porque, como mencionei acima, o professor e a escola não podem se omitir. Eles precisam saber indicar à turma ou ao aluno o tipo de livro mais adequado ao seu perfil, ao seu nível de aprendizado e interesse. Há hoje uma enorme oferta de títulos, muitos especialmente feitos para crianças e/ou adolescentes, de qualidades e intenções variadas, de preços e procedências variadas. Tendo o professor como filtro dessa produção, o aluno poderá manter o prazer pela leitura, mas tornar-se-á mais exigente e, consequentemente, um leitor melhor.

Daniel Pennac, em "Os direitos imprescindíveis do leitor", defende, entre outros, o direito de ler qualquer coisa, e conclui dizendo que "uma das grandes alegrias do educador é ― toda leitura sendo autorizada ― a de ver um aluno bater sozinho à porta da fábrica Best-seller para subir e respirar na casa do amigo Balzac".

Aí, sim, aí está criado o ambiente propício para o professor passar aos clássicos, porque este deve ser, sempre, o objetivo final de uma disciplina de literatura (não o inicial, note-se bem). Ítalo Calvino tem um texto formidável sobre o tema, "Por que ler os clássicos?". Para ele, "os clássicos não são lidos por dever ou por respeito mas só por amor. Exceto na escola: a escola deve fazer com que você conheça bem ou mal um certo número de clássicos dentre os quais (ou em relação aos quais) você poderá depois reconhecer os 'seus' clássicos. A escola é obrigada a dar-lhe instrumentos para efetuar uma opção: mas as escolhas que contam são aquelas que ocorrem fora e depois de cada escola."

Não é tarefa fácil, sem dúvidas. Mas depois de refletir sobre tudo isso me parece cada vez mais claro que o desafio é fazer da literatura não só coisa para jovens, mas coisa para pais e professores também. O que só se faz exatamente com bons professores ou quixotescos entusiastas, e você pode ter certeza de que é um deles se chegou ao final deste artigo.

Nota do Editor
Leia também "Adolescente lê, sim, senhor!".

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 11/9/2008.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Nossa classe média é culturalmente pobre


Marcelo Spalding

Celebremos a pesquisa divulgada pela FGV no começo de agosto: diminuiu o número de pobres e a classe média brasileira cresceu, representando mais da metade da população (51,89%). Os critérios são confusos e a faixa de renda dessa Classe C, elástica: famílias com renda domiciliar total entre R$ 1.064,00 e R$ 4.591,00. Mas fiquemos com a manchete: somos um país de classe média, não mais um país de miseráveis, e afora uma ou outra imprecisão estatística, é de se comemorar principalmente pela tendência a médio prazo.

Para os que lidam com a cultura, entretanto, uma pergunta se impõe: o que significa para a cultura esse aumento da classe média? E a constatação é aterradora: nossa classe média é pobre, culturalmente muito pobre. Não vai ao cinema, não compra nem lê livros, não freqüenta museus.

Para explicar um pouco melhor essa conclusão, irei comparar os resultados da pesquisa da FGV, amplamente divulgados pela mídia, com dados publicados pelo jornalista Carlos Scomazzon em sua coluna do portal Artistas Gaúchos, "Afinal, quem tem acesso à cultura no Brasil?".

Scomazzon destaca que, de acordo com pesquisa divulgada pelo IBGE no ano passado, os 10% mais ricos do Brasil são responsáveis por cerca de 40% de todo o consumo cultural no país. Ainda segundo a mesma pesquisa, apenas 7,3% dos municípios possuem cinemas e 18,8% das cidades têm teatros ou casas de espetáculo, menos de 10% dos brasileiros vão pelo menos uma vez por ano ao cinema, e aqueles que freqüentam as salas com mais regularidade não chegam a totalizar 5%, sendo que 87% dos brasileiros nunca foram ao cinema ver um filme. Outro dado estarrecedor é que 90% dos municípios não têm equipamentos culturais, e 92% da população nunca entrou em um museu.

Já uma pesquisa de Gasto e Consumo das Famílias Brasileiras Contemporâneas, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), mostra que as dificuldades de acesso da população à cultura consta em primeiro lugar entre os fatores causadores de desigualdades entre os brasileiros, seguido pelo acesso à educação. As famílias com maior poder econômico, diz o estudo, gastam 30% a mais com educação do que as mais pobres e, desta forma, têm acesso mais fácil à cultura.

O jornalista ainda esmiúça os dados que se referem à leitura entre a população brasileira, a partir de pesquisa encomendada pelo Instituto Pró-Livro ao Ibope Inteligência. Segundo a pesquisa, o brasileiro lê, em média, 4,7 livros por ano, mas quando contabilizada apenas a leitura feita por pessoas que não estão mais na escola, a conta fica em 1,3 livro por ano. Já a média de livros comprados pelos brasileiros fica em 1,1 livro por ano.

Sei que os dados assim condensados e expostos podem cansar e confundir, mas vamos agora comparar os números trazidos pelo texto de Scomazzon com a pesquisa da FGV. Segundo esta pesquisa, as classes A e B representam 15,52% da população brasileira, a classe C representa 51,89% e as classes D e E 32,59%. Agora, se 87% dos brasileiros nunca foram ao cinema ver um filme e 92% da população nunca entrou em um museu, significa, a grosso modo, que o equivalente às classes C, D e E inteiras e parte da classe B nunca foram ao cinema ou ao museu!

Desculpe o ponto de exclamação e a matemática grosseira, mas esse número apenas representa e sintetiza o que fica do cruzamento das pesquisas, algo que percebemos no dia-a-dia: nossa classe média ainda é culturalmente muito pobre. Não por acaso a enorme audiência das novelas globais e dos BBBs (inclusive na TV a cabo), não por acaso o sucesso da música "Créu", não por acaso o clipe da "Dança do Quadrado" no YouTube tem mais de 10 milhões de views! Não venham me dizer que são os pobres os consumidores dessa chamada cultura de massa, de gosto duvidoso. De forma alguma, são pessoas com casa, computador, às vezes TV a cabo.

Na coluna de Carlos Scomazzon, sua preocupação maior é mostrar que a grande maioria da população não tem acesso à cultura, mas eu iria mais além: essa população não tem acesso à educação satisfatória e, em conseqüência, não tem acesso à cultura ou simplesmente não valoriza a cultura. Porque se é verdade que um show de Caetano, Djavan ou Gil mesmo com leis de incentivo têm preços proibitivos (acima de R$ 100,00, ou seja, quase 10% de toda renda familiar dessa "nova classe C"), também é verdade que diversas atividades são oferecidas gratuitamente: há livros à venda por preço de xerox nos sebos, músicos que disputam espaço nos restaurantes da cidade, exposições com visitação aberta na maioria das capitais, sites e programas de TV voltados à cultura e não apenas ao entretenimento. Mas esse público, a classe média pobre culturalmente, começa por não perceber valor na produção artística local, prefere uma vez por ano assistir o ator global no teatro do que 10 vezes ao longo do mesmo ano descobrir as melhores peças de seus conterrâneos, levar filhos, amigos.

Verdade que é mais fácil em cinco anos aumentar o salário de um trabalhador em R$ 500,00, o que o colocaria entre essa "nova classe C", do que fazê-lo deixar a novela da noite ou o futebol do domingo para ir a uma peça gratuita de teatro universitário ou a uma recém-inaugurada biblioteca. Mas espero que o país como um todo compreenda que uma coisa é tão importante quanto a outra.

Os Titãs já cantavam "a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte". E ainda que se concorde que num primeiro momento o importante seja saciar a fome, a falta de moradia, de higiene, não se pode imaginar que um país será melhor simplesmente porque sua população ganha um pouco mais. Pierre Bourdieu, filósofo francês contemporâneo, tem um conceito muito interessante a esse respeito, o do capital simbólico.

