quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Por que Faraco é a favor da mudança ortográfica


Marcelo Spalding

O assunto não é novo e nem sei se interessa, mas como parece à beira de cair no ridículo e virar mais um motivo de charge da impávida imprensa, volto a ele a partir de uma palestra do lingüista Carlos Alberto Faraco.

Antes das opiniões, os fatos. O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa é um tratado internacional de 1990, isso mesmo, 1990!, que tem como objetivo unificar a ortografia do português, que hoje conta com duas ortografias distintas, a do Brasil e a dos demais países, encabeçados por Portugal. À época o acordo foi assinado pelos representantes oficiais de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe em Lisboa, mas manobras políticas têm adiado sua efetivação, marcada agora para 2009.

O tema voltou ao noticiário porque três países ratificaram o acordo, o que permitiria, legalmente, que ele fosse implantado já a partir de 2008, alterando regras de acentuação e hifenização, entre outros. O objetivo aparente é unificar as ortografias, já que o português é a terceira língua ocidental mais falada no mundo e a única das línguas faladas por mais de cinqüenta milhões de pessoas com mais de uma ortografia oficial, o que atrapalharia inclusive a redação de contratos em português por organismos internacionais. Mas por trás disso há profundos objetivos políticos, e é a partir deles que Faraco justifica a resistência dos portugueses em aceitar o acordo.

Em palestra proferida numa Universidade de Porto Alegre, Faraco afirma que Portugal estaria fazendo uso político da variação ortográfica oficial para dificultar, "embaraçar" a presença brasileira em países de língua portuguesa, trazendo claros prejuízos culturais, econômicos e políticos. Prova disso seria o fato de que diversos livros de autores portugueses e luso-africanos — ultimamente editados às pencas no Brasil — trazem a grafia original a pedido do autor, mas nenhum livro de autor brasileiro é editado com a grafia original em Portugal, pois os portugueses não aceitariam tal ousadia, tal ultraje. Os portugueses, segundo Faraco, se julgam os donos da língua, mas o futuro da língua está inegavelmente no Brasil e seus quase duzentos milhões de falantes, o que os preocupa sobremaneira.

Não se pode negar, entretanto, que a disputa entre adotar ou não o novo acordo deixou de ser apenas uma queda de braço entre Brasil e Portugal e passou a ser motivo de polêmica também dentro do país, onde a mídia em geral e alguns doutos em particular defendem com unhas e dentes a preservação da ortografia atual. Os argumentos são diversos e devem ser respeitados, mas Faraco faz questão de lembrá-los e rebatê-los um a um.

Primeiramente se diz que nenhum acordo, nenhum papel assinado será capaz de unificar a língua falada aqui e além-mar, afora o léxico bastante variado que existe no Brasil, em Portugal e em Moçambique, por exemplo, ou a pronúncia quase incompreensível dos portugueses (particularmente acho mais fácil compreender a narração de um jogo de futebol numa TV espanhola do que numa TV portuguesa). E Faraco não discorda de nada disso, acrescentando ainda que jamais se conseguirá diminuir as variações lingüísticas existentes dentro do próprio Brasil, inerentes e saudáveis a qualquer língua do mundo. Não seria este, entretanto, o objetivo do acordo, que visa unificar a ortografia, não a língua. E cita as línguas inglesa e espanhola como exemplo de línguas com usos variados de acordo com o país mas ortografia oficial única.

Outro argumento constante daqueles que são contra o acordo é o enorme custo que o governo terá para adquirir novos livros didáticos para seus milhões de alunos, reequipar as já agonizantes bibliotecas, reeducar os já despreparados professores. A este argumento, econômico, Faraco responde com o já citado argumento político e lembra que estrategicamente o Brasil perde e perderá muito mais dinheiro com a duplicidade de ortografia por causa das dificuldades por ela suscitadas no comércio internacional do que eventualmente dispenderá com a compra de novos materiais didáticos. Além do que, sublinha o gramático, não se quer a reimpressão de todas as bibliotecas e todos os livros escritos, outras mudanças ortográficas já foram feitas no país — 1943, 1971 — e elas sempre valem dali em diante.

