quinta-feira, 4 de outubro de 2007

O surpreendente Museu da Língua Portuguesa


Marcelo Spalding

Como não sou paulista nem moro na locomotiva do Estado, como estive na capital como turista daqueles que olha mapas e tira fotografias, acho que posso dar um depoimento bastante pessoal sobre uma recente conquista da cidade, o Museu da Língua Portuguesa.

Primeiro museu do gênero no Brasil e segundo no mundo – o primeiro fica na África do Sul –, o Museu da Língua Portuguesa foi inaugurado em 20 de Março de 2006 com mais de quatro mil m² distribuídos em três pisos. No primeiro piso temos uma exposição temporária (inaugurou com Guimarães Rosa, quando fui estava Clarice Lispector), no segundo piso há o acervo permanente e, no terceiro, um auditório para surpreendente espetáculo audiovisual.

Confesso que quase não fui ao Museu, pois da primeira vez que estive na Estação da Luz acabei indo na Pinacoteca e de lá não saí tão cedo, imerso nas centenas de quadros e esculturas. Mas quase por dever profissional enfrentei o trânsito paulistano e lá estava no dia seguinte para um admirável mergulho no universo da língua.

Chamar o Museu de museu é apenas uma convenção, uma tradição: trata-se de um espaço multimídia, interativo, com instalações surpreendentes mas de extremo bom gosto. A palavra é a protagonista, sempre, mas o tratamento é visual e os artistas plásticos dão vida nova à obra dos grandes autores da Língua Portuguesa. No caso da exposição de Clarice, havia imensos painéis com fotos e frases suas, um vídeo com sua derradeira entrevista e uma impressionante instalação onde milhares de gavetas escondiam originais, fotografias, romances, recortes de jornal ou revista, cartas: era como se entrássemos na intimidade de Clarice (foto abaixo, tirada às escondidas).

O acervo permanente é mais informativo e foi feliz ao escolher o léxico, a história da formação e a variação dos falares da língua como mote, mostrando ao grande público que a literatura é, sim, a arte da palavra, mas a língua é também estrutura, forma. Já na entrada o visitante se depara com um enorme painel de vídeo onde são projetadas imagens da cultura e artes visuais, como a imperdível passagem do metrô. No centro, temos oito totens multimídia interativos, cada um representando uma Língua que formou e/ou influenciou o português brasileiro. Pela quantidade de informações que cada totem carrega, poder-se-ia passar horas e horas apenas consultando nosso variado e rico léxico. Um painel na outra parede traz a linha do tempo da nossa língua, passando pelo latim, pelo latim vulgar, pelas conquistas portuguesas e chegando à influência da mídia e da televisão, com direito a um televisor transmitindo imagens de sua formação, nos anos 50. Por fim, há uma instalação que parece um joguinho de fliperama, onde o visitante clica em um estado do Brasil e ouve os diferentes falares daquela região, com os sotaques, gírias, expressões, tudo de forma natural e nada forçada. A gente realmente se reconhece naquelas falas, tchê.

E então chegamos ao terceiro andar. O mais emocionante. O que me fez escrever este artigo, na verdade uma intimação, para que você, morador ou visitante de São Paulo, desça na Estação da Luz e conheça o Museu. No terceiro andar temos um auditório para quase 200 pessoas onde é exibido um vídeo de 10 minutos sobre a língua, vídeo este que não vi porque cheguei atrasado à sessão (imerso nas gavetas de Clarice). Mas depois do vídeo, o telão se levanta e os espectadores entram no palco, sentando-se ao redor do mesmo, que volta a fechar e fica tudo escuro. Então num espetáculo lindo de som e luz são declamadas algumas das mais famosas e mais intrigantes poesias da Língua Portuguesa, com direito a Drummond, Pessoa, João Cabral, Guimarães Rosa, Oswald e Mário de Andrade, até uma intrigante versão em rap de poesia de Gregório de Matos. Particularmente o espetáculo foi me envolvendo aos poucos e me emocionou de fato quando ouvi “Amor é fogo que arde sem se ver”, o imortal soneto de Camões coroando nossa língua, nos dando uma inegável sensação de acolhida.

Nem preciso dizer que todo profissional da língua, jornalista, professor, escritor, deveria conhecer o Museu, e de certo se emocionarão com ele. Também os estudantes, todos, os pequenos e grandes, terão de passar pelos três andares do belo museu. Não vou aqui fazer demagogia sobre o acesso, pois o valor é de apenas R$ 4,00 para entrar com 50% de desconto para estudantes, mas fico com dó de pensar na quantidade de professores que não terão como ir a São Paulo, que jamais estarão em São Paulo, para conhecer o Museu. Tomara os organizadores tenham pensado em museus itinerantes, que levassem parte do acervo permanente e o espetacular vídeo de poemas. Afinal, a língua é viva e o Museu também não pode parar.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 4/10/2007.

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