Segundo Bourdieu, a posse do capital econômico confere, aos que o possuem, poder sobre os desprovidos, mas é pelo controle do capital simbólico que os dominantes impõem aos dominados seu arbitrário cultural, as hierarquias, as relações de dominação, fazendo-os percebê-las como legítimas. O capital cultural seria um desses capitais simbólicos, o que nos permite entender por que a mobilidade social a partir da classe C é tão mais difícil: ela não envolve apenas a capacidade de ganhar dinheiro, mas também o conhecimento de mundo que será fundamental para a consolidação das relações sociais.

Dessa forma, devemos comemorar, sim, a maioria "Classe C", mas como professores, jornalistas, escritores, artistas, precisamos criar nessa população o hábito de consumir uma cultura plural, de valorizar a produção artística mais genuína, e não ficar restrita à TV aberta, aos hits do YouTube ou aos blockbusters hollywoodianos. Se é verdade que o brasileiro, em média, compra apenas um livro por ano e vai uma vez por ano ao cinema, o grande desafio de cada escritor, músico, ator, cineasta não é superar outro escritor, músico, ator, cineasta, é aumentar essa média para um e meio, dois, três por ano.

Para terminar, deixo um pensamento de Daniel Pennac que sintetiza qual deve ser nosso papel já que não temos, individualmente, forças para mudar a cultura mass media de nossa sociedade: "o dever de educar consiste, no fundo, no ensinar as crianças a ler, iniciando-as na Literatura, fornecendo-lhes meios de julgar livremente se elas sentem ou não a 'necessidade de livros'. Porque, se podemos admitir que um indivíduo rejeite a leitura, é intolerável que ele seja rejeitado por ela".

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 21/8/2008.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Aperte o play


Marcelo Spalding
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"então ele aceitou o convite para virar palavra como se todo mundo não fosse como ele um monte de palavras dos pés aos fios de cabelo lembro de um dia em que andava pela rua lendo as placas de obras ltda lia na infância como se fosse uma palavra inteira não uma abreviatura de limitada ele não sabia e não fazia falta saber ltda existia e existir era o seu sentido muitos anos depois foi descobrir fazendo análise que as palavras são mesmo um labirinto que começa não se sabe onde e termina num lugar totalmente diferente de onde se partiu como se fosse possível"

STOP

Esse não é um bom jeito de começar um texto sobre a estréia de Ricardo Silvestrin no universo contístico. Play (Record, 2008, 176 págs.) reúne 16 narrativas curtas e arremata com "Play", um fluxo de consciência de quase 40 páginas em que Silvestrin exibe todo o seu domínio com a palavra, criando cenas, imagens e costurando aos poucos uma narrativa sem usar pontuação alguma, divisão de parágrafo alguma e letra maiúscula apenas nos nomes próprios. Mas deixar-se levar pelo experimentalismo desse texto e resumir o livro de Silvestrin nele seria deixar para trás as demais 16 narrativas que revelam um contista, e não um poeta que faz contos.

Na orelha do livro, o mestre Luiz Antonio de Assis Brasil chama a atenção para essa transição, digamos assim, do poema ao conto: depois de ressaltar que todas as virtudes do poeta estão presentes, como a essencialidade e a palavra certa, afirma que "sabendo por onde pisava, ele não caiu nas armadilhas dessa transição, e a mais perigosa é a de sobrecarregar a narrativa com imagens e metáforas".

Não espere, portanto, poemas em prosa, prosas poéticas ou qualquer excesso de experimentalismo formal, com exceção de "Play". O que temos são contos construídos de forma objetiva, com narradores muito bem escolhidos e marcados pelo que podemos chamar de ousadia temática, misturando motivos do cotidiano com situações fantásticas e conflitos universais.

"O filme", por exemplo, conto de abertura do livro, narra a história de um jovem que vivia num morro e jamais saíra dele por não saber por qual lado da estrada seguir, até o dia em que uma equipe de filmagem resolve fazer um filme sobre a localidade e ele é escolhido o protagonista. Envolve-se com a produção, nesse primeiro contato com o mundo de fora do morro, e um dia descobre que o filme ia embora com eles para os dois lados da estrada. Nesta história, temos por um lado um motivo bem contemporâneo e social, o menino de um morro alienado em seu espaço. Por outro, um conflito universal: a apatia e resignação diante de dois caminhos a seguir. E costurando há uma pitada do fantástico, com um menino que NUNCA havia saído do morro, como em outros contos haverá um homem que viveu sozinho por dias numa cidade devastada por um maremoto, uma estrada em que jamais se pode voltar atrás, um rei que joga todos os suspeitos na cova dos leões. Incursões ao fantástico que não tiram a verossimilhança dos textos, tão cara a qualquer narrativa, e sim o potencializam.

Nem sempre esses três elementos estão presentes no mesmo texto: há alguns em que a crítica social é mais evidente ("O atraque"), outros em que predomina o retrato do cotidiano ("Circular") ou o fantástico ("A estrada"), sem abrir mão de conflitos universais (medo, amor, ciúme, interesse...), como manda o bom manual do conto moderno. Conflitos que estão todos, aliás, num conto muito interessante chamado "Três motivos para matar o doutor Arnaldo".

O mote do conto é propositadamente clichê: três pessoas ― a amante, a mulher e o sócio ― são suspeitas de matar o tal doutor Arnaldo. A divisão em três partes, cada uma com um foco narrativo, também não é lá muito original. Mas a construção dos textos leva ao limite o que Bakhtin chamou de polifonia, e as vozes dos suspeitos cruzam-se com a do policial, retomam elementos uma da outra e de forma circular terminamos o conto não apenas sem saber que matou o doutor Arnaldo, como desejando mesmo que ele tivesse morrido, porque afloram, ao longo da narrativa, motivos universais para se querer ver morta qualquer pessoa ― ciúme, interesse, revolta, trapaça ―, e o motivo universal para jamais se ter matado alguém: medo.

Bem, agora que já passamos pelos 16 contos podemos avançar um pouco e apertar o play de novo. Segure-se:

"Haroldo era um civilizador na área da poesia traduziu tudo como ninguém traduzira traduziu a tessitura criativa revelou mostrou olha o que aquele poeta fazia na sua língua era semelhante a isso que fazemos na nossa ou se fosse na nossa seria mais ou menos assim mais criou poemas entendeu a poesia foi buscar tudo o que a civilização realizou na área e tudo que recebe em sua homenagem são resenhas que mais parecem dissertações de vestibular aquela praga das redações de prós e contras um parágrafo inicial apontando os pontos positivos e negativos um parágrafo desenvolvendo os aspectos positivos um desenvolvendo os negativos e um final com uma conclusão que deixa tudo mais ou menos coisa de quem não ama quem ama sabe que tudo é imperfeito quem ama ama o imperfeito porque sabe que o positivo é maior é ele que vale"

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 7/8/2008.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Você já foi infiel?


Marcelo Spalding

Você alguma vez já foi infiel ao seu namorado, marido, companheiro? O que é infidelidade? Você perdoaria uma traição? Tem amigos, amigas ou parentes que traem? E como convive com eles? Isso que parece conversa de mesa de bar, papo de programas vespertinos da nossa gloriosa TV aberta ou fofoca de vizinhas à janela tornou-se objeto de pesquisa da antropóloga Mirian Goldenberg, e daí virou artigos, crônicas, dissertação, tese, livros.

Infiel (Record, 2006, 368 págs.), o mais recente deles, é também uma espécie de síntese do trabalho e das pesquisas de Mirian, tornando-se uma leitura fácil e agradável para quem vive uma das pontas de um triângulo amoroso (ou simplesmente gosta de ser voyeur dos problemas alheios). A autora, apesar de ser Doutora em Antropolgia Social e professora da UFRJ, com dezenas de orientações de pesquisas nas áreas de gênero, desvio, corpo, sexualidade e novas conjugalidades na cultura brasileira, tem um estilo de escrita leve, quase coloquial, e não por acaso tornou-se figurinha carimbada em revistas de informação como Isto É e Época.