Por fim, Faraco considera a rejeição à mudança ortográfica proposta apenas um sinal claro de que os falantes de uma língua rejeitam mudanças recentes em sua língua, especialmente se elas mexem na língua culta, onde há forte monitoramento social, mesmo quando elas já são usuárias da mudança. Por isso os mesmos que em casa falam "a cidade que nasci" ou "vamos se respeitar" na escola dirão, aos berros, que o correto é "a cidade em que nasci" ou "vamos nos respeitar" (isso quando não se hipercorrigirem e inventarem "vamos nos respeitarmos").

Na base de tudo isso, segundo o gramático, está a vergonha que o brasileiro tem da própria língua e o fato de que "nossa sociedade é intolerante e preconceituosa, não admite a diversidade". Mas aí seria tema pra outra coluna, outra palestra e outra polêmica. Por ora nos interessa apenas lembrar ainda que os países de língua portuguesa que motivam essa disputa "ortografopolítica", especialmente Angola e Moçambique, libertaram-se de Portugal apenas em 1975, depois de sangrentas guerras coloniais, e só no século XXI conseguiram erradicar as guerras civis patrocinadas em seus territórios por comunistas e liberais, emergindo agora de uma situação de profunda pobreza e despertando o interesse comercial das nações em desenvolvimento. Afinal, trata-se de uma população de 20 milhões de pessoas em Moçambique e 12 milhões em Angola, ambas mais populosas, apesar de tantas mortes e guerras, do que a população de Portugal.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 15/11/2007.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Pessach: entre o social e o existencial


Marcelo Spalding

A maioria de nossos romances de hoje poderia ter sido escrita na Suíça. Não que isso seja um defeito por si só, apenas sinal dos tempos, onde as criações artísticas não precisam, e nem querem, apoiar-se em temas pontuais, polêmicos, políticos. Há quarenta anos era bem diferente: vivíamos entre a ditadura envergonhada e a ditadura escancarada, anos de medo e esperança da contra-revolução, anos agitados e artisticamente bastante produtivos.

Pessach: A Travessia (Alfaguara, 2007, 336 págs.), de Carlos Heitor Cony, é dos melhores exemplares desse período, romance de qualidade que não ignora a grave cisão política do país, mas foge do panfletarismo opondo no próprio romance as questões sociais e existenciais. Publicado em 1967, registra um momento chave da contra-revolução, dos movimentos guerrilheiros de esquerda, representando-o de dentro a partir do olhar desconfiado de um narrador que vê-se primeiro prisioneiro, depois seduzido pela causa.

Paulo Simões inaugura a narrativa na manhã do dia 14 de março de 1966, data dos seus 40 anos, comemorando o fato de não ter amigos nem dívidas, “duas coisas que me incomodam”. Aos poucos descobre-se que Paulo é um escritor de relativo sucesso, separado e avesso a qualquer posicionamento político, mas que acabará sendo envolvido na guerrilha de esquerda.

Sem abrir mão de um enredo eletrizante, Cony costura um romance de múltiplas teses, valendo-se da polifonia para representar desde as postulações anarquistas e burguesas da acomodada classe média carioca até os ideários de esquerda e suas fatais contradições. Dessa forma há espaço no romance tanto para analogias entre a passagem de Paulo e a fuga do povo judeu do Antigo Egito (a Pessach) quanto para questões político-partidárias bastante reveladoras dos bastidores da resistência armada da época.

“O Partido já não é o mesmo, desde que a União Soviética abandonou a América Latina à própria sorte. Foi pouco depois do episódio de Cuba, quando Kennedy ia invadir a ilha. A União Soviética dividiu o mundo com os Estados Unidos, metade para cada um, o Tratado de Tordesilhas, de novo. O Brasil, como a América Latina toda, coube aos Estados Unidos. A União Soviética não quer mais nada com a gente. Até ajudar a esta ditadura já ajudou: outro dia, o embaixador soviético firmou acordo com os militares, cem milhões de dólares. Que que você acha? Nós aqui dando duro para varrer essa cambada do poder e os nossos amigos socialistas enterrando com dólares para que os militares nos torturem e matem.”