Em Infiel, já nas primeiras linhas Mirian revela-se fã de Simone de Beauvoir, afirmando que "seus livros, principalmente O Segundo Sexo, foram decisivos para que me tornasse a mulher que sou e uma pesquisadora das relações de gênero". Simone, dessa forma, está na epígrafe, na introdução e na conclusão da obra, mas não como a militante feminista famosa nos anos 60, e sim como uma mulher cheia de contradições e paixões, dividida entre um amor necessário, Sartre, e um amor contingente, Nelson Algren. Essa mulher, ícone ferido, ícone exposto a partir da publicação das Cartas a Nelson Algren, serve de mote para a antropóloga debater a questão da fidelidade, chegando a se perguntar: "Será que o amor e o problema da fidelidade são capazes de tornar até mesmo uma mulher como Simone de Beauvoir 'meio idiotizada'"?

No capítulo seguinte, a acadêmica entra em ação, revelando dados de uma pesquisa de Elza Borquó que afirma haver 11,3 mulheres não-casadas para cada homem não-casado na faixa dos 30 a 34 anos e 30 mulheres não-casadas para cada homem não-casado na faixa dos 50 a 54 anos, o que seria uma das hipóteses para a maior incidência da infidelidade masculina. Incidência, diga-se de passagem, que é alta.

Segundo pesquisa de Mirian com 1279 homens e mulheres das camadas médias urbanas do Rio de Janeiro, 60% dos homens e 47% das mulheres afirmaram já terem sido infiéis. As razões para a infidelidade mais apontadas pelas mulheres foram falta de amor, insatisfação, crise ou problemas do relacionamento, enquanto os homens acrescentaram a esses motivos a natureza masculina, instinto, oportunidade, atração, desejo. Mais do que isso, segundo dados do IBGE de 1996, 71% dos pedidos de separação feitos por mulheres foram motivados por traição masculina. A infidelidade seria tão recorrente no Brasil que existe um site chamado Meu Álibi só para forjar álibis como convites de eventos ou reservas em hotéis.

"O fato interessante é que, apesar de o ciúme e de a infidelidade serem apontados como os principais problemas vividos nos relacionamentos amorosos, homens e mulheres pesquisados exigem sinceridade, lealdade e franqueza absoluta em seus relacionamentos, o que pode ser visto como um dos paradoxos presentes nos seus discursos. Ao mesmo tempo que reinvindicam privacidade, espaço, independência e autonomia, entre outros ideais de liberdade e individualidade, os pesquisados ressaltam valores que podem ser classificados como simbióticos-românticos de sinceridade absoluta, cumplicidade, interdependência e complementaridade".

Para melhorar a assimilação dos resultados de sua pesquisa ― e tornar o livro mais comercial, evidentemente ―, a antropóloga mescla artigos acadêmicos, onde aparecem os dados estatísticos, citações e reflexões sobre o tema, com matérias publicadas na mídia com ou a partir dela e uma história narrada em ritmo de ficção de uma mulher, Mônica, estudo de caso que costura o livro.

As matérias são publicadas em revistas e jornais, como Isto É, Época, Uma ou Folha de S. Paulo. Repetem-se muito, como não poderia deixar de ser, e em alguns momentos tratam de temas que não têm a ver com a fidelidade, questão central do livro. Parece, num primeiro olhar, que estão ali mais para reforçar a autoridade da antropóloga do que para contribuir com o estudo, pois melhor seria lermos as palavras de Mirian do que dos jornalistas.

Vozes, aliás, o livro tem muitas, tal qual um romance polifônico: trechos das entrevistas feitas por Mirian, depoimentos de homens e mulheres, recortes de outros artigos e pesquisas acadêmicos, reflexões da própria autora. Uma delas, porém, costura toda a história, talvez por ser a mais singular, talvez porque é pela particularização que se atrai um leitor acostumado às narrativas: a voz e a história de Mônica.

Mônica é uma jornalista bem-sucedida que teve uma infância difícil, viu o pai agredir a mãe, agredir aos filhos e saiu de casa ainda adolescente, depois do suicídio da mãe. Nunca casou, talvez pela personalidade independente, talvez pelo trauma de infância, mas também nunca lhe faltaram homens de todos os tipos, bonitos, feios, ricos, pobres, solteiros, casados. Mas o que lhe faz procurar Mirian, e provavelmente o que faz Mirian publicar sua história no livro, é que Mônica está dividida entre um companheiro de anos, que lhe dá uma vida segura mas pacata, e um amante explosivo e agressivo, na cama e fora dela. O medo de Mônica é repetir o padrão da mãe, e diz para Mirian que acredita que haja outra solução que não o suicídio, apesar de não conseguir parar de pensar e desejar o tal amante.

Sobre este aspecto, parece que faltou no livro uma distinção entre infidelidade e distúrbios psíquicos, pois o que fica claro na leitura da obra é que a infidelidade por si só não é, de forma alguma, um desvio de conduta social, um desvio de caráter, mas a história de Mônica e seu amante possessivo deixam claro que a infidelidade pode, sim, desencadear ou revelar distúrbios de personalidade. O que daria outro livro e exigiria o trabalho de outros profissionais.

Deste, para encerrar, podemos alertar que o leitor não terá, ao final das trezentas e poucas páginas, a resposta para as questões de mesa de bar: o que é infidelidade?, por que os homens traem mais?, por que alguns traem e outros não? O que irá acontecer é que o leitor perceberá como a questão da fidelidade está arraigada à cultura e às crenças sociais e individuais, obrigando-nos a refletir não sobre nossas próprias e eventuais traições, mas sobre nossas escolhas, nossos valores, nossas crenças e nossas neuroses.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 17/7/2008.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

O inventário da dor de Lya Luft


Marcelo Spalding

Luft é nome extremamente conhecido e respeitado aqui no Sul. Antigamente por causa do grande gramático e professor Celso Pedro Luft; hoje muito mais por causa da carreira literária daquela que foi sua esposa e herdou seu sobrenome: Lya Luft. Lya iniciou na literatura como tradutora de inglês e alemão de grandes clássicos como Virginia Woolf e Rainer Maria Rilke e, aos 41 anos, em 1980, publicou seu primeiro romance, As parceiras. Até os anos 2000 manteve uma carreira regular, como a de tantos outros bons nomes da nossa literatura contemporânea: algum espaço na mídia, algum estudo acadêmico, grande admiração dos seus pares. Mas com Perdas e Ganhos, publicado em 2003, Lya alcançou o raríssimo posto de autora de best-sellers e tornou-se uma das mais festejadas escritoras da literatura brasileira. Para ilustrar, naquele ano passou a vender mais que Paulo Coelho.

O sucesso repentino, apesar da carreira sólida, trouxe tudo o que se sabe que trará um sucesso repentino: superexposição na mídia, mudança de rumo da sua obra, narizes torcidos. Seus pares já não achavam tão cult citar Lya, e os críticos acusavam-na de ter feito um livro de auto-ajuda, ainda que insistisse em chamá-lo de ficção. Com o tempo, Lya trocou de telefone, de e-mail, tornou-se mais reservada, virou capa de revista semanal, trocou o jornal local, Zero Hora, pela revista que a brindara com capa, procurou evitar holofotes, lançou novos títulos pela Record, livros de crônicas, poesia e até um infantil. Mas precisaria de cinco anos para que voltasse à ficção.

Esse retorno, aguardado e festejado, chega em 2008 com o volume de contos O silêncio dos amantes (Record, 2008, 160 págs.). Amplamente propagandeado aqui em Porto Alegre, tornou-se presente preferido (para quem ainda compra livros de presente) no Dia das Mães e no Dia dos Namorados, mas deve ter deixado muitos filhos, mães, maridos, esposas e namorados surpresos: não parece a mesma autora, decididamente não é o mesmo texto.

Por todo o sucesso dos livros anteriores, naturalmente abre-se o volume de contos à espera da Lya otimista de Perdas e Ganhos, de Pensar é transgredir, de suas colunas, da Lya conselheira, da Lya avó, da senhora de cabelos entre loiros e grisalhos a cantar o prazer da idade, da sabedoria, da leitura. E o que temos é exatamente o oposto: uma Lya soturna, pessimista, criando e matando personagens num ritmo trevisânico.

Amantes, em O silêncio dos amantes, há poucos, e os que existem não vivem bem, odeiam-se calados, cometem violências, vingam-se. Há muitos pais e filhos, há muitos filhos que morrem, alguns que se suicidam. Há velhos, muitos velhos, em geral dependentes, descritos para que deles tenhamos asco, e para tanto não são poupados detalhes escatológicos de uma avó numa clínica. E há, sobretudo, seres imaginários como aqueles amigos de infância que algumas crianças cultivam, seres que acompanham as personagens na vida adulta, na velhice, doces fantasmas a compartilhar segredos.

O resultado é um livro pesado, difícil de se chegar ao final, um livro que como tantos outros desde Rubem Fonseca coloca a violência nua e crua diante do leitor mas não tem nem o ritmo estético próprio desse gênero nem a ousadia existencial da Clarice de A hora da estrela. Resta a dor, apenas a dor, a dor do tempo que passa e envelhece os amantes, embrutece os justos, maltrata as gentes.

Exemplo do tom do livro é o próprio conto que dá título ao volume, "O silêncio dos amantes". Nele, a narradora, entre ressentida e resignada ― como em geral o são as mulheres dos contos ― lembra como conheceu Valentim, aquele que agora dorme ao seu lado, o acaso do primeiro encontro e narra com uma ênfase assustadora a tragédia pela qual havia passado seu agora marido:

"(...) Um assaltante arrancou [a grávida] de dentro do carro e a derrubou no chão. Pegou rapidamente bolsa, relógio e celular da moça caída na calçada, e entrou no carro. As sacolas de compra ficaram no chão, ao lado dela. Quando já estava arrancando, sem explicação, sem motivo a não ser a alucinação da droga ou a maldade mais primitiva, inclinou-se um pouco para fora, e disparou. Duas vezes, na barriga volumosa. O bebê explodiu junto com as entranhas da mãe. Naquela hora, mataram também a Valentim. (...)"

Note que a grávida não é apenas morta, ela tem suas "entranhas explodidas", e ficam o leitor, a narradora e Valentim sem explicação alguma para a brutalidade da cena, a brutalidade da narrativa. Mais do que isso, na seqüência do conto a narradora conquista o homem mas passa a conviver com o fantasma da grávida que rondaria pela casa "com olhos melancólicos e desesperados", num sinal evidente que não há espaço sequer para uma transcendentalidade; a tragédia urbana e humana marcariam em definitivo a existência daquela mulher, daquele bebê, daquela narradora. Que conclui, não por acaso, com a singela frase: "a dor faz parte".

Não é casual que este conto seja o último do livro, que esta frase seja a última do conto, conto e livro que surpreenderão a muitas leitoras, de certo afastarão outras tantas, e talvez seja exatamente essa a intenção de Lya Luft. Ou a de resgatar uma identidade como escritora, ficcionista e contista "respeitada", ainda que para isso tenha que apavorar leitores acostumados a frases como "Porque o amor, do jeito que pode ser, é o caminho da liberdade e da grandeza ― é a nossa única possibilidade de salvação" ("Um tema tão delicado", em Pensar é transgredir).

Se melhor ou pior, não cabe a um reles resenhista afirmar. O que talvez mereça reparo é que um escritor precisa ser honesto com seu público mesmo sendo ele formado por leitoras da Veja. Nesse sentido, não precisava a edição trazer o atraente e romântico título "O silêncio dos amantes" e muito menos a comercial chamada "da autora de Perdas e Ganhos". É outro livro, é quase outra autora. Uma que deve ser guardada bem longe de Paulo Coelho e bem perto de Dalton Trevisan.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 10/7/2008.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Geração Coca Zero


Marcelo Spalding

Você já assistiu ou ouviu o comercial das línguas e do zoião? Aquele da Coca-Cola, quer dizer, da Coca Zero? Pois é, não sou especialista em marketing, mas confesso que não consigo entender como uma empresa faz propaganda de um produto novo opondo ele a um produto antigo, tradicional, carro-chefe de uma história centenária. Ações de marketing que ano passado traziam a marca Coca-Cola, como o Estúdio Coca-Cola, agora carregam a marca Coca Zero, tornando-se Estúdio Coca Zero, sem contar os preciosos segundos de rádio e televisão utilizados pela companhia para divulgar o lançamento de rótulo preto em oposição à tradicional Coca "normal".

Não vou entrar no mérito se a Coca Zero é ou não igual à sua avó, particularmente acho a Zero uma Coca sem gás, mas melhor que a insossa Light. A questão é por que a empresa insiste tanto na publicidade desse novo produto, chegando a esconder a divulgação da Coca "normal" atrás da baboseira Maradona X Biro-Biro e dando todo o destaque para a Zero. Não é um favor à sociedade, um auxílio à saúde pública em prol da diminuição do peso da população, certamente não. A questão principal é que, como diria Camões, "mudam-se os tempos, mudam-se as vontades", e a geração Coca-Cola já tem seus filhos, às vezes netos, e para a Coca são esses novos consumidores que interessam, gente que se divide entre o computador, as academias e suas gradeadas residências, gente que pede maçã e salada no McDonald's e no supermercado acomoda no carrinho cevas e energéticos (aliás, também não entendo como uma empresa só vendendo aquela porcaria do Red Bull consegue ganhar tanto, mas tanto dinheiro que chega a ter uma equipe de F1 com seu nome...).

Mas voltemos à música, pois foi um outdoor anunciando outra edição do Estúdio Coca (agora) Zero aqui em Porto Alegre que me provocou essa reflexão. Aliás, desde que o Jota Quest apareceu fazendo propaganda da Fanta que não me sai da cabeça aquele verso dos Engenheiros do Hawaii: "a juventude é uma banda numa propaganda de refrigerante". Bem, agora não é uma, são muitas as bandas vendendo a Coca Zero, e não será estranho que num desses shows uma dessas bandas invoque o grande Renato Russo e cante "Geração Coca-Cola". Coca-Cola normal! E Eis a questão: será que estamos assistindo ao surgimento de uma espécie de Geração Coca Zero, mais preocupada com sua imagem, seu corpo, suas calorias?

Os versos de Renato são dos anos 80, e a juventude que faria a revolução, a ironicamente chamada Geração Coca-Cola, hoje é adulta, assiste Big Brother, imita o Juvenal Antena e talvez até assine a Veja (Deus me livre!). Mas no seu lugar deixou a geração Coca Light, dos anos noventa, e agora essa geração que aprimora e exagera os valores da outra, a Geração Coca Zero.

Se a Geração Coca-Cola foi programada para receber os enlatados do USA, a geração Coca Zero convive com os enlatados culturais norte-americanos, exibidos à exaustão nos canais por assinatura, mas com muita freqüência lê na etiqueta dos seus tênis, roupas e aparelhos eletrônicos a já famosa frase "Made in China" (um amigo meu comprou um notebook da Apple e, surpresa!, lá estava: Made in China). Se a geração Coca-Cola comia lixo comercial e industrial, a Geração Coca Zero é entupida do lixo serviçal, pois como nunca o setor de serviços esteve presente na sociedade através das teles, das financeiras, das TVs por assinatura, dos provedores de acesso à internet, dos cartões de crédito, todos eles nos entupindo de lixo em forma de spam, de anúncio, de promessas. E se a Geração Coca-Cola era feita de burgueses sem religião, a Geração Coca Zero é repleta de burgueses conectados a alguma crença, desde grupos de jovens cristãos até centros zens de ioga, passando pelas megalomaníacas igrejas pentecostais.