Mas a questão que parece-nos, neste momento, quarenta anos depois da publicação de Pessach e já superada, aparentemente, a dicotomia militares capitalistas versus revolucionários comunistas é o embate que se dá na arte entre as problemáticas sociais e existenciais. A literatura no Brasil deve manter-se preocupada estritamente com as questões estéticas ou é seu dever olhar também para as questões éticas? Haverá prejuízo literário em uma obra que ignore as questões sociais, desde que esteticamente bem realizada? Tal debate não deve se resumir a um riso sarcástico ou a um sacudir de ombros; de certa forma é o embate histórico da literatura brasileira desde romantismo versus realismo, modernismo versus romance de 30, debate este que volta com força nos anos sessenta e ganha os bancos acadêmicos (formalistas versus materialistas, por exemplo). Em Pessach há um diálogo entre Paulo e seu editor que resume bem essa dicotomia:

“– Você permanece fiel a essa problemática existencial, esquecido da problemática que realmente conta: a social. Em todo caso, o problema é seu. Eu apenas edito livros, e o faço com prazer, você sabe disso. Mas teria orgulho de você se...
– Mande o seu orgulho às favas. Eu não escrevo nem para o meu orgulho, quanto mais para o orgulho dos outros.
– Mesmo assim, eu teria muito orgulho em saber que você se rende à vida e aceita o homem. Negá-lo, como você vem fazendo até agora, pode ser cômodo, comercial, mas não ajuda a ninguém.
– Não escrevo para ajudar a ninguém.
– Então mande o bidê, tire o dinheiro na caixa, fornique bastante e me mande depois um bom romance. Seria um bom aliado na luta de nossa época. Mas essa luta não aceita mercenários. Tudo tem de ser na base do voluntariado.”

E se no romance, aos poucos, Paulo torna-se cada vez mais um ser social, a ponto de receber a notícia do duplo suicídio dos velhos pais quase com indiferença, as personagens que compõem a causa revolucionária evidenciam-se cada vez mais sujeitos complexos e com profundas crises existenciais, embaralhando as relações e motivações de cada um.

O que Pessach nos evidencia, de dentro, é a impossibilidade de separar-se as questões existenciais e sociais sem mutilarmos uma obra. Não seria este o grande romance de Cony e nem Cony um grande nome de sua geração não fosse a coragem de lidar com temas pontuais, polêmicos, políticos, mas também não estaria sendo Pessach editado quarenta anos depois – e lido com interesse por este jovem resenhista – não fosse a problematização das causas políticas, o mergulho psicológico que o romance faz nas personagens. Paulo não conseguirá salvar o Brasil das garras da ditadura, mas confessará, em dado momento, que seu olhar sobre o mundo foi definitivamente alterado, e isso basta para que se concretize a travessia:

“Ando pelas ruas e descubro que estou odiando aquela cidade, aquela gente comportada e vestida que vai para os escritórios, para as repartições, para os cinemas. Uma carneirada que nem sequer fedia. Homens de testículos inquietos – e passivos na rotina incolor, na cadeia imbecil de compromissos ridículos, mesquinhos. Aquela gente andando na cidade, parando nos cruzamentos, atravessando as ruas nas faixas de segurança – ah, a segurança! –, pedindo desculpas quando esbarra em outras pessoas. Aquela gente com idéias assentadas e tranqüilas nas cabeças penteadas e dignas é justamente a humanidade dos meus romances. Sou cúmplice daquela humanidade, cúmplice e escavo ao mesmo tempo: parava nos cruzamentos, ia sempre a algum lugar fazer alguma coisa que eu não queria nem precisava realmente fazer. A última vez que estive em São Paulo, há sete meses, compareci ao jantar em homenagem a um poeta que eu desprezava e todos desprezavam mas que era bom homem, pagava os impostos, penteava-se, escovava os dentes, enviava cartões de boas-festas pelo fim do ano – um homem digno, merecia ser jantado.”

Queiramos ou não, somos um ser social.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 1/11/2007.