E então vem o refrão, e no refrão está a maior diferença entre uma geração e outra, uma época e outra:

"Somos os filhos da revolução
Somos burgueses sem religião
Somos o futuro da nação
Geração Coca-Cola"

A Geração Coca Zero não é filha nem neta da revolução, seja a revolução ditatorial de direita, hoje empurrada para baixo dos tapetes e restrita aos livros de História, seja a revolução cultural de Maio de 68, hoje relembrada apenas pela efeméride, mas ausente mesmo dos livros de História. No dicionário da Geração Coca Zero não tem a palavra burguês e, se tiver, seu sentido é simpático, como na música de Seu Jorge. E, fundamentalmente, a Geração Coca Zero não quer ser o futuro da nação, rejeita esse peso e prefere preocupar-se com seu próprio futuro: tendo uma chance, fará o futuro de outra nação, preferencialmente européia ou da América do Norte.

A escola, que talvez antes mencionasse todas as manhas de um jogo sujo para ensinar que não é assim que tem que ser, hoje se esmera em preparar cada um de seus alunos para jogar da melhor forma possível com as manhas desse jogo, que nem é mais chamado de sujo, apenas de "competitivo". Ensina a marcar cruzinhas para o vestibular, a falar inglês e espanhol com fluência, a ser mais e mais criativo.

Não cabe, nessa coluna, juízo de valor sobre o que é melhor, Coca Normal ou Coca Zero, a Geração Coca-Cola ou a Geração Coca Zero, o maio de 1968 ou esse maio que recentemente se encerrou. O segundo não existiria sem o primeiro, um é produto do outro, e pelo bem ou pelo mal, de uma forma ou de outra, a sociedade segue avançando, aparentemente com menos sonhos mas também com mais opções de escolha. Particularmente, uma coisa eu lamento com ênfase: que não haja nessa Geração um Renato Russo para sintetizá-la.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 12/6/2008.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Literatura excitante, pelo sexo e pela prosa


Marcelo Spalding

Há tempos que se escreve sobre sexo, mas não vou repetir a cantilena de que começa no Marques de Sade ou nos contos das Mil e Uma Noites, pulemos essa parte. Há tempos que se escreve sobre sexo e talvez você já tenha se arriscado nesse terreno, a literatura erótica, ou a literatura com pinceladas de erotismo. Isso me lembra um professor que, certa vez, deu o machista e direto conselho: "uma cena de sexo só é boa se deixar o autor e o leitor de pau duro". Com essas palavras.

Não por acaso lembrei desse professor lendo A dama da solidão (Companhia das Letras, 2007, 144 págs.), livro de estréia da carioca Paula Parisot. Na grande maioria dos seus vinte e um contos há sensações eróticas, cenas de sexo, desejo, culpa ― palavras como "foder" e "bucetinha" desfilam sem constrangimento ―, mas nada disso deixa o texto pesado nem forçado. O narrador, ou narradora, simplesmente parte do sexo para chegar na vida, nos conflitos cotidianos, no caráter efêmero e egoísta dos relacionamentos contemporâneos, escorregando aqui e ali num romantismo às avessas, mas coerente nos valores e na naturalidade com que encara o sexo.

Já o primeiro conto do livro, "O guarda-chuva", trará a transa para o primeiro plano em descrições minuciosas e diretas, o que, aliás, combina com a capa da edição, em que um mamilo escuro se revela parcialmente sob o braço muito claro de uma mulher. Como em outros textos, aqui o sexo será fundamental para o desenvolvimento da trama e o desenlace do conflito, ainda que por vezes extrapole sua função pela exagerada exposição de termos e situações. Noutros casos, porém, como em "Tableau Vivant", a sugestão é maior que a exposição, causando no leitor um efeito erótico mais intenso e tornando o conto mais arejado, com certa amplitude.

Diretos ou sugestivos, em todos os contos se percebe uma concepção almodovariana da figura masculina: homem não presta. Ou são frouxos, ou dominadores, ou medrosos, ou fracos, ou tudo junto. Não dão prazer suficiente a suas mulheres, não têm imaginação suficiente para satisfazê-las, apressam-se, oprimem-nas. Um trecho de "Lar, doce lar", conto destacado na contracapa da edição, sintetiza essa utilidade relativa dos homens:

"No dia seguinte convidei Marlene para almoçar. Na hora da sobremesa, ela perguntou se eu alguma vez tivera vontade de que o meu marido morresse. Claro que não, respondi. Mas toda mulher casada um dia sente isso, insistiu Marlene, principalmente se ele for rico como o seu. Marido pobre a mulher não quer que morra, quem é que vai comprar o leite das crianças? Perguntei a Marlene se ela tinha vontade de que o marido dela morresse. Eu tenho, disse ela, e só não o mato nessas horas porque preciso dele para comprar o leite das crianças."

Tal concepção da figura masculina não está de todo errada, admita-se, e vem de longa tradição literária ― o Carlos da Madame Bovary, o Bentinho de Capitu ―, mas há um elemento diferente no conjunto de contos de Parisot que chama a atenção: se as relações entre homem e mulher são sempre problemáticas e desiguais, as relações entre mulher e mulher mostram-se prazerosas, completas, tranqüilas ("Ela e ela", "Eu e Bianca"). Neste aspecto, por vezes, lembra os contos de Cíntia Moscovich.

"Fui para o quarto e comecei a fazer a minha mala. Nesse momento, Bianca surgiu, me abraçou e disse, por favor, não vá embora. Jamais gostei do Gustavo ou de qualquer outra pessoa. Eu te amo. Não resisti aos seus beijos e fomos para a cama. Com avidez lambi o seu corpo e pela primeira vez Bianca chupou a minha vagina. Depois, deitadas lado a lado, Bianca me disse, Marta, eu te amo."

A linguagem e o enredo das histórias são simples, em mais de um a personagem é estudiosa de Arte, como a autora em sua vida real, mas poderia ser balconista de supermercado ou engenheira civil: o que vale, aqui, é a profundidade do conflito e da psique da personagem.

Voltando aos homens, em geral são aquilo que Tio Otávio, do conto daltontrevisânico "Acerto de contas", sintetiza: egoístas, escrotos, covardes. Aqui a narradora, uma mulher adulta e vencedora, com distanciamento crítico dos fatos, conta a forma como o tio rico a abusava quando ela era criança, e a cruel vingança que para ele preparou anos depois. Essa narração mais ampla do que o simples relato do abuso, aliás, torna o conto não apenas mais leve como mais completo, evitando o lugar comum do sensacionalismo, no qual escorrega por vezes Trevisan, ou do pornografismo, com o qual a própria Paula vive na corda-bamba.

Acontece que se por um lado Paula acerta em narrar histórias de forma descomplicada sem abrir mão da intensidade e tensão exigidos pelo conto, ao tentar fazer do erotismo um fio condutor do conjunto de textos corre o risco de tornar-se repetitiva e previsível, dando-nos a impressão de estar lendo outra vez a mesma história.

O conto "O último dia do ano", por exemplo, nos faz acreditar que melhor seria a autora aplicado sua técnica segura em temáticas variadas, e não restringir-se ao que sugere o seio claro de mamilo escuro da capa. Conto mantido apesar da tentativa de unidade da edição, narra de forma simples e contundente a história de um pai catando latinhas no último dia do ano com a ajuda de seu filho, orgulhoso por mostrar ao pequeno o valor do trabalho honesto. É, aliás, o único homem que presta de todo o livro.

Não que esse pornografismo seja um defeito comprometedor do livro, talvez seja apenas mais um sinal de que o mercado acaba interferindo, sim, na produção literária: é inegável que fica mais fácil atrair um consumidor, leitor ou resenhista exibindo um belo mamilo na capa do que uma imagem abstrata ou o rosto de criança de rua. E aí, por questão de coerência, está certo que nos contos aquele mamilo seja posto em ação, lambido, beijado, acariciado, mordido. E aí se saúda que, pelo menos, lambido, beijado, acariciado e mordido por palavras competentes, afinal literatura só é excitantante pelo sexo E pela prosa, jamais pela simples relação de fatos eróticos: é isso, aliás, que diferencia literatura erótica dos amadores "contos eróticos" que espalham-se aos milhares pela nossa internet. Para não usarmos os termos chulos daquele meu professor.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 15/5/2008.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Tiroteio, racismo e demagogia em sala de aula


Marcelo Spalding

O mercado hollywodiano é vertiginoso. São milhares de lançamentos, mas pouco do que é produzido chega aos cinemas. Menos ainda a gente consegue assistir; só se ouve falar de apenas alguns aqui e ali. Freedom Writers (2007), em português Escritores da liberdade, de Richard LaGravenese, é um desses filmes que de repente vemos em algumas locadoras, levamos para casa e temos a sensação de que não o esqueceremos com facilidade, para dizer o mínimo.

A história baseia-se no livro The Freedom Writers Diary: How a Teacher and 150 Teens Used Writing to Change Themselves and the World Around Them, que conta o sucesso que uma professora de inglês obtém entre adolescentes problemáticos de uma escola pública norte-americana. O conflito, apesar de bastante conhecido no cinema (Meu mestre, minha vida; Mentes perigosas), ganha nesta história ares de bangue-bangue, pois não está em jogo apenas o desinteresse pelo aprendizado, a pobreza das famílias e a falta de perspectiva. Há na escola, também, uma enorme rivalidade étnica que põe orientais, latinos, negros e brancos em lados opostos. Resultado: conflitos armados, brigas generalizadas, ódios, assassinatos, injustiças.

O filme dá a entender, já no começo, que essa situação caótica é resultado de uma política de integração social adotada pelo governo norte-americano em meados dos anos 90, uma forma de reinserir adolescentes infratores no sistema educacional. Naturalmente, essa política não é bem vista pelos diretores das escolas públicas, que criam ou reforçam as chamadas "turmas especiais" (leia-se problemáticas), aprofundando a segregação. Mas é exatamente seduzida pela possibilidade de dar aula numa dessas turmas e fazer algo por essa camada da população que a professora Erin Gruwell vai trabalhar na Wilson School. Inexperiente, vinda da classe média e casada com um charmoso homem de olhos claros e ternos bem passados, começa tentando falar da Odisséia de Homero até se dar conta de que para conquistar aquela turma teria de adotar outros métodos, métodos que iriam muito além da sala de aula.

A partir daí Hollywood entra em ação: a professora, interpretada pela ótima e oscarizada Hilary Swank (Meninos não choram; Menina de Ouro), vai trabalhar numa loja de departamentos para conseguir comprar livros com descontos para os alunos, numa agência de turismo para proporcionar viagens a sua turma, e mesmo contra tudo e todos (desde os pais dos adolescentes até a direção da escola), consegue motivar os alunos e incentivá-los a seguir adiante nos estudos.

Particularmente, duvido que a história contada no longa seja muito semelhante à história real. Ainda assim, o filme traz discussões bastante interessantes e atuais mesmo para o Brasil, onde as disputas étnicas não são tão profundas (apesar de já aparecerem nos noticiários mortes em salas de aula por brigas de gangues rivais). O método utilizado pela professora para atrair a atenção dos alunos, por exemplo, vale ser mencionado: associa a luta particular dos grupos com a Segunda Guerra, fala do Holocausto, de Hitler e os motiva a ler O diário de Anne Frank. A partir daí, propõe que cada aluno escreva suas histórias, seus pensamentos, seus sonhos e anseios em um próprio diário, diários que depois dariam origem ao livro The Freedom Writers Diary: How a Teacher and 150 Teens Used Writing to Change Themselves and the World Around Them.

Escrever, mais do que uma forma de expressar medos, anseios e sonhos, torna-se para aqueles adolescentes uma tentativa de enganar a morte, eternizando-se pelas palavras e pelas idéias (qual escritor nunca desejou que sua obra permanecesse além de sua curta existência?). E ao pôr no papel todo o ódio que antes expurgavam pelos pulsos, ao exporem o lado frágil e desprotegido por trás dos corpos sarados, humanizam-se e conseguem também perceber o outro como alguém com medos, anseios e sonhos.

Claro que o filme usa e abusa das idiossincrasias de classe. Um espectador menos avisado logo associará violência à pobreza, burrice à pobreza, e tanto que todas as soluções pedagógicas encontradas pela professora demandam algum recurso financeiro, prometem alguma recompensa (soluções, aliás, muito semelhantes às utilizadas pela professora Louanne Johnson em Mentes Perigosas, de 1995). E nesse ponto me pergunto se os adolescentes de classe média conhecem o Holocausto, se entre os adolescentes de classe média e alta não há também divisões por gênero, raça, religião ou número de namorados, se com os estudantes das melhores escolas do país não seria extremamente difícil trabalhar a Odisséia, de Homero. Claro que sim.

Há filmes que abordaram a dificuldade do ato de ensinar nas escolas de classe média e alta (As patricinhas de Beverly Hills; O sorriso de Monalisa), mas neles sempre o final é positivo e a ordem restabelecida. Discussões profundas e necessárias como o papel da escola nos dias de hoje e o valor da disciplina na sociedade contemporânea passam ao largo, enquanto me parece que essas discussões deveriam estar muito mais presentes. Não dá para negar que nos últimos vinte anos a sociedade mudou muito, tanto em valores quanto em tecnologia, enquanto que na escola permanece a lógica patriarcal do mestre repassando conhecimento aos alunos. Sem contar, e aí sim é a problemática de filmes como o de LaGravenese, que nos últimos anos a classe baixa chegou aos bancos escolares, trazendo anseios, medos e sonhos diferentes, trazendo uma bagagem cultural diferente. E ser diferente, ao contrário do que pensam muitos, não é ser pior.

Não sei se a professora Gruwell da ficção ― e não me atrevo a falar dela como outra coisa se não personagem, até porque não li o livro em questão ― inventou a solução para todos os problemas da educação pública. O que houve foi uma sintonia única entre classe e professor, sintonia irrepetível e quase demagoga (qual professor poderia comprar trinta e cinco livros novos para seus alunos conhecerem Anne Frank, quando sequer o último romance conseguem adquirir com os salários atuais?). O que não significa, de forma alguma, que sua iniciativa não deve servir de inspiração para todos que lidam com adolescentes, para todos que lidam com essa parcela carente da população. E é esse o mérito maior do filme, afora as lágrimas que rouba e os risos que arranca: provocar reflexão.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 17/4/2008.

quinta-feira, 27 de março de 2008

O melhor de Dalton Trevisan


Marcelo Spalding

Muitos conhecem o vampiro de Curitiba por seus contos violentos, concisos e premiados, mas vários ouviram falar de Dalton Trevisan apenas pela personalidade misteriosa e controversa que o autor criou para si mesmo ― confundindo-se com suas personagens e suas histórias ― sem jamais ter se debruçado sobre sua obra. Pois para esses digo que acaba de ser lançada uma edição revista da obra que talvez melhor sintetize Trevisan: Dinorá (Record, 2007, 178 págs.).

Autor de pequenos folhetos com feitio de cordel que enviava para amigos e conhecidos, sem arriscar a publicação em volume, folhetos fora de circulação comercial e hoje desconsiderados pelo autor, Trevisan estréia de fato na literatura em 1959 com Novelas nada exemplares, chamando a atenção da crítica. Só para se ter uma idéia, já no começo dos anos setenta Trevisan é incluído na famosa antologia O conto brasileiro contemporâneo, organizada por Alfredo Bosi, ao lado de Guimarães Rosa, Lygia Fagundes Telles, Osman Lins, Clarice Lispector, Rubem Fonseca e outros treze autores. Bosi, na apresentação, chama a atenção para o fato de que nos contos de Trevisan a concisão é uma obsessão do essencial que parece beirar a crônica, "mas dela se afasta pelo tom pungente ou grotesco que preside à sucessão das frases, e faz de cada detalhe um índice do extremo desamparo e da extrema crueldade que rege os destinos do homem sem nome na cidade moderna". E se nos primeiros livros Trevisan já chama a atenção pela estética de feitio minimalista, com Ah, é? , de 1994, o autor leva o conto a uma espécie de limite e praticamente inaugura o miniconto contemporâneo brasileiro.

São esses três Trevisans, o poeta, o contista e o minicontista, além de um curioso Trevisan cronista e crítico literário, que se reúnem em Dinorá, também datado de 1994 mas publicado um ano depois de Ah, é?, tornando o volume extremamente interessante, verdadeiro ponto de partida para se compreender a obra do vampiro "iconoclasta ou alienado, que abomina o social e o político", como se define o próprio autor em "Quem tem medo de vampiro?".

O poeta, pouco conhecido, bebe do mesmo sangue que o prosador, exibindo seres violentos, velhinhos tarados e tipos pervertidos em versos secos e sem espaço para rimas ou outras gracinhas literárias. Em "Dinorá", por exemplo, texto que dá título ao livro, uma mulher revela ser espancada e maltratada por um homem que a "queima de cigarro e corta de faca". Em "Curitiba Revisitada", o pessoal dá lugar ao social, mas o tom pungente é mantido, criando uma espécie de ode ao avesso de sua cidade natal, "cidade irreal da propaganda/ ninguém não viu não sabe onde fica".

Mesmo sem grande variação de estilo, o contista é o que mais chama a atenção, sem dúvidas. Alternando contos mais longos, de até dez páginas, com contos de menos de uma página, Trevisan demonstra domínio técnico e segurança temática em textos como "O afogado" e "Iniciação", permitindo-se até um tom amoroso e sentimental em "Tiau, Topinho", quando narra em primeira pessoa a volta para a casa de um homem que precisou sacrificar seu cãozinho.

Entre a prosa e a poesia, numa espécie de hibridismo de ambas, surge também o minicontista, o mesmo que assinou sozinho Ah, é?, dono de um estilo em formação e então ainda chamado de "haicai", mas que preferimos chamar de narrativas mínimas, ou minicontos. Há três coleções deles no livro, "Dez haicais", "Nove haicais" e "Oito haicais", o que totalizam 27 mínis (em Ah, é? são 187, todos também sem títulos). E se alguns deles se parecem anedotas, como "Toda noiva goza duas vezes a lua-de-mel: uma, quando casa, e outra, ao ficar viúva.", outros preservam muitas características do conto, revelando história oculta, história aparente, conflito e tensão:

"Parentes e convidados rompem no parabéns pra você. De pé na cadeira, a aniversariante ergue os bracinhos:
― Pára. Pára. Pára.
Na mesa um feixe luminoso estraga o efeito das cinco velinhas:
― Mãe, apaga o sol."

Numa primeira leitura, o que temos aqui é a história de um aniversário de criança. Mas, indo um pouco além da superfície, veremos o sem-limite dos quereres de uma criança, possivelmente uma criança mimada da classe média, exigindo da mãe mais do que bolos, parabéns e velinhas, exigindo a alteração da natureza para satisfazer seus caprichos.

Mas o mais curioso Trevisan de Dinorá é o cronista/crítico literário. Tal qual um senhor sem papas na língua, escreve sobre Machado de Assis, sobre os críticos de má fé que questionam a traição de Capitu em Dom Casmurro, ironiza Borges e, em "Quem tem medo de vampiro?", brinca com sua própria produção:

"Há que de anos escreve ele o mesmo conto? Com pequenas variações, sempre o único João e a sua bendita Maria. Peru bêbado que, no círculo de giz, repete sem arte nem graça os passinhos iguais. Falta-lhe imaginação até para mudar o nome dos personagens".

Em "Cartinha a um Velho Poeta" e "Cartinha a um Velho Prosador", sobram conselhos e alfinetadas a pretensos escritores:

"Escrever bem é pensar bem, não uma questão de estilo. Os bons sabem de seus muitos erros, os medíocres não sabem coisa alguma. O que há de ser, para você já foi. Não se finge o talento ― falto de engenho, vento é vento e pó. As letras roubadas são falsas."

Não é leitura fácil, sem dúvidas: a colagem de textos tão diferentes pode confundir o leitor e dissolver o efeito obtido, tão caro ao conto. Mas o que se perde em unidade se ganha em originalidade e graça, graça que revela um Trevisan mais humano, sem tantos "passinhos iguais" e conhecedor profundo de teoria e história literárias. Que, se não tornam ninguém melhor escritor, estão por trás de toda bem-sucedida carreira literária.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 27/3/2008.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Burguesinha, burguesinha, burguesinha, burguesinha


Marcelo Spalding

Quem esteve na praia, quem pulou carnaval ou deixou o rádio sintonizado nas FMs da hora, certamente ouviu neste verão a música 3 do mais recente CD de Seu Jorge, "Burguesinha". Sambinha gostoso, com sonoridade muito semelhante ao seu sucesso anterior, "Carolina", tornou-se em pouco tempo hit do verão.

Hits do verão, aliás, costumam nos deixar de cabelos em pé. Quem não lembra do Netinho, do É o Tchan, do Terra Samba? Ou da terrível "Hoje é festa lá no meu Apê", do glorioso Latino? Músicas cantadas ou dançadas por pseudocelebridades, não por músicos, e com letras rasas e apelativas, apesar do tom infantil de termos como bundalelê (para mim, nada mais, nada menos que orgia, bacanal). Pois é por isso mesmo que ouvi com certa surpresa e até alegria o povo todo cantarolando e se rebolando com "Burguesinha" nas festas mais populares aqui do nosso litoral gaúcho.

A música faz parte do quarto CD solo de Seu Jorge, América Brasil, composto de onze faixas de muito samba rock e que tem recebido algumas críticas dos entendidos de música. O jornalista carioca Mauro Ferreira, por exemplo, acha que o CD "pouco oferece além das levadas, com versos-clichês sobre a falta de dinheiro e o duro cotidiano do povo brasileiro". O próprio Seu Jorge teria dito que se trata de um disco doméstico, para tocar no churrasco, no computador. Mas como não pretendo comparar Seu Jorge com ele mesmo, e sim Seu Jorge com hits de verões passados, me parece que há espaço para certo otimismo.

Em apenas 16 versos, quatro estrofes, sem contar o refrão, a letra da música composta por Seu Jorge, Gabriel Moura e Pretinho da Serrinha esbanja ironia, não a ironia cáustica de um Machado de Assis, mas a ironia acomodada e "boa praça" do samba, da bossa nova. Ao mesmo tempo em que saúda a burguesinha, um filé de moça, critica com certa veemência o capricho das nossas elites, sempre virada de costas para a realidade da população em geral, lembrando que a população não apenas não come croissant como sequer saca dinheiro, sequer faz o cabelo, espremida entre a rotina estafante e a falta de dinheiro.

No refrão, a repetição da palavra burguesinha soa como a repetição de uma condição, a burguesinha sempre será burguesinha, geração a geração terá seus caprichos satisfeitos. O que muda, de tempos em tempos, é o objeto do capricho, sendo hoje croissant ou suquinho de maçã; ontem, passeio de moto; no tempo da minha avó, meias de nylon.

É possível, admito, que as meninas de salto alto que rebolavam ao som da música na beira de uma rica praia aqui do Sul não tenham percebido essa ironia ou, até mais provável, se orgulhem de comer filé, suquinho de maçã, malhar todos os dias e ir pra casa de praia no fim de semana. Ocorre que essa geração, a minha geração, não tem lá muitas ilusões ideológicas e antes de se envergonhar pelo rótulo de "burguesa", envergonhar-se-ia com o rótulo de "trabalhadora", pois é uma geração contaminada pela lógica fácil do individualismo e seduzida pelas promessas de felicidade capitalista.

Nesse sentido, "Burguesinha" celebra o bem viver, o american way of life, sintetizando em alguns ícones o que marca a pequena burguesia, essa necessidade de mostrar-se diferenciada, consumir o que há de melhor, estar na moda, malhada, o que a torna quase um hino debochado daqueles que perseguem exatamente esse modo de vida. Mas o faz ambiguamente, e aí a beleza de qualquer arte, pois narra do ponto de vista da própria classe favorecida, estratégia formal que um crítico, falando sobre Brás Cubas, chama de "delação de classe": é evidente que se a música adota o ponto de vista da burguesinha é para ironizar sua superficialidade, revelar sua pobreza intelectual ― ainda que ironize e revele sem acusar, sem protestar ― e não realmente bajular aquelas que enfeitam os calçadões.

Decerto se comparada a outros hits de abordagem social, como algumas canções do Chico, do Legião Urbana, dos Titãs, a música parecerá própria a um passageiro hit de verão, pois tira de uma problemática profunda meia dúzia de situações, não proporcionando reflexão ou crítica. Não chega perto de um "Marvin" ou de um "Faroeste Caboclo", e nem se fale de "Gente Humilde", "Saudosa Maloca", mas talvez seja o máximo que uma canção que se quer mercadológica consiga fazer nos tempos de hoje, quando política virou motivo de chacota da imprensa e Marx uma personagem restrita aos livros de história. Não por acaso o melhor Chico de hoje está nos romances, o funk desceu os morros só com o lado chulo, o cinema transformou a história de Olga numa história de amor.

Curioso é uma música dessas ser acolhida pela própria "burguesia" como seu hit de verão, tocar em caras festas de carnaval, sofisticados luaus à beira mar, festivais adolescentes, carros importados. Alguns mais otimistas dirão que é fruto de uma gradual tomada de consciência, o que pode ser um pouco verdade, mas pode apostar que verão que vem, ou no outro, volta um hit da Kelly Key, do Leonardo, do Latino. E cantaremos sem culpa tal qual a neta do Gerdau há de estar cantarolando "burguesinha, burguesinha, burguesinha, burguesinha"...

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 6/3/2008.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Literatura de auto e baixo-ajudas


Marcelo Spalding

Moda é moda, e às vezes pega. Se olharmos para a produção literária de uns dez anos pra cá, talvez um pouco antes, não poderemos deixar de perceber a forte presença dos livros de auto-ajuda e das antologias de autores contemporâneos. Mais do que histórias do Afeganistão e de cachorro, livro de auto-ajuda foi o que fez mais sucesso entre os leitores, e antologia de autores contemporâneos o que fez mais sucesso entre os escritores (que, por sinal, não consideram auto-ajuda literatura).

Pois partiu desse segundo grupo, naturalmente, o que talvez seja a primeira antologia de baixo-ajuda, um livro com 35 segredos para chegar a lugar nenhum (Bertrand Brasil, 2007, 168 págs.). Organizado por Ivana Arruda Leite, o livro traz figurinhas carimbadas dessas antologias, como Marcelino Freire e Cíntia Moscovich, e, como sempre acontece com antologias desse feitio, tem resultado bastante desigual.

Acontece que houve um tempo em que antologia (e é como antologia que o livro está na catalogação) era uma reunião de contos já publicados escolhidos por determinado organizador, normalmente um professor (tipo o Bosi). Uma organização do cânone, digamos assim. Hoje, no dito mundo pós-moderno, a onda são antologias em que um escritor da nova geração razoavelmente reconhecido pela mídia convida colegas de FLIPs e que tais para enviar textos inéditos sobre determinado tema. Assim surgiram, por exemplo, Manuscritos de computador ou Os cem menores contos brasileiros do século. O mérito desse tipo de trabalho é que o leitor tem acesso a algumas dezenas de autores contemporâneos de diversos lugares do país. O problema é que aos poucos tudo fica muito parecido e o estilo, que talvez seja o que mantém a literatura como uma arte eminentemente individual, se perde.

Mas voltemos aos segredos. Há de tudo na antologia, desde como ganhar um Jabuti até como matar cupins, passando por dicas de sedução e/ou sexo (para homens, mulheres e gays), dicas para sorrir no retrato de família e dicas de como escrever um cartão-postal. O tom quase predominante é de ironia, uma ironia às vezes fina, noutras cáustica, raramente de protesto e por vezes ironizando o próprio protesto. E a própria literatura, claro.

Em "Como ganhar um Jabuti", Andréa del Fuego pinta um retrato sarcástico e assustadoramente real do métier literário, sugerindo, entre outras coisas, que autores inéditos devam ir a lançamentos toda semana, autores com até três livros publicados devem ir a saraus na casa de escritores, e para quem passou dos seis livros o melhor é ficar em casa para valorizar a presença.

Cíntia Moscovich, em "Como procurar trezentos espetos de picanha desaparecidos", aposta no conto para narrar a história de um irmão casado perdido na noite da cidade, um irmão que pesa o equivalente a 300 espetos de picanha, ou 150 quilos. História de arrancar riso solto dos leitores, casados ou não, possivelmente é baseada em fatos reais, pois são reais e eu conheço a gata Cida, o poodle Pipoca e o marido que trabalha noutra sala da casa, descritos no texto.

O marido, aliás, também se faz presente na antologia com uma dica extremamente curiosa: "como fazer sexo (seguro) na fila do banco". Talvez o conflito seja melhor que o desfecho, mas a história em si é outra que capta um instante do nosso cotidiano para dele fazer literatura de baixo-ajuda mas alta qualidade.

Entre os que mesmo num livro com uma banana amarela brilhosa na capa optaram por um tom crítico, destacam-se o quase agressivo "Use sempre camisinha", de André Sant'Anna, e o irônico "Como a classe média deve tratar os ricos do Brasil", de Antonia Pellegrino. Porque, de acordo com o texto, "andando com os ricos talvez você não enriqueça, mas andando com pobres a pobreza é certa".

Já a organizadora Ivana Arruda Leite escolheu dar a dica de "como transar com o marido da sua melhor amiga sem pôr em risco a amizade entre vocês". O tema estilo Cláudia, a revista pra segurar marido (porque a Nova é pra conquistar marido), funcionou nas mãos de Ivana, que ganha o leitor já nas primeiras frases, mas inexplicavelmente a autora optou por um texto de menos de duas páginas e a história acaba exatamente onde devia começar, suprimindo uma cena que poderia nos fazer rir, uma personagem que poderia nos lembrar do marido de nossa amiga, um diálogo que imitaríamos sem querer.

Noves-fora, das 35 dicas confesso que pretendo aproveitar pelo menos umas três (e não revelarei quais). Mas também confesso que a antologia ajudou a confundir ainda mais o que entendo por auto-ajuda. Primeiro porque há uma mistura proposital da estética dos livros do mundo empresarial, dos livros esotéricos, dos livros psicografados, dos livros de depoimento etc, e depois porque comecei a perceber como a auto-ajuda está imbricada na literatura contemporânea. Não sei se isso é bom ou ruim nem se o movimento parte dos escritores ou dos leitores, mas não pude deixar de lembrar de Divã, da Martha Medeiros, de A vida sexual da mulher feia, da Claudia Tajes, de Por que sou gorda, mamãe?, da Cíntia Moscovich, e mesmo de alguma Clarice ou Caio Fernando Abreu, porque por vezes o leitor não busca uma história, busca um discurso, um jeito de encarar a vida, encarar os conflitos, os dias intermináveis, opressores, tediosos.

Para terminar, não poderia deixar de saudar a criatividade e o traço de Nelson de Oliveira, que ocupa dez páginas com o impagável "Como publicar cartuns protagonizados por você sabe quem sem ter a cabeça decepada na manhã seguinte". Em nota inicial o autor lembra o episódio das charges de Maomé e então começa a dar, em formato de cartum, dicas muito bem-humoradas para desenhar e esconder o profeta (que na história "veste capote da Zoomp, cinto da Kipling, chapéu da Rosa Chá, cueca da Triton, óculos da Arezzo e piercing no testículo direito da M. Officer"). Aliás, eis uma das dicas que aproveitei: preciso ler mais cartuns.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 14/2/2